Santo
do Dia (Rua Pará) – 9/7/1968 – 3ª feira [SD
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Santo do Dia (Rua Pará) — 9/7/1968 — 3ª feira [SD 066]
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Dizia São Cipriano: “É condenável perdoar facilmente àqueles que apostataram por covardia” * Era bom o regime de penitências usado na Idade Média? * Compreende-se a facilidade em perdoar ao que se arrependeu após ter cedido em meio a torturas * Em relação aos que pecaram sem serem torturados, a brandura não faz senão fomentar o pecado * A atitude da Igreja face aos três tipos de pecadores * Condescendência para os que pecaram por fraqueza e censuram o mal que cometeram, para evitar o desânimo * Severidade para com o pecador tíbio, que precisa ser sacudido * Do pecador que se orgulha do pecado que cometeu, devo ser inimigo militante e agressivo * Resumindo: as diferentes posições da Igreja ante os diversos tipos de pecado * Excepcionalmente, alguém pode ter uma atitude em relação a um pecado, e outra atitude ante um outro tipo de pecado * É colossal o número de pessoas que estão no pecado venial e acham que podem cometê-lo à vontade
* Dizia São Cipriano: “É condenável perdoar facilmente àqueles que apostataram por covardia”
No “Tratado de Lapsi” de São Cipriano há a seguinte frase:
É condenável perdoar facilmente àqueles que apostataram por covardia.
Os lapsi eram os católicos que chegavam na hora do martírio, não tinham coragem, então sacrificavam aos ídolos. Lapsus, donde vem a palavra relapso em português, e lapsi no plural.
Então São Cipriano dizia que é mal feito perdoar com facilidade estes lapsi, porque os lapsi o que faziam muitas vezes é o seguinte:
Eles jogavam um punhado de incenso na pira onde ardiam brasas em honra aos deuses, eram soltos. Soltado, o sujeito vinha para casa. Chegava em casa, começava o remorso. Então ia para as catacumbas, ia pedir perdão. Mas acontece que a presença deles, fujões, medrosos, nas catacumbas onde haviam exatamente os futuros mártires, era uma baixa de nível muito grande. E alguns faziam este raciocínio: “Não, eu queimo incenso, depois me faço perdoar e acabo salvando minha alma do mesmo jeito”.
De maneira que, no fundo, se eles fossem recebidos com facilidade, era uma coisa em extremo convidativa, era uma série de gente. Não é verdade?
Então na Igreja era um problema saber como fazer para… Não podia negar perdão a eles, porque a Igreja perdoa a todo mundo que se apresenta arrependido e com firme propósito de não pecar. Mas também dar o perdão com muita facilidade era relaxar toda a contextura da Igreja. Então, problema muito delicado: como fazer em face deles? E esta questão então foi abundantemente tratada pelos doutores daquele tempo.
Agora, ela não tem interesse só para aquele tempo, tem um interesse perpétuo, porque a Igreja vive cheia de lapsi, de gente que mais ou menos peca, relaxa, etc. Como fazer com eles?
* Era bom o regime de penitências usado na Idade Média?
Aqui é um ponto muito interessante.
Houve tempo na Idade Média que se davam penitências públicas. O sujeito pecou, está bem, você vai a pé, por exemplo, a Santiago de Compostela. Seria como ir, por exemplo, daqui a Aparecida. O sujeito declarava, porque devia declarar, sendo visto a pé indo a Aparecida:
— O que é que está fazendo?
— Cumprindo uma penitência que o padre me deu.
Naturalmente então vinha a pergunta:
— Hum-hum! Você está cumprindo uma penitência? Alguma razão terá!
Bom, vem a pergunta exatamente se o regime das penitências usado na Idade Média era bom e aplicável em nossos dias, sim ou não? Perdoar, sempre. Penitência, qual? Esse é o problema.
* Compreende-se a facilidade em perdoar ao que se arrependeu após ter cedido em meio a torturas
Então aqui diz a ficha o seguinte — deve ser um trecho de São Cipriano:
Pode-se compreender e perdoar aquele que cedeu em meio a torturas e que arrependeu-se de sua traição. Mas agora, que feridas podem mostrar os vencidos, que chagas, que torturas de seus membros, se sua fé não saiu na luta, mas sim a perfídia é que antecedeu o combate?
Esta é uma frase que eu acho que não está clara para a geração-nova, não é? Também não foi bem lida por mim, eu preciso reconhecer. Eu daqui a pouco digo.
Nem justifica o derrotado a necessidade de seu crime, quando o crime é da vontade.
Ele dizia o seguinte: que era um dado fácil no caso quando o sujeito se apresentava com sinais de ter sido torturado, que então se podia com mais facilidade perdoar. Mas quando o sujeito não era torturado, como é que era? Como é que ele se apresentava para pedir perdão?
