Reunião Normal (Auditório da Santa Sabedoria) – 14/6/1968 – 6ª-feira [RN173] – p. 24 de 24

Reunião Normal (Auditório da Santa Sabedoria) — 14/6/1968 — 6ª-feira [RN173]

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Eu fiz numa dessas sextas-feiras uma palestra a respeito da sede de almas, mostrando no que é que consistia essa sêde: qual é o fundamento dessa sêde de almas etc. E a meu pedido naquela ocasião o João Clá ........... slides de algumas figuras de santos mas autênticas, não imagens de fantasia mas figuras autênticas, tiradas provavelmente daquele livro alemão?

(Sr. João Clá: É isso mesmo.)

Der vargue esist”?

(Sr. João Clá: Isso.)

É. Exatamente. A verdadeira fotografia dos santos. Eu me lembro que foi um dos primeiro que nós mandamos vir da Europa nos primórdios daqueles tempos de junção da Martim com a então Vieira de Carvalho para “Ambiente, Costumes, Civilizações” e até hoje nos tem servido porque só tem fotografias autênticas dos santos ou de máscaras mortuárias, enfim coisa que não entra fantasia e que é a verdadeira face dos santos. E então nós vamos fazer aqui alguns comentários que naturalmente vão ser de duplo sentido conforme a fisionomia do santo. Ou mostrando o que no santo nos deve dar a sede de almas ou mostrando a sede de almas do santo. Mas num ou doutro modo ilustrando essa doutrina da sede de almas que é tão importante para nosso apostolado, eu pediria portanto ao João Clá de começar a projeção.

Porque ter sede desta alma? Como é esta alma e porque ter sede dela? Aqui é São Pio V. Os senhores notarão uma coisa curiosa. É São Pio Vão com certeza é máscara mortuária, não é João?

(Sr. João Clá: É isso sim.)

Bem. Os senhores notarão uma coisa curiosa. O nariz. Um nariz possante, enorme, parece que chegava a ser meio disforme de tamanho o nariz dele, mas com um corte muito definido que tem qualquer coisa do bico de águia, qualquer coisa de uma ave de rapina. É coisa curiosa mas não é só a cartilagem e o osso do nariz que indicam muito a fisionomia de uma pessoa mas é também esta concavidade aqui e o modo pelo qual ela se resolve nos lábios e esta linha aqui isto indica muito, concorre muito para dar a expressão fisionômica à pessoa. Olhe, os senhores vêem que é um movimento possante, muito definido, e aqui também o bico a idéia de bico de águia muito definido, não é verdade? Os senhores notam esse olhar, esses olhos que estão no fundo de cavidades, uma cavidade ocular óssea possante também, tão possante que o olho fica um pouco pequeno dentro da cavidade ocular, e até fica um pouco de fora, fica meio saltado. Eu devo dizer de passagem como não tem ninguém na sala assim, eu até tenho um pouco de nó com esse gênero de olhos assim. Bem. Lábios que a gente vê que são retos, traçados numa só fila. Tudo isto dá idéia de um homem de uma personalidade fortíssima, e de uma personalidade fortíssima no próprio sentido da palavra personalidade. Quer dizer, é o contrário desse tipo de miseráveis de que nós falávamos depois da conferência do Dr. Adolpho que se guiam sobretudo pelos instintos. Aqui a razão, a inteligência e a vontade atingiram toda a maturidade que num homem podem atingir e devem atingir. Quer dizer, a gente vê que é uma pessoa que se guia pelo raciocínio, por um raciocínio lógico, límpido e inflexível e que tem uma vontade de ferro para executar aquilo que sua razão indicou como verdadeiro. Bem. Aqui se percebe algo da fronte que também nesse sentido é possante e que confirma o conjunto da impressão que a fisionomia dá. O que nós sabemos [a respeito] da vida do personagem vai inteiramente dentro dessa linha. Agora, há qualquer coisa que por cima disto, um imponderável qualquer que por cima disto introduz, no lado da firmeza do santo a doçura do santo. Eu não sei se os senhores percebem que o modo pelo qual a cabeça está pousada é tão leve que se diria que está sustentada por mão de Anjo. Eu não sei se os senhores notam que o modo harmonioso pelo qual a barba cai, o modo pelo qual o bigode se resolve na barba, todos esses fios de barba aqui, tudo isto, não sei, daqui se desprende algo de tão doce, o modo pelo qual esta linha morre um contrafortes, algo de tão doce,de tão suave, de tão resignado à vontade divina que a gente vê aqui uma coisa que soberanamente me agrada ver, me comove e me enleva, é um homem forte como tudo contra os inimigos de Deus, mas nas mãos de Deus Nosso Senhor “christianus alter Christus”, ele é um outro cordeiro de Deus, fácil de governar, fácil de dirigir, aceitando amorosa e submissamente o que Deus quiser dele e por isso também paciente, amoroso e submisso para todos aqueles que ou arrependidos de seus pecados ou pelo menos envergonhados deles se apresentarem para Ele. É verdadeiramente o “Pastor Bonus”, terrível contra o adversário e ao mesmo tempo manso, bom paciente e misericordioso para com aqueles que não atacam a Igreja de Deus. É um Papa na própria expressão da palavra.

Agora, porque ter a sede desta alma? Eu pergunto o seguinte: não é uma maravilha que alguém tenha chegado a ser assim? Não é uma maravilha ver que uma alma houve que realizou por esta forma os desígnios de Nossa Senhora sobre a sua própria beleza moral? Não daria para a gente ficar longamente contemplando esta face?! Se nós pudéssemos nos aproximar dele de joelhos, se nós pudéssemos implorar dele um bom conselho, um momento de compaixão, uma oração, que bem faria para a nossa alma! Bem.

O alegrarmos porque isto é assim independentemente de qualquer outra razão a não ser pela alegria de que isto seja assim e de que isto reflete a Deus Nosso Senhor, isto é que está no “Gloria in excelsis Deo”, não é. “Gratias agimus tibi propter magnam gloriam Tuam”, meu Deus, nós Vos damos graças por vossa grande glória, eu Vos dou graças me Deus pela glória que tendes neste homem, porque ele é assim e porque ele se parece convosco eu fico alegre e eu tenho sede de que essa alma seja assim, eu tenho sede de que ela seja vossa por esta forma, eu tenho sede de olhar a essa alma e de admirá-la e pela admiração algo dela se transfundir em mim, porque a admiração tem isto de próprio, a admiração não é senão o amor e uma das mais altas expressões do amor no sentido verdadeiro da palavra, a admiração tem isso de próprio que ela transfunde em nós aquilo que nós admiramos. Quando nós admiramos desinteressadamente algo, aquilo entra em nós, e à força de contemplar tanta força nós ficamos mais fortes, à força de contemplar tanta doçura nós ficamos mais desapegados, nós ficamos mais renunciando mais a nós, mais prontos a ceder aos outros, a ser bom para como os outros, pacientes para com outros, deixarmos até sugar pelos outros por bondade, porque Deus e Deus e porque Nossa Senhora é Nossa Senhora.

E então aqui está um enlevo racional – eu digo racional no sentido de razoável – inspirado pela fé por esta alma dá-nos sede de ter algo desta alma em nós, dá-nos sede de que esta alma seja assim e que ela seja de Deus Nosso Senhor. Aqui estaria uma interpretação dessa extraordinária fisionomia de São Pio V. Eu não sei se alguém quereria, do fundo dessas trevas,me perguntar alguma coisa, que eu não estou vendo ninguém. De maneira que é melhor não fazer sinal, se alguém quiser, faz favor de falar diretamente. Queria fazer o favor de mudar. João Clá, vira um pouco para trás (referindo-se ao slide): O-olha o bico! Os senhores estão vendo que… deixa aparecer só o nariz. Os senhores estão vendo que bico!

Que santo é este?

(Sr. João Clá: São Francisco de Borgia.)

É uma compleição moral, psíquica etc., completamente diferente. Começa por aí que ele é muito mais fidalgo do que São Pio V. Em São Pio Vão aquela voluminosidade nasal, aquilo tudo tem qualquer coisa de um pouco forte daquela força da natureza quando ela não é bem polida nem bem lixada por séculos de uma educação requintada. Em São Francisco de Bórgia a gente vê outra coisa, não sei se os senhores notam logo no começo o fidalgo,os traços são discretos,nada irrompe muito, tudo é muito harmonioso, há uma linha coerente que vai daqui até aqui, e depois uma proporção nesta linha de cá, tudo é proporcionado, a fronte é proporcionada ao nariz, o nariz é um pouco grande, o nariz é proporcionado a esta parte de cá, depois de outro lado esta linha é proporcionada a esta, depois aqui os senhores vêem os arcos dos olhos também muito mais moderados, sem ter aquilo de vulcânico da face de São Pio Vão, a primeira impressão que se tem é o aristocrata, do aristocrata que tem consigo esta marca que muitas vezes a formação aristocrática traz que é uma espécie de temperança, de discrição, de moderação, que à primeira vista pode até parecer falta de personalidade, mas que não é, é a máscara do aristocrata habituado a esconder, a ocultar as suas paixões para apresentar uma fisionomia uniforme que é a fisionomia que se usa numa corte. Quer dizer, a primeira impressão que se tem é do aristocrata. Bem.

