Santo do Dia (Auditória da Santa Sabedoria) – 20/8/1968 – 3ª-feira [SD 282] (HVicente) – p. 4 de 4

Santo do Dia (Auditória da Santa Sabedoria) — 20/8/1968 — 3ª-feira [SD 282] (HVicente)

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Santa Joana Fremiot de Chantal

Eu vou ser muito sucinto no Santo do Dia, porque infelizmente me atrasei.

Vida de Santa Joana de Chantal

Santa Joana de Chantal viveu de 1572 a 1641. Viúva do Barão de Chantal, ela fundou, com São Francisco de Sales, a Ordem da Visitação.

Chegado o dia de sua partida, Santa Joana, que era viúva, devia deixar os seus familiares para ir para o convento que ela ia fundar. A santa viúva que morava com seu sogro Barão de Chantal, ajoelhou-se pedindo-lhe a bênção e pediu que lhe perdoasse se lhe desgostara em alguma coisa e recomendou-lhe seu filho. O ancião de 86 anos estava inconsolável, abraçou sua nora e desejou-lhe completa felicidade. Os habitantes da região de Monteron, sobretudo os pobres, acreditando que com essa partida tudo perdiam, testemunhavam publicamente a sua dor. Em Dijon, ela fortificou-se com a Santa Comunhão contra a fraqueza que ela previa e aproximar-se quando da separação de seu filho.

Enfim, chegando a hora disse adeus a todos os seus parentes, depois ajoelhando-se aos pés de seu pai, pediu-lhe a bênção e que cuidasse do filho que ela deixava. Monsieur Fremiot, o velho presidente do Parlamento de Bourgoin que era pai dela, sentia-se desfalecer. Abraçou chorando a sua filha e disse: “Meu Deus, não me percebe mudar os vossos desígnios. Entretanto,eu vos ofereço esta filha querida, recebei-a e consolai-me.” Depois deu-lhe a bênção e ajudou-a erguer-se. O jovem Chantal, seu filho de 15 anos, correu para ela e prendeu-se a seu pescoço esperando comovê-la. Não tendo êxito deitou-se ante a porta por onde ela deveria sair e lhe disse: “Sou muito fraco, senhora, para vos reter, mas ao menos dirão que passastes sobre o corpo de vosso filho único para o abandonar.” A santa chorou amargamente passando pelo jovem, mas instante depois, temendo que pensasse que se arrependia de sua decisão, voltou para os que lhe acompanhavam e com uma face serena disse: “É preciso que perdoeis a minha fraqueza, pois deixo meu pai e meu filho para sempre, mas encontrei o meu Deus em toda parte.”

Os senhores estão vendo o trágico da cena. Santa Joana de Chantal era viúva e era uma pessoa naturalmente, com os senhores estão vendo, boníssima, cumpridoras de todos os seus deveres de família e capazes de atrair toda a amizade, todo o afeto de uma família boa. Se fosse uma família “fassura” de hoje, naturalmente ela seria muito perseguida, mas tratava-se de uma família muito boa, de maneira que ela era muitíssimo estimada por todos os seus. Quando ela era o arrimo da velhice do ponto de vista afetivo e não financeiro de seu velho sogro, de seu pai, de seu filho, Deus a tomou com a graça da vocação e pediu a ela que estraçalhasse aqueles vínculos de afeto que em torno dela se haviam constituído, que arrebentassem tudo para ir ser fundadora de uma nova família religiosa. Fundadora contemplativa de maneira tal que não mais a poderiam ver. E ela cuja bondade tinha criado aqueles vínculos, ela era chamada, portanto, a renunciar esse vínculos e, por assim dizer, a destruí-los. Era uma superação de toda a vida anterior dela. Ela até então tinha sido ótima como membro de família. Deus pedia a ela que oferecesse algo a mais do que a bondade que se tem na família e era a bondade que se tem adotando o estado religioso e rompendo com os laços de família, entretanto, tão santos. E então, se determina aqui uma situação trágica: ela vai abandonar seu sogro, ela vai abandonar seu pai, ela vai abandonar seu filho.

