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CF — 12/7/1968 — 6ª-feira

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O Egoísmo

Vamos continuar a questão do egoísmo. Eu quando tratei em questão do egoísmo, eu mais ou menos dei uma problemática. Mostrei, primeiro lugar, que a expressão “egoísmo” é tomada de um modo errado de vocabulário popular, que se chama de egoísmo as pequenas manifestações de egoísmo. Quer dizer, a pessoa que reserva para si o melhor pedaço, o melhor lugar, que se esquiva das tarefas difíceis- por exemplo, de cuidar de um doente na vida em família, etc. a gente diz que é um egoísta. Isso que são manifestações apenas, e vamos dizer manifestações das mais inócuas do egoísmo, essas coisas passam a serem chamadas de egoísmo na linguagem corrente. Mas, de fato, o egoísmo é muito mais do que isso.

O egoísmo é uma hipertrofia do amor que o homem tem a si mesmo. Evidentemente, essa noção de egoísmo se encaixa na noção de Santo Agostinho a respeito das Duas Cidades e dos Dois Amores. Ele diz que existem, no gênero humano, dois Amores e Duas Cidades. Dois Amores: é o amor que homem tem a Deus levado a ponto de esquecer-se de si mesmo. Isto funda a Cidade de Deus. Cidade, em latim civitas, não é a cidade no sentido urbanístico, material, mas é um estado, portanto uma civilização, uma ordem de coisas etc; é uma categoria de coisas. Esta é a vida organizada segundo Deus, e a sociedade humana organizada segundo Deus etc.

Agora, há um outro amor, que é o amor de si mesmo levado ate o esquecimento de Deus. É esta é a cidade do demônio, quer dizer, a vida organizada segundo o demônio, a civilização organizada segundo o demônio etc., e que tem, por fundo o amor de si mesmo.

Os senhores estão vendo que ele desenvolve uma teoria que dá os elementos fundamentais de uma potencial RCR, de um MNF, porque ele mostra que, entre essas duas cidades, quer dizer, entre essas duas famílias de almas, entre essas duas categorias de homens, entre essas duas ordens de coisas, há uma luta implacável. Os homens que são segundo Deus, e os que são segundo o demônio, quer dizer, são os homens egoístas e que tem um amor hipertrofiado a si mesmos.

Esta formulação dele é uma formulação tão verdadeira que ela salta aos olhos. Em essa… [ilegível] …o seguinte que há uma coisa aqui que nos servirá no futuro para aprofundar conceitos, e que é a seguinte: a gente está vendo que no conceito dele o homem não é capaz de amor ao próximo pelo próximo. Não há uma Terceira Cidade em que o homem ame o próximo até o esquecimento de si mesmo e de Deus. Isso não existe. Há uma cidade em que o homem ama a Deus, outra em que ele ama a si. O próximo, próximo pode ser amado por amor de Deus, ou por amor de si mesmo, isto é, por egoísmo. Mas amando o próximo por amor do próximo no ele amar qualifica, essa cidade não existe. Por quê? Porque a alma humana, no fundo, necessariamente, vacila entre dois pólos: um pólo é de Deus, outro pólo é o demônio. Acontece que, muitas vezes, a gente ama ao próximo por amor de si mesmo. A maior parte dessas amizades desses amores sentimentais que há por aí são por amor de si mesmo. Bem agora por outro lado, às vezes o indivíduo pode amar o próximo por amor de Deus. Mas o amor do próximo pelo próximo, isso Santo Agostinho exclui. É uma coisa que não existe. E é muito bem observado porque desse amor, a alma humana não é capaz.

Também o amor do demônio. Não há, propriamente, um amor ao demônio pelo demônio, simétrico com o amor de Deus por Deus. O demônio é uma das tantas criaturas que o homem pode amar por amor de si mesmo, porque o demônio dá a ele fruições, o demônio apresenta um grau de malícia mais alto que o dele e que na maldade dele, agrada a ele. Mas, de fato, o homem amar o demônio pelo demônio, não existe. O culto satânico é um culto de si mesmo. Não existe um culto desinteressado do demônio. O culto satânico no fundo é um amor de si mesmo. De maneira que esses são os dois pólos entre os quais hesitam os homens, entre os quais oscilam os homens.