A segunda impressão que se tem é a impressão de paz. Esta paz não é a paz de qualquer fisionomia de um morto. Toda fisionomia dos mortos está em paz porque há uma distensão completa dos músculos, mas esta não é porque é uma paz especial, há qualquer coisa nesta fisionomia que dá a impressão de que estes olhos e esta boca sorriem. É uma coisa muuuito ligeira, é uma coisa muuuito tênue e de um sorriso que eu não sei o que é que tem de verdadeiramente sobrenatural, é como quem estivesse divisando ao longo [longe], muuuito looonge, uma suavidade contemplada com tanto mais enlevo quanto ela está longe e o espírito então pode voar até ela por várias regiões serenas e espaçosas até atingi-la, e isto ao menos me parece ver tanto no olhar dos olhos aliás também muito encovados, não sei se não será defeito e talvez também no caso de São Pio Vão, da técnica de confecção de máscara mortuária naquele tempo, mas também nos lábios que não têm aquela comissura férrea dos lábios de São Pio Vão mas que têm qualquer coisa de pronto para esboçar um sorriso, qualquer coisa de ameno. Entretanto, quando a gente presta atenção os senhores vêem sobretudo nesta linha aqui e na regularidade perfeita dessas sobrancelhas, os senhores vêem qualquer coisa de lógico. Esta moderação toda e este domínio todo sobre si mesmo é na base da lógica é um domínio feito por lógica segundo lógica, a serviço da lógica, é propriamente o domínio da inteligência sobre a vontade e da vontade sobre o homem. E quando a gente presta mais atenção e afixa sobretudo sobre as orelhas ligeiramente de abana que muito freqüentemente querem dizer obstinação, persistência, nós notamos o seguinte que por detrás disto aparece a figura de uma pessoa que lutou para ter fortaleza, para ser de fato um homem forte porque não era propriamente forte de natureza, mas que conquistou isto a duras penas e que tendo conquistado morreu na paz da lógica, na paz da coerência, na paz da vontade que fez aquilo que devia fazer, tudo a serviço da fé. Onde é que está a fé dentro disto? A fé está sobretudo nesta doçura imponderável que dá uma nota de sobrenatural – eu não quero dizer que fé seja sempre igual a doçura, mas nestes dois casos concretos, sobretudo eu não quero dizer que doçura seja sempre igual a fé – mas nestes dois casos concretos há uma doçura sobrenatural que se nota e que constitui o marco distintivo da sobrenaturalidade nessas fisionomias. Mas ainda prestando mais atenção a gente percebe um homem que no fundo deve ter sido tímido, deve ter sido até um pouco pusilânime,deve ter sido meio comodista e meio molengo. O temperamento dele não é um temperamento de grande riqueza como é o de São Pio V. Ele facilmente podia dar para a “pouquice”. E ele fez esta coisa dificilíssima: com o auxílio da graça soerguer-se do pantanal da “pouquice” e dar um homem forte na acepção própria da palavra. Agora o que, que agrada aí?

Agrada aí exatamente este ponto: é uma harmonia entre duas antíteses que não são propriamente, a delicadeza da compleição da pessoa e de outro lado a força. A força é uma coisa tal que ela pede sempre um complemento. Mas ela é algo de tal que sem ela nada é nada. A força pede sempre para ser completada por algo, mas sem ela nada é nada. E aí nós temos então, não mais a força da ave de rapina, da águia, mas nós temos aqui o cordeiro que se fez forte com a fortaleza do Leão de Judá, pela lógica, pela obstinação, pela aplicação da inteligência e da vontade, mas que conservou aquela delicadeza, aquela leveza de personalidade que constitui aí algo de especialmente atraente. É claro que no Céu ele dá a Deus Nosso Senhor uma glória especial que não é a glória que dá São Pio Vão, mas que Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo no alto da Cruz, quando disse: “Sede”, teve sede desta alma, e que as graças que Ele conseguiu, que Ele conquistou para este santo foram graças que Ele teve a intenção de comprar com Seu Sangue infinitamente precioso, e atendendo aos rogos onipotentes de Nossa Senhora concedeu essa graça, Ele quis que este homem fosse assim, este homem quis ser como Deus quis que ele fosse e no ósculo destas duas vontades, a vontade onipotente de Deus e a vontade débil de um pecador houve a penetração da força divina nele. E aqui nós temos São Francisco de Bórgia.

Agora, se Deus no Céu se enleva em ver essa alma, e se a alegria de Deus extrínseca – porque Deus tem em Si mesmo uma alegria infinita, inesgotável, perfeitíssima que Lhe vem de Sua própria pessoa e que não precisa de nada de extrínseco – mas se ele alegra a Deus no Céu e se o que no Céu alegra a Deus é ver as almas e se Nosso Senhor Jesus Cristo foi a sede de almas nessa terra posso eu pretender ter uma alma cristã, posso eu pretender ter uma alma católica se eu não tiver sede de almas também? E se ver isto para mim não é muito mais do que ver Versalhes, do que ver até La Saint Chapelle? É evidente, e enquanto eu não tiver o enlevo por uma alma porque ela é assim e enquanto eu não tiver a sede de que esta alma seja assim para que a obra de Deus se realize e em realizando-se dê a glória a Deus, se enquanto eu não tiver sede disto eu não tenho uma alma católica. E se eu souber ter sede disto então eu terei sede das almas que me rodeiam. Eu compreenderei que obras primas da Providência elas podem ser e eu terei sede delas Não sei se alguns dos senhores quereriam me perguntar algo.

(Sr. Uranga: Si esa persona …………… cambiado toda la gracia……..?)

Não, mas toda a expressão, porque o que é próprio da fisionomia humana e que sem mudar a cara a expressão pode mudar mudando por assim dizer a interpretação dos traços. Você quer ver por exemplo, uma coisa que eu não salientei porque… não é muito.. sua pergunta é perfeitamente respeitosa mas o que eu vou dizer não é muito respeitoso, eu só vou fazer porque se justifica aqui para o bem das almas. Se ele não tivesse tido a força que a gente nota aqui, esse nariz por exemplo, de forma indecisa – não sei se você percebe o indeciso do nariz – o nariz vem aqui parece que vai subir não sobe muito, achata de novo,depois ele abre e fecha e abre de novo e aqui ele se abre totalmente nesta linha, dava uma nariganga escorrida dessas perpetuamente endefluxadas, tá compreendendo? Também não que dizer que o perpétuo defluxo seja falta de virtude. De um moleirão. Eu creio que isto nem chamou a atenção dos senhores porque a expressão fisionômica está para os traços da cara como a vida está para o corpo. A gente, quando o homem morre nada na forma do corpo muda, mas a gente percebe que ele morreu. Quando muda do estado de graça para o estado de pecado mortal por exemplo, muda isto sem que propriamente o feitio dos traços mude. Eu não sei se eu me exprimir bem. Bem. Algum dos senhores quereria me perguntar algo, ou não?

(Dr. José C. Castilho: Não obstante certos traços físicos são mais adequados ……………virtude do que outros?)

Certos…

(Dr. Castilho: …orelhas de albano… sinal de obstinação por exemplo.)

Certa virtude… certos traços exprimem adequadamente o temperamento do indivíduo. Há uma ligação entre o temperamento da pessoa e a constituição do rosto. Agora, acontece que isto tem fundamento no seguinte: São Tomas de Aquino diz que Deus cria todas as almas dos homens iguais, e que é pela ligação ao corpo que elas recebem o seu elemento diferencial. A tal ponto que vem a pergunta. O que é que distingue então as almas que estão esperando a ressurreição. E ele diz que entra uma interferência especial da Providência para manter essa diferenciação, porque do contrário não se manteria. Bem. Agora, acontece que quando a pessoa pela virtude muda como por uma espécie de segunda natureza o seu estado temperamental habitual, isto de algum modo modifica a interpretação dos traços do rosto. Não sei se eu me exprimi bem.

(Dr. Castilho: Claro.)

Quer dizer, esta é a parte teórica da análise que eu estou fazendo, e que é muito importante. Sua pergunta me conduz a dar um esclarecimento muito importante, porque do contrário a gente chegaria a uma espécie de determinismo: nasceu com certa cara, está bom; nasceu com outra cara, está ruim. Seria uma espécie de frenologia de (Gal?), mas não tirada das bossas do crânio mas da configuração do rosto, não é?

(Dr. José de Azeredo: Ligação da natureza e da graça, não é?)

É isso. Como eu não vejo a fisionomia dos senhores no escuro eu insisto em perguntar se mais alguém quer me perguntar algo. Pode passar então. Os senhores aí também se quiserem me perguntar algo eu estou à disposição.

Vejam como é diferente! Diferente dos dois anteriores. É verdade que aqui está vivo, não é? Mas que vida, não é?!

(Dr. Luís Nazareno:Que santo é?)

(Sr. João Clá: São João de La Salle.)

São João Batista de La Salle. O que dizer, não é?! A primeira coisa…

(Dr. Azeredo:Em que faze da vida dele foi feito esse retrato?)

Sacerdote certamente, ou irmão leigo, porque olha aqui o rabá, não é?

(Dr. Azeredo: Ele andou por vales e montes, não é?)

Quem sabe se interessaria aos senhores eu dar a interpretação do que é que ele seria se fosse ruim, antes de dar como ele é bom? Ou preferem pelo o contrário, primeiro ele é bom, depois como é que ele seria se fosse ruim? Seria difícil acender um minuto a luz para eu consultar um instantinho? Os que preferem que eu dê primeiro a virtude dele para depois mostrar como é que ele seria se fosse ruim, levantem jo braço. Os que preferem que eu dê primeiro o lado ruim para depois dar o lado bom… os partidários do lado ruim são tão mais numerosos… Não é muito respeitoso para com o santo, mas para a edificação das almas etc., é uma coisa que se pode fazer, não é?

Ele seria propriamente se fosse ruim uma natureza pelintra e falsa. Eu não sei se os senhores estão percebendo o jeito dele, todo o jeito dele. Os dois olhinhos antes de tudo, não é? São olhinhos claros, espertinhos, vivinhos, mas assim desses olhinhos que se mexem medrosinhos, de quem observa as coisas superficialmente; não são olhos nascidos para a profundidade; de quem observa as coisas superficialmente, mas na superfície com um certa vida. E esta vivacidade é uma vivacidade meio assim de quem presta atenção por interesse próprio e meio medrosa. São os olhinhos medrosinhos. Aliás, ligeiramente vesguinho. Os senhores notam que os dois olhos não estão na mesma linha. Esse está mais encurvado para cá, não é? Bom. Depois a carnatura dele é toda molizinha. Ele é todo como se diz em francês, “potelé”, sem ser gordo nem gorduxo propriamente, rochunchudinho, e ele é feito de rochonchudurazinhas. Olhe a carinha, que a gente imagina rozadinha e molezinha, não é? Enfia um pau faz um buraco. Bom. O nariz todo gorduchinho também. Aqui, até aqui na testa, ele sem ser gordo é todo fornecidozinho em carnes, e o queixinho forma assim uma bolinha um pouco saliente, um pouco especuladores, de um homem esperto, que na medida que percebe que não tem muito perigo gosta de avançar um pouco em cima dos outros,de tentar alguma coisinha; falso como um gato, pronto para os recuos estratégicos, e medroso. De maneira que onde houver risco ele não se mete. Há qualquer coisa nele de gatinho angorá, qualquer coisa assim. Ao menos é como eu sinto o homem. Ligeiramente feminino. O que em europeu não quer dizer muito, porque como eles são claros, louros, de olhos claros também, facilmente um homem muito másculo tem uma fisionomia que para nós tupiniquinins parece um pouco feminina, mas afinal é como ele é, não é? Isto está claro para os senhores ou não está muito claro? É desolador ver dissecar assim um santo que está na glória dos Céus, e cuja relíquia talvez se venere um nossa capela? Acenda um pouco a luz, eu não sei falar no escuro, eu preciso confessar isto. Alguém quer me perguntar algo sobre isto, ou objetar?

