Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria – Rua Pará) – 3/8/1968 – Sábado – p. 5 de 5

Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria – Rua Pará) — 3/8/1968 — Sábado

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A posição do espírito geométrico e do espírito “finesse” diante do lema: “Sejamos realistas, exijamos o impossível” * Há mil coisas que parecem impossíveis para os indivíduos pocas, mas que são possíveis para os indivíduos que têm fogo * Do lado sobrenatural, nós devemos tentar coisas não só impossíveis para os pocas, mas impossíveis na ordem natural * Qual é o sinal interior de que uma coisa é um pressentimento de Nossa Senhora? Como podemos diferenciar o bom pressentimento de uma simples fantasia? * Os filhos de Nossa Senhora têm o direito de esperar o impossível, e têm o direito de exigir de si que de sua ação brote o impossível * A primeira provação séria que o Senhor Doutor Plinio teve na linha do desânimo: a cisão dentro da Ação Universitária Católica * Fundamento doutrinário de como a voz da confiança não mente nunca, de como ela acaba realizando aquilo que ela promete

* A posição do espírito geométrico e do espírito “finesse” diante do lema: “Sejamos realistas, exijamos o impossível”

Bem, eu vejo aqui uma ficha. É de uma pessoa que me pedia para fazer um comentário sobre o seguinte pensamento:

Nos dias da agitação da Sorbonne, agora recentemente a agitação estudantil, os estudantes, com um talento francês, mesmo ao defender a pior das causas, afixaram um lema na universidade, cujo sentido é o seguinte:

Seja realista, exija o impossível”

Bem, e alguma pessoa me pediu para fazer um cometário desse lema, se esse é um lema certo ou é um lema errado.

E eu digo que em face desse lema, como em face de muitas produções do espírito francês, as duas famílias de almas, o espírito geométrico e o espírito da finesse, se dividem.

Porque o espírito geométrico é contra uma coisa dessas. É o próprio da utopia exigir o impossível. Logo, é um absurdo dizer: “seja realista, exija o impossível”.

A gente deve dizer: “seja realista, exija o possível”; seja realista, e não exija o impossível, não é verdade?

Bem, as pessoas que têm o espírito de finesse compreendem o que isto quer dizer. Quer dizer, é uma espécie de contradição berrante exigir o impossível. Mas aqui quer dizer o seguinte: esse impossível vem psicologicamente entre aspas. Não vem entre aspas no texto, mas vem psicologicamente entre aspas.

* Há mil coisas que parecem impossíveis para os indivíduos pocas, mas que são possíveis para os indivíduos que têm fogo

Quer dizer, há mil coisas que parecem impossíveis, que os indivíduos pocas consideram impossíveis, que são impossíveis para os “pocas”, mas o homem que tem uma noção inteira da realidade, e que compreende o quê é o papel do poca na vida da história, e como os horizontes do poca são bornez, são limitados, são circunscritos, quão facilmente a maior parte dos homens desanima diante de coisas que qualifica de impossíveis e que não o são, então diz, para o mundo de moles:

Vocês pensam que estão na realidade, mas vocês estão na casca da realidade. A profundidade da realidade bem analisada, mostraria que há mil coisas que para um espírito que tem “chama” não são impossíveis, e que são impossíveis para os espíritos que não têm chama, as coisas são impossíveis; para os que têm “chama” são possíveis. A “chama” torna possíveis coisas que parecem impossíveis aos outros. A História está cheia de exemplos dessa natureza.

Quem vai a Barcelona — dr. Paulo, eu visitamos isso juntos, creio que, dr. Paulinho depois visitou também —, a gente visita fac‑similes de uma ou das três naus, não me lembro bem, de Cristóvão Colombo. Há umas cascas de nós que, exagerando um pouco, a gente teria medo de atravessar a represa de Santo Amaro nela.

Eles vieram até a América e, exatamente no momento — os senhores estão fartos de conhecer o fato — em que se planejava uma revolta a bordo, porque afinal de contas, nunca mais se chegava à América, e Cristóvão Colombo estava diante de uma revolta dos pocas que julgavam impossível atingir a América, alguém gritou: “terra!”.

Quer dizer, estava‑se chegando precisamente no momento em que o “impossível” entre aspas, para os pocas e para o medíocres tinham se tornado possível. Mas este é um fato natural.

