Santo
do Dia (Rua Pará) (Rua Pará) – 10/6/1968 –
2ª feira [SD 259] – p.
Santo do Dia1 (Rua Pará) (Rua Pará) — 10/6/1968 — 2ª feira [SD 259]
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O senso do maravilhoso como fundamento das conferências sobre europeização * A Alemanha é um mundo de maravilhas: escolha desse país para os comentários desta reunião * Catedrais de Colônia e Notre-Dame: qual a mais bela? * O senso metafísico presente na Catedral de Colônia * O corpo central da Catedral é apenas uma ligação entre as duas torres que levam o espírito para cima * Outros pormenores da Catedral que exprimem elegância, distinção e leveza * A Catedral e o minarete: a fantasia do ocidental e a fantasia do oriental * O gênio da Idade Média se exprime em todas essas belezas da Catedral * O mais bonito dos barrocos é o alemão, porque tem o senso metafísico * Um altar em Schleswig-Holstein: descrição e apreciação das várias partes * Descrição dos vários aspectos de uma casa alemã, tipicamente burguesa * A vida aristocrática não convida à intimidade — O que se chama intimidade tem a casa burguesa * O gozo da vida, mais na proporção do homem, é o gozo burguês da Idade Média * A monarquia alemã conservou sempre uma nota patriarcal, que a monarquia francesa não tinha * Afabilidade e intimidade na monarquia austríaca, expressas no modo de anunciar o nascimento do novo arquiduque e nos festejos do povo
* O senso do maravilhoso como fundamento das conferências sobre europeização
Nós estamos fazendo uma vez por mês e retomamos agora — eu creio que é a primeira desse gênero depois que sarei, não é? — as conferências a respeito da europeização.
Eu explico um pouco o sentido.
Ah! não chegaram todos, desculpem.
Bem, eu vou explicando o sentido disso para os rapazes que não são do Brasil que estão aqui, porque pode parecer um pouco estranho, pode parecer quase propaganda de turismo, não é? Não se trata disso.
Para nós que vivemos na América do Sul e que não estamos habituados a considerações das coisas maravilhosas da cultura católica da Europa, falta um certo senso do maravilhoso. E o senso do maravilhoso é uma coisa que tem muita ligação com o amor de Deus, porque é pelo senso do maravilhoso que nós podemos levantar as nossas almas para o desejo das grandes coisas, e é por isto que Deus criou coisas maravilhosas, diretamente Ele, para elevar os homens a Ele.
Por exemplo, uma pessoa que tem ocasião de ver o sol, esta pessoa tem ocasião de louvar a Deus de um modo especial, e por isso é que São Francisco de Assis cantou o irmão sol. Por quê? Porque é maravilhoso, e na sua maravilha ele eleva as almas para Deus mais do que a consideração, por exemplo, de um grão de poeira, que a seu modo também pode conduzir as almas até Deus. Mas o maravilhoso é a obra-prima de Deus para externar a sua própria… manifestar-se aos homens.
* Maravilhas criadas diretamente por Deus e maravilhas feitas pelo homem
Agora, acontece que essa maravilha não é apenas a maravilha que Deus cria diretamente. Maior maravilha criada por Deus foi o homem, e as maravilhas feitas pelo homem são maravilhas que indicam a grandeza do homem e que indicam, portanto, a grandeza desta obra- prima de Deus que é o homem. E de si mesmas elas são indiretamente criaturas de Deus.
Várias vezes eu tenho dito aqui que Dante chama as obras de arte do homem de netas de Deus, porque são filhas do homem que é filho de Deus. E da consideração das netas de Deus, nós podemos nos enlevar com esse eterno, imperecível e perpétuo avô que jamais envelhece, e que é Deus Nosso Senhor.
* A Alemanha é um mundo de maravilhas: escolha desse país para os comentários desta reunião
Nós temos mostrado muitas coisas da França e eu não gostaria que se confundisse europeização com galicização. Os senhores sabem tudo quando eu penso da França, mas a França não é a Europa. A Europa é um conjunto dentro da qual a França é o que ela é. Mas a Europa toda é uma maravilha com cores variadas, com refrações variadas, com aspectos variados, e a Alemanha é por si um mundo de maravilhas.
