Reunião Normal – 03/07/68 – 4ª feira . 3 de 3

Reunião Normal — 3/07/68 — 4ª feira

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A tendência hoje é igualar tudo a fim de confundir as barreiras entre o bem e o mal * Se nós nos encontrássemos diante de uma coluna de gente conscientemente marcusiana nós não teríamos discussão possível, era pegar a metralhadora e ir matando * Todas as anteriores revoluções encontram sua explicação na doutrina marcusiana da revolução estudantil da Sorbonne * Um paradoxo incrível: a sociedade mais requintada do Ancien Régime já sonhava com um mundo em que estivesse isenta a repressão dos instintos

* A tendência hoje é igualar tudo a fim de confundir as barreiras entre o bem e o mal

para nós a paz é a tranqüilidade da ordem. Para esse gênero de gente a paz é apenas a não agressão, e cada um cevar-se como quiser, onde quiser, sem prejuízo, sem imposição para outro.

Daí a gente compreende, por exemplo, cem coisas. Uma evolução singular dos dias de hoje é como à medida que as senhoras de família tomam um ar de prostitutas, as prostitutas vão tomando ar de senhoras de família. É um encontro singular que se dá.

Mas era necessário para preparar o caminho para a soltura do instinto, porque o bairro de prostituição antigo, bairro maldito, onde moram as mulheres perdidas, em oposição aos bairros de família, onde moram as mulheres honestas e onde se vive a monogamia, é afiar a existência de um bem e de um mal, da verdade e do erro, de uma norma.

Essa norma é o super-ego. Isso tem que ser abolido. O que é preciso fazer então?. A única coisa que é preciso fazer é igualar tudo, desabotoar tudo e confundir tudo. É o caminho.

* Se nós nos encontrássemos diante de uma coluna de gente conscientemente marcusiana nós não teríamos discussão possível, era pegar a metralhadora e ir matando

Por exemplo, a arte moderna, a arquitetura moderna também. Ela tem isso de marcusianismo que ela é completamente fora de razão. Ela é feita para produzir prédios malucos, com marquises malucas, com coisas doidas desse gênero. Para quê?

Porque é uma imaginação desinibida de paternalismo que produziu isso. E está acabado. É a anarquia completa, mais completa que possa haver.

Ou seja, é o demônio. Quer dizer, essas legiões de moços em cujas mãos se quer pôr o estandarte de Marcuse, esta Revolução, na medida em que esses moços foram preparados para ser marcusianos — marcusianos sem lerem Marcuse — já é uma Revolução satânica.

Isto é preciso a gente ver bem.

Se nós nos encontrássemos diante de uma coluna de gente conscientemente marcusiana, definidamente marcusiana, nós não teríamos discussão possível, não teríamos nada, era pegar metralhadora e ir matando. Porque com isso não há mais nada. É o bárbaro em estado puro, o agressivo contra o qual a gente joga bombas para liquidar, como se fossem feras.

Estivesse por cima de nós, digamos, uma série incontável de tigres: o melhor regime é passar a metralhadora nos tigres. Depois, mandar queimar os tigres e está acabado.

Aproveita a pele. Dos marcusianos, nem a pele se aproveita. É enterrar.

* Todas as anteriores revoluções encontram sua explicação na doutrina marcusiana da revolução estudantil da Sorbonne

Para nós, esse livro é um livro precioso porque a iniqüidade contra a qual nós nos batemos se mostra aqui com a cara aberta e com a ação política organizada, para se realizar no mundo de hoje, para tomar conta do mundo de hoje. [E que são] os movimentos de estudantes.

Em função dela nós compreendemos tudo. A Revolução Francesa, o protestantismo, o comunismo, o nazismo, tudo isso se pode compreender. Querem ver?

O nazismo. A gente diria que o nazismo é eminentemente antimarcusiano. Não é essa a verdade. Quando a gente examina o nazista, o nazista é um filho do impulso também.

O líder nazista não é como um rei que em nome de um princípio extrínseco ao indivíduo é superior ao indivíduo, manda no indivíduo. O fürher é um braseiro de impulsos que se comunica a todos os outros e que ele arrasta, mas arrasta pelo consentimento voluntário de todos. A obediência nazista e fascista não é a obediência católica. É uma outra coisa.

Assim poderíamos fazer um curso muito interessante que seria: “o nascimento da Revolução dos instintos — na Revolução tout court, com maiúsculas — e a produção das mil formas de “instintivação” ao longo dessa fase que vai do humanismo até hoje”.

* Um paradoxo incrível: a sociedade mais requintada do Ancien Régime já sonhava com um mundo em que estivesse isenta a repressão dos instintos

Por exemplo, quando os nobres franceses da cultura clássica — portanto, cartesianos — se regalavam com quadros e bibelots — apresentando, por exemplo, à la Watteau — pastorinhos, pastorinhas, no campo, com bichinhos brincando, com regatinhos e não sei mais o quê, ou com divindades mitológicas nuas no campo. O que tinham em vista era o sonho de uma ordem de coisas em que não houvesse necessidade de nenhuma repressão sobre os próprios instintos e nenhuma hostilidade da natureza contra o homem.

Porque todas as tensões teriam desaparecido e todo o mundo viveria feliz. E esse sonho era participado — sonho de barbárie, de anarquismo no fundo, — era expresso em lindos quadros, em lindos bibelots, em obras de arte requintada, por gente de uma cultura clássica, de uma cultura, portanto, muito apertada, muito estrita, mas, no fundo, sonhando com o contrário de si mesmo.

Por exemplo, como é que a gente pode compreender que uma época que produziu os tecidos talvez os mais bonitos da história e roupas de uma elegância requintada, [essa] época sonhasse continuamente com o nudismo, como era a Europa de antes da Revolução Francesa?

É um paradoxo, mas é isso. Raramente o bibelot, representando o marquez e a marquesa do século XIX exprime uma nostalgia da sociedade diante da Revolução Francesa.

O bibelot de antes da Revolução Francesa é um fauno, é um deuzinho mitológico, é um paravento no qual estão pintadas figuras que são auroras, hebes e sei lá o quê, no meio das nuvens, tudo com característica das estátuas gregas.

As estátuas gregas apresentavam a completa fusão dos sentimento com a razão e a espontaneidade não ascética da natureza humana. Disso a gente poderia ir longe, nessa preparação enorme disso.

E quando a Revolução falava de liberdade, igualdade, fraternidade, ela falava, na realidade, desse anarquismo que é a liberação do instinto. Isso é o fundo da coisa.

Então, encontramos agora a revolução declarada e direta do do instinto.

(Sr. –: […inaudível])

[O microfilme termina abruptamente]

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