* Do lado sobrenatural, nós devemos tentar coisas não só impossíveis para os pocas, mas impossíveis na ordem natural

Do lado sobrenatural isto é muito mais bonito e tem outra riqueza. E a riqueza está no seguinte: nós sabemos que quando a Providência quer algo, Ela realiza, e que Ela realiza contra todas as esperanças e contra todas as aparências, e que aquilo que aos homens é impossível, mesmo aos grandes homens é impossível, a Nossa Senhora é possível, porque a oração d’Ela é Onipotente, e Ela obtém de Deus absolutamente tudo quanto Ela quer.

De maneira que nós devemos muitas vezes tentar coisas não só impossíveis para os pocas, mas impossíveis na ordem natural das coisas, nós devemos tentar e devemos exigir o impossível de nós mesmos e dos outros. Por quê? Porque Nossa Senhora dará.

Agora a gente diz: mas como é que Nossa Senhora dará? Como é que nós podemos ter certeza se Nossa Senhora dará ou não dará?

Existe exatamente uma coisa que é a voz interior da graça. O Livro da Confiança começa exatamente com essas palavras magnífica: “Voz de Cristo, voz interior da graça, vós murmurais em nossas almas palavras de doçura e de paz”

Realmente, nós temos uma voz interior que não fala, que nem usa palavras, mas que fala pelo movimento dos pressentimentos, fala pelo movimento das virtudes, fala pelo movimento das consolações da alma, e que nos indica de um modo inefável aquilo que Nossa Senhora quer de nós.

E isto que Ela quer de nós com esta voz, muitas vezes é uma coisa impossível, mas a gente deve crer no incrível, abordar o inabordável meter‑se a transpor o intransponível, porque do outro lado está Ela e a gente consegue o impossível.

Quer dizer, isto é que esta coisa diz. Qual é o sinal — eu já falei outro dia disso aqui — mas a questão é que durante a Bagarre esse ponto vai ser fundamental.

* Qual é o sinal interior de que uma coisa é um pressentimento de Nossa Senhora? Como podemos diferenciar o bom pressentimento de uma simples fantasia?

Qual é o sinal interior que nós temos de uma coisa é o pressentimento de Nossa Senhora? Como é que nós podemos diferenciar isto de simples fantasia? De simples milecanização, desses mil enganos a que a gente é sujeito nessas matérias?

É muito simples: se uma determinada coisa, um determinado pressentimento, um determinado movimento de alma nos leva à virtude, nos leva a nos unirmos mais ao Grupo, nos leva a nos unirmos mais a mim mesmo, se esse pressentimento de alma não satisfaz o nosso amor próprio, mas pelo contrário nos dá uma certa aceitação de nós não aparecermos nem sermos nada, se isto é assim, este pressentimento vem de Nossa Senhora.

Ele [pode não se?] realizar como a gente imagina, mas ele se realiza de outro jeito, mas ele acaba se realizando, e ele não falha nunca. E é este o modo pelo qual nós podemos ouvir esta voz de Cristo, voz misteriosa da graça dizendo a nossas almas palavras de doçura e de paz.

É assim que a gente compreende como é que as coisas são. Na Bagarre, os senhores vão ter muitos movimentos de desânimos. E os senhores vão estar encostados a muitas situações sem saída, mas sem saída. Haverá um momento em que eu peço a Nossa Senhora que os assista e os ajude a se lembrarem disto.

Os senhores vão ter, apesar de tudo, um pressentimento interno de que Nossa Senhora resolve a situação. Os senhores sentirão que este pressentimento lhes faz bem para a vida espiritual, e que uma dúvida a esse respeito lhes faz mal. E nisto, os senhores terão o sinal da Providência.

Ainda que os senhores devam esperar que caminhando de encontro a uma parede, a parede se abra, caminhem, porque ela vai se abrir! É preciso ter a Fé que move as montanhas.

Nunca em minha vida eu fui decepcionado nesta posição interior de alma. E eu já estou com cinqüenta e nove anos e meio. Nunca eu dei crédito a esse movimento interior da alma, e depois tive uma decepção. Nunca, nunca, nunca!

O que não quer dizer que muitas coisas não tenham demorado muito mais do que eu imaginei. Não quer dizer que muitas coisas não se tenham realizado com circunstâncias diversas daquelas que eu tenha impressão que deveriam acontecer, isto é verdade, mas a substância da coisa, nunca me decepcionou, e em geral, foi além de minha expectativa.

* Os filhos de Nossa Senhora têm o direito de esperar o impossível, e têm o direito de exigir de si que de sua ação brote o impossível

E por causa disto eu digo aos senhores, mas eu não digo como aqueles malditos revolucionários franceses, eu digo como contra‑revolucionário, falando para contra‑revolucionário. Nós é que somos filhos de Nossa Senhora, nós temos o direito de esperar o impossível, e nós temos o direito de exigir que da nossa ação, brote o impossível.