De maneira que hoje eu escolhi logo de uma vez quatro maravilhas da Alemanha para permitir um comentário do conjunto do espírito alemão, da alma alemã, etc.
* Catedrais de Colônia e Notre-Dame: qual a mais bela?
E os senhores então têm essas maravilhas expressas em primeiro lugar por esse dois monumentos. Aqui os senhores têm a famosa catedral gótica de Colônia, e depois aqui os senhores têm o retábulo de um altar no antigo ducado de Schleswig-Holstein, que é aquela língua de terra que une a Alemanha à Dinamarca e onde havia vários ducados e principados. Porque a boa moda alemã antiga não era centralizada, era ricamente descentralizada, em qualquer vesga de terra havia uma polulação de soberanias.
Então, aqui os senhores têm num lugarzinho, numa pequena soberania daquele pequeno espaço territorial. Há uma igreja que tem esta grande maravilha que vamos descrever daqui a pouco.
Agora eu queria chamar a atenção dos senhores sobre o espírito alemão e o modo pelo qual ele condiciona a obra de arte. Para os senhores terem isto bem em mente, os senhores precisam considerar aqui a Catedral de Colônia.
Tem sido discutido muito qual das duas catedrais é mais bela, se é a de Colônia ou é a de Notre-Dame. Outras pessoas costumam colocar no páreo também Westminster, Amiens, Reims.
Eu não vou discutir aqui o caso, mas a comparação com Notre-Dame é muito importante. Porque os senhores olham para Notre-Dame e têm um sentimento assim de ah!… de nem sei do quê, diante do quê? Do equilíbrio e da harmonia de Notre-Dame.
A fachada com todas as suas visões e subdivisões representa o aspecto de uma harmonia perfeita, mas de uma harmonia em que se exprime o gênio francês, que é um gênio estático, feito — como tudo que prima pelo equilíbrio — pela justaposição dos valores opostos mas harmônicos, e reduzidos a uma admirável harmonia. E nisso os senhores têm Notre-Dame.
* O alemão católico, pensativo, idealista, é diferente do alemão protestante, quadrado, decadente
O espírito alemão não é propriamente assim. Para nós, passa o espírito alemão por ser um espírito equilibrado por excelência. E quando a gente pensa no equilíbrio dos alemães, a gente pensa no pé de chumbo do soldado alemão, pum, pum, marchando, esmagando cabeças, com um sapatão e com saltos de prego, não é? De maneira que aquilo vai e é passo do soldado alemão de Átila, não é? Não há erva que resista ao passo do soldado alemão!
Mas este é o alemão protestante, é o alemão quadrado, é o alemão da decadência, não é o alemão católico. O alemão católico é qualquer coisa de muito diferente: pensativo, idealista, à procura continuamente de uma realidade invisível e metafísica, de uma realidade que por isto é difícil de atingir, com um certo desprezo até pelas coisas que são muito terra-a-terra e muito equilibradas, porque elas não se prestam muito bem à expressão dos valores de caráter metafísico, e com uma tendência por causa disso à evasão de realidade em busca de uma realidade superior.
É esse grito de alma do alemão que os senhores encontram deteriorado — mas encontram — não no sapato do soldado prussiano, mas em Wagner. É o metafísico que embriagou, mas que continua a fazer metafísica dentro de sua bebedeira e tem uns lances de talento envenenados pelo meio.
* O senso metafísico presente na Catedral de Colônia
Esse senso metafísico alemão, os senhores encontram aqui na Catedral de Colônia.
Eu não sei se os senhores percebem, mas a Catedral toda são duas torres. O corpo do edifício que em Notre-Dame é tão grande, tão esparramado, que a parte de Notre-Dame horizontal com o chão é larga, em Colônia não existe. Vejam como fica tão espremidinho o corpo central, que ele é apenas um hífen entre as duas torres.
Para os senhores terem uma idéia do que é um hífen entre duas coisas altas, do que é a criatura e a realidade, os senhores pensem um pouco naqueles dois prédios monstruosos de Brasília — é uma blasfêmia falar em Brasília quando a gente diz essas coisas — que a uma altura caprichosa e besta qualquer são ligadas por uma pontezinha, não é isto? Aquilo é o hífen monstruoso que o gagá arranjou ou o demônio arranjou para fazer aqueles prédios.