Aqui numa linguagem um pouco empolada, mas em que os antigos faziam suas delícias. Eram as delícias da ordem inversa, em que gerações fáceis de prestar atenção acompanhavam a acrobacia da frase para ver se caía certo, e se encantavam. Não se pode dizer que esta seja a nossa preferência hoje em dia.
Bem, então esta frase dizia, trazia este pensamento inicial. É uma coisa muito compreensível, sensata, como tudo quanto é da Igreja.
* Em relação aos que pecaram sem serem torturados, a brandura não faz senão fomentar o pecado
Não pretendo, falando assim, aumentar a culpa dos irmãos, mas quero incentivá-los a pedir perdão.
Aqui está muito bem posta a frase. Quer dizer, caçoando daqueles que pecaram sem ser torturados. Quer dizer, por um puro pânico. Então eu não quero absolutamente que se negue perdão a eles, mas quero ajudá-los a eles caírem mais em si a respeito da profundidade de sua culpa.
Pois como está escrito, aquele que vos chama felizes, conduz-vos ao erro e turva o caminho de vossos pés, e o que passa brandamente a mão sobre o pecador, com afagos de adulação, não faz senão fomentar o pecado e não reprime os delitos, mas ao contrário, alimenta-os.
Os senhores não poderão dizer que é esta a atitude do clero contemporâneo.
Eu não sei se a frase está clara ou gostariam que eu explicasse a frase. Os que gostariam, levantem o braço. Muito bem.
São Cipriano hoje em dia teria dificuldade para falar. Ele diz o seguinte: aquele que chega ao pecador e para adular o pecador afaga, não é amigo dele. Aquele que passa pelo pecador muito brandamente, com a vontade de fazer para si popularidade, com intuitos humanos e não diz ao pecador a verdade, não é amigo do pecador.
Daqui a pouco eu vou explicar o espírito de tudo isto, e é exatamente interessante.
Mas aquele que com sérios conselhos repreende e ao mesmo tempo instrui seu irmão, coloca-o no caminho da salvação. “Aos que amo, diz o Senhor, repreendo e castigo’’.
Está no Apocalipse 3,19. É bem exatamente o que o Concílio II não faz.
Deste modo convém também que o sacerdote do Senhor não engane com ilusórias gentilezas, mas que use de remédios salutares. É médico imperito o que com mãos indulgentes roça as tumefações das feridas enquanto conserva o veneno encerrado e o vai amontoando cada vez mais.
Quer dizer, uma ferida a gente tem que espremer, não é? Para sair a matéria deteriorada. Se um médico, ao invés de espremer a ferida, passa a mão afavelmente por cima, ele não é amigo do doente. Espremer dói. É preciso abrir a ferida e cortá-la. Uma vez eliminada toda a podridão, aplicar-lhe enérgico remédio. Que grite o enfermo que não resistirá a tal dor. Ao curar-se vai nos agradecer.
É que surgiu, irmãos amadíssimos, um novo gênero de estrago, e como se houvesse sido pouco a fúria da tormenta da perseguição, juntou-se-lhe, para cúmulo da desdita, sob a capa de misericórdia, um mal duvidoso e uma brandura perniciosa. Contra o vigor do Evangelho, contra a lei do Senhor e Deus, por temeridade de alguns, facilita-se em favor de incautos a disciplina da comunhão.
Quer dizer, dá-se a comunhão a gente que não deveria receber.
E se concede uma paz inválida e falsa, perigosa para os que dão, e sem proveito para os que recebem. Não querem a verdadeira medicina, a penitência está excluída de seus corações, escondem feridas mortais com dor simulada, e apenas recém-chegados dos altares do demônio aproximam-se do Sacramento do Senhor.
Quer dizer, os tais lapsi, que apenas tinham sacrificado aos ídolos, iam comungar. Têm por paz esta que alguns vão vendendo com palavras falsas. Não é a paz, mas a guerra, e não se une à Igreja o que se separa do Evangelho.
Esta facilidade não concede a paz, mas tira. Esta é outra perseguição e outra prova. Cobrem os que caíram para que cessem a lamentação, cala-se a dor, desvanece-se o pecado da memória. Que se comprima o gemido no peito, que se reprima o pranto nos olhos, e não se aplaque com grande penitência ao Senhor, gravemente ofendido, como está escrito. Lembra-te onde caíste e faz penitência.
* A atitude da Igreja face aos três tipos de pecadores
Eu creio que se poderia, com mais proveito do que estar interpretando cada passo a ficha, de um estilo realmente um pouco entediante, dar a doutrina da posição da Igreja perante o pecador.
