Santo do Dia (Auditório do Santo Sabedoria) – 16/8/1968 – 6ª-feira – p. 4 de 4

Santo do Dia (Auditório do Santo Sabedoria) — 16/8/1968 — 6ª-feira

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Nos séculos anteriores a distinção entre bem e mal era muito clara; donde uma acurada noção da gravidade do pecado; a conseqüente necessidade de reparação; o pressuposto da prática de uma virtude é começar por admirá-la; virgem romana que na agonia do martírio cobre seu corpo; amor à pureza e pureza por resignação; a castidade conjugal que refletem os gisantes; quanto mais lúcida a pessoa, maior sua noção de pecado; o verdadeiro católico deve ter suas posições bem marcadas.

* O liberalismo desbota a noção de bem e mal * Para praticar a virtude, começa-se por admirá-la * Mártir romana, agonizante preocupa-se em cobrir seu corpo * Diferença entre purezas * Gisantes, imagens da castidade conjugal * Lucidez e não lucidez da alma e penitência * O verdadeiro senso cristão da vida: clareza de posição

Pensamento de Luis de Granada

É o dia [em] que em 1965 a TFP foi declarada de utilidade pública pelo Governo.

É Novena do Imaculado Coração de Maria.

Não há uma ficha especial para o Santo do Dia, de maneira que eu tenho aqui duas fichas de interesse mais geral para comentar na reunião.

* O liberalismo desbota a noção de bem e mal

Aqui está um pensamento muito interessante de Frei Luis de Granada, que se relaciona com um comentário que nós estávamos falando outro dia a respeito da penitência e do arrependimento. Eu estava dizendo aos senhores, que as gerações antigas tinham muito mais do que a nossa a noção da gravidade do pecado e a noção de oposição que há entre a Verdade e o erro e o Bem e o mal. As gerações que vieram depois, pelo peso do liberalismo foram perdendo gradualmente essa noção, de maneira tal, que por causa disso, exatamente, desapareceu em grande parte o horror ao erro, a luta contra o erro se tornou mole, e por outro lado, também desapareceu o horror ao mal. E por causa disso, as pessoas que cometem um pecado, têm muita dificuldade em ter em face do pecado cometido à atitude que deveriam ter; que a pessoa que cometa um pecado, enfim tenha cometido um pecado, o pecado é o maior mal que há e a gente compreende que a pessoa se entristeça, mas [como] está na miséria humana cometer o pecado, mas uma vez que a pessoa pecou, deve saber que atitude tomar em face do pecado.

* Para praticar a virtude, começa-se por admirá-la

E aqui é que começa a coisa; porque, primeiro é preciso ter uma convicção grande de que o pecado cometido foi mau, e em geral as pessoas não têm essa convicção, porque nos cursos de Moral que se leciona normalmente não se noticia de modo adequado todo o esplendor da Virtude, e portanto não se noticia também todo mal que há no pecado. As pessoas mais são ensinadas a praticar cada virtude do que admirá-las, e a verdadeira virtude, o melhor da virtude não consiste em praticá-la, por mais paradoxal que seja, o melhor da virtude consiste em admirá-la, em relação a toda virtude é preciso que se tenha uma admiração profunda, uma admiração razoável que proceda da razão da inteligência iluminada pela Fé e é depois de, logicamente, não cronologicamente, depois de prestar à virtude um preito de admiração é que a gente tem a disposição de ânimo necessária para praticá-la. É só depois que a gente admirou a virtude como deve, é que a gente fica em condições de compreender a malícia que existe no pecado. E é só depois de admirar a virtude e de tratar de praticá-la é que a gente é capaz de compreender a reparação que o pecado merece, a gravidade do pecado, e a necessidade [de repará-los] diante da justiça de Deus. Essas coisas de concatena umas com as outras.

* Mártir romana, agonizante preocupa-se em cobrir seu corpo

Os senhores querem ver um exemplo disto, os senhores tomem a virtude da Pureza. Não me lembro que mártir foi, acho que foi Santa Inês, se não me engano, uma mártir romana — nós já comentamos aqui este fato —, da qual se conta esse caso maravilhoso: ela foi levada para o Circo romano para ser dilacerada pelas feras, e vai de encontro a ela um touro, e com chifres jogou-a no ar, e ela caiu então gravemente ferida na arena. Quando ela caiu, com assombro geral viram que ela, moribunda, compôs a toga de maneira a não descobrir nada de seu corpo, quer dizer, até o último instante de sua vida, a preocupação dela era a pureza. Bem, os senhores estão vendo que para uma pessoa ter este gesto nesta hora, ter esta preocupação nesta hora, precisa estar compenetrada até o fundo do que é o pudor, precisa saber se não for uma demonstração filosófica inteira, ao menos pela força do senso moral que de [um] modo implícito nos faz compreender o que há de razoável e de santo na virtude, precisa saber toda a beleza que há na virtude de pureza, todo esplendor da castidade, e precisa por isto ter [horror] a aparecer uma parte de seu corpo em público de um modo imodesto, ainda que sem culpa dela; então, ela era capaz de tomar um gesto destes, de se cobrir nesta hora. Os senhores vêem que uma pureza assim cobre [a pessoa] de admiração, uma pureza heróica.

