Santo do Dia – 12/8/1968 – p. 6 de 6

0Santo do Dia — 12/8/1968 — 2ª-feira

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A propósito de um trecho de Maria de Agreda; o Senhor Doutor Plinio perscruta o insondável da alegria celeste; por meio de raciocínios a partir de dados conhecidos, dá-nos uma idéia palpável da beatitude; no Céu seremos vistos, compreendidos e amados por Deus; depois da visão beatífica, a maior alegria será ver Maria e nela todas as coisas.

* O insondável da glória celeste * Meditação do inferno a partir de tormentos na terra * Mutantis mutandis com relação ao Céu * Alegrias proporcionadas ao corpo glorioso * Pálida idéia da alegria celeste * Também podem nos dar idéia as alegrias espirituais * Das grandes alegrias na terra: consolação durante a oração * Deus nos olha, nos compreende, respeita e ama * Comparar com o amor, respeito, compreensão na terra * A maior alegria no Céu depois da visão beatífica

Trechos de Maria de Agreda sobre a Assumpção de Nossa Senhora

O trecho é o seguinte:

Da glória e felicidade dos Santos que participam da visão beatifica [e fruição bem-aventurada]. Disse São Paulo com Isaias que nem os olhos mortais viram, e nem os ouvidos ouviram, nem pode caber em coração humano o que Deus tem preparado para os que o amam e que n’Ele esperam, e conforme essa verdade católica não é de se admirar do que se refere que sucedeu a Santo Agostinho, que com ser tão grande luz da Igreja estando para escrever um tratado da glória aos bem-aventurados lhe apareceu seu grande amigo São Jerônimo, que acabava de morrer e entrar no gozo do Senhor e desenganou a Agostinho de que pudesse conseguir seu intento como desejava, porque nenhuma língua, nem pena, nem homens poderiam manifestar a menor parte dos bens de que gozam os Santos na visão beatifica. Isto disse São Jerônimo e quando pela divina escritura não tivermos outro testemunho mais de que aquela glória será eterna, pois toda esta parte voa sobre todo nosso entendimento que não pode dar alcance a eternidade por mais que estenda suas forças…

[Sr. Dr. Plinio prossegue lendo baixo, a certa altura diz:]

Aqui vem dizendo uma coisa muito interessante que é a seguinte:

Nossa Senhora subiu ao Céu e que não passou pelo juízo particular porque Ela era tão perfeita, estava confirmada em graça desde o primeiro instante do seu ser e portanto não era pecável e não havia portanto nenhuma possibilidade de Ela ser julgada por qualquer coisa.

* O insondável da glória celeste

Termina aqui o comentário. Mas o trecho aqui é muito doutrinário, muito difuso para eu fazer propriamente uma exposição, era preciso uma coisa mais histórica do que uma coisa propriamente doutrinária, porque ele desenvolve aqui o pensamento seguinte, que é o pensamento que todos os senhores certamente têm: é que a razão pela qual Deus Nosso Senhor é capaz de nos reservar uma alegria tão insondável no Céu provém do fato de sua própria perfeição, então ela diz que para nós medirmos essa perfeição, podemos tomar em consideração o seguinte: que todas as maravilhas existentes no universo, não só as maravilhas materiais, mas também as maravilhas espirituais, nem de longe esgotam a maravilha de Deus, nem de longe esgotam a capacidade que tem Deus da fazer coisas maravilhosas e mais ainda um maravilhoso interno, intrínseco, [que] faz parte de sua glória intrínseca e que se reflete nos elementos de sua glória extrínseca, e que portanto nós não podemos ter em nosso entendimento nada que dê nem de longe uma idéia do que pode ser a gloria do Céu.