Se passarmos daí para a problemática que eu estava tratando, a problemática é essa: a Igreja nos põe, muito freqüentemente, de sobreaviso, contra o amor a nós mesmos. Nós não vemos ao menos normalmente, comumente, eu confesso que não me lembro de ter visto jamais um documento eclesiástico recomendando que pratiquemos o amor para conosco. Ora, nós estamos numa época de socialismo em que os socialistas – revolucionários na ordem política e social – os socialistas e revolucionários na ordem religiosa, quer dizer, os liturgistas recomendam exatamente a extinção do individualismo. Que o indivíduo sobrepuje o próprio egoísmo por amor ao próximo, por amor à sociedade, por amor ao estado. E portanto, parecem pedir alguma coisa que estaria, mais ou menos, na linha de Santo Agostinho. Combatem o egoísmo como a Igreja combate e propugna um amor ao bem geral que é um amor que se põe em termos pelo menos aparentemente – desinteressados. E se diria então que nessa ofensiva comum, nessa ofensiva do socialismo contra o egoísmo, contra o individualismo, nós católicos podemos tomar parte de mãos dadas ao socialismo, por que a Igreja Católica também é contrária ao egoísmo. Porque o egoísmo funda a cidade do demônio e nós queremos a Cidade de Deus. Ora, uma das coisas que Deus manda é exatamente sobrepor, por amor a Deus, o amor ao próximo sobre o amor a nós mesmos. De maneira que nós, então, seríamos levados ao socialismo.

A posição da TFP do grupo perante a coisa é diversa. Nós dizemos que há um amor de nós mesmos, que é um amor legítimo, e que não se confunde com o defeito do egoísmo. Que esse amor de nós mesmos é um amor segundo Deus e que quem ama a Deus sobre todas as coisas não é levado a não se amar a si próprio mas pelo contrário, deve se amar a si próprio, segundo Deus. Então, qual é a relação que há entre o amor que nós devemos ter a nós mesmos e o defeito do egoísmo. Daí nós deduzirmos melhor a posição que nós devemos ter em face do socialismo. Essa seria a temática, aliás abordada no MNF sob mais um aspecto, e cujo tratamento deveria prosseguir na reunião de hoje. Eu… [ilegível] …temática… [ilegível] …querem fazer alguma pergunta.

(Pergunta: O que propõe o socialismo seria, então, uma terceira posição: seria o amor ao próximo desinteressado pelo próximo. Uma posição que não existe).

Exatamente. Uma posição que não existe, mas que teria de comum com a Igreja Católica isso… [ilegível] …e tarefa fundamental de arrancar o homem do amor de si mesmo.

Então, devemos distinguir no amor que temos a nós mesmos, nós devemos distinguir dois aspectos: Primeiro, o aspecto racional, que nos mostra o que devemos amar em nós mesmos e porque devemos nos amar. E depois, o aspecto instintivo, que tem uma importância colossal. A meu ver, um dos erros nessa matéria é tratar a questão apenas no seu aspecto racional e não tratar no seu aspecto instintivo. O instinto de egoísmo, que é uma coisa diversa do amor racional do homem a si mesmo. É então fazendo essa distinção, podemos caminhar na linha que nos parece conveniente.

O que devemos dizer, é o seguinte: Que há um princípio de caráter metafísico pelo qual cada ente apetece o seu próprio ente. Quer dizer, há uma regra pela qual tudo quanto existe procura salvar a sua própria existência, e revela uma espécie de coesão sobre si mesmo, por onde procura evitar a destruição. Um ente que não procurasse salvaguardar o seu próprio ente e que não tivesse uma espécie de defesa de si mesmo e, portanto, uma espécie de amor a si mesmo ainda que tomada a palavra amor num sentido muito vago; não existiria. Ele pura e simplesmente não poderia ser.

Nós vamos tomar, por exemplo, um bicho. Qualquer ordem de bicho que seja: desde uma simples célula até os animais de desenvolvimento orgânico maior etc. etc. bem todos eles são dotados de meios de defesa; exercendo-se sobre eles certa pressão ou certa ação hostil, ou eles fogem, ou eles se movimentam, ou eles agridem, ou eles se transformam qualquer coisa, mas eles são dotados de meios de defesa muitas vezes subtilíssimos e muitos delicados, para fugirem à própria destruição. Ora, esse movimento pelo qual eles fogem à própria destruição é um movimento instintivo porque se trata de seres irracionais mas é um movimento instintivo que obedece a esse princípio metafísico de que cada ente ama seu próprio ser. Que o ente, por assim dizer, se fecha… [ilegível] …completo por essa coesão por onde ele procura defender o seu próprio ser.