* O corpo central da Catedral é apenas uma ligação entre as duas torres que levam o espírito para cima
Aqui não. Quand même, seja como for, esta catedral tem que ser uma, e não podem ser duas torres justapostas. Mas o corpo do edifício aqui é apenas o suficientemente grande para que as duas torres estejam ligadas, não tem outra coisa a não ser isto.
O resto são duas torres, e duas que vão vertiginosamente para cima. Elas todas estão concebidas na idéia de levar o espírito para cima e elas parecem, para levar o espírito melhor para cima, emular entre si e entrar pelos dois olhos do homem, levando para cima, de tal maneira elas são leves, elas são esguias, dento de um solide alemão que eu exporei daqui a pouco e não as abandona.
Então os senhores percebem a coisa curiosa que é a seguinte:
Cada uma dessas torres, primeiro para verem o papel que representa cada uma delas para a outra, imaginem uma torre só sem a outra. Perde, ela fica meio desequilibrada, ela fica cambaia. Mas, pelo contrário, as duas torres juntas quase que se apóiam para subir. E o que tem aqui de muito alto não é compensado por essa base, mas esta altura total aqui é compensada por esta base. E há um ponto invisível de equilíbrio aqui — mais uma vez eu digo: metafísico — que paira nos ares e que é o ponto de união, de junção insuspeitado das duas torres, que o espírito concebe e o olhar não percebe, e que é o ponto de junção no mais alto dos altos dessas duas torres da Catedral de Colônia.
Os senhores vão percebendo, a catedral vai se afinando, os dois lances. Até aqui ela é mais ou menos uma. Ela insensivelmente vai se afilando. À medida que sobe, ela se afila mais, em certo momento ela se transforma num cone altíssimo.
Por que ela se afila? Ela se afila para dar a idéia de coisa que sobe.
O olhar quando percebe uma coisa muito alta tem a sensação de que essa coisa alta vai ficando mais esguia naturalmente, não é? Eles para acentuarem a idéia de elevação, foram afilando a catedral, de maneira que tudo dá a impressão de uma altura que se perde nos céus. Tanto mais que não dá para os senhores perceberem, mas esta parte aqui é oca, isso tudo aqui é um rendilhado. Quem vê a fotografia de perto percebe fragmentos de céu através desse rendilhado. Quer dizer, isto já é meio irreal, já é meio céu, meio terra, meio obra de homem, meio obra de Deus, dentro da ilusão ótica de quem contempla.
* Outros pormenores da Catedral que exprimem elegância, distinção e leveza
Quando pára aqui e dá origem a este jato, os senhores estão vendo que ainda há umas pontinhas aqui que também parecem quererem acompanhar o jorro que sai, não conseguem e morrem sobre si mesmas com elegância, com distinção. Tudo é feito para ir afinando, afinando.
Depois, aqui, uma janela e um pequeno portal. Aqui, duas janelas que representam do mesmo modo duas ogivas. Aqui já é uma. Aqui a ogiva é menor. E aqui termina nesta grande ogiva, porque isto afinal é uma ogiva e que se perde no céu.
É a concepção, já uma concepção completamente diferente da Catedral de Notre-Dame, mas legítima e que exprime um modo de ser legítimo do espírito humano.
Assim como a gente se extasia com Notre-Dame, deve também rejubilar-se com isto, porque isto é perfeitamente legítimo. Deus criou homens que são de um jeito e outros criou de outro, e Ele quer que cada um se exprima como Ele criou e que cada um compreenda o outro, não tenha competição estúpida com outro, não é? E daí então os senhores vêem esta coisa leve, etc., da catedral.
* A Catedral e o minarete: a fantasia do ocidental e a fantasia do oriental
Agora, ao mesmo tempo os senhores olham e há uma coisa bonita.
Essa catedral, para os senhores compreenderem bem, não tem nada do minarete. Os senhores se lembram como é um minarete de uma mesquita muçulmana, não é? É aquela torrezinha fininha do alto da qual canta um muezim, em geral cego, não é? Não é isto. É uma coisa que é sólida, não há fantasia do Oriente dentro disso. Aqui é a fantasia do ocidental, que é diferente da fantasia do oriental. É uma coisa sólida que é diferente da fantasia do oriental: é uma coisa sólida, um mundo de pedras, uma base muito forte. Tudo isto é base, não é? Até o monumento em que as torre se separam é possante, cravado no chão.