* Meditação do inferno a partir de tormentos na terra

Mas eu acho que seria interessante nós adotarmos a respeito da glória do Céu um pensamento que pode nos fazer compreender algo da glória incomparável que Nossa Senhora tem e da felicidade incomparável que Nossa Senhora tem no Céu. Em geral as meditações que se fazem a respeito do Inferno, muito acertadas, muito boas, úteis, indispensáveis para a vida espiritual, essas meditações sobre o Inferno tomam como termo de comparação tormentos da terra e depois procuram transpor esses tormentos para a idéia da eternidade do Inferno.

Assim, a respeito do fogo. Santo Afonso de Ligório diz sobre o fogo do Inferno que o fogo da terra está para o fogo do Inferno como uma chama de pintura está para o fogo da terra e que, portanto nós imaginemos uma pessoa que esteja ardendo na chama do fogo da terra, vamos dizer uma pessoa queimada viva continuamente, essa pessoa tem um tormento que não é senão uma pálida imagem do tormento do Inferno. Os senhores estão vendo que a técnica de meditação adotada aqui é tomar um tormento conhecido e através dele calcular um tormento desconhecido.

* Mutantis mutandis com relação ao Céu

Assim nós podemos nos perguntar também se há nesta terra coisas conhecidas que nós podemos tomar como elemento para conjeturar a felicidade do Céu. Existem nesta terra movimentos de felicidade, situações de alegria, de bem estar de alma que possam nos fazer entender algo do que será a felicidade do Céu e eu creio que a esse respeito uma [comparação podia] fazer-se. Antes de tudo é preciso dizer o seguinte: que o Céu como os senhores sabem é um lugar. Nós não podemos imaginar o Céu como um puro estado de alma.

Assim como o Inferno é um lugar e o purgatório é um lugar, o Céu é um lugar também, e neste lugar nos devemos estar fisicamente presentes com nossos corpos depois da ressurreição, e esse lugar deve dar aos nossos corpos toda espécie de gáudio e de felicidade de que o corpo é capaz.

* Alegrias proporcionadas ao corpo glorioso

Mas para que nós compreendamos esse gáudio e felicidade e compreendamos no que se distingue dessa terra nós precisamos tomar em consideração o seguinte: que no Céu nosso corpo será glorioso, como corpo glorioso que será, ele estará num estado elevadíssimo e inteiramente sujeito ao espírito, de maneira que não terá essas distonias com a alma que tem nosso corpo terrestre, ainda mais contaminado pelo pecado original. O que quer dizer que nas alegrias do Céu o corpo terá uma participação, e uma participação intensíssima, extraordinária. Mas essas alegrias do corpo vão ser em inteira conjunção com as alegrias espirituais e as alegrias espirituais vão de tal maneira exceder as alegrias do corpo e de tal maneira estão numa espécie de continuidade com elas, que a alegria do corpo se percebe e se sente, mas chama muito menos a atenção do que a alegria espiritual que propriamente se tem nas considerações das coisas do Céu.

* Pálida idéia da alegria celeste

Para os senhores terem um pouco idéia do que isso possa ser, os senhores imaginem uma pessoa que por exemplo passa vinte anos fora do Grupo. Passa por exemplo nas minas de metal da Sibéria, debaixo do Knut, no pior inverno, sob o poder daqueles verdadeiros demônios que são os feitores comunistas; passa durante vinte anos ali com saudades do Grupo. De repente acontece uma coisa qualquer e a pessoa consegue escapar, toma um avião chega ao Brasil, desce aqui em São Paulo e vem inesperadamente para a Sede. Vem inesperadamente para a Sede e tem aquela alegria, aquele bem estar, aquela distensão, aquela paz de alma que se tem quando a gente entra da Sede e ao mesmo tempo é visitado pelas consolações de Nossa Senhora. Ao mesmo tempo que o espírito tem uma alegria enorme nesse contacto espiritual, o corpo tem o bem-estar que a Sede proporciona, que dizer os nossos olhos estarão agradavelmente impressionados pelas coisas que vemos, pode ser que nós estejamos sentados em uma cadeira confortável que dê ao nosso corpo um certo regalo, enquanto nós estivermos recebendo o afago e o afeto dos nossos irmãos. Mas estas alegrias matérias estão tão na ordem das alegrias espirituais e são tão pouco [em comparação] com a super alegria espiritual, que não é dizer que a gente não nota, mas no todo quase que não tem tempo nem atenção para lhe dar toda a conta,. Porque a alegria espiritual de estar novamente no Grupo… os senhores imaginem ir com todo mundo à Sala do Reino de Maria e rezar para dar ação de graças pela volta etc., etc., que alegria isso tudo representa, não é verdade. Isto excede de muito a simultânea alegria física. Os senhores compreendem que nesta linha nós podemos concentrar a nossa atenção adequadamente sobretudo para a alegrias espirituais que o Céu dá.