Podemos encontrar uma certa imagem disso até nos seres inanimados. Tudo isso nós tratamos no MNF. Mas a coesão dos corpos por onde, por exemplo, as várias moléculas constitutivas de um corpo aderem umas as outras, a coesão dos átomos que, desintegrados, produz bem os efeitos que os senhores bem conhecem, indica exatamente esse movimento de tudo quanto existe para subsistir, para resistir, para continuar. Que é uma das constantes do universo, sem as quais o universo se desmancharia.

Isso que nós verificamos na ordem interior de seres, o homem é capaz de uma reflexão sobre isto. Ele tem isso em caráter instintivo. Como nós temos os instintos do corpo, os instintos do corpo nos levam já à defesa; mas temos os instintivos da alma que também nos levam à nossa defesa. Mas nós temos a razão que nos mostra que isso é razoável, que isso é uma coisa direita. Por que motivo isso é uma coisa direita?

Quando nós vamos analisar no fundo, encontramos então, na mesma linha, o amor de Deus e o nosso amor. Por exemplo, vem alguém correndo atrás de uma pessoa com uma faca; o primeiro raciocínio que ele faz, ou melhor, o primeiro movimento que ela tem é fugir da faca. Isso é uma coisa que pode entrar exclusivamente, ou pode entrar preponderantemente, o instinto de conservação animal; pode entrar também o instinto de conservação enquanto instinto existente na alma. Mas como um raciocínio, justifica como da pessoa que fugiu da faca. E justifica do seguinte modo: a existência é um bem; e é um bem por quê? Porque eu sou um ser, e tudo quanto existe, enquanto existe, é porque existe, é uma coisa boa. Existir é um bem. E se é verdade que existir é um bem, é natural que eu procure conservar esse bem, que existe em mim. É e natural que eu procure conservar e mais para mim do que para os outros porque aquilo que existe em mim -considerado nas relações quanto os outros – existe proximamente em ordem a mim. Tudo quanto está em mim, existe naturalmente para mim.

Isto é a coesão natural de um ser, pelo qual, por exemplo, vamos dizer um ser que é capaz de mover-se, se move para procurar alimento. Ele se move não para procurar alimento para outro, mas para procurar alimento para si. A coerência do organismo faz com que toda a capacidade de movimentação de um ser seja para o atendimento das necessidades daquele ser. E mesmo um dos fundamentos da propriedade privada,é isso. Razão pela qual, aquilo que existe em mim, se é tão inerente, que pelo fato de ser um todo comigo, existe, antes de tudo, para mim. E é natural, portanto, que eu, reconhecendo que há um bem em cada pessoa exista, e reconhecendo, em última análise, que numa ordem profunda de coisas possa ser melhor que um outro exista do que eu, entretanto, em princípio, ajo racionalmente salvando minha existência mais do que a existência dos outros. Porque os recursos que eu tenho para salvar a minha própria existência, foram me dado a mim e são em ordem a mim, pela ordem natural das coisas. De maneira que é justo e legítimo que eu proceda de maneira a salvar a existência utilizando esses recursos.

Bom, mas aqui aparece o problema. Isso que justifica tomando em consideração os outros, quer dizer, que eu cuide primeiro de mim, depois cuide daqueles que estão próximos de mim, por uma razão ontológica, como são aqueles que tem parentesco comigo (o provérbio português antigo dizia: Mateus, primeiro os teus; que era uma afirmação desse egoísmo de família, legítimo e santo nesse sentido, e por onde, assim como os meus parentes participam mais proximamente do meu eu, é natural que, depois de eu me atender, eu os atenda a eles antes de atender a terceiros. E atenda no grau de parentesco, quer dizer, os filhos participam mais dos pais, do que os irmãos participam uns dos outros. Mas os irmãos participam mais do que os primos irmãos. E os primos irmãos mais do que os primos segundos ou terceiros). De maneira que essa participação entitativa dá origem à solidariedade e nós diríamos a sadios e legítimos egoísmos familiares, que dão coesão à sociedade humana.

Bem isso, entretanto, pede uma explicação que vai mais para o fundo.

Porque eu me pergunto depois de tudo dito: Está bem, é um bem que o ser exista. Eu pergunto depois: é um bem para quê? A mais leve das análises e dos raciocínios me faz compreender o seguinte: que para qualquer ser, um bem só é bem na medida em que ele exista, para qualquer ser criado, na medida em que ele exista para um bem superior a ele. Isso se compreende por vários lados.

