Santo
do Dia (Auditório Santa Sabedoria) – 10/7/1968 –
4ª feira [SD 261] – p.
Santo do Dia (Auditório Santa Sabedoria) — 10/7/1968 — 4ª feira1 [SD 261]
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São João Batista Vianney, homem pobre, pouco inteligente, que terminou seus estudos de seminário no limite da suficiência, santificou-se e tornou-se patrono do clero * O Cura d’Ars foi um sacerdote magnífico, um apóstolo estupendo, um confessor com discernimento raríssimo, um pregador com profunda influência, e um sacerdote modelo * Preparava os sermões, tinha voz fraca, e o que ele dizia era contagioso * “Eu vi Deus num homem”: Deus estava com ele e estava nele * Além de ter-se destacado através dos sermões, foi um verdadeiro mártir do confessionário * Foi um inimigo intransigente da dança, numa época que não tinha os excessos atuais * Após passar o dia inteiro na igreja, no púlpito, no confessionário, em vez de um bom repouso começava a batalha noturna com o demônio * Não se considerava taumaturgo: atribuía os milagres a Santa Filomena * Descreveu a uma penitente uma ocasião de pecado em que ela esteve, tendo escapado de dançar com o demônio por ser Filha de Maria e estar usando a Medalha Milagrosa * Previu a conversão do Papa Pio IX
* São João Batista Vianney, homem pobre, pouco inteligente, que terminou seus estudos de seminário no limite da suficiência, santificou-se e tornou-se patrono do clero
Hoje não há santo especial. Mas ontem foi festa de São João Batista Vianney, confessor, intercessor pela santificação do clero e modelo dos que têm cura de alma. Século XIX.
Nós estamos na Novena da Assunção de Nossa Senhora.
A respeito de São João Batista Vianney, há sempre uma palavra a dizer porque é um dos maiores santos do século passado e a sua vida apresenta tantos aspectos, que os comentários são sempre possíveis e são sempre novos a respeito dele.
Sintetizando a vida de São João Batista Vianney, nós poderíamos dizer isto:
Como os senhores sabem, ele foi nas primeiras décadas do século passado um seminarista muito pobre. E além de muito pobre, de inteligência muito pequena, de inteligência até notavelmente pequena. Ele teve que fazer seus estudos de seminário com um esforço extraordinário, porque a sua inteligência não era suficiente para o curso do seminário, e durante algum tempo até duvidou-se da sua vocação sacerdotal por causa dessa insuficiência de inteligência. Formou-se a duras penas — pode-se dizer que ele atingiu o diploma de fim de curso de seminário apenas no limite mínimo da suficiência — e exatamente por se um homem tão apagado, de tão poucos predicados naturais, ele foi encaminhado pelo seu bispo para um vilarejo minúsculo do sul da França, que é a aldeiazinha de Ars.
Ali começou então a sua atuação sacerdotal que encheu de luz a Europa inteira do século passado e depois se propagou para o mundo moderno, no mundo novo, e depois ele foi proclamado modelo e patrono do clero.
* O Cura d’Ars foi um sacerdote magnífico, um apóstolo estupendo, um confessor com discernimento raríssimo, um pregador com profunda influência, e um sacerdote modelo
O que é que distinguia esse santo?
É que ele não tendo nenhuma das qualidades naturais para exercer um sacerdócio extraordinário, ele entretanto foi um sacerdote magnífico, foi um apóstolo estupendo, foi um confessor de um discernimento raríssimo, foi um pregador de uma influência profunda sobre as almas, e por cima de tudo isto, com um título que é arquitetura de todo o resto, foi um sacerdote modelar, foi o próprio modelo de sacerdote.
Qual era a razão da eficácia do apostolado desse santo?
Era que, como disse bem Santa Terezinha do Menino Jesus, “para o amor, nada é impossível” e quem ama verdadeiramente Deus Nosso Senhor e a Nossa Senhora, obtém os meios para fazer aquilo para que a Providência Divina o chama.
* Preparava os sermões, tinha voz fraca, e o que ele dizia era contagioso
Por causa disto — vamos analisá-lo antes debaixo deste ponto de vista — ele era pregador extraordinário.
Ele estudava os seus sermões, ele procurava prepará-los direito. Não subia às altas regiões da Teologia. Os seus sermões cuidavam das noções catequéticas comuns para um sacerdote instruir o povo. Mas acontece que aquilo que ele ensinava, ele ensinava com tanta unção, ele ensinava com tanta compenetração, com tanta fé, com tanto amor aquilo que ele dizia, que aquilo que ele dizia se tornava contagioso. E muitas vezes, tendo ele voz fraca — e naqueles tempos felizes não havendo microfones dentro das Igrejas, oh tempos invejáveis! —, ele não conseguia se fazer ouvir pelas multidões que ficavam às vezes acumuladas na porta da igreja e até de lado de fora da igreja para ouví-lo. Mas só de vê-lo e de ouvir uma ou outra frase que ele pronunciava, as pessoas se convertiam.