É o ocidental, que mesmo quando sobe às suas mais altas divagações, tem os pés na realidade. É o alemão que é sólido mesmo, de um sólido não prussiano, mas de um sólido verdadeiramente sólido. Ele é sólido até mesmo quando ele se entrega às divagações mais extremas. Não é um minarete que a gente quase diria que o vento vai derrubar e que o oriental gosta assim, enfrentando o vento, como um sonho que não foi concebido com base na terra, não é? Mas é esta forma que é bonita também.
* Em conseqüência do pecado original, sem a religião católica o alemão dá no matador e o brasileiro dá no luxurioso
Aqui está algo do espírito católico quando sopra dentro de uma alma alemã, porque os senhores tiram de dentro a religião católica e o alemão não dá nisso, dá no matador que os senhores conhecem. Como os senhores tiram o espírito católico da alma do brasileiro e dá no luxurioso que os senhores conhecem.
Quer dizer, todos nós fomos concebidos com o pecado original e nós - a graça = lixo. Desta equação ninguém escapa, não é?
* O gênio da Idade Média se exprime em todas essas belezas da Catedral
Mas aqui os senhores têm o gênio da Idade Média, que se exprime em todas essas belezas. Os senhores percebem como as ogivas se prestam admiravelmente para isto, a ogiva fininha se presta exatamente para isto, não é?
Os senhores têm então a arte ogival explorada num sentido idealístico por assim dizer, no sentido bom da palavra, que os senhores não encontram em Notre-Dame, é uma coisa completamente diferente.
Não sei se eu me consegui tornar claro sobre esse traço dessa catedral ou queriam perguntar alguma coisa.
Os senhores precisavam ver que beleza isto visto in loco, com aves levantando vôo de dentro da torre, que se desprendem e que voam pelo céu azul, com o sino tocando. Isto é de uma grandeza enorme.
* O mais bonito dos barrocos é o alemão, porque tem o senso metafísico
(Sr. Wilson Gabriel da Silva: O barroco alemão não explica muito também o fato de haver o barroco na Alemanha com o desenvolvimento que teve? Explica muito isto que o senhor disse desse espírito muito metafísico, e procurando, vamos dizer, uma…)
O alemão conseguiu pôr um pouco de metafísica no barroco, e é porque o barroco é bonito na Alemanha. De si o barroco é uma metafísica, mas o mais bonito dos barrocos, a meu ver, é o alemão, porque ainda tem esse senso metafísico.
Não me queiram mal, os senhores já sabem bem qual é o mais feio dos barrocos para mim, não é? O mais gorducho, o mais arredondado, o mais abdominal, mais pontudinho, mais cheio de músculos e de tremeliques, não é? Até lá dá.
(Dr. José Fernando: Essas duas flechas das torres são de granito, não são de cobre como normalmente são as flechas?)
Eu não me lembro, mas são perfuradas, qualquer que seja o material elas são majur. Deve ser de pedra, eu creio, deve ser de pedras.
* Um altar em Schleswig-Holstein: descrição e apreciação das várias partes
Bem, aqui os senhores têm o altar. Este altar consta de vários elementos. Os senhores estão vendo aqui o supedâneo que é circular, depois tem a mesa, com o famoso altar em forma de mesa, e preparado provavelmente para uma missa dita versus populum.
Eu tenho a impressão de que tudo isto embaixo é mais recente, com uma gradezinha aliás bem bonitinha. O altar está com tanto bom gosto, que eu não sei se será da tal reforma litúrgica, que é o estrangulamento de toda forma de beleza. Mas a base dele está muito bem ornamentada e tudo está muito bem arranjado. Não lembra a igreja miserabilista, em todo caso.
O que o altar tem de bonito começa aqui. Os senhores estão vendo isto que serve de base e depois aqui os senhores têm um retábulo com uma imensidade de figuras.
Esse retábulo sofre uma reminiscência: ele não pode mais ser chamado gótico, mas ele sofre uma reminiscência do gótico flamboyant. Aqui já os senhores encontram as arcadas, mas aqui dentro há uns docéis que ainda são de vaga reminiscência gótica. E todos esses arabescos, ainda do arabesco do estilo gótico decadente.