Em primeiro lugar eu sei que fui criado; eu sei que eu não sou Deus. Se eu fui criado, só posso ter sido criado por Deus, para Deus. Deus… [ilegível] …poderia fazer segundo uma intenção que estava nele…. [ilegível] …fui criado para essa realização da intenção que estava nele.

Ora, qualquer coisa que existe, só pode encontrar a sua felicidade realizando seu fim. Nada encontra o seu bem a não ser no seu fim. Portanto, tem que ser que meu bem, ainda que eu me amasse a mim mesmo, era de amar a Deus, porque Ele me criou para Ele e não me criou para mim. Criou-me para a realização de uma intenção dele. E de uma intenção dEle que tinha que ter uma relação primordial fundamental e superior tudo nEle mesmo.

Bem, e portanto, eu verifico que eu enquanto ser criado, tenho um fim que está fora de mim e que eu sou uma espécie de ser vazio; e que essa minha existência, que é uma coisa tão boa, ela em última análise, … [ilegível] …medida em que eu sirva a; me una com; dependa de; repouse em Deus. E que portanto, o meu amor a mim mesmo, pela inconsistência ontológica de meu próprio ser – porque eu enquanto ser sou, como criatura, inconsistente, não tenho uma consistência absoluta, mas tenho uma consistência apenas relativa - então por causa disso eu me volto completamente para Deus e compreendo que o meu amor a mim mesmo é uma coisa que não tem sentido, o meu eu é uma coisa vazada, é uma coisa que existe mas furada, que encontra toda sua explicação, que encontra todo o seu termo em repousar nEle.

Fora dEle não existe nada. Resultado é que meu próprio egoísmo - se for um egoísmo racional - chega à seguinte conclusão: é verdade que eu devo amar a mim mesmo; é verdade que a lei de todo ser é que ele ame a si mesmo. Mas tudo isso não teria sentido se Deus não existisse. Afinal isso é um princípio moral, e como todos os princípios morais seriam completamente sem sentido se Deus não existisse. De maneira que aquilo torna razoável que eu me ame a mim mesmo. Em última análise, é a existência de Deus. Tem a Deus como ponto de apoio, como ponto de partida, como ponto de chegada. E o meu amor a mim mesmo existe, mas existe com referência a Deus. Existe nessa ordem que eu acabo de dizer, mas existe nessa ordem com referência a Deus. E se não tiver Deus como ponto terminal, é um amor que passou a ser ilegítimo.

Então, depois de uma análise imediata das coisas nós reconhecermos que, de fato, nós devemos nos amar mais do que ao próximo, reconhecermos, portanto, duas coisas: primeiro, que nós devemos nos amar, cada um a si próprio. Em segundo lugar, que nós nos devemos amar cada um mais do que eu amo ao próximo, chegamos a essa outra conclusão que, entretanto, nós devemos amar a nós mesmos por amor de Deus e que esse amor nosso, que não seja por amor de Deus, se esvazia e perde toda a sua razão de ser; e a gente cai no caos. Por quê? Porque tudo o que não seja raciocínio, calculado, em função de Deus, não tem razão de ser.

[Resposta a uma pergunta de um ouvinte]

É justo e legítimo que cada um se ame a si próprio, e é o primeiro ponto. Exatamente, os partidários do socialismo etc, negam o amor do homem a si mesmo. O amor de homem é só para a coletividade. É para si mesmo apenas enquanto uma unidade constitutiva da coletividade. Essa não é nossa posição. Nós nos amamos, de fato a nós mesmos.

Segundo: amamo-nos, de fato, mais dos que aos outros, amamo-nos mais do que ao próximo. Porque a caridade devendo começar pelo mais próximo, evidentemente começa por si mesmo. Depois, o princípio de amor está primeiro em si mesmo.

Em terceiro lugar, nós devemos reconhecer que esse amor nosso, que é um amor instintivo e legitimamente instintivo, entretanto só tem seu fundamento racional em Deus. Quer dizer, por amor de Deus que nós nos amamos a nós mesmos. Embora um instinto que Deus pôs em nós nos leva a pegar as coisas para nós, independente de qualquer raciocínio, a justificação racional desse movimento instintivo está apenas na existência de Deus. Fora disso não existe justificação racional.

Acontece que uma pessoa pode, em certos termos, em certos limites, por amor de Deus, amar a outrem mais do que a si mesmo, quando a pessoa reconhece que uma outra pessoa, por exemplo, é mais amada por Deus, ou ama mais a Deus, ou para a causa católica, ou qualquer outra coisa, a pessoa então ama aquele ser mais do que a si mesmo por amor de Deus. Mas isso mesmo que é um princípio que tem gerado atos de abnegação extraordinários, isso… [ilegível] …tem seus limites e a pessoa não pode fazer por outros determinados atos de caridade heróica.