* “Eu vi Deus num homem”: Deus estava com ele e estava nele
D. Chautard na “Alma de Todo Apostolado” conta esse fato característico:
Um advogado, desses ímpios, etc., esteve lá em Ars e voltou convertido. E alguém perguntou a ele:
— O que é que o senhor viu em Ars?
Ele deu essa resposta, que é a maior glória que um homem pode ter, ele disse:
— Eu vi Deus num homem.
Quer dizer, havia a presença de Deus nesse sacerdote, notava-se nele que Deus estava com ele, e que Deus estava nele.
* Além de ter-se destacado através dos sermões, foi um verdadeiro mártir do confessionário
Ele tinha a unção, ele tinha o carisma da pregação, e por causa disto, por causa de seus sermões, Ars se tornou um centro de peregrinação, onde vinham pessoas da França inteira e depois da Europa inteira, para ouvir esse sacerdote que mal apenas dominava corretamente a sua Teologia, fazendo sermões. E com isto ele fez conversões estupendas.
Além disso ele foi um verdadeiro mártir do confessionário. Ficava horas inteiras no confessionário ouvindo confissões.
Os senhores podem imaginar o que é que representa para um padre ficar sentado nesta verdadeira cabinezinha de trevas e de obscuridão, a ouvir os pecados de um, dar os conselhos, ouvir os pecados de outro, dar os conselhos, depois vira do outro lado, é o conselho, e aquilo horas e horas.
O Con. José Luiz está sorrindo enquanto eu falo, porque ele deve conhecer por experiência própria a tremenda penitência que isto representa.
Bem, depois ele era um sacerdote que no confessar, seguia o conselho dado por Santo Afonso de Ligório. Quer dizer, ele confessava cada um sem pressa, como se tivesse só aquele para atender, e lutava corpo a corpo com os pecados daquele indivíduo. Ele aconselhava, ele insistia, e freqüentemente negava a absolvição.
* Foi um inimigo intransigente da dança, numa época que não tinha os excessos atuais
Freqüentemente se a pessoa não tinha o propósito sério, verdadeiro de se emendar de seus pecados, ele negava a absolvição. Sobretudo ele foi no confessionário e no púlpito, mas ainda mais no confessionário do que no púlpito, ele foi um inimigo intransigente da dança.
Notem os senhores que se tratava das danças quão pudorosas em comparação com as de hoje do século XIX e das primeiras décadas do século XIX. Dançadas por moças cobertas até aqui, até aqui, até aqui, e com saias até os pés.
O que é que diria um Cura d’Ars das moças com mini-saias, dançando as danças estabanadas, iê, iê, iê, e outras maluqueiras do nosso tempo?!
Bom, isso chegava a tal ponto, que tinha paroquianas que não lhe faziam promessa de não dançar. Essas moças iam confessar-se noutras paróquias, para ter absolvição. Ele dizia: “Está bem. Se outros querem mandá-las para o Inferno, outros padres que mandem. Eu sou seu vigário, eu não lhes dou absolvição”.
* Após passar o dia inteiro na igreja, no púlpito, no confessionário, em vez de um bom repouso começava a batalha noturna com o demônio
Bem, este padre extraordinário passava o dia inteiro na igreja, no púlpito, no confessionário, no altar. Quando ele ia à noite para casa, os senhores pensam que ele ia gozar de um bom repouso. Aí começava uma das mais estranhas facetas da vida dele: era a batalha noturna com o demônio.
Não se sabe bem porque, ele chamava o demônio de Grappin. Não se compreende bem porquê. Um grappe é um cacho, não é? Um cacho de uvas, um grappe. Grappin seria um diminuitivo de grappe. Agora porque Grappin não se sabe também.
O Trochu disse que nunca se soube porque ele chamava o demônio de Grappin, que ele não explicava isto. Mas ele chamava de Grappin.
E quando vinha uma alma particularmente dominava pelo demônio confessar-se com ele, o demônio de um dia de antecedência começava a atormentá-lo à noite. Espancava-o durante a noite, batia nele durante a noite. Uma ocasião pegou fogo na cama dele, ficou uma parte do colchão dele toda tisnada de fogo. Ele felizmente não se feriu, ou quase não se feriu, não me lembro bem. Era o ódio que o demônio tinha dele, porque sentia que era uma vítima que ele iria arrancar.
Ele então fazia penitências, se flagelava, rezava por aquelas almas, para conseguir depois que sua palavra fosse portadora das graças necessárias para operar as conversões que eram precisas.
Os senhores acrescentem a isto uma vida de jejum intenso, e os senhores têm um homem que fez de seu confessionário um longo martírio, de sua vida um longo martírio.