Exigir de quem? Nã,o de Nossa Senhora, bem entendido, porque nós somos escravos d’Ela. O escravo não exige nada de sua Senhora, mas de agir imperativamente, sabendo que aquilo vai dar certo. Pois bem, depois virá. Pode haver uma reviravolta do momento, mas depois virá.

* A primeira provação séria que o Senhor Doutor Plinio teve na linha do desânimo: a cisão dentro da Ação Universitária Católica

Eu me lembro, a primeira provação séria que eu tive a esse respeito. Nossa Senhora permitiu, e eu tive uma perturbação tremenda. Eu era rapazinho e tinha uns vinte anos. Eu consegui aglutinar‑me com alguns companheiros de faculdade, para fundar o primeiro núcleo de católicos na Faculdade de Direito. Isto parecia uma coisa completamente impossível.

E eu não sabia como no interior de minha alma dar graças a Nossa Senhora por isso que estava acontecendo, tanto mais que eu previa bem que isto era o primeiro movimento de “chama” em um pavio que eu via que ia acender uma chama enorme, em uma enorme vela.

Os senhores imaginem o meu estado de espírito quando, eu não sei bem, eu calculo muito mal as épocas, as distâncias, mas digamos aos seis meses depois de fundada a Ação Universitária Católica, esse embrião da Ação Universitária Católica, contra toda a minha expectativa, arrebenta uma cisão dentro. E a cisão era de um indivíduo completamente baixa de nível que queria uma forma de apostolado, mas de lo último. O professor o conhece, é o Henrique Brito Viana, o Paulo também deve lembrar‑se dele, era uma espécie de heresia‑branca, uma coisa do outro mundo.

Bem, eu achei que era mãe da natureza aparecer uma cisão entre os católicos. Eu disse:

Como? Uma cisão entre Católicos? Mas que monstruosidade é esta?

Eu me lembro que eu ia para uma reunião, onde esta decisão deveria liquidar‑se. Eu estava andando de bonde no Viaduto do Chá, ainda os bondes passavam por um Viaduto que não é este, é o anterior, e eram bondes que não eram esses últimos fechados, os senhores conheceram os abertos também, era dos abertos que eram os únicos que havia, e soprava um vento frio no Viaduto do Chá.

E eu ia quase só, no bonde, e ruminando aquela história: como é este caso, etc., algo deve haver de errado, não sei o que aconteceu… uma tentação de desânimo pavorosa.

Mas eu senti em mim o que Abbé Saint Laurent chama no Livro da Confiança a voz sobrenatural de Cristo, voz sobrenatural da graça, que murmurava em minha alma palavras de doçura e de paz. Eu pensei então:

Eu não vou prestar atenção nisto e vou caminhar de olhos fechados encima desta coisa! Acontecerá depois o que acontecer, eu também não sei o que que é, mas eu vou andar para frente.

Foi uma graça que eu recebi na hora. Graças a Deus é menos do que um grão de areia se movendo na praia, foi a primeira prova. Eu posso lhes garantir que muitas assim vieram depois.

* Fundamento doutrinário de como a voz da confiança não mente nunca, de como ela acaba realizando aquilo que ela promete

Os senhores passarão por muitas, em que pensarão que a voz da Confiança lhes mentiu. Não acreditem, a voz da Confiança não mente nunca. Ela acaba realizando aquilo que ela promete.

Há uma frase da Escritura que é citada no Livro da Confiança, não me lembro de que trecho é, mas que é uma maravilha. Diz o seguinte: “Quem põe a sua Confiança no Senhor, é tão certo que não cai, quanto é certo que o próprio Senhor não cai também”.

E depois há uma outra referência linda, à palmeira que floresce no deserto. Mas é porque ela fica perto das águas, e ela deita as suas raízes por debaixo das águas.

Então, a pessoa não vê a palmeira banhada pelas águas, mas no fundo da terra e do areal, as raízes dela toca nas águas vivificantes, e por isso a palmeira floresce e frutifica.

Nós também quantas vezes estamos cheios de areia, areia de aridez, a areia do isolamento, a areia da incompreensão, a areia do tédio, a areia da impressão que nós estamos face a uma coisa que não é caminho.

Eu digo, aí é o caso de dizer: Gaude et Laetare, alegra‑te e alegra‑te, porque realmente o melhor caminho é o caminho que tem o jeito de ser beco fechado e ser caminho. Aí está a explicação deste princípio: “exija o impossível, o impossível virá a nós, desde que seja com os olhos postos em Nossa Senhora”.

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