(Dr. Antônio Rodrigues: Dr. Plinio, aquele sulco labial, entre o nariz e o lábio.)

Ah, lábio, o sulco tudo molezinho, não é? Lábiozinho gorduc…

(Dr. Rodrigues: ………………… esses sulcos?)

Aponta um pouquinho.

(Dr. Castilho: Está um pouco acentuado pela dobra do chapéu.)

Olha aqui, apesar de tudo tem dois riscos assim, mas que não dão força, poderiam dar força e não dão… e a boquinha é uma boquinha mole e toda bem desenhadinha, não é? Um pouquinho feminina. Comapara com os lábios de São Pio Vão, e a gente vê a diferença. A gente vê que dificuldades esse homem teve para ser santo, e depois eu posso dizer qual é a luz primordial dele

Agora, eu fico com muito medo de isso parecer muito subjetivo, ouviu? De maneira que digam com toda franqueza, eu posso igualmente tomar outro tema, qualquer coisa… Dr. Paulinho fez um sinal?

(Dr. Paulo Brito: Como é que se poderia interpretar aquela, aquela arcada, o cílio á esquerda dele mais elevado do que à da direita?)

Eu não cheguei a perceber bem isso.

(Dr. Paulo Brito: Do olho esquerdo dele a arcada ciliar é relativamente mais elevada. Dá um pouco a impressão de justamente talvez na linha da falsidade.)

Eu seria “pluteau” interessado em não sustentar isso porque eu sei levantar uma sobrancelha e não levantar a outra. Mas, eh… eu não vejo que seja mais elevado. É mais elevado?

(Sr. –: Um pouquinho.)

É? Eu tenho am impressão de que qualquer anomalia que haja aqui corre um pouco por conta também do strabismo, que isto tudo – eu não sou anatomista, eu sei que as coisas não são necessariamente correlatas,mas que pode dar-se, não é? Eu tenho um pouco essa impressão.

(Dr. Paulo Brito: Falsidade na linha má, mas esperteza na linha boa, não é?)

Espert… bom… mas enfim. Me parece o seguinte: que ele era… talvez eu dar a luz primordial e depois então a luta para se santificar.

Acontece com ele o seguinte: que é uma pessoa que tem uma certa delicadeza de personalidade por onde lhe horripila tudo aquilo que é monstruoso, tudo aquilo que é muito desordenado, tudo aquilo que é perturbado, que é turbulento, que é agitado é contrário ao temperamento dele. E com isso uma espécie … que está difusa na fisionomia dele e está na compleição temperamental dele, uma conaturalidade com aquilo que é harmonioso, com aquilo que é delicado, com aquilo que se passa segundo as formas, as conveniências e os estilos. E a partir disto uma facilidade de compreensão da virtude da castidade. Quase que a contrário senso, por uma oposição às ardências e às imundices da impureza, uma facilidade de compreensão da virtude da castidade. Donde é inegável que esse olhinho tem algo de puro. E que qualquer coisa de puro se nota como dominante na fisionomia. Bem. É preciso acrescer a isto o seguinte: que estas pessoas assim tem uma certa facilidade de se enlevar. E são almas de juma certa nobreza que pedem por ter um certo afeto às coisas mais elevadas do que ela. E pedem por ter uma certa confiança, são fáceis para prestar uma certa obediência e uma certa vassalagem, e são almas muito feitas para o estado temperamental que alguém tem quando está rezando numa igreja gótica e ouvindo o cantochão. Quer dizer, de algum modo eu indico com isto que são temperamentos por vários lados admiravelmente afins com a Igreja Católica, com aquilo que nós poderíamos chamar o temperamento da Igreja Católica, sobretudo da Igreja Católica latina. Os senhores querem ter uma diferença disso? Houve tempo em que provavelmente aquela igreja de São Basílio de Moscou, com aquele mundo de torrezinhas que emergem do chão, e que tem aquelas cúpulas de metal dourado, que varia de cor e acordo com o dia, etc., foi Igreja Católica. Este homem não se sentiria muito bem ali. Aquela efusão prodigiosa de coisas muito violentas deixá-lo-ia mal. Mas na Saint Chapelle ele rezaria como no lugar que lhe é próprio. Os senhores estão vendo aqui a conaturalidade dele com a Igreja do Ocidente. Bem. E daí uma facilidade a enlevar-se. E daí uma facilidade a abnegar-se. E daí uma facilidade até ser um lutador. Bom.

Agora, o conflito. O conflito é entre tudo isto que eu estou dizendo, e que pede lealdade, dedicação, renúncia, serviço, e um temperamento variável, fugidio, que num dia é de um jeito, noutro é de outro. E com um egoísmo felino. E que quando menos se espera toma um relação à virtude atitude de gato quando faz aquela corcova. O resultado é que ele deve ter tido lutas tremendas na primeira fase da vida espiritual dele para inalar um amor inteiro à Igreja. E na segunda fase para não cair por “pouquice”. A todo momento tendência de pocar.

Agora os senhores olhem para esta cara e prestem atenção no que há de fundamental. É impossível que os senhores não notem uma tranqüilidade de consciência absoluta, uma limpidez em que a gente pode olhar até o fundo do olhar é aquilo mesmo. Uma pureza que chama a atenção. E a força nasceu. E os senhores sabem como é que se nota a força? Sob uma forma especial curiosa: é a estabilidade, que é uma das manifestações características da força, não é? É uma fisionomia eminentemente estável, vencendo um temperamento descontínuo, agitado e complexo, variável. Bem.

Qual é a harmonia que este homem, qual é o culto especial que este homem dá a Deus? O culto especial que ele dá a Deus é ao mesmo tempo como de todo mundo, o culto de seus defeitos abatidos e de sua virtude conquistada. Agora, qual é essa virtude? Como é que ela exprime? Os senhores vêem aí de um modo saliente a meu ver a glória da Igreja latina. Ela se exprime aonde a Igreja do Oriente tem súplicas, tem elãs, tem ímpetos, tem êxtases, tem gemidos, tem implorações, tem grande drama; aonde os senhores encontram no espírito do espanhol a tendência para lances heróicos, para mortificações terríveis; aonde os senhores encontram no alemão a rudeza para mil combates; aonde os senhores encontram no italiano mil coisas várias porque é o povo mais vário da terra, mas encontram por exemplo, algo de romano em São Pio Vão, de velho romano, de velho senador romano, os senhores encontram aqui propriamente com algo de abonecado que é próprio ao francês, os senhores encontram a graça da França: ligeiro, ameno, atencioso, todo feito de harmonia, e de uma dessas harmonias que são o matrimônio, o desponsório entre o espírito e a matéria. É um corpo admiravelmente feito para se tornar espiritual. Os senhores querem o contrário pensem no Ademar de Barros um pouco e os senhores têm um corpo terrivelmente difícil de espiritualizar, e aí os senhores entendem o que eu quero dizer quando eu digo que é admiravelmente feito para ser espiritual. Se Ademar de Barros é Esaú, esse poderia facilmente passar por Jacó. Aqui está São João Batista de La Salle, e aqui está a glória que ele dá a Deus. Bem.

Minha alma não deve ter sede dessa harmonia? Se ele não tiver sede dessa harmonia ele não tem sede de Deus. Não sei se os senhores percebem que há qualquer coisa de indefinível e de elegante nele. Percebem uma certa elegância nele ou não? Mas é uma elegância que não é dada pelo rabá. Donde é que ele é elegante? É ele de “du pais de France”, está acabado. Eu não tenho essa elegância. Alguns dos senhores não terão. Mas é porque ele é… lhe foi dado aquilo que se chama o ser francês, um santo francês, está acabado. O que é que se pode fazer? Dar glória a Deus. E não ficar com inveja. Uns nacionalismos idiotas: “eu contesto isto: os heróis de José de Alencar, Iracema e…”

(Risos.)

Ah, faz favor, não é? Vamos falar seriamente, não é? Algum dos senhores, meus caros? Então vamos mudar. Os senhores não imaginam como é difícil fazer conferência no escuro, ouviu? É a mesmíssima coisa do que andar no escuro sem perceber aonde a gente pisa.

(Dr. Rodrigues: Dr. Plinio, a forma dele poderia dizer algo de inteligência?)

Eh, dessa inteligência de francês, ouviu? Mediana de um francês mediano, pronto para tudo, e capaz de alcançar tudo, mas sem ser genial em nada.

Como é diferente, não é?! Como é diferente! Que olhos! Não é? Que fogo! Os senhores comparem com a anterior, não é… a primeira coisa que não pode dizer é que ele é elegante, não é? Se ele for francês é francês do sul, daqueles franceses meio espanhóis, meio português, mas não é absolutamente da “ille de France”, o charme não tem, não é? Como a beleza dessa alma é feita de predicados completamente diversos!! Mas que coisa admirável ser uma chama viva e negra como ele é? Quem é esse santo?

(Sr. João Clá: São José Cafasso.)