Por exemplo… [ilegível] ….está vivo um grande teólogo. Esse teólogo vai ser o martelo dos hereges. Ele está cardíaco. Eu vou dar o meu coração por ele, e portanto, aceito ser assassinado para dar meu coração a ele, é uma coisa que não é legítima. Porque falta com a justiça de eu consigo mesmo. De tal maneira esse amor que a gente pode ter aos outros mais do que a si mesmo não pode transgredir um certo limite mínimo fundamental do amor que a gente tem que ter para consigo mesmo. De tal maneira a coisa chega a esse ponto.

(Sr. –:Qual a diferença entre isso e colocar-se diante de uma pessoa que vai ser assassinada para receber o tiro?)

É uma diferença subtil. Eu creio que seria uma escapatória dizer o seguinte: sujeito… [ilegível] …ser assassinado, eu o defendo para receber os tiros, quero bem a ele, etc, etc, mas eu tenho a impressão. … [ilegível] ….

(Sr. –:Retificação: não me refiro somente a isso, mas ao caso de uma pessoa que é mais amada por Nossa Senhora e que eu defendo.)

Eu creio se eu tiver uma certeza inteira de que eu me interpondo entre uma pessoa que vai receber o tiro, se houver uma certeza inteira de que eu vou morrer salvando a vida dele, eu tenho minhas dúvidas sobre a legitimidade disso e se isso não é um suicídio. Quando há risco, a coisa é diferente. Eu nunca estudei esse caso. Mas tenho a impressão de que quando há uma certeza inteira, não é legítimo… [ilegível] ….

(Sr. –: Não é o caso de mártires que se oferecem para morrer em lugar de outro?)

Oferecer para morrer em lugar de outro, eu não conheço, eu não vejo fundamento. Não sei se o Arnaldo ou o Paulinho vêem. Mas eu não vejo fundamento nisso.

(Sr. –:Explicação: [parece que do Dr. Paulo Brito.] Aí a bondade do ato se faz pelo efeito principal. O efeito principal é salvar a vida do outro, mas não propriamente querendo morrer. Há sempre certa possibilidade de escapar.)

Mas não havendo nenhuma possibilidade de escapar, sei que isso não é legítimo. Não sei se o Arnaldo [sabe?]

(Sr. –:Mas, na prática, creio que isso quase nunca se verifica. Na hora do tiro, quem é que vai ter certeza se escapa ou não? A pessoa põe o corpo na frente.)

Não sei. Mas em fim, se permitirem continuar, porque isso é um colateral… [ilegível] …

Distinção entre o egoísmo legítimo e o egoísmo defeito, portanto, a virtude da caridade para consigo mesmo e o egoísmo, a distinção está no seguinte: radicalmente, fundamentalmente, é que nós praticando a virtude do amor a nós mesmos, nós nos amamos por amor de Deus… [ilegível] …egoísmo… [ilegível] … [longo trecho ilegível] …que não tem Deus sem um pouco em vista, … [ilegível] …em sua materialidade, … [ilegível] …existência. Pode muito, durante o passeio, … [ilegível] …pecado, nenhum mau olhar. Nada disso. Pode ter… [ilegível] …repouso compreensível de um filho das trevas… [ilegível] …geralmente daquela motivação e ele faz aquilo formalmente por amor de si, aquela ação é uma ação egoísta… [ilegível] …porque Deus foi excluído formalmente da motivação.

Quer dizer, a coisa fundamental do egoísmo, a nota fundamental do egoísmo não está na natureza da ação, mas está [na] motivação, no espírito com que o indivíduo põe a ação. A ação pode ser até filantrópica e, entretanto, egoística. Se um indivíduo, por exemplo, dá uma esmola apenas porque lhe desagrada imaginar que certa pessoa continua a sofrer - pode acontecer - bem aquela esmola, sendo feita com uma exclusão formal da intenção de Deus, no caso uma pessoa que diga: eu não ponho Deus nisso, porque não acredito em Deus, mas faço apenas porque me agrada fazer esta ação, em si boa, é uma ação que é má, porque é levada por um amor errado que inquina tudo, que envenena tudo. E assim nós temos o confronto entre o verdadeiro egoísmo e o falso egoísmo.