Há duas espécies de pecadores. Vamos dizer, há três espécies de pecadores que nós devemos distinguir. E a atitude de Nosso Senhor no Evangelho e depois a atitude da Igreja ao longo dos vinte séculos da vida dela em face destes pecadores, condiciona-se ao estado da alma deles.
Há pecadores que pecam, mas que censuram o pecado que cometeram. Eles sabem que foi mal feito e lamentam que tenham feito mal. E admiram os que andam bem, pesa-lhes terem andado mal e admiram os que andam bem. E quando eles podem dar um conselho, eles aconselham as pessoas que não façam o que eles fazem, mas façam o bem, que andam bem.
* Condescendência para os que pecaram por fraqueza e censuram o mal que cometeram, para evitar o desânimo
Para estes pecadores a Igreja tem todas as formas de paciência, todas as formas de perdão, todas as formas de condescendência. Porque são pessoas em que a gente vê manifestamente que pecaram por uma fraqueza, que é uma fraqueza culposa, mas na qual não entra o mais abominável do pecado, que é a simpatia pelo mal. É uma espécie de aprovação ao mal, que é um pecado de espírito e não apenas um pecado, que é grave, mas é um pecado da carne.
Para estes, o principal receio que a Igreja tem é que, exatamente, como eles têm o senso da gravidade do pecado, eles desanimem. Então a Igreja trata de os animar, trata de os estimular, trata-os de afagar, porque não é necessário para uma alma destas, que está vergada ao peso do mal que praticou, não é necessário estar sobrecarregando, dizendo: “Você andou mal”, etc. A pessoa pode até desanimar. Estas pessoas até em geral são levadas pelo desânimo.
O que é que a gente deve fazer com pessoas assim?
A gente deve procurar animar, fazer rezar, e compreender que à força de rezar elas podem obter graças ainda maiores e afinal uma graça fulminante que os ajude e que os faça emendar do pecado em que eles estão. Graça suficiente todo mundo tem, mas uma graça fulminante é uma coisa muito preciosa, a gente deve pedir.
E eu acredito que um pecador que insistentemente peça para emendar-se do seu pecado, embora ele tenha culpa, porque senão ele não seria pecador, mas ele pedindo, ele tem muitas possibilidades de obter de Nossa Senhora uma graça extraordinária e de se emendar.
Bem, o que o pecador nestas condições tem de melhor para fazer é ele exatamente tomar uma posição humilde. É ele procurar dizer aos outros: “Se o seu pecado não é conhecido, esconda-o para não escandalizar ninguém”. Se é conhecido, ele dizer aos outros: “Eu andei mal, eu não presto, eu não andei bem. Tal ação minha é uma ação mal feita, me perdoem a desedificação e tenham pena de mim, rezem por mim”.
Isto eu digo, quer se trate de um pecado grave, quer se trate de um pecado leve.
Uma pessoa, por exemplo, que minta. Mentir, de si, não é um pecado grave. Mas uma pessoa que minta, que tenha o hábito de mentir, e que diga, por exemplo, o seguinte: “Ah, mentira não tem nada; é pecado venial”, este anda mal.
Se uma pessoa que tem o hábito de mentir, é pego em mentira por alguém e a pessoa diz:
— Você veja, que tristeza é uma pessoa mentir.
— É verdade, e você talvez para tristeza minha me tenha pego mais uma vez mentindo. Mas me perdoe a desedificação que eu dou. Guarde você a verdade. É uma grande infelicidade eu estar mentindo. Peça por mim, você que não mente, peça a Nossa Senhora que me obtenha a graça de não mentir. A mim me dói de mentir.
Este é como o publicano do Evangelho, que fica no fundo da igreja batendo no peito. Este acaba recebendo sua emenda.
Quer dizer, a este pecador, a este tipo de pecador, a gente deve ter muita paciência, muita misericórdia, deve favorecer de todos os modos. Evitar sobretudo que ele caia, que ele desanime. Porque o grande prejuízo, o grande perigo deste tipo de pecador é o desânimo.
* Severidade para com o pecador tíbio, que precisa ser sacudido
Há um outro tipo de pecador que está no meio e que é o pecador que sabe que anda mal, mas que é indiferente ao pecado que comete. E que acha que também os outros que cometem o mesmo pecado não andam mal. Quer dizer: “É proibido pela Igreja, mas não me dói infringir uma violação da Igreja, um mandamento da Igreja. Afinal de contas, eu no fim ainda tenho alguma possibilidade de confessar, tiro uma lasca e vou para o Céu”.
Duvidoso, hein? Neste estado de espírito é duvidoso. É possível que mude de estado de espírito, mas neste estado de espírito não vai para o Céu. E que tem simpatia por quem comete os mesmos pecados, tem indiferença, não tem admiração por quem pratica a virtude.