Ah, é italiano. Mas os senhores vejam como é completamente diferente. O que, que se deve dizer dele? Eu tenho a impressão de que o que se deve dizer dele é que é um temperamento tão pronto a tomar fogo, e um fogo que de tal maneira se aliou a um amor concebido pela inteligência e a um ato de vontade, que penetrou e conquistou os olhos dele completamente. E que embora o resto da expressão, da fisionomia dele seja muito expressiva, ele é quase só olhos. Depois de ver este homem é possível a gente conversar sobre o nariz, a boca, a orelha ou qualquer outra coisa? É só olhos. A sensação que se tem não é daquele casamento entre o espírito e o corpo que São João Batista de La Salle dá mas é o contrário: é um espírito que arde tanto que consome o corpo, que quase não se dá conta que tem corpo. Nós podemos imaginar São João Batista de La Salle deitado numa cama e descansando como um Anjo na paz do Senhor; este aqui sentado, ajoelhado,de pé, deitado, fazendo qualquer coisa é o mesmo, e com os olhos fechados olha do mesmo jeito. Quer dizer, é simplesmente um colosso! Um colosso do que? É exatamente do que nativamente faltava a São João Batista de La Salle, seriedade. Aliás ninguém poderá pretender que a qualidade nativa do francês seja a seriedade, não é? Bem. É seriedade, não é? A seriedade que se exprime mais do que no negrume dos olhos, se exprime em algo de profundamente investigador, de profundamente interrogativo e analítico. Mas analítico como quem já analisa vencendo e dominando. Possui os critérios da análise, possui os instrumentos da análise, e sabe que não vale a pena analisar coisinha. É um olhar que não presta atenção em bagatela. Se passando por uma rua dele cruza com dois cachorros que estão correndo um atrás do outro, ou ele não vê ou ele vê naquilo um símbolo de algo. Porque se não for para ver coisa profunda e transcendente ele não vê nada. É uma coisa admirável este fogo e esta chama. Mas o olhar no mesmo tempo é profundamente ligado a um ato de vontade. Toda esta análise, toda esta coisa se chama firmeza! Não é apenas penetração de inteligência mas é firmeza. Não se chama apenas firmeza mas está ai o “agredi” de São Tomás de Aquino. A gente vê que se lhe dessem uma Cruzada – ele que nunca foi cruzado, que tratou de obras de caridade, etc., etc. – se lhe desse uma Cruzada para comandar ele teria aquela eloq… para convocar ou para pregar quer dizer, ele teria aquele eloqüência de fogo que levantaria as massas. Agora, os senhores notem provavelmente percebem há um fundo de tristeza nesse olhar. Uma tristeza muito pacífica, neste sentido de que ele está muito em paz. Uma tristeza que pergunta no fundo: “Vocês também?! Até vocês? E foram até lá, e fizeram até aquilo, e pecaram até de tal modo?! Chegou a isto? Então é bem assim? Então pode ser que as coisas sejam essas?” E no fundo o seguinte: “Eu já sabia que para a maldade humana e para os seus mútiplices efeitos não tem fundo, e (?) mais que o meu olhar perscrute não há fundo, porque isto é um abismo que o olhar humano não chega a tocar até o fundo. Que horror!” É um homem profundamente ciente de que nesta vida não se encontra nem alegria, nem deleite nem nada na ilusão de que o mundo seja bom, e de que a única realidade verdadeira é considerar o mundo como nada, e portanto necessária a existência do Céu. Porque se o mundo é o que é, ou o existir é uma farsa, uma pagodeira e uma comédia; ora, é absurdo que o existir seja isso, ou então há um Céu. E aqui os senhores estão vendo o resto, o fundo desta alma como é que se põe: é um contraste, uma alta idéia das coisas como deveriam ser, uma alta idéia dos modelos ideais como eles deveriam ser, uma alta idéia de como é a ordem celeste da qual a terra deveria ser um reflexo. E daí a lucidez dessa análise, a firmeza dessa fidelidade, a energia desse repúdio, e o fogo desta alma! É toda uma meditação. Bem.

Quem é que quereria ser responsável por chegar a este ouvido, e num momento qualquer, lhe dar um conselho imundo, e deteriorar esta alma, induzir este homem em pecado. Que remorso teria alguém que tivesse praticado isto! A gente compreende, sem nem de longe justificar, mas eu digo que a gente pode se imaginar qual tenha sido o desespero de Judas, porque seria a sensação de vender mais uma vez Nosso Senhor perverter esta alma. Bem. Aí os senhores compreendem a contrário senso como ela é bela. E se deveria dar tanta aflição deteriorá-la quanta alegria em concorrer para santificá-la. Quanta alegria em que ela seja assim embora a gente não tenha concorrido para que ela fosse assim. Quer dizer, quanta sede desta alma! O que é que e sede aqui? É desejo ardente de que ela seja como é. Desejo ardente de que ela pertença a Deus por ser como é, em sendo como é. Desejo de que pela veneração, pelo enlevo, pela ternura a gente algo disto condescenda em baixar até a alma de cada um de nós. Aqui está a sede de almas. Não sei se alguém me quereria me perguntar algo. Os senhores quereriam? Vamos passar adiante. Uranga parece que queria perguntar alguma coisa?

(Sr. Uranga: Sim, Dr. Plinio. Toda la virtude que se ve en todas esas caras de los santos son todas reflexos de la Santa Face?)

De algum modo sim. Quer dizer, se nós conseguíssemos ver face a face a Sagrada Face nós teríamos a idéia de uma plenitude de virtude em que cada uma dessas coisas é um minúsculo raio, uma minúscula centelha. Eu poderia indicar na Santa Face, no Santo Sudário o que é que tem de cada um desses. Por exemplo, no Santo Sudário há uma seriedade transcendente e profunda! Eu nunca vi nada de tão sério como a Sagrada Face! Aqui está um pequeno reflexo dessa seriedade.

(Dr. Luís Nazareno: Qual é o nome dessa Santa?)

(Sr. João Clá: Santa Eufrásia Benetier.)

Eu diria dele que esta fotografia significa o seguinte, eu escreveria em baixo o seguinte: “Epílogo vitorioso, feliz e crucificado”. Porque evidentemente essa fisionomia é de um epílogo, não é? É uma pessoa que chegou a um tal grau de maturidade, há uma tal maturidade nessa fisionomia – e eu se me lembrarem depois digo porque é que se vê aí a maturidade – há uma tal maturidade nessa fisionomia, há um tal ar de quem concluiu uma longa vida, uma longa obra cheia de dificuldades interiores e controvérsias interiores tremendas; e de quem venceu sempre para o lado do bem, sempre acertando, sempre sendo fiel. É tão possante esta fisionomia feminina mas que tem qualquer coisa de patriarca, que a gente quase não saberia o que dizer.

Como é que isto se exprime? Eu poderia dizer que se exprime um muitas coisas do rosto. O rosto é possante, carnatura é possante, um nariz possante. Dos lábios eu nem preciso falar aos senhores. E entretanto é como em São Cafasso: tudo isso é supérfluo. Este rosto é todo um olhar. Agora, o que, que este olhar diz? Este olhar precisa ser analisado juntamente com as sobrancelhas. Não é um olhar como o de São Cafasso que abstrai até das sobrancelhas. Mas é um olhar para ser visto assim. Os senhores estão vendo que se não houvesse senão isto estava tudo dito. Agora, o que, que é isto? Os senhores notam que é um olhar… os olhos são claros, sem ser muito claros, não são claros comoso de São João Batista de La Salle por exemplo, mas são olhos claros, são olhos firmes, grandes, depois são olhos feitos para ver bem e ver muito, são olhos que a gente vê que fitam a partir de uma luz interior, e que são dos tais olhos que mais olham para dentro do que para fora. O olhar de São Cafasso era um olhar que olhava para o abismo de miséria da terra e para o Céu. Esta, olha para os abismos que ela teve que vencer em si mesma e para seu céu interior mais ainda do que para o abismo das dificuldades externas que ela teve que enfrentar e para as lutas externas que ela travou. Não sei se os senhores notam que é profundamente recolhido este olhar. Recolhido na consideração de sua própria alma, de sua própria vida, de sua própria realidade espiritual. Mas é uma coisa profundamente recolhida. Bem. Mas forte, como quem diz: “A força natural que Deus me deu, e que seria nada sem a graça, foi tocada pela graça, e por isto foi capaz de tudo”. E em baixo se poderia escrever aquelas palavras de São Paulo: “Omnia possum in Eo qui me confortat”, “eu posso tudo nÀquele que me dá força”.

Eu acho essa fisionomia admirável de equilíbrio, de serenidade e tudo mais. Acho uma coisa estupenda. Paulinho, perguntou algo, ou não? Desculpe. Algum dos senhores quereria me perguntar algo?

(Sr. Luis Solimeo: Dr. Plinio, quando Santa Maria Eufrásia Pelletier (?) morreu um jornalista de Angers, onde ela morava disse que tinha morrido o único homem de Angers.)

Eh! Aí está vendo. Aí está vendo. Quer dizer, o que, que é… eu vou fazer comparações para os senhores verem. Ela é francesa. Ela é de um outro tipo de francês, não é o francês tipo São João Batista de La Salle, harmonioso, abonecado, mas há um tipo de francês assim…Eu vou dar uma comparação que é evidentemente baixa de nível, mas o que, que eu posso fazer? Ela é tão sugestiva que os senhores vão perceber o patusco perto da grande pessoa: o de Gaulle. Os senhores compreendem o gênero de gente é esta?

(Dr. José Fernando: E tem classe, não é?)

É, é aquilo, não é? Mas olhem para aquela cara do de Gaulle na televisão: estrião, palhaço, e gente tem vontade de dar três ponta-pés e mandar embora, jogando em cima dele uma moeda aviltante, dizendo a ele: “Vá comer um sanduíche ordinário, podre para manter sua vida inútil, nociva, nefasta”, não é isto? Aqui os senhores têm um tipo de gente. Ela é dessa espécie de construção, não é? Mas que outra coisa! Para a gente saber como o de Gaulle não é nada, basta olhar para isso. Porque isto é um monumento, não é? É uma coisa fenomenal. Bom.

(Dr. Paulo Brito: Se o de Gaulle correspondesse à graça daria um santo desse tipo?)

Ah, certamente, seria um santo desse tipo. Não seria um santo tipo São João Batista de La Salle.

(Sr. Gustavo Solimeo: Dr. Plinio, o que é que mostraria onde é que está a maturidade nessa fisionomia?)

Ah, a maturidade está exatamente nisso. O que, que é maturidade? Não é? Nós dizemos que… bom. A gente fala sobretudo… madura a gente fala de uma fruta, não é? E a baixa de nível na consideração de idéia de maturidade é que está bom para comer, não é? Mas de fato não é? A maturidade é o estado de uma coisa viva quando ela realizou todo aquilo de si mesmo, desenvolveu de dentro de si mesmo tudo aquilo que tinha de desenvolver. Isto é que é propriamente maturidade, não é? Tanto é que quando a fruta está no estado de maturidade ela desenvolveu o que tinha que desenvolver. Além daquilo é putrefação, é deterioração. Bem. Mas no espírito humano as formas de maturidade variam de acordo como o tipo do espírito. E há um certo tipo de espírito que matura pela controvérsia interior dolorosa entre o bem e o mal; e entre o pró e o contra,e que quando atinge o apunhalamento final do mal matura. Na hora em que há o holocausto, chega à sua maturidade. Há qualquer coisa aqui de quem entregou tudo, deu tudo, não reservou nada, fez todos os sacrifícios e está em estado de holocausto.

Vendo esta figura eu teria vontade de dizer o que disse o que disse Nosso Senhor de São Bartolomeu: “Aqui um verdadeiro israelita na qual não há fraude” 1. Quer dizer, tudo é autêntico e realiza o ideal do filho da nação eleita feito para receber o Messias. Aqui eu diria: “uma verdadeira esposa de Nosso Senhor Jesus Cristo, filha da Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana, na qual não há fraude. Tudo foi feito, tudo foi entregue, todas a batalhas foram travadas, tudo foi dado! Ela sim poderia resistir a uma análise implacável de si mesma! Ah eu respeito isso!!! Eu confesso que de todas as fisionomias de santos que vimos até aqui a que mais me enleva é essa. Seria depois interessante qual é a que mais enleva a cada um dos senhores, é tão íntima a pergunta que eu não sei se vale a pena fazê-la. E depois eu não também alguns vão sentir embaraço. Mas nós poderíamos passar as caras todas de novo e depois fazer um interrogatório.