Se nós imaginássemos a mesma situação realizada hoje, nós teríamos uma diferença de ambientes muito grandes. A diferença constituiria no seguinte: é que tudo se passaria com muito menos solenidade e muito menos gravidade. Os senhores não imaginam hoje uma senhora viúva, moça, que deixe a casa paterna para entrar para o convento e que fez todo esse cerimonial antes de ir embora: ajoelha-se diante do velho ancião de 86 anos, e lhe pede perdão por tudo o quanto lhe fez antes e lhe pede a bênção; e o ancião, quase como uma figura de tragédia grega, se despede dela com lágrimas e a entrega a Deus. Depois, outra despedida assim de seu velho pai: nova genuflexão, nova prostração, novas lágrimas e depois o lance dramático do filho. O filho pendurou-se no pescoço dela pedindo para ela não entrar no convento. Ela recusou-se. Ele deitou-se na soleira da porta e disse: “Já que eu não tive força para vos reter, ao menos se dirá que a senhora passou sobre o corpo de seu único filho para ir para o convento.” Quer dizer, “a senhora está me abandonando.” Os senhores estão vendo o trágico de todos esses lances.

Eu queria saber quem é que me explica por que é que esses lances hoje não teriam esse caráter trágico. A moça, ao se despedir do sogro… Relações com o sogro, habitualmente hoje, hein? É das mais tensas, hein? “Porque eu vou entrar para o convento. Eh! Eh! Eh!”

Ele:

Ah! Você vai entrar para o convento? Não diga? Ah! Está bom, sei. Olhe, você pensou bem, hein? No que você vai fazer hein?

Pensei sim.

Está bem. Seja feliz, até logo.

Pronto, está acabado. Deita a despedida. Com o pai, uma despedida mais ou menos tão “coca-cola”.

Papai, até logo. Vou para o convento.

Não diga. Você para o convento. Que idéia é essa?

É, eu resolvi. O senhor sabe, eu me sentia mais feliz lá, etc., etc.

O pai olha e diz:

Não é bem esta hora ainda para televisão. Muda, a estação aqui. Tem uma estação interessante agora aqui. Bom o que é [que] você ia dizendo? Que você vai para o convento, é?

É, papai. Eu vou então para o convento. Eu vou agora.

Mas já assim, de uma vez, é?

Papai, eu já estou com a mala pronta.

O pai:

Ah, bom. Se você já aprontou a sua mala, até logo. Vai para o convento.

Ao menos num país americano como é o Brasil, as coisas se passam assim. Na América do Norte, eu creio que é muito pior, não é? Tudo é no estilo “bye, bye”, chicletes, etc., aquele sorriso… Está tudo acabado, não é?

Bom, porque tanto cerimonial naquele tempo e tanta ausência de cerimonial, tanta superficialidade em nossos dias? É porque nós fomos habituados pelo americanismo a não pensar as coisas até o fundo, a não entrar no fundo do significado das coisas e a só nos incomodarmos conosco e não com os outros. Resultado, para o velho sogro, o problema importante é o jornal que chega de manhã, o leitezinho que ele toma, a televisão, o chinelo, a saúde, os cuidados de toda ordem; lê notícia do transplante do coração para ver se dá para transplantar um nele e viver mais 30 anos, isso é o importante. A nora que vai ou não vai para o convento já é uma coisa acessória, porque se não tiver nora, ele contrata uma enfermeira e a vida toca para a frente do mesmo jeito.

Bem, depois também, [a idéia] de ir para o convento não se reveste daquele aspecto semitrágico de que se revestia antigamente, porque o convento é um convento “coca-cola”. Não é um convento de antigamente. O convento de antigamente: altas ogivas, torres, sinos, véus, solenidades, compunção, o todo de uma religiosa no meio dos [crestes?] e dos Rosários era inteiramente entregue a Deus. E as nossas religiosas de matéria plástica e mesmo essas que antecederam ao estouro atual é tudo uma gargalhada, engraçado, alegre, leve, espevitando de um lado para outro e a gente vê que o traje preto para elas já era uma coisa que não tinha relações com a alma, já era uma coisa postiça. E o convento assim… comentários de convento:

Fulana entrou para o convento.