Este é o tipo tíbio. Este tipo de pecador tíbio, é preciso dizer a ele a verdade, é preciso esclarecer. E ele está no ponto de vista, no ponto oposto do pecador que se arrepende de seu pecado. Ao menos de um meio arrependimento. Ele é um pecador que precisa ser sacudido, porque ele é como um homem que dorme, é um insensível que não tem mais o sentido do bem e do mal. Então a gente tem que trovejar, tem que esbravejar, tem que falar para quebrar aquela crosta. O perigo nele não é o desânimo, é a indiferença e a insensibilidade. Então para ele a gente deve ser severo.
* Do pecador que se orgulha do pecado que cometeu, devo ser inimigo militante e agressivo
Há o terceiro tipo de pecador, que é o pecador que está no pecado, que se alegra do pecado que cometeu e até se orgulha do pecado que cometeu, que tem simpatia e afeto pelos pecadores e tem ódio militante contra os que vivem na virtude, que procura seduzir para o pecado os que vivem na virtude. Este tipo de pecador precisa ser combatido como um inimigo militante. A gente aí deve enfrentá-lo, deve discutir como inimigo dele, não só para o bem da alma dele, porque a alma dele só respeitará a virtude na medida em que compreender a violência da virtude, mas é por causa dos outros a quem ele está fazendo mal.
Quando eu vejo um pecador induzir a outrem no mal, a minha maior pena não vai para o pecador, vai para aquele que ele está levando para mal. E o meu modo de proteger aquele que ele está levando para o mal é dando bordoada no pecador que está fazendo este mal. De maneira que, então, contra este eu devo ser militante agressivo.
* Resumindo: as diferentes posições da Igreja ante os diversos tipos de pecado
Estas são as gamas de atitudes que se deve ter com os pecadores.
Agora, é explicável que a Igreja para um pecador do primeiro tipo abra como uma torrente as graças de seus sacramentos. Sempre que eles se encontram em estado de receber um sacramento, devem pedir este sacramento e devem recebê-lo com paz de alma. Para o pecador do segundo tipo, a gente já compreende mais que a Igreja seja mais reservada. A gente compreende que a Igreja seja hostil, seja militante contra o terceiro tipo.
Estas são as diversas variedades de pecado, às quais correspondem posições diferentes da Igreja. Não sei se isto está bem claro ou se alguém queria me fazer uma pergunta.
* Excepcionalmente, alguém pode ter uma atitude em relação a um pecado, e outra atitude ante um outro tipo de pecado
(Sr. –: Dr. Plinio, pode haver um problema de uma pessoa que tenha um problema do primeiro tipo e um problema do segundo tipo?)
Pode ser em situações excepcionais, mas então não por razões propriamente religiosas.
Por exemplo, uma pessoa, vamos dizer, que peca contra a castidade e rouba. Esta pessoa está num ambiente onde se tolera o pecado contra a castidade ou até se aplaude, mas se censura o furto. Pelo menos o furto praticado tirando o objeto de dentro do bolso do outro. Furto no comércio, na indústria… bem, aqui é diferente.
— Não, ficou um comerciante rico.
Não sei…. Mas um furto assim desses escandalosos se censura.
Este sujeito pode ter uma certa vergonha de ser ladrão e não ter vergonha de ser impuro. Então ter uma atitude meio penitente quanto aos seus roubos e não ter quanto à sua impureza.
Mas você está vendo que aí é mais em atenção ao ambiente no qual ele vive do que em atenção ao mandamento da Igreja. Porque se fosse mandamento de Deus ou ensinamento da Igreja… Porque se fosse em atenção ao mandamento de Deus, ele tanto não quereria violar um mandamento quanto outro, não é?
Não sei se está claro.
Bem, há alguma outra pergunta?
* É colossal o número de pessoas que estão no pecado venial e acham que podem cometê-lo à vontade
(Sr. –: Dr. Plinio, estas questões, estas gamas são quando as pessoas cometem pecados mortais?)
É.
(Sr. –: Não poderia acontecer estas gamas quando as pessoas cometem infidelidades ou pecados veniais?)
Também, muito freqüentemente. Sendo que o número de pessoas que estão no pecado venial na segunda gama é colossal. Gente que acha que pecado venial não priva da graça de Deus e que, portanto, pode fazer à vontade.
E um pouco nós nos portamos em relação a Deus com esta atitude de alma, um pouco como uma pessoa que morasse conosco e que dissesse o seguinte: “Eu me sinto no direito de fazer para ele toda espécie de pequenas impertinências, porque afinal de contas não é um insulto grave”.
Nós não gostaríamos deste convívio, não é? Mas achamos que podemos impor a Deus um convívio assim com nossas almas, não é? Há disto.
Não sei se eu me exprimi bem.
Mais alguma pergunta, meus caros?
Bem, então vamos encerrar.
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