Os senhores encontram um altar que tem isto: que ele constitui uma massa até pesada demais para o que vem embaixo. São os desequilíbrios dos tempos modernos que começam a fazer-se notar. A gente no primeiro momento que olha fica encantado com isto que ocupa completamente a vista, e depois com os vitrais atrás, a arquitetura que os senhores estão vendo que é gótica, a gente vê que o altar é posterior à igreja.
Os senhores ficam encantados então com o altar, mas quando os senhores começam a analisar a base do altar, têm uma estranheza e até uma dificuldade visual de perceber bem exatamente o que é, de tal maneira o altar é pouco congruente com aquilo que vem em cima. Mas à la longue se equilibra e faz parte daquele gosto de pregar surpresinha que a gente começa a notar à medida que a Revolução vem: fazer coisas de um equilíbrio inverossímil, que em rigor se justifica com quem faz golpes de jogral com equilíbrio, e com isto ofendendo um pouco a existência de um verdadeiro equilíbrio.
Apesar disso, a boa ordenação se nota no seguinte: para além dessa base, esta parte superior vai ficando mais leve. Os senhores vêem que aqui há uma moldura vácuo, aqui uma coisa maior do que todos os pequenos alvéolos, não é? É um tríptico: os senhores encontram aqui dois santos e aqui um altar, uma coisa central para Nossa Senhora.
(Dr. Castilho: Aqui está fechado, não é, Dr. Plinio?)
Não.
(Dr. Castilho: Acho que essas duas partes correspondem à do centro, não é?)
(Dr. Eduardo A parte de baixo também fecha…)
A luz está de tal maneira ofuscando aqui, que eu tenho dificuldade de ver o estrado e fico com medo de olhar.
Onde é que ele está fechado?
(Sr. Umberto Braccesi: É que ele tem dobradiça.)
Ah! ele é fechável, mas não está fechado.
(Sr. Umberto Braccesi: Não, não.)
Ah! eu entendi dizer que ele estava fechado. Não, não, não, ele está aberto.
(Dr. Eduardo: Embaixo também é fechável, não é, Dr. Plinio?)
É, embaixo também é fechável. Aqui tem as duas portinholas que fecham, não é?
(Sr. –: É como um tríptico, não é?)
É. Aliás esses trípticos são fecháveis todos eles, não é?
Bem, os senhores têm uma imagem de Nossa Senhora, aqui no alto Nosso Senhor Jesus Cristo, e aqui no alto de Nosso Senhor Jesus Cristo os senhores encontraram um docel que termina em forma de ponta. Os senhores estão vendo aí a reminiscência gótica, com a boloda em gótico, coisas pesadas que vão se tornando mais leves. E depois uma coisa muito teológica, porque Nossa Senhora paira como a Rainha no meio de todos os santos. Nosso Senhor Jesus Cristo está por cima de todas as ordens possíveis, pairando praticamente quase como no Céu, com um docel supremo, cuja fina ponta, se a minha visão não falha, chega até aqui, e que indica então abranger todo o resto.
Quer dizer, algo do espírito da Catedral de Colônia que se perpetua de um modo inteiramente diverso num sistema de arte já diferente e, a meu ver, de decadência.
(…)
* A tendência para os píncaros caracteriza o espírito aristocrático
Ah, eu creio que em nenhum país do mundo a vida burguesa, no que ela tem de legítimo e digno, atingiu graus de desenvolvimento que atingiu na Alemanha. E com a vida burguesa, o desenvolvimento de um valor que é o próprio da ordem burguesa, e sem o qual não se compreende o que é a aristocracia. Porque se a tendência contínua em matéria de cultura para os píncaros, a tendência de se servir dos valores culturais para considerar continuamente o que há de mais elevado é o próprio do espírito aristocrático, e é a junção entre o espírito aristocrático e o espírito religioso, no espírito burguês a coisa é diferente.
* O espírito burguês exprime algo diferente: o bom senso, o recato, a estabilidade, a continuidade e o equilíbrio das coisas bem ordenadas
A arte procura exprimir uma coisa diferente: o bom senso, o pudor, o recato, a estabilidade, a continuidade, o equilíbrio das coisas bem ordenadas desta terra, e a criação de uma ordem de coisas que mais permite o espírito humano elevar-se ao mais alto do que propriamente eleva o espírito humano ao mais alto.