Acontece que essa visão das coisas, no comum das pessoas, não é nem um pouco posta em função, porque nas aulas de moral e de catecismo que a gente recebe, ou isso não é dito, ou é dito tão por alto e tão levemente que na vida espiritual concreta das pessoas isso não se põe. E as pessoas, em vez de terem como hábito mental isso de reportar a Deus todas as ações que fazem – que deve ser o estado de espírito normal, comum, de todo fiel – reportar a Deus todas as ações que faz.

Reportar a Deus quer dizer: que eu faço tal coisa porque é razoável… [ilegível] …, mas, em última análise, para servir a Deus. Se isto não servisse a Deus eu não o faria porque não seria bom. Essa posição mental eu creio, … [ilegível] …uma… [ilegível] … muito otimista, 90 [%] das pessoas que freqüentaram o confessionário não têm esse estado de espírito a respeito de pecado e não pecado, … [ilegível] …se a ação, na sua materialidade, no seu aspecto objetivo, transgride um mandamento, ela é pecado. Se ela não transgride um mandamento, ela não é pecado e, portanto, ela é boa e legítima. E a pessoa, portanto, pode fazer a coisa, a mais despreocupada de Deus, e sem nenhuma idéia de que… [ilegível] …é em ordem a Deus o mais laicamente possível, se quiserem, o mais ateiamente possível a pessoa pode fazer isso, que não tem mal nenhum, uma vez que aquela ação em si mesma não tenha transgredido um dos mandamentos.

Ora, na realidade, transgrediu. Porque o 1ºMandamento da Lei de Deus, “Amar a Deus sobre todas as coisas”, obriga essa posição. Mas como esse mandamento é o grande desconhecido, é o mandamento ignorado, o resultado é que as pessoas não tomam uma posição habitual de atendimento do amor de Deus nas coisas que fazem. E o resultado é que o amor que as pessoas têm a Deus consiste apenas, no mais das vezes, em evitar o pecado, ou praticar uma determinada ação virtuosa por amor de Deus, mas sem compreender que todas as ações têm que ser feitas por amor de Deus, e que nesse sentido todas as ações são susceptíveis de serem virtuosas. E sendo feitas laicamente, envolvem, em grau maior ou menor, uma falta moral.

Aqui se radica bem o espírito do católico. Religioso fundamentalmente em absolutamente tudo quanto faz, ainda que faça alguma coisa legitimamente agradável a si… [ilegível] …, por exemplo: eu estou tomando esse chá inglês… [ilegível] … Eu pago esse chá, que é um chá bem mais caro - os senhores sabem que eu não nado em ouro. A razão imediata de eu tomar esse chá é porque ele é gostoso. Está acabado. Bem por que… [ilegível] …porque eu sinto que me dá o prazer da mesa, e esse prazer foi sempre para mim psiquicamente repousante. Como esse prazer foi muito cerceado pelo regime que eu sou obrigado a fazer, é razoável e é justo que eu, para ter energias e o repouso mental necessário para o cumprimento de meu dever, eu mande vir um chá mais agradável que me torne mais fácil em conduzir com fidelidade o regime a que eu sou obrigado. Por que sigo esse regime? Porque esse regime conserva minha existência. Mas por que quero conservar minha existência?

Nós chegamos ao ponto. Quero conservar minha existência porque é um dever para servir a Deus Nosso Senhor; é um dever porque a existência foi um bem que ele pôs em mim, e que eu devo conservar com os meios ordinários e, no meu caso concreto, com os meios extraordinários. Por que devo conservar? Por que Deus me deu uma determinada vocação; eu, em obediência a Ele devo procurar viver o tempo necessário até com meios extraordinários, para cumprir a vocação que Ele me deu. Isso, portanto, que é uma ação, que justificada assim e praticada com essa intenção, é uma ação virtuosa, se ficasse no puro gozo do chá, e sem nenhum reportar-se a Deus, é uma ação que envolvia, de um modo ou de outro, num grau ou noutro, uma certa falta moral. E me parece que o grosso dos católicos absolutamente não está familiarizado com essa idéia.

Há um laicismo ao modo, do estado de espírito habitual das pessoas, que dá no seguinte ponto que eu assinalei apenas de passagem: uma incapacidade de compreender verdadeiramente a virtude da humildade e o defeito do orgulho. Porque o fundamento da humildade, o ponto de partida da humildade é eu tomar. Porque o primeiro ser para quem eu devo ser humilde é Deus.