(Dr. José Fernando: Uma votação secreta.)

(Sorriso)

Bem. Quer fazer o favor de passar?

São João Bosco. Ele é compatriota de São Cafasso, e é contemporâneo. O curioso é que os traços do rosto são tão diferentes quanto possa ser, não é? Mas o olhar, que também são olhos muitos diferentes, o olhar nem tem o fogo do olhar de São Cafasso. Mas o olhar tem a mesma expressão de tristeza, de análise, de interrogação e de tristeza. À primeira vista parece um olhar risonho. E nos lábios há qualquer coisa de risonho. Mas é de quem depois de ter visto tudo e ter passado por tudo, até já sorri. É um estado de alma.

Eu tive a alegria com alguns dos que estão aqui na sala, de contemplar o rosto, com carne e pelo tudo, de uma verdadeira santa: Santa Catarina de Bologna. Sentada, em cima um altar em Bologna. O corpo dela se conserva incorrupto e exposto ao ar, inteiramente. É uma verdadeira maravilha, é um milagre provavelmente. Bem. Havia um sorriso, mas um sorriso que vinha do fundo de mil renúncias aceitas, de mil amarguras lealmente vistas e tomadas com tais, e que no fundo então dava aquele sorriso de quem compreendem que tudo resumido, tudo aceito, tudo renunciado, tudo imolado, afinal a alma encontrou aquele equilíbrio e aquela paz que são antecâmara do Céu. Há qualquer coisa assim em Dom Bosco. Os senhores procurem ver se ele está olhando um colégio. Não, ele está olhando qualquer coisa um duplo olhar: de muito alto, de muito ideal e que o enleva, e ele está contemplando com tristeza qualquer coisa de muito horrível que lhe repugna. Ambas as coisas estão expressas dentro desse olhar.

De outro lado é uma cara eminentemente plebéia, mas que tem qualquer coisa de majestoso. De majestoso no porte do pescoço, da cabeça, de majestosa em uma certa dignidade de quem sabe os tesouros que Deus lhe pôs na alma com a vocação para o sacerdócio, para a fundação de uma ordem religiosa, pelas inúmeras graças que recebeu. Qualquer coisa de até autoritário — neste sentido da palavra, no sentido bom da palavra — firme, mas com muita mansidão, com muita bondade, daquela bondade de quem já viu tudo, não se espanta com mais nada…………….. que são na alma, ele não ousava enfrentar a pesquisa do olhar de São Pio X. Nós não nos sentiríamos intimidados se esse olhar se pusesse no nosso? Ao mesmo tempo inquietos, se esse olhar se pusesse no nosso? Ao mesmo tempo inquietados, tranqüilizados. Não sairiam de nós mil serpentes?! Ano entraria uma paz que nós não conhecemos? Os senhores estão vendo aqui o educador, o formador de almas, aparecendo mais eminentemente do que nos outros santos. E aqui os senhores têm a grande alma de São João Bosco. Bom.

Dando o lado diferente…….. até que ponto interessa ver o lado errado………. desse santo aí ou desedifica…… Liga um pouco a luz aqui, … Levantem o braço os que reputem… É minoria, a maioria prefere não. Vamos respeitar a preferência da maioria.

(Várias pessoas dizem não.)

(Sr. –: O senhor não formulou a pergunta inteira.)

Os que preferem que eu dê como seria ele se ele não se fosse santo tenham a bondade de levantar o braço. Bem. Então, em duas palavras:

Inconstante, petulante, caprichoso e vulgar.

(Sorrisos no auditório)

(Sr. –: Palhaço, também, não é?)

É, palhaço! E outra coisa: de circo, hein, tapeador, ouviu? Mas, olha aqui, de tudo. É triste mas é. Mas o que que nós podemos fazer? É assim: Adelante.

(Sr. –: Santa Gema.)

Santa Gema Galgani, não é? No……. amos um mundo não é? Mas o que não há é uma alma desbotada e sem personalidade, não é? Isso não há, porque aqui tem personalidade a conta inteira, não é?

Eu vou tocar aqui num ponto delicado. É a questão doa formosura. A meu ver — naturalmente isso varia muito de juízo de pessoa para pessoa — mas a meu ver, sem ser lindíssima ela é bonita e até bem bonita. O oval, como que oval do rosto, muito bem traçado, os traços todos regulares, bonito o nariz, bonita a boca. Eu tenho uma qualquer alergia com a caixa dos olhos, mas os olhos são bem bonitos, sobrancelhas muito regulares, a implantação do cabelo muito direita. Vê-se de cabeça à qual não falta uma certa nobreza, e depois vê-se nela uma vida, um movimento! Quer dizer, a meu ver ela é bonita.

Só a título de curiosidade ligue um pouco a luz de novo faz favor. Quero ver um pouquinho quem é que acha, na geração nova, mas com toda franqueza, eu creio que para a minha geração é isto assim. Quais são os que acham no plano puramente humano que ela é bonita levantem o braço, deixa eu ver um pouquinho. A quase totalidade. Tem uns três ou quatro que não acham. Deixe eu ver aí. Levantem o braço. A quase totalidade. Agora, desliga ai.

(Dr. Luís Nazareno: Parece o seguinte que ela é bonita depois que o senhor explicou a beleza que é.)

(Risada em grande quantidade.)

Eu queria saber quantos concordam com o Dr. Luizinho, levantam o braço. Levantam o braço todos que concordam com o Dr. Luizinho, deixe eu ver. dois, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove. Ihhh! Do lado de cá eu nem sei. Bem.

(Dr. Eduardo Brotero: Há um [nuance?], Dr. Plinio.)

Qual é o [nuance?]?

(Dr. Eduardo Brotero: É o seguinte, que o… com os comentários do senhor aí fica indiscutível.)

Sei. Seria uma impressão antes, e fica indiscutível depois, é isto?

(Dr. Luís Nazareno: Eu por exemplo quando olhei assim mas os olhos bonitos, mas o resto passaria…….. Com o seu comentário se nota que o conjunto é bonito.)

É bonita! Bem.

(Sr. Gustavo Solimeo: A boca, Dr. Plinio, eu…)

Não sei, boca eu não prestei atenção. Passa um pouquinho para eu ver. É uma coisa curiosa: não é uma boca a meu ver nem bonita nem feita, um pouco tendente a grande. Mas se a gente fosse imaginar aí uma boquin-nhi-nhi-nhinha, escangalhava. Porque essa beleza evidentemente é em parte uma beleza física e em parte uma beleza de fisionomia. E não iria boquinha de artista de cinema de dez anos atrás não iria aí não é?

(Dr. Azeredo: Ocultando a parte superior do rosto e deixando a boca a gente vê que a boca não é muito grande.)

É, não é não.

(Dr. Castilho: Ela está com a boca aberta, não é Dr. Plinio? Esta coma boca entre aberta… e talvez um pouco saliente.)

É. É agora que eu estou prestando atenção, a gente tem a impressão que o desenho é correto, o contrário do que me tinha parecido, agora eu estou vendo bem como é que corre a coisa: O desenho é correto. Ela é a meu ver um pouco grande e parece ter sido uma boca um pouco desbotada, um pouco pálida. Mas por exemplo, o nariz eu acho uma coisa muito bem feita, muito bem feito. Eu compreendo o que é que pode causar para a geração nova, deixe eu ver interpreto bem a sensação primeira de vulgaridade de feiura. Primeiro o penteado, o penteado devem achar raríssimo. Depois, a roupa toda preta também e aqui esse cabelinhos tudo aparecendo atrás.

(Sr. –: …)

Como é?

(Sr. –: …)

Como é?

(Sr. –: …)

(Sr. –: Dá nó.)

Dá nó, não é? Mas enfim me parece que é bonita. Agora eu toco um ponto que é importante que é o seguinte: é uma tese muito complicada, mas vamos ver se a tese sai. Essa beleza dela é feita de dois elementos: ela é fisicamente bonita, ela é fisionomicamente bonita. Quer dizer, os traços são bonitos, mas se espelha aí uma linda alma. Querem que eu descreva a beleza da alma antes de prosseguir, ou como é que é?

(Várias pessoas: Queremos sim.)

Bem. Esta alma é toda feita de si do seguinte: “o bem é o bem e o mal é o mal, e na pode ser que se viole o bem, e não é admissível que se pratique o mal. E eu mesma, custe o que custe o que custar farei o bem e não o mal. E não concedo a ninguém em minha presença ou em minha ausência de ser de outra maneira. Terá de mi uma censura porque eu sou combativa, eu não me limito a cruzar os braços, eu me meto na vida dos outros, em nome do bem e contra o mal. E eu tenho uma censura a fazer a todo mundo que anda mal. Mais ainda estou habituada a censurar, porque estou habituada a ver cada coisa, mas eu bem que percebo. Eu sou integra e eu sou virginal no sentido mais amplo da palavra, eu me dei a Deus Nosso Senhor, me dei se bem, e em mim não há mácula de nenhuma forma de concessão. Esta sou eu”. Quer dizer, tem qualquer coisa, — sem ela ter sido de nenhum modo uma batalhadora — de joanadárquico. Alguém quer objetar? Eu estou à disposição. Bem. Agora. E depois outra coisa: pronta a censurar alguém, não é? O Profeta Natan poderia ter entrado em cada de Davi com essa expressão de fisionomia, não é? Nós poderíamos imaginar Santa Catarina de Siena que parece que na foi parecida com ela nem um pouco, nós poderíamos imaginar Santa Catarina de Siena fazendo “remontrances” ao Papa, com essa cara. Não poderiam imaginá-la aparecer assim no Vaticano e falar com Paulo VI? “Tibe non licet” E que fogo isto teria! É uma coisa admirável. Bem. Agora aqui vem a ligação da beleza física com a beleza fisionômica. Ela sem ser lindíssima, ela não tem traço nenhum extraordinariamente correto, a beleza dele é feita de que não tem nenhum incorreção. Tudo está bem posto, bem alinhado e correto na cara dela. Tudo é coerente e tudo é puro. Sentimentalismo nenhum, sem ser um pouco uma alma gélida, nem calvinista, nem de longe qualquer coisa que se pareça com isto. Mas é uma pessoa que é integra. E a beleza é a beleza de integridade. A beleza da alma e a beleza do corpo se juntam. Isto está claro ou alguém quer me perguntar algo a este respeito?