* Também podem nos dar idéia as alegrias espirituais

[Agora] Essas alegrias espirituais são de duas ordens. Fundamentalmente elas consistem em meditar sobre Deus e em considerar a Deus, em ver a Deus face a face. Mas elas são de duas ordens no seguinte sentido: há em primeiro lugar a visão beatifica. É uma visão pela qual nós veremos a Deus face a face e consideraremos a Deus na nossa inteligência, no nosso espírito, por uma infusão da graça d’Ele nós o veremos como com os olhos carnais nós vemos as coisas da terra, veremos diretamente e teremos com isto um gáudio que é verdadeiramente inexprimível, e de outro lado, temos uma outra forma de alegria porque ao mesmo tempo que nós estaremos vendo Deus face a face nós estamos vendo as criaturas de Deus, estamos vendo Nossa Senhora, estamos vendo todos os Anjos, todos os Santos e estamos vendo Deus presente em Nossa Senhora nos seus Anjos e nos seus Santos, em todos seus eleitos. De maneira tal que nós conjugaremos a esta visão beatifica com o que nós conhecemos de Deus nas suas criaturas e com o que conhecemos de Deus nas criaturas espirituais e nas criaturas materiais e tudo isso forma um todo que nos enche ao mesmo tempo de todos os deleites espirituais possíveis. Então os senhores comecem a considerar os vários deleites e os senhores verão na terra como esses deleites espirituais são frágeis.

* Das grandes alegrias na terra: consolação durante a oração

A gente está rezando tem um instante de consolação. É a coisa mais agradável que pode haver na terra é a consolação durante a oração. A gente tem um instante de consolação, essa consolação pode durar mais ou pode durar menos, mas todos nós sabemos por uma dolorosa experiência que ela passa e sabemos o vazio que ela deixa, quando ela passa, e quando nós estamos na fruição da consolação já nós temos a noção do vazio que ela vai trazer consigo quando ela passar.

Os senhores imaginem quem está no Céu e que tem em grau superabundante essa consolação, mas num ponto tal que não tem nenhuma medida comum com a consolação da terra, mas sabe que aquilo é fixo, que aquilo é estável, que aquilo é eterno, que nunca nos será tirado e que nós vamos sentir pousando sobre nos como um sol o afeto de Deus, o carinho de Deus.