Ora, é uma atitude de revolta eu proceder em face de Deus como se Deus não fosse meu fim; e tomar um chá que não tem Deus por fim. Tocar uma mosca do nariz com uma exclusão formal e categórica de Deus. É claro que não preciso, cada vez que eu toco uma mosca da ponta do nariz, estar fazendo todo esse raciocínio. Isso é evidente. Seria de um artificialismo tremendo. Mas eu tenho que ter intenção, a convicção habitual do que estou dizendo, e a intenção de pôr mesmo meus atos reflexos segundo essa natureza… [ilegível] ….

Bem e eu tenho a idéia de que as coisas podem ter um fim que não é Deus, mas eu que sou eu mesmo, aí começa o orgulho todo. Porque então, em face de um outro, eu posso querer tirar partido do outro, eu posso querer sugar o outro. E a primeira coisa que eu posso querer é me sobrepor ao outro. Eu encontro um outro que é menos do que eu em qualquer ordem, minha posição natural é dizer: está bom; agora eu oprimo. Por quê? Porque é bom oprimir. Eu gosto. Nasci opressor por temperamento. Uma pessoa pode dizer isso. Eu agora vou oprimir porque posso e porque gosto. … [ilegível] … se nós tirarmos Deus dessa perspectiva, toda espécie de abusos são legítimos, e nasce um egoísmo que nos conduz forçosamente ao orgulho.

Esse estado de espírito de serviço habitual de Deus e serviço humílimo de Deus, de quem compreende que não tem uma razão em si, mas que é apenas um ente feito para servir a Deus, e para outra coisa não, isso, a meu ver, é crucial para a fundamentação do espírito católico e para a constituição de uma civilização, uma posição ultramontana etc, etc, etc.

Acontece que nós nos encontramos aqui em face de um outro aspecto da questão e que são os instintos. Eu posso estar inteiramente… [longo trecho ilegível] …todo esse conjunto… [ilegível] …de tal maneira que os movimentos… [ilegível] …para Deus, e os movimentos de meu corpo eu os governo de tal maneira que eles só façam aquilo que esteja na proporção e na medida do amor de Deus.

E aqui eu devo, desde já, chamar a atenção para um ponto muito importante. Mais uma vez, um engano da moral corrente. A moral corrente diria o seguinte: eu para agir bem eu devo, portanto, no trato com uma determinada pessoa… [ilegível] …no trato com o aluno eu sou professor, aquele é aluno – eu tenho direito, portanto a uma atenção, a uma reverência da parte dele. Se eu exijo dele a medida exata de reverência que ele me deve, eu não estou agindo egoisticamente; eu estou agindo bem.

Eu digo: é um grande engano. De fato, a minha ação externa é boa. Mas se eu não tiver aquele movimento de exigir o respeito por amor de Deus, mas eu for levado pela sede natural de importância que todo homem tem, sede instintiva essa que em todo homem tem uma intensidade maior do que deve ter – porque o homem de si é tendente a exigir honras e respeito maiores do que deve ter, eu posso daquele lá não cobrar honras maiores do que me são devidas, mas isto eu ter apegadamente e por um movimento que é voltado para mim, egoístico no sua raiz. E aquilo não está bem.

Quer dizer, mesmo quando eu exijo dos outros aquilo que eu tenho direito, eu posso andar mal, desde que essa exigência não seja feita tendo em vista o amor de Deus, na medida do amor de Deus e, portanto, com a capacidade de renunciar a qualquer momento a partir do momento em que o amor de Deus me peça. Existe aqui um policiamento dos instintos que eu tenho a impressão de que é fundamental na questão, e que exatamente eu desenvolveria numa próxima reunião. Fica a cabeça de ponta armada para outra reunião.

Agora, embora eu diria agora aos senhores o seguinte: como princípio de vida espiritual, nós devemos ter a seguinte desconfiança: sempre que nós queremos qualquer coisa para nós, devemos desconfiar desse movimento. Seria muito errado considerá-lo intrinsecamente mau. Mas considerá-lo intrinsecamente suspeito, não tem dúvida nenhuma. Em todo movimento por onde nos reivindicamos algo para nós existe uma grande facilidade, uma suma facilidade de se esgueirar algo de contrário ao amor de Deus, porque é exclusivamente voltado para nós. E a medida do nosso egoísmo não é apenas das ações, mas que por egoísmo nós pomos, mas é do sentido que internamente nós comunicamos ao uso que nós temos. Se qualquer coisa eu uso egoisticamente ainda que legitimamente, quer dizer, abstração feita de Deus, eu estou andando mal, não estou me colocando como verdadeiro católico.