(Dr. Alberto Du Plessis: Dr. Plinio, quando eu vi essa imagem eu achei muito bonita, …. um pouco……… mas justamente quero saber se é uma impressão subjetiva ou se o senhor vê algum fundamento nisso?………………. um desconsolo muito grande, quase desesperado.)

Não é propriamente desconsolo, Alberto. Há nela qualquer coisa de funerário, não é isto? Isto sim. Mas é de uma pessoa que adotou o estudo de renúncia completa à vida e de… como nos outros santos mas marcado também por uma grande tristeza, quem não tem ilusão a respeito de nada nessa vida, mas não de desespero; de indignado. Eu vejo pelo contrário nos olhos uma luz que é exatamente a luz da esperança e da certeza, não da incerteza.

(Dr. Luís Nazareno: Parece que ela tinha tentações tenebrosas ao é?

(Dr. Alberto: A minha impressão foi completamente fora… fiquei com a impressão de uma pessoa que tivesse chegado assim no padre e padre dissesse: não, para esse pecado não há absolvição, e a pessoa se retiraria do confessionário com essa fisionomia. Inteiramente impressão completamente falsa.)

Não, não, não, eu não, não vejo isso nem um pouco. Você veja a tranqüilidade! Não é? Muita serenidade. Uma extraordinária segurança de que está andando bem. Segurança em si mesma. Talvez se eu der daqui a pouco o que seria o lado mau dela estão se justifique esta sua impressão.

(Dr. Paulo Brito: Dr. Plinio, ela tinha estigma, não é?)

Ela tinha estigmas, é?

(Dr. Paulo Brito e outro ao mesmo tempo: [Inaudível].)

É verdade, eu tinha me esquecido disso.

(Dr. Eduardo: Dr. Plinio, pode ser que a face para o Alberto esteja um pouco inclinada, Dr. Plinio, para justificar um pouco a expressão fisionômica.)

É. Exatamente eu a vejo aqui em outra posição muito “reversé” pelo contrário.

(Dom Luís: Dr. Plinio, ……..vendo essa fotografia cobrindo de um lado e de outro, são dois lados completamente diferentes.)

São sim, são. Mas que se completam, não dão cacofonia.

(Dr. Luís Nazareno: Logo que apareceu a fisionomia depois que o senhor explicitou dá uma impressão de ultramontana extraordinária.)

Extraordinária.

(Dr. Luís Nazareno: E …………. senso do bem e do mal muito RCR, quer dizer, ela daria…)

Muito! Muito, muito, muito!

(Dr. Luís Nazareno: E nesse sentido mostrando nesse aspecto uma coisa própria que todo os anteriores não mostravam.)

Neste sentido da palavra, parece que ela está mais, vamos dizer, mais, eu não sei, qualquer coisa de batalhador nela mais do que nos outros, não é?

(Dr. Luís Nazareno: Ele está parecendo própria para ser membro do Grupo se fosse homem.)

(Sr. –: ….. ter vivido mais recentemente, não pode ser…?)

Talvez isso. Talvez também uma missão especial da contemplação, etc., não é? Bem.

Eu daria agora o que ela seria sem a fisionomia, sem essa expressão de…, quer dizer, se não fosse santa, quer dizer.

Há uma tese que é muito anti-romântica e muito puxada, e que é o momento de desenvolver. A tese é o seguinte: Quando uma pessoal expressa natural de sua fisionomia parece ter salientemente uma virtude, ela tem no seu temperamento o defeito capital oposto. A psicologia corrente diz o contrário: quando uma pessoa tem na cara a aparência de uma certa virtude é porque aquela virtude entranhou tanto nela que ela não tem nem um pouco a tendência pelo contrário. E a maior parte das considerações românticas sobre pessoas vem daí, não é? Quer quando se considera romanticamente uma mulher, uma heroína de teatro, quer quando se considera o modo romântico pelo qual os românticos imaginavam os grandes personagens da História. Um herói nunca tinha medo. Um santo que fizesse caridade nunca tinha um movimento de egoísmo. Uma, não sei, um… São Tomás de Aquino nunca tinha um movimento de dissipação ou de preguiça. a virtude neles era uma coisa absolutamente nativa, originária, entranhada, de tal maneira que excluía o defeito oposto. E, é engraçado que esta ilusão que produz o enlevo romântico falso. É um naturalismo profundo. É como se a virtude habitasse na pessoa, resultante das próprias qualidades da pessoa, e que aquela virtude que a pessoa parece ter, ela não tem o defeito oposto, de tão profunda é a virtude nela. Os senhores pegam aquelas descrições românticas de herói e de heroína, não é? Vamos dizer que a heroína se chamasse, não sei, Eloisa, tá compreendendo? Então, “Eloisa deitada numa “chese longue” — acho que é um desses sofás feitos para a pessoa se reclinar com o braço assim “olhava, olhava para as flores do seu jardim. Ela tinha um penhoar de seda que caía não sei de que jeito. Perto dela estava um cachorrinho finíssimo que a olhava com admiração! Ela considerando as flores, ela tinha uma doçura na sua alma!”, brá, brá, brá, brá!” Patota! Isto é para um romântico, que pensa que essa Eloisa era como apareceria ainda que ela não estivesse fazendo comédia — como pareceria pelo seu lado bom. Mas acontece que quando a pessoa tem cara de lado bom de algo, tome cuidado, porque o que está ali atrás é o contrário.

Bom, vamos dizer. Entra o bem amado dela. Vamos dizer que ele se chame Conrado. Se houver algum Conrado aqui me perdoe. Mas eu creio que não haja, eu ano conheço pelo menos. Me perdoe não conhecer também. Então: “Conrado entrou. Seu passo firme, seu porte altaneiro, sua varonilidade indicam um homem corajoso, que acabava de passar por cem batalhas!” Cuidado, hein, é fujão!

Eu sei que isto estraçalha com ilusões de toda ordem. Engraçado inclusive o seguinte: eu estou no escuro. Eu não estou vendo nenhum dos senhores. Se algum dos senhores há que tenha tido no passado, “quo Leosavertat”, que tenha no presente o gosto de se olhar muito no espelho e porque vai nessa onda. Horrível, não é? Mas é assim. Olha e diz: “Que olhar!” É, ihhhh! Esse mundo é uma coisa tremenda! Eu estou n escuro, hein! Bem. Eh. “Que olhar, que jeito eu tenho!”. Passa imediatamente do gabar tais ou quais traços físicos — todo mundo tem uma terrível propensão para se achar bonito, hein — para começar a considerar que tem charmes especiais. E aí varia de acordo com a megalice: é encantador, é risonho, é harmonioso, é diplomático, é dominador, avassalador, mete medo com um só olhar, domador de leões. Bem. O que veja bem e veja de frente com olhar radiográfico: há alguma coisa que lhe agrada ali? Veja a imagem do contrário. E aí você tem o seu exame de consciência bem feito. Não é verdade que a gente fica com menos vontade de se olhar no espelho?! Não é verdade que o sentimentalismo baixa muito com isso?! Porque o sentimentalismo é feito dessa ilusão de que as pessoas a quem nós queremos bem são boas sem esforço, por conaturalidade. E que Deus não entra nada nisso. A graça não opera em nada. Ora, é tão fácil a prova do que eu digo: a luz primordial é o oposto do pecado capital. E se uma fisionomia exprime a luz primordial ela exprime uma tendência temperamental para o pecado capital. É uma coisa evidente.

Esta santa aqui se ela não fosse santa — agora comecem a prestar atenção nela e os senhores notarão nela de tenso, de facilmente convulsionável. Ela seria de todas as desordens: implicante, abelhuda, com acessos de sentimentalismo e tão mole, e deixando-se dominar completamente, petulante e insignificante. Mas ainda: a própria beleza dela passava desapercebida. Aí os senhores têm uma impressão. Algum dos senhores queria perguntar algo? Vamos mudar então.

(Dr. Castilho: Um comentário à margem, mas nós conhecemos uma pessoa que morou na mesma casa que ela em Luca.)

Ah, é?

(Dr. Castilho: João Carlos de Habsburg.)

Ohhhh!!!! “Incelitate pecator!”

Quem é hein?

(Sr. João Clá: Santo Inácio de Loyola.)

Santo Inácio de Loyola. Isto foi tirado do que, hein? Porque aquele quadro vindo do Ribadeneira que nós tínhamos é mais expressivo ainda do que este.

(Sr. João Clá: É uma estátua que existe que está nesse livro, Dr. Plinio, que o senhor citou agora.)

É. É uma varsão, enfim um ângulo um pouco diferente do ângulo clássico de Santo Inácio. Porque enquanto a gente está habituado a ver Santo Inácio batalhador, combativo, lutador, etc., etc., isto não será ausente nesse fisionomia. Mas apresenta a circunstância de que a fisionomia no momento não está combatendo, não está lutando, não esta fazendo nada disso. Está extraordinariamente distendida. E o próprio olhar está distendido também. Dir-se-ia que acabou o protestantismo.

(Dr. Eduardo: …)

É possível. Mas é possível também é que ele tenha tido momentos assim, não é? Isso é possível. Agora, nesta fisionomia considerada como ela está — por exemplo o olhar não tem já esperteza do… de quem é aquele? É do… Ribadeneira, não é.

(Dr. José Fernando: …)

Não, não, não. O quadro. Aquele quadro clássico de Santo Inácio.

(Dr. Luís Nazareno: Aquele que tinha na sede.)

É. Não, não. Eh. Nem ele está em condições de precisar exercer essa esperteza. Aparece aqui um aspecto de doçura que tem indiscutivelmente algo de sobrenatural e em tudo muito personalidade, isso não tem dúvida nenhuma. Não teria muito mais a dizer sobre ele.

(Dr. José Fernando: Agora, aí pega todo o lado ruim………)

Sabe que até o lado ruim aparece mais no outro.

(Dr. José Fernando: …)

Uhh! [Intrigueir?] tremendo!

Temos mais algo, meu João?

(Sr. João Clá: Tem sim.)

Então vamos para frente.

Que horas são?

(Sr. João Clá: São onze e vinte.)

Quem é esse, hein?

(Sr. João Clá: É São Jerônimo [Emiliani?].)

Sobre São Jerônimo [Emiliani?] eu apenas sei que ele existiu, não conheço nada dos traços biográficos dele nem nada.

(Dr. Castilho: De uma grande família.)

De uma grande família, é? Engraçado, eu não conjecturaria isto.

(Dom Luís: Italiano? Acho que é Arcebispo de Veneza, se não me engano. Predecessor de São Pio X.)