Vamos dizer, por exemplo, a Catedral de Colônia que nós vimos é um edifício eminentemente aristocrático pelo seu tom. Ela eleva o espírito humano a tudo quanto há de mais alto.
* Descrição dos vários aspectos de uma casa alemã, tipicamente burguesa
Aqui — nós vamos começar por aqui — os senhores têm um casa burguesa. Essa casa burguesa, apesar até de seu teto em forma de cone, não se pode dizer que eleva o espírito humano ao mais alto. Mas ela cria condições para que o espírito humano se eleve por si ao mais alto, que é uma coisa diferente.
Aqui os senhores têm uma construção tipicamente burguesa. Eu não sei qual é a destinação dela, parece que é utilizada para prefeitura, para qualquer coisa assim, por causa do brasão que eu vejo aqui… do relógio, que era característico da prefeitura. Mas o tom dela é o tom das construções de pequenas cidades burguesas incontáveis pela Alemanha medieval e de que muitas coisas ainda se conservam hoje.
Os senhores vêem aqui uma casa mais ou menos da mesma época, que é inteiramente coadunada com isto, e no fundo uma igreja que já é barroca, mas que ainda tem esse tom modesto burguês de uma igreja de um pequeno local e não de uma catedral de uma cidade que era uma prestigiosíssima metrópole cultural de todo o Reno como era Colônia.
Então os senhores têm aqui o quê?
A parte térrea forma uma espécie de hall aberto que é solidamente sustentado por um madeirame trabalhado discretamente, mas com uma certa distinção de linha. Depois os senhores têm aqui o corpo do edifício, e os senhores têm duas saliências que se projetam sobre a rua. Mais um andar aqui e a gente advinha que em cima há guardados incríveis: cadeiras velhas da bisavó, coisas de toda ordem empilhadas aqui em quantidade. É o sótão, mora criada, etc.
Os senhores procurem com a vista entrar janela adentro, e os senhores têm uma sensação, que é a sensação que condiz à vida burguesa, e que é a sensação que os senhores não têm na vida aristocrática. É a sensação de intimidade.
* A vida aristocrática não convida à intimidade — O que se chama intimidade tem a casa burguesa
A vida aristocrática não convida à intimidade, ela convida a um perpétuo estadear magnífico de si mesmo e produz uma naturalidade no esplendor. O verdadeiro aristocrata é inteiramente natural no esplendor, ele tomou a segunda natureza inteiramente ele mesmo no esplendor, mas ele não tem intimidade. O que se chama intimidade tem aqui dentro disso.
É um homem, aqui tem umas pessoas vestidas com o traje daquele tempo. Não figura nenhum homem, mas figura umas mulherengas um tanto masculinizadas. A delgadeza feminina não é a mais alta qualidade do povo alemão.
Se tiver alemães aqui me perdoem. Eu sei até que há.
Com certeza, nessa esterilidade deles estarão todos assílfedes que a raça produziu, mas fora essa esterilidade, são muito pesadonas, não é? E aqui estão elas… não é? São essas boas mulheres com esses aventais coloridos, com esses chapéus meio ingênuos, esses rapazões, rapazes, que a gente não vê bem aqui, com uns pelões assim, que se vestem para sair à rua, que se vestem todos pomposos, etc. E tem aqui dentro um armário, onde guardam a roupa de ir para a festa, mas quando chegam em casa têm um suspiro: “Ah!”. Tiram o sapatão, tira a roupa que apertava, senta numa cadeira macia, estica-se, enfim em casa!
Quer dizer, é o gosto da intimidade, do móvel cômodo, do ar tépido, da luz tamisada, que deixa entrar a realidade de fora, do cortinadinho, dos objetos próximos uns dos outros e ao alcance, perto da mão, em que o homem descansa do trabalho manual, nada disso necessário para o aristocrata.