Entrou?

Não imagina. Ali se goza de uma alegria… Elas estão sempre alegres.

Pois se estão alegres, alegria de cá, alegria de lá, acaba, forma a ciranda. “Ela arranjou um modo próprio de ficar alegre.” Está acabado, não tem mais nada.

Quer dizer, o senso da Cruz, o senso da gravidade das coisas, o senso de toda a renúncia que significa alguém ficar religioso, o senso de toda a dignidade que a pessoa assume quando fica religioso, daquele conúbio com Nosso Senhor Jesus Cristo com toda a serenidade que traz, nada disso está presente a não ser nas fórmulas. Os espíritos perderam a noção disto. O resultado é que os grandes lances não têm mais essa acuidade, não tem mais esse caráter dramático, são episódios banais.

Conclusão para isso, o cinema e depois a televisão. Eles assistem tanto drama, tanto romance, tanta despedida, tanto reencontro, que todo mundo está saturado. Já houve, já aconteceu demais coisas. Resultado: já não dá mais para emocionar com nada. Os atos da vida cotidiana que teriam tanta grandeza se esvaziam, mas se esvaziam completamente.

Bom, então, qual é a grande lição que nós devemos tirar daí? É, antes de tudo, o espírito profundo de Santa Joana de Chantal que correspondeu à vocação, compreendeu que esta é a glória da família, que ela é uma instituição tal que quando Deus lhes dá tudo, ela se supera e tende por uma dilaceração a produzir filhos religiosos, filhos missionários, filhos guerreiros, filhos apóstolos que são obrigados a se separar delas. E esta é a glória da família, esta espécie de superação por onde ela se entrega completamente assim.

Bem, e profundidade de espírito dela, renunciando a tudo para ser religiosa nesse convento que ela ia fundar e que tinha todo o aspecto de uma aventura. A profundidade de espírito no ambiente de Civilização Cristão em que ela vivia, em que tudo se media, em que tudo se pesava, e que, por causa disto, se revestia de solenidade e de características próprias todos os atos da vida. Esta profundidade de espírito prepara a alma para amar a Deus. “O Reino dos Céus é dos violentos”1, está escrito no Evangelho. O Reino dos Céus é dos profundos, porque ninguém consegue ser violento a não ser numa das duas circunstâncias: ou sendo playboy, ou sendo profundo. E é claro que a violência do playboy não agrada a Deus. E que a violência dos profundos que agrada a Deus, a violência daqueles que a linguagem da impiedade tantas vezes costuma chamar de fanáticos.

Então pedirmos a Nossa Senhora que faça viver em nós essa tradição de profundidade de espírito que nós encontramos em alguns fiapos na vida dos nossos maiores, dos nossos antepassados, e que vive ainda de algum modo em nós, e que o Grupo procure de todos os modos incutir nos seus membros: profundidade de espírito, que é abnegação, e que faz com que nós tenhamos almas que, por serem profundas, podem encher-se da graça de Deus, Nosso Senhor, concedida pelas mãos de Maria. Que amanhã, especialmente, vós façais com profundidade de espírito a vossa coleta no viaduto; que vós façais essa coleta lembrando-vos das finalidades superiores da coleta, e fazendo aquela reunião… Foi feita hoje, como foi recomendado, de hora e meia em hora em meia, não é?

(Sr. –: …)

Então, vejam se é possível fazer em todas as bancas, de hora em meia em hora em meia, aquela recapitulação das finalidades com quem estais lutando. Profundidade de espírito que vos leva a considerar esta viagem a Pernambuco, não como uma alegre e jovial excursão, mas como uma Cruzada; não como quem vai passear, mas como quem vai lutar para abater a hidra da Revolução no Nordeste. De todos os modos, sede profundos e Deus vos amará inteiramente, o amor d’Ele vai para as almas profundas, o Espírito Santo procura as almas profundas para neles se comprazer.

1) Mt 11,12

Auditória da Santa Sabedoria