* Deus nos olha, nos compreende, respeita e ama

E uma coisa que é inefável, que a seguinte: nós vamos ver a Deus olhando a nossa alma, cada um vai ver isso, olhando a nossa alma e olhando-a e amando-a enquanto semelhança d’Ele e sentindo em nós que Deus se digna de ver em nós a semelhança que Ele pôs conosco, nós vamos sentir e ver n’Ele — “sentir” entre aspas — nós vamos ver n’Ele aquilo por onde nós nos assemelhamos a Ele, e como as coisas semelhantes naturalmente se atraem, haverá uma atração nossa em relação a Deus por incrível que isso parece. Mas haverá também uma atração de Deus que nos atrai a Ele e haverá uma conjunção que dará num entendimento perfeito. Nós sentiremos da parte de Nosso Senhor todas as formas possíveis e imagináveis de afeto em todos os graus possíveis e imagináveis condicionadas à nossa luz primordial, ao feitio de nossa alma. Nós nos sentiremos inteiramente entendidos, nós nos sentiremos inteiramente amados, nos sentiremos inteiramente protegidos. Nós sentiremos em relação a Ele o misto das duas coisas que mais enchem a alma do homem, nós consideraremos a majestade d’Ele prodigiosa, imensa, excelsa, o mistério d’Ele que mesmo na visão beatífica face a face nós não decifraremos e que fará, que Ele sendo conhecido por nós, terá sempre o encanto e o atrativo de algo que é insondável, que não foi inteiramente visto, mas ao mesmo tempo que nós temos isto nós sentiremos o carinho d’Ele para nós, miúdo, pequeno, maternal, adaptado a nós como a mais carinhosa das mães poderia se adaptar ao seu filho e que constitui um misto onde nós inclusive sentiremos uma outra coisa que parece incrível, da qual a criatura humana é ávida, e que entretanto a gente quase não compreende como Deus pode ter em relação a nós. Nós sentiremos o respeito de Deus. Deus infinito e nós finitos, mas Deus dispõe com grande respeito de tudo que se relaciona com suas criaturas, porque são imagens d’Ele e nós sentiremos esse respeito de Deus como que penetrar em nós e nos encher de dignidade, nos encher de alegria de ser. Formando uma conjunção de disposições de alma em relação as quais, então [agora] nós podemos tomar os prazeres da terra.

* Comparar com o amor, respeito, compreensão na terra

Quando alguém nos ama, o que é isso em comparação com esse amor que Deus nos tem, quando alguém nos respeita o que é isso em comparação com o respeito que Deus nos tem, quando alguém nos diz uma palavra interessante que diverte nosso espírito, o que é isso em face de Deus que é infinitamente interessante, se pode dizer com toda propriedade da palavra, quando alguém nos ensina uma coisa de profundo, o que é isso em comparação com as profundidades inesgotáveis de Deus, quando alguém nos dá uma direção acertada, o que é isso em comparação com a sabedoria de Deus que nós chamamos de especulativa e na ordem prática, que nós chamamos de prática, é infinita e nós não conseguimos medir. Nada disso tem proporção para nosso espírito, mas vai deixar nosso espírito com um deleite verdadeiramente fabuloso.

* A maior alegria no Céu depois da visão beatífica

[Pois bem,] Nossa Senhora é uma mera criatura humana, Ela, portanto não tem a natureza angélica que é mais própria para estas coisas de que a nossa, mas Ela é de tal maneira coberta de graças que a gente pode dizer que todas as alegrias do Céu inteiro não se comparam com a alegria de Nossa Senhora, e que Ela só tem uma maior inundação de glória, uma maior inundação de felicidade, uma maior inundação de intimidade com Deus, uma maior veneração para com Deus e um maior respeito da parte de Deus do que todos as criaturas juntas. E assim nós podemos ter uma idéia vaga do que será a idéia que nós poderíamos ter quando nós virmos Nossa Senhora no Céu. Dante, na “Divina Comedia” tem um pensamento muito bonito que eu já tenho referido aqui. Ele fala que ele vai subindo de Céu em Céu até encontrar Nossa Senhora. Ele vê de longe o Lume Divino que seus olhos mortais não conseguem ver, mas ele vê Nossa Senhora olhando no Lume Divino e algo do Lume Divino se refletindo nos olhos de Nossa Senhora e nesta visão indireta do Lume Divino ele tem o seu maior êxtase e a “Divina Comedia” termina. Isto vai ser, se Nossa Senhora nos der esta graça, eu não duvido, a nossa maior alegria no Céu, depois da visão beatifica. É olhar a alma santíssima de Maria é Deus Nosso Senhor refletido na alma d’Ela.

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