* Pormenores do ambiente de intimidade que existe na casa burguesa alemã
O aristocrata quando quer — ele está aqui do outro lado da mesa — tem o livro dele, mas ele tem uma sineta, ele manda o criado pegar o livro, não é? Não se pode pedir isto a um homem que trabalhou o dia inteiro, não é? E que quando ele tem um livro que é uma grossa Bíblia, está ao alcance da mão ali. Ali está não sei o quê, aqui está o jarro de flores, está tudo perto dele, onde é que está o criado? Bem, está a mulher, que serve um pouco de criado e que resmunga quando o marido utiliza muito… e resmunga com uma grossa rabugice burguesa, de maneira que não é bom mexer muito com ela, não é verdade? E depois ela mesma trabalhou o dia inteiro, de maneira que não mexe com isto.
Eu não sei se os senhores percebem uma coisa curiosa: quem está aqui dentro se sente a uma légua da rua, a rua não penetra. Isto é construído de um tal modo, que isto constitui um ambiente completamente diferente dentro da qual a rua não entra. A rua está apartada disto, está isolada disto, está jogada num canto. A pessoa está na sua intimidade, num ambiente que ela marca e há até um pequeno gozo da intimidade nisto.
Isto forma uma espécie de casinha apartada da casa , que é o canto da bergère do avô ou da avó, é a chacunnière propriamente dita, onde cada um tem a sua “cadauneira” e senta lá. Depois, à boa maneira alemã, quando chega o verão, abre a janela, põe pedacinhos de pão e vem o passarinho comer ali, porque o passarinho alemão é crédulo como o próprio alemão… Vem comer lá, e o alemão: “Ah! der Nachbar, que beleza!”. Fica todo contente.
Ou então põe pote com gerânio, pendurado do lado de fora para o concurso de flores da prefeitura, precisa ganhar o prêmio, porque é muito bonito. Então, quando chega nessa festa, o sujeito tem uma rosácea assim de pano porque ganhou o prêmio da mais bonita flor, bla, bla…. E na carta escreve-se: “Ao senhor primeiro premiado, Fulano de Tal”, no envelope.
Tudo isso é uma construção do mundo alemão que eu comento com delícias porque eu acho tudo isso maravilhoso. Bem, é claro que eu condeno abusos da chacunnière, mas que a gente tenha o seu recantinho… Quem dos senhores não sonhou ter um recantinho assim? E quem dos senhores morando nessa casa não gostaria de ter uma boa poltrona aí?
* Regalos da intimidade e da vida burguesa presentes na casa: dignidade do prosaísmo, isolamento, conforto varonil, convite ao recolhimento e à oração
O que isto tem de ver com a contemplação?
É a casa legítima, sem pretensões, honesta, da família legítima, constituída segundo os sacramentos. É a casa onde o esplendor da vida de família, que está longe de ser o esplendor do celibato, ou da vida religiosa, ou da aristocracia, mas que tem o esplendor próprio que se manifesta com o seu prosaísmo. É a dignidade do prosaísmo, e é onde a pessoa pode recolher-se, isolar-se e, dando silêncio ao corpo, começar a meditar. Não é o conforto americano do preguiçoso, a gente sente uma mola, que afunda, dá três molas sucessivas, no fim o indivíduo esta amolecido. Não é isso, não. Tudo isso é mais varonil, e por isso, dessas casas em épocas de guerra, saem os melhores guerreiros do mundo. Em tempo de paz, comedores de pão, tocadores de flauta e violino; em tempo de guerra, dos melhores guerreiros do mundo.
Aqui está a harmonia da coisa.
Eu não sei se fiz sentir aí aos senhores como isso convida ao recolhimento, como convida à oração. Como uma pessoa sentada aqui, ou ajoelhada aqui num oratório, pode isolar-se de tudo. Como essas casas, sem levarem diretamente à oração, criam as condições para o espírito ter vontade de rezar e sentir-se bem quando reza. Aí estão os regalos da intimidade e da vida burguesa.
* O gozo da vida, mais na proporção do homem, é o gozo burguês da Idade Média
Não posso terminar esse comentário sem uma bofetada na Revolução.
A Revolução diz: o pobre plebeu, esmagado, etc. Se for para gozar a vida, eu acho discutível o que é melhor, se é essa vida aqui ou de um palácio. Porque passar num palácio quinze dias pode ser muito agradável. Será igualmente agradável viver a vida inteira num palácio, numa perpétua representação, numa perpétua ostentação?