O que era bonito é que a Providência, para acentuar ainda mais o seu apostolado, deu-lhe o dom dos milagres. E ele fazia uma porção de milagres.
* Não se considerava taumaturgo: atribuía os milagres a Santa Filomena
Mas havia na igreja dele, havia restos mortais, relíquias, eu não me lembro se o corpo inteiro, ou apenas alguns ossos, ou alguma relíquia insigne de Santa Filomena mártir, que foi tirada do catálogo dos santos, mas que ele venerava como santa, e quando ele praticava algum milagre, ele dizia antes: “Rezemos a Santa Filomena”. E quando saía o milagre, ele dizia que foi Santa Filomena que fez, para não tocar a ele a graça e a glória de ter operado o milagre.
* Descreveu a uma penitente uma ocasião de pecado em que ela esteve, tendo escapado de dançar com o demônio por ser Filha de Maria e estar usando a Medalha Milagrosa
Eu me lembro de um dos fatos extraordinários contado por uma penitente dele.
Uma moça foi confessar-se com ele (porque ele dizia para os penitentes a vida passada assim), era uma Filha de Maria, e ele disse:
— Minha filha, a senhora se lembra que esteve em tal ocasião num baile assim? — os senhores podem imaginar a sensação dela.
Diz ele:
— Lembra-se que entrou em certo momento no baile um rapaz muito bem apessoado, muito elegante, muito correto, e dançou com várias moças?
— Sim, lembro.
— Lembra-se que a senhora teve muita vontade que ele dançasse com a senhora?
— Lembro.
— Lembra-se que ele não dançou com a senhora, e a senhora olhou com uma espécie de tristeza para ele. Na hora dele sair da sala, e olhando assim incidentemente para os pés dele, notou uma luz azul que lhe saía dos pés?
— Lembro.
Bem, o que ele ia dizer depois não podia deixar de ser verdade, porque ele estava revelando um passado que ele não podia conhecer. Agora revelação espantosa:
— Aquele homem era o demônio, que tinha tomado forma de homem e tinha dançado neste baile com várias moças. E ele não pediu a senhora para dançar porque a senhora era filha de Maria e estava com a Medalha Milagrosa no peito. Do contrário ele lhe teria vindo pedir para dançar a senhora também. Mas ele não conseguiu por causa dessa proteção de Nossa Senhora.
Agora os senhores podem imaginar a atmosfera na pequena igreja de Ars, quando os peregrinos saíam, uns convertidos, outros com seu passado desvendado, todos regenerados e cantando os louvores do Cura d’Ars. Os senhores compreendem o que é que era essa vida.
* Previu a conversão do Papa Pio IX
Esse extraordinário apóstolo da França passou por uma provação que nos interessa.
Os senhores sabem que o longo e glorioso pontificado do Papa Pio IX teve duas fases diferentes. Na primeira fase, que foi curta, foi uma fase em que ele se portou como papa liberal. Não que no seu bulário houvessem doutrinas liberais, mas a sua conduta era liberal. Ele de tal maneira era o ídolo do Partido Liberal na França, que no Reino de Nápoles se classificava como brado sedicioso, o brado “viva Pio IX”.
D. Bosco, o grande D. Bosco, santo canonizado pela Igreja, D. Bosco recomendava a seus meninos que não gritassem “viva Pio IX”, mas que gritassem “viva o papa”, de tal maneira o brado “viva Pio IX” tinha adquirido um sabor revolucionário.
Uma ocasião o Cura d’Ars — os senhores podem imaginar o que é que ele podia achar de Pio IX, dessa fase — estava na Igreja e ouviu um vozerio fora. Eram pessoas que estavam discutindo, falando umas e outras, etc., e um falando muito mal de Pio IX. Ele acercou-se e disse: “Olhe, fale com mais cuidado, porque esse papa vai se converter e vai ser ainda um grande papa, e vai dar uma grande glória à Igreja de Deus”.
Algum tempo depois Pio IX teve uma revolução republicana nos própios Estados Pontifícios, e foi obrigado a fugir para o Reino de Nápoles, para ir até próximo à fronteira do Reino de Nápoles. E ao conhecer as chamas da Revolução, acendeu-se nele a luz do Espírito Santo, como contragolpe, e ele foi capaz de perceber a malícia da Revolução e deu depois no grandíssimo papa contra-revolucionário que foi Pio IX.
Para nós termos uma idéia de como correm as coisas, e como tudo quanto é do mundo é precário, é instável, as glórias mais bem assentes são glórias transitórias e discutíveis, eu lhes conto apenas mais um fato neste Santo do Dia que está se prolongando demais. O fato é este…
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1) A data no microfilme está errada, pois como o Sr. Dr. Plinio afirma, “...ontem foi festa de São João Batista Vianey...” a qual se celebra em 9 de julho. Portanto, esta reunião é de 10 de julho.