Eu vejo nele qualquer coisa de comum com São João Batista de La Salle. Não muitas coisas em comum mas vamos dizer, algumas coisas que são muito em comum entre eles. Quer dizer, este tipo de gente clara, de olhos claros, de — não sei se os senhores notam o olhar dele tem uma grande elevação. É um olhar muito contemplativo, muito nobre, muito elevado, muito enlevado, não é? Que dá, que confere muita dignidade ao rosto. Mas o resto não tem muita expressão. Ele vive do olhar, como São Cafasso. Mas é um olhar, que este sim, tem um mundo, de uma forma de contemplação em que entra de um modo muito especial admiração, respeito e ternura. O Deus que ele vê à distância como termo de sua contemplação, a gente vê que ele vê como algo de grandioso, de imenso, mas que não lhe mete o mínimo medo. Não há nada de medo de intimidado mas há qualquer coisa de profundamente respeitoso nesse olhar. Profundamente. E ao mesmo tempo uma meiguice e uma ternura que levam uma alma inteira. Nele só cabe, nesta alma só cabe a consideração e a contemplação deste ponto de ideal que a gente vê que é Deus Nosso Senhor. Alma católica por causa disso por excelência. Porque exatamente uma das coisas que mais caracteriza a alma católica é o sentimento do respeito. E o respeito mas o respeito como deve ser: respeito filial, respeito sem medo, mas respeito profundo, o respeito toma esta alma inteira. Eu gostaria de colocar em baixo este dístico: “O respeito como deve ser”. Porque é a própria expressão de um respeito profundo, filial, em que entram todas as gamas de reconhecimentos da sua própria inferioridade e de adoração de Deus Nosso Senhor. Mas não uma coisa apavorada. Ele nunca faria com este olhar aquela oração de São Pedro: “Afastai-Vos de mim Senhor porque sou um pecador”2. Mas pelo contrário: “Senhor, eu já nem penso em mim, eu já nem sei se eu sou pecador, eu só sei que Vós existia e que eu Vos adoro com toda a minha alma por serdes Vós quem sois”. Acho uma verdadeira maravilha. É dos mais belos olhares dessa coleção, tão rica em olhares extraordinários! Alguns dos senhores quereriam me perguntar algo?

(Sr. Celso Luís Leal da Costa: Dr. Plinio, ele não teria, nesse olhar que o senhor descreveu algo de afim com a pequena via, na linha de esquecimento de si mesmo?)

Sim, mas na pequena via há uma coisa diferente, é que há uma nota de uma espécie de intimidade com Nosso Senhor que aqui propriamente não há. Ou se quiser a coisa em termos diferentes, o respeito aqui penetra e influência a própria intimidade. Em Santa Terezinha do Menino Jesus, mas não era a nota dominante do estado de espírito dela, das fotografias e das expressões. Aqui é propriamente uma forma enlevada de respeito uma coisa estupenda. Algum outro dos senhores gostaria de me fazer alguma pergunta? Vamos adiante.

Esta é a mais longa interpretação da fisionomia que eu tenha feito na minha vida.

Este todo mundo conhece, não é? São Luís de Gonzaga. Este sim a meu ver tem fisionomia nobre. A mesma coisa que com São Francisco de Bórgia, os senhores vêem aqui o que há de temperado, o que há de equilibrado, o que há de composto em toda a fisionomia. E a noção de algo que seria como que a máscara aristocrática através da qual entretanto a alma fala e fala exuberantemente. O que que nos diz essa fisionomia?

De si ele seria uma pessoa, se ele, vamos dizer, o lado meramente humano, inclusive defeitos, ele seria uma pessoa muito ladina, muito leve, muito pé leve ao fazer todas as coisas. Com um discernimento psicológico bastante bom. E bom diplomata. Mas bom diplomata da escola rasteira e da combinação. Propriamente diplomata, portanto — é como deve ser, porque fazer diplomacia, se não é para fazer nem uma combinação nem uma rasteira. Para declarar uma guerra tem os generais. Já é outra tarefa, não é? Bem.

Por outro lado entretanto uma pessoa que teria qualquer coisa de mole e qualquer coisa de dúbio, não seria uma pessoas clara nos seus procedimentos. Agora, os senhores considerem o lado bem bom e os senhores notem antes de tudo o seguinte: é como é Santa Gema Galgani, há qualquer coisa de incontaminado nele, e perfeitamente intacto e de íntegro que a gente tem a impressão da própria inocência batismal. Nada ali levou aquela impressão da própria inocência batismal. Nada ali levou aquela desonrante, vergonhosa de pecado. Nada. Pelo contrário. Tudo fala de uma alma que nunca cedeu uma dessas vibrações excessivas, exageradas, imoderadas. É a própria temperança. O olhar é um olhar muito sério. E como é freqüente no olhar dos santos, os senhores perceberão que essa seriedade chega quase até a tristeza. Há uma notazinha de melancolia no fundo deste olhar. E, junto com o todo algo que não está no temperamento dele e que a gente vê que a graça deu é uma firmeza inquebrantável. Se forem amarrá-lo a uma boca de canhão para levá-lo a pecar ele deixa que dêem um tiro e todos os fragmentos do corpo dele continuam dizendo: “Não pecarei, não consinto no pecado”.

Agora, eu volto mais uma vez ao ponto de partida das nossas conferências — sito eu não estou fazendo para dizer como foi a alma desse santo, mas para mostrar como é bela a alma desse santo, como é bela a vitória sobre essa lado ruim, como é bela a virtude tendo triunfado sobre os efeitos do pecado original. Eu pergunto aos senhores: os senhores não ficariam indignado se alguém viesse oferecer ácido lizérgico para esse jovem? A única resposta seria uma bofetada estrondosa. Não é verdade? Está bom. Aí os senhores vêem pela nossa indignação e alegria que temos em que ele seja como é. Quer dizer, a sede que temos da virtude para a alma dele. E por aí uma admiração que faz entrar a virtude dele na nossa própria alma.

Eu aí me antecipo a uma conferência que numa dessas sextas-feiras eu devo fazer, a respeito da admiração, precisamente para dizer isto: poucas coisa influenciam tanto o homem quanto as admirações dele, e poucas são as coisas que os exames de consciências recomendam tão pouco que a gente insiste. É a admiração. Por que? Porque eles fala uma linguagem do tempo em que os homens eram mais filosóficos, em que se falando de amor se entendia que a alta manifestação do amor era a admiração. Mas para o homem de hoje a palavra amor foi de tal maneira conspurcada, se as coisas não esclarecerem não tem nada feito. E então eu faço essas conferências para nos dar essa sede, essa admiração das almas e fazer com que este bem penetre em verdadeiros apóstolos. Vamos adiante.

Quantas você tiro, meu João?

(Sr. João Clá: Mais uma última e de Santa Terezinha.)

Uhhhh!!! Sim senhores, hein? Que magnífico!!! Mas que estupendo, como eu gosto de olhar para ele! Infelizmente é duvidoso que recíproca fosse verdadeira, mas como me agrada de olhá-lo! Aqui é outra coisa, não é? Quem é esse santo.

(Sr. João Clá: Santo Alexandre Salm.)

Também não sei. Alguém saberá quem foi? Não. Dr. Castilho talvez saiba?

(Sr. Plinio Solimeu: No próprio livro tem uma pequena biografia. Se o senhor quiser…)

Eu depois gostaria de saber porque eu encontro um paraíso no olhar dessa alma, ouviu?

(Sr. –: Quer ler um instantinho a biografia?)

Veja um pouco. Está aqui o livro?

(Sr. João Clá: Está sim. Está aqui o livro?)

Bom. Vamos fazer o contrário eu dou a fisionomia dele já que está ai, depois eu leio a biografia um instantinho para todos ouvirem.

Existe entre nós no Brasil como brasileiro é muito intuitivo — é uma das glórias e umas infelicidades porque o brasileiro usa mal dessa intuição — mas o brasileiro pega as coisas rapidamente, existe uma espécie menor do que deveria ser, de meditação andando vagarosamente ponto por ponto, esforço duro do espírito no penetrar verdade por verdade, pesar verdade por verdade, cotejar a verdade e diferenciá-la do erro, depois estigmatizar o erro. Existe nisto uma forma de sabedoria que é a intuição passada em câmara lenta. Mas acontece que as coisas passadas em câmara lenta tomam muita vezes uma beleza que eles não tem no seu movimento natural. Às vezes é o contrário mas às vezes é assim. E aqui os senhores têm propriamente uma fisionomia meditava na força do termo. De um desses espíritos que pesam tudo, ponderam tudo com um discernimento, com vagar, numa longa análise, numa longa, vagarosa e meticulosa análise de todas as coisas, e que vão construindo o edifício da verdade no interior de sua própria alma com o cuidado e com o enlevo com que um ourives vai burilando pedra por pedra e depois desenhado o encaixe para fazer a jóia que ele tem e vista fazer. Há aqui todo um mundo de considerações sobre o universo! Um espírito metafísico estupendo! Um mundo de meditações a respeito de problemas que foram difíceis de resolver, mas em que sua alma foi cada vez se tornando mais robusta, mais ágil, mais penetrante; e que deixaram um ordem não só nas idéias dele mas nas disposições mentais dele que fazem dele ao pé da letra uma verdadeiro bem-aventurado. A indagação, a investigação, a construção, a conclusão, o triunfo estão todos expressos aí com uma harmonia que a mim verdadeiramente me encanta! Eu teria vontade de me ajoelhar diante dele e ficar olhando para ele, pedir a ele: “Não olhe para mim; olhe par isto que vós estais olhando e deixai-me olhar para vós”. Eu teria a impressão de que gota a gota essas coisas iriam imerindo a mim porque eu acho isto aqui uma verdadeira maravilha. Os senhores dirão: “Mas ele não é um pouco fúnebre?” Eu tenho a impressão de que ele dá essa impressão à geração nova, ou é falso isto? Não dá?

(Sr. –: Dá sim.)

Dá, não é? Bem. Eu digo o seguinte: é mesmo. Os senhores notam como ele está em paz? Ele é fúnebre por que? Porque ele seria um homem superficial se não tivesse medido bem todo o mal que há na Terra. E há uma tristeza da existência do mal nesta alma.