* Diferença entre purezas

Os senhores tomem aí, a pureza de uma porção de solteironas que há por aí, mulheres de quarenta, cinqüenta anos que são puras, às vezes nunca cometem um pecado contra a pureza; como é menos admirável isto do que esta pureza de Santa Inês. Prática por prática, na ordem concreta dos fatos. tanto uma praticou a pureza quanto a outra. O que é que tem na pureza de Santa Inês que nós enleva muito mais do que é [a de pureza] tanta solteirona que a gente vê por aí? É que a solteirona tem a prática da pureza um pouco por hábito, pouco por que fica mal na categoria social dela, não tendo conseguido um marido, conspurcar-se com um homem com quem não está casada, de maneira que uma noção geral, vaga de que não convêm ser impura, circunstâncias de interesse pessoal, de reputação, rotina, levam essa mulher a abster-se do ato sexual a vida inteira. Essa pureza vale tanto quanto a de Santa Inês? Fisicamente é a mesma, mas o que é que faz com que a pureza de Santa Inês valha incomparavelmente mais do que essa? É que é uma pureza compreendida por um senso moral muito elevada, amada e admirada pelo senso moral muito elevado, de maneira que, o que é propriamente o melhor da virtude no individuo [é] aquela compreensão e admiração amorosa da virtude. O homem para amar algo, ele tem que começar por admirá-lo, a primeira forma de amor, é a admiração, é a admiração pela virtude que faz com que nós possuamos aquela coisa inteira, aquele amor da virtude que é o suco da própria virtude, em relação à qual a prática da virtude não é senão uma conseqüência.

* Gisantes, imagens da castidade conjugal

Bem, como os antigos tinham em alto grau [isso], a gente se comove vendo, por exemplo, nas sepulturas medievais aqueles gisantes, que aqueles escultores esculpiam, às vezes esposo e esposa, por exemplo, deitados lado a lado sobre aqueles leitos de pedra com aquela almofada de pedra; se eram nobres com a coroa na cabeça e com as mãos postas assim, a gente olha, tem uma sensação de castidade conjugal é uma coisa que empolga.

Bem, então, esta atitude de alma, que os antigos tinham tanto, levava-os a fazer muita penitência quando eles pecavam, e daí as grandes penitências dos antigos que os modernos não gostam mais de fazer. Os senhores vejam agora esse pensamento de Luiz de Granada e os Senhores vêem como calha bem, ele diz o seguinte:

Não foi sem causa que a Natureza ordenou que o mesmo sentido servisse para ver e chorar.

* Lucidez e não lucidez da alma e penitência

Que é o olho, vejam que pensamento pitoresco, como ele toma uma observação pitoresca engenhosa para servir de ponto de partida para uma consideração profunda. Um segue o outro, quer dizer, o chorar é conseqüência do ver, quem bem vê bem chora, quem sabe olhar os males como devem ser olhados, esses sabem chorá-los como devem ser chorados; os senhores estão vendo bem o que é: quanto mais lúcida a alma, tanto maior o pranto pelo pecado, pelo pecado próprio ou pelo pecado cometido pelos outros; quanto mais ilúcida a alma.

Quanto mais os olhos da alma estão embasados, tanto mais [o] pranto pelo pecado é fraco e é pequeno. Os senhores estão vendo aí uma linda relação entre a compreensão das coisas e depois a tomada de atitude perante as coisas estabelecida muito oratóriamente por Luiz de Granada,… [ilegível] …que foi o príncipe da oratória sacra talvez de toda a Europa no tempo dele.

* O verdadeiro senso cristão da vida: clareza de posição

Qual é conseqüência que nós devemos pedir considerando isto?

No evangelho se conta de um cego que se aproximou de Nosso Senhor e disse-lhe: “Domine ut vídeam!”, “Senhor, que eu veja!” Nós devemos pedir a Nossa Senhora que nos alcance de Nosso Senhor esta graça. Que nós tenhamos esta clareza de olhos por onde nós sejamos inteiramente capazes de ver: a verdade e o erro; o bem e o mal; a separação e a incompatibilidade de uma coisa e outra. De onde nasce em nossa alma o verdadeiro senso cristão da vida, que foi tão bem definido pelo profeta Simeão quando ele falou de Nosso Senhor: “Pedra de escândalo para a edificação e a perda de muitos em Israel; para que se revelassem as coisas íntimas de muitos corações”. O homem quando é intransigente, quando é combativo, quando ele tem a noção bem oposta do bem e do mal, ele é uma pedra de escândalo; quer dizer, de surpresa contra a qual se rompem as unanimidades podres, para a salvação e a perdição de muitos em Israel. Que dizer, para a salvação daqueles que são fies e para a condenação daqueles que resistem à graça e que resistem à voz de Deus. É assim que deve ser o verdadeiro católico, o verdadeiro batalhador.

Dr. Paulo Martos vai ler agora o resultado da campanha.

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Auditório do Santo Sabedoria