Agora isso deve ser objeto de um exame de consciência sem escrúpulo, mas contínuo. É assim que o verdadeiro católico orienta a sua alma para o céu. Ele comunica senso religioso à sua alma. O que não for isso, acaba entrando raiz de amor próprio, de vaidade, de orgulho etc, por mais legítima que seja a reivindicação que a pessoa faça.

Esta eu deixo apenas o esclarecimento posto nesse ponto. Alguém me dizer: eu estou reivindicando isso, sem egoísmo, porque é legitimo o que eu estou reivindicando, é um erro grosseiro. É claro que haveria ainda mais egoísmo, se eu reivindicasse isto de um modo ilegítimo. Mas mesmo de um modo legítimo, se aquilo não está sobrenaturalizado, não está voltado para Deus, é ruim também, porque está voltado para mim e isso é pecado de orgulho. Está voltado exclusivamente para mim, não para mim em ordem de Deus. É pecado de egoísmo e pecado de orgulho. … [ilegível] ….

(Sr. –:… faltam palavras…).

A única… [ilegível] …que encontrei sobre essa questão do amor ao próximo foi num tratado de Direito Natural de… [ilegível] …D. Mayer disse, uma ocasião, que essa explicação não é boa. Eu achei muito boa a explicação. Ele diz que o Mandamento não diz mas eu precisaria conferir esse aspecto da questão – o mandamento não é “amar o próximo tanto quanto a mim mesmo”, mas é amar o próximo como a mim mesmo. Quer dizer é um amor da mesma natureza ao próximo. É o que a moral diz porque praticamente a moral não diz que devo amar o próximo num grau igual ao que devo amar a mim mesmo. Talvez isso queira dizer uma outra coisa.

Há um princípio que diz o seguinte: Não faz ao próximo aquilo que não queres que te façam a ti mesmo. Então, nesse sentido, há uma espécie de paridade e talvez nesse sentido o mandamento tenha uma aplicação. Porque, de fato, entendido assim e para esses efeitos o mandamento poderia ter uma interpretação lateral, ou melhor, literal.

(Sr. –: Dr. Plinio, também é nessa ordem de idéias aqueles versículo do evangelho, quando Nosso Senhor diz “Sede perfeitos como Meu Pai, que está nos céus”.)

Certo. Se fosse tanto quanto Deus, seria maluco. E, de fato, quando a gente lê, fica espantado, porque tem a impressão de que esses “como” quer dizer “tanto quanto”. E o “como” aí não quer dizer “tanto quanto”, mas no mesmo estilo, na mesma ordem.

Enfim, vamos dizer que haja uma tradição de interpretação nesse “amar ao próximo como a si mesmo” de outro modo. Eu suponho então que seja referente a essa paridade. O que, à la longue, talvez redundasse na primeira interpretação.

Eu gostaria de acentuar aqui como habitualmente a nossa vida espiritual está distanciada disso. O tempo que eu levei para encontrar isso…, foi um tempo enorme. Eu me lembro, por exemplo, dos meus tempos de Congregado Mariano iniciante, em que eu procurava levar uma vida espiritual mais direita, os tempos em que líamos “Elite” etc, etc, eu, muitas vezes, e em muitas coisas, me concedia comodidades grandes. Depois me vinha ao espírito essa idéia: Você é um sujeito desordenado, estúpido, você deveria praticar a vida espiritual de um modo mais abnegado e está aí se… [ilegível] …, comendo… [faltam palavras] …olhe aqui aqueles pobres congregados que vão comer pastéis fritos ordinários em frente, não serão, no fundo, mais de acordo com o espírito do vigário que come assim também? Ora, o vigário é a Igreja, você deveria comer assim também. É por gula.

Eu tinha uma coisa interna que me dizia o seguinte: Algum dia eu hei de descobrir como é que esse reto sentido se justifica segundo a doutrina católica, mas é legítimo, no estado atual de minha vida espiritual que eu me proporcione essas coisas para poder perseverar e me santificar, e, portanto, me proporcionarei, porque sinto que se não vou proporcionar eu caio. Se é para eu não cair, é melhor eu me proporcionar, porque isto não é pecado. E se eu, à la alongue, faço para isso, tem que acabar sendo bom. Pequenas sondagens com um padre ou outro, negativo o resultado. Não… [faltam palavras] …etc. eu digo como aqui tem uma coisa dada qualquer que o futuro dirá como é que sai. Depois, com elucubrações, a coisa se justifica completamente.

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