E eu acrescento o seguinte: para os senhores verem toda a glória dele, e os senhores verme como ele não é fúnebre — eu digo o contrário, eu mostro uma cara que comparada com a dele seria quase uma blasfêmia se não fosse aqui. Os senhores se lembram do riso fácil, pseudobobo, de crianção, do Kennedy? A cara boba de todo americano do norte. Aquele não é fúnebre, não é? Mas é por que? Nós estamos um pouco americanizados no nosso modo de entender as coisas. Ele não é, ele é solene. Eu gosto muito da solenidade. Como ele é solene!… Os senhores já imaginaram o passo dele?! Os senhores imaginem ele sentado numa cela pensando. Alguém teria coragem de bater na porta, abrir e contar para ele uma piada? Ele não incuta respeito? O jeito de ele dizer quando alguém batesse na porta: “Abre!…” seria tão carregado de meditação, tão suave ao mesmo tempo, tão atencioso! Quando o indivíduo contasse uma piada com uma cara ficava?! Ele era capaz de responder: “Entendi”. Pronto, gelava o sujeito. E daí? Não é bem verdade isso?

Então, os senhores tem aqui uma coisa que, eu não sei dizer que encanto se produz.

Eu amoleceria os senhores mais um pouco insistindo nisso se for necessário, mas eu não estou vendo as fisionomias. Alguém quereria fazer algum objeção sobre isso, pela dificuldade de entender esse tipo de fisionomia? Bom, eu desalentei, não é? Quando eu falei de…….. etc., eu desalentei qualquer objeção. Não foi minha intenção. Desculpem. Bem. Vamos para frente.

(Dr. Eduardo: O senhor não queria ver a biografia dele, Dr. Plinio?)

Veja um pouco faz favor a biografia dele.

(Dr. Alberto: Qual seria a tendência para defeitos desse indivíduo?)

Daqui a pouquinho eu digo, deixe eu ver a biografia.

A cara — eu estou sem óculos não vi ainda — a cara é um pouco de jesuíta mas não sei se será.

(Dr. Alberto –: …)

É? Ele é filho do [Marcgrav?] Dominus Sauli, que viveu em 1548. Não. ele nasceu 1533. Em pediu para ser barnabita. Mas é uma página inteira. Ele foi um dos aplicadores do Concílio Tridentino. Quer ligar um pouquinho para responder a pergunta do Dr. Alberto?

(Dr. Luís Nazareno: Ele parece alemão.)

Não. Não parece.

(Dr. Castilho: Malgrave não seria Marques, Dr. Plinio? Porque Sauli é italiano, não é?)

É, Sauli é nome italiano. Mas havia umas… o Sacro Império estendia-se até certas partes da Itália. De maneira que talvez tivesse dado a algum italiano o título de malgrave, também não seria impossível. Mas o tipo dele parece de um latino, não é? Sabe que eu não sei. Alberto, se é por extremo entusiasmo por ele ou o que é que é, eu tenho dificuldade em dizer é que ele seria se fosse ruim.

(Dr. Alberto: O senhor acha a dureza fora de propósito, vamos dizer assim uma certa falta de caridade,…)

Não. A ser fiel aos princípios que eu enunciei, e há razão para ser fiel, a gente deveria fazer a reconstrução assim: ele é muito aplicado, deveria ter tendência para um dissipado; ele é muito solene — bom, cai-se na “pouquice” de novo. Ele de tal maneira se reduz a um ponto que você vê que também que do outro lado não se pode dar um ponto. Você imagine a ele de barba raspada, bigode raspado, velhinho, sentado numa cadeira de balanço, de chinelo e fumando um cigarrinho, de palha a gente pode perceber por onde é que coisas corria, não é? E comentando as galinhas, aí a gente pode perceber por onde corria. Mas francamente eu êxito em fazer comparações dessas ouviu? Os barnabitas eram na origem uma ordem tão parecidas com os jesuítas, que até se tentou mais de uma vez – da parte deles, não dos jesuítas — a fusão. Tenha a bondade de virar.

Que manchas são essas, hein?

(Sr. João Clá: Foi feito dez minutos da reunião.)

Essa é a das últimas fotografias de Santa Terezinha, não é?

(Sr. João Clá: Dois anos.)

Dois anos antes da morte. Santa Terezinha é dessa fisionomias em que o olhar foi devorando o resto do rosto. Os senhores percebem ela tem desde menina um olhar maravilhoso. Mas o rosto todo concorre muito para dar vida ao olhar. Eu tenho em mente por exemplo, aquela fotografia dela em menina que eu comentei aqui, de porte inteiro, não é? De corpo inteiro. Eu não sei se os senhores percebem…

(Sr. João Clá: O senhor quer ver só o olhar?)

Ah, ponha só o olhar. Ou preferem com o rosto? Mas sabe que engraçado, esse olhar está menos expressivo do que aquele.

(Sr. –: A fotografia está menos boa, …… da ampliação.)

O olhar diz muito esta menos boa. Como olhar enquanto olhar aqui diz mais. Sobretudo quando a gente tem em consideração Santa Teresinha quando era mais moça e depois como ela esta aqui, eu não sei se os senhores notam que é um rosto que está se desfazendo. “Non erat aspectus”. Santa Teresinha foi muito bonita, não é? Aqui os senhores não sai se notam que os contornos do rosto já perderam a precisão, o nariz está meio empastado, ela parece star com a face um pouco inchada, as pálpebras um pouco inchadas. Os médicos que estão aqui podem dizer, mas a mim dá a impressão de uma pessoa que está em vias de perder a saúde gravemente, que está engajada num processo de decomposição física grave. Não será ainda a tuberculose, ……… será, não sei, não tenho capacidade para diagnosticar isto, mas não é a fisionomia de saúde que ela tem em outras fotografias. Sobretudo os senhores vejam o contorno dos olhos em cima, é meio desigual até, não é? Há qualquer coisa de prematuramente envelhecido numa [cutis?] ainda muito nova. Bem. Mas o olhar tem uma tal elevação, é um olhar que contempla algo de tão sobrenatural, de que ele está tendo a visão beatífica. É histórica que ela não teve. Mas uma fisionomia que tivesse a visão beatífica, entre outras atitudes poderia ter esta. Perdida completamente numa contemplação de algo de sobrenatural. Aquele santo Sauli que nós vimos há pouco ele é mais um filósofo inundado da luz do Espírito Santo e dotado de senso metafísico. Esta aqui não; é mais uma mística que tem o olhar posto numa verdadeira revelação. Bem. Agora, Este olhar ao mesmo tempo, eu não sei se os senhores percebem, está completamente maduro. Embora não seja aquela maturidade vigorosa de Santa Eufrásia Peletier, é um olhar que já viu tudo que tinha que ver. Pouco lhe resta para contemplar. É quem chegou ao extremo de sua própria contemplação. Mas há qualquer coisa de diferente da contemplação dela por exemplo, e da Santa Eufrásia Peletier. Porque a gente olhando o rosto — é Eufrásia Peletier, não é? Aquela…

(Sr. João Clá: É isto.)

É. Vendo o rosto de Santa Eufrásia Peletier a gente é levado a exclamar: Como ela é grande! Como poucos são como ela! A gente olhando esta meditação de Santa Teresinha, parece pela simplicidade extrema da fisionomia e do olhar contemplar verdades que estão ao alcance de todos. E fazer algo que está ao alcance de todos para o qual por assim dizer ela convida todo mundo. Há algo de implícita e indiretamente nos diz: Vede como é simples. Vede como é afável. Vede como é ameno, vede como está ao alcance de todos. Ao par de uma pequena via. Não é de não ter grandeza, mas é de ter tornado a grandeza dotada de estatura necessária aos pequenos. É uma coisa diferente. E, o que é que eu poderia dizer esse olhar? Eu poderia dizer desse olhar que a gente poderia passar — a gente tem a ilusão, porque de fato só Deus nos satisfaz — mas de que poderia passar um tempo indefinido olhando esse olhar. Se no Céu nós tivéssemos sempre este olhar posto em nós isto já seria um elemento possante de felicidade. Aí está Santa Teresinha com toda a sua doçura, com toda a sua amenidade, com sua pequena via, que é coisa altíssima posta ao alcance de todos. É o que eu teria que dizer.

(Sr. –: …Sancte Terèse.)

Como é?

Ela mesma, é?

(Sr. João Clá: É.)

Não sei se os senhores notam como o olhar é vivo, o olhar é profundo, mas como o resto do rosto tem importância aqui. Ela está mais moça. Os senhores notam de outro lado uma coisa muito curiosa em Santa Teresinha e que se manifesta até nos milagres dela. Santa Teresinha tem uma certa qualidade de francês que é “espiélgerie” (?). Eu não sei como traduzir “espiéglerie” é esperteza. Mas não é esperteza no sentido mau, é um modo de brincar, de — engraçado esta mesma fisionomia invertida, não é?

(Sr. João Clá: É sim, senhor.)

Engraçado que aqui muda já de expressão já não é “espiéglerie” que aparece mas é outra coisa, é cautela. É de súbdita da Madre faluna de tal, não é? Mas não está aí isto? Ao menos a mim me parece. Que está muito cautela aí como quem diz: “Quem te viu que te veja, eu bem que te conheço”. Mas não é isto? Quer dizer, como membro da Igreja militante, e militante num Carmelo, não é? Esta muito interessante esta expressão de fisionomia. Sempre com uma pontinha de tristeza, não é?

Uma vez uma pessoa externava diante de mim a seguinte idéia: que só são verdadeiramente simpáticas as pessoas alegres, e que se fundo a pessoa é simpática na medida em que e alegre e que comunica alegrai em torno de si. E que portanto as pessoas tristes não são simpáticas, porque não são atraentes, não são agradáveis e não me induzem à bem vontade com elas. Eu poucas vezes tinha ouvido uma expressão de alma tão pagã como essa. Barbaramente pagã. Essa pessoa a ser coerente deveria achar todos esses santos antipáticos. Mas simpáticos todos os santos [runicienos?]. Que são um tanto alegres. Bem. Tem mais algo meus caros? O que que é?

(Sr. João Clá: É só isso.)

Então, parabéns pela coleção, estava muito bem escolhido, e podemos encerrar. Podemos encerrar. Eu compreendo que uma tal ingestão de fisionomias possa também deixar a pessoa até um pouco aturdida, não é? Eu confesso que eu fiz um esforço também da minha parte não pequeno. Porque é duro estar cagravatando fisionomias… Me lembro aquele tempo de Giordano, que quando chegava as duas e quarenta da manhã, que eu estava pra desacordar alguém puxava quinze fisionomias e dizia: o senhor queria só… às vezes o só se dava vontade de chorar. O senhor só dizer como é que são essas caras? Está compreendendo? E começava: esse é assim, aquele é assado, etc., etc. E porque que é tárá, tátá, tátá, rará! Bom.

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1 Evangelho de São João 1,47

2 Evangelho de São Lucas 5,8

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