Os senhores terminando isto aqui, os que tiverem vontade, vão ver aquele quadro que está junto à escada de serviço, uma gravurinha perto da Imagem de Nossa Senhora. É lorde não sei o quê, no castelo não sei o quê, na aldeia não sei o quê, uma sala enorme! Um lorde solene escrevendo solitário numa mesa.
Aquela vida não é uma vida um pouco sobre-humana? E esta não é uma vida de estatura humana? Se for para gozar a vida, não é mais gostoso comer um pãozão doce aqui — um pouco está a obsessão do meu regime com isto, eu sonho com pão, e os senhores estão vendo que o pão doce é exatamente o que os médicos me proibiram, não é Dr. Edwaldo? —, comer um pãozão sossegado aqui, com manteiga e mel, do que estar naquele palácio?
Eu nunca achei que o palácio fosse o lugar melhor para gozar a vida. O gozo da vida, mais na proporção do homem, é o gozo burguês da Idade Média. Palácio é sacrifício. Acho isso indispensável a gente ter em vista.
Agora pergunto aqui: estou certo que não há um no auditório que se lhe oferecesse de passar uns quatro ou cinco dias dentro dessa casa, não sairia de dentro da casa, ficava viajando dentro da casa, não é isso mesmo? Achava uma delícia. Bem, sempre com o melhor esplendor da natureza européia, árvores, não é? Aqui se tem horror a árvores, não é? Gosta-se da poeira, não é? Na Europa, tem-se horror a poeira e gosta-se da árvore.
* A vida de cruz na casa burguesa: resignação para não invejar o palácio, e trabalho duro
(Sr. –: Nessa casa pode haver espírito de cruz?)
Pode, porque o palácio é a vida de cruz dessa casa. O indivíduo que não mora nessa casa não se dá bem conta de como é o palácio, e ela precisa ter muita resignação para não morar no palácio, não invejar o palácio, e não desejar ser fidalgo, de um lado. De outro lado, esta própria vida que eu estou descrevendo, na hora do seu conforto comporta um lado de trabalho muito duro. De maneira que não é a casa, mas na vida desse homem que entra o trabalho duro, não é?
* Uma gravura de um edifício medieval
Aqui é um edifício que vai deixar os senhores um pouco surpresos, é um edifício medieval. Ele parece muito pouco com as coisas medievais. Os senhores poderiam vagamente ver nele uma ogiva que chega até aqui e desce até aqui. Mas as habitações parecem habitações civis comuns para a vida de gente de uma categoria um pouco superior a esta e até menos pitoresca do que isto aqui.
Eu acho isto aqui mais bonito, mais mérito artístico, mas menos pitoresco do que isto.
* Comentários sobre uma praça pública de Frankfurt e sobre o edifício em que era eleito o Imperador do Sacro Império
Eu trouxe isto aqui para os senhores verem a praça pública de uma cidade alemã, já de um certo desenvolvimento como Frankfurt.
Como é que é a praça?
Os senhores estão vendo aqui uma fonte, esta fonte já é rococó, com mil jatos de água que eles gostavam de fazer, uma grade bonita, flores maravilhosas que ninguém rouba — não precisa comentar nada, não é? — e nem nenhum moleque acha bonito escangalhar essas flores durante a noite e voltar com riso de bandido de 8 anos em casa contando que estraçalhou tudo quanto viu. Os senhores me entendem bem.
Entretanto este edifício se prestava à maior solenidade do Sacro Império Romano Alemão. Era deste balcão, neste prédio, que o Imperador do Sacro Império Romano Alemão era eleito. Aí dentro, um soalho tão precioso que só se entra no prédio com chinelos de feltro enormes que cobrem os sapatos para não estragar o soalho. Tudo dentro dele é lindíssimo, soleníssimo. E é deste terreno — os senhores vêem o tamanho da porta que abria — que o Imperador recém-eleito aparecia para o povo, jogava moedas de ouro e começava a tocar aqui um sininho que logo depois dava origem ao toque de sinos de todos os sinos da cidade e, de proche en proche, todos os sinos da Alemanha anunciando que a Cristandade tinha um novo chefe.
* A monarquia alemã conservou sempre uma nota patriarcal, que a monarquia francesa não tinha
Isso indica um pouco a síntese do espírito alemão, que no espírito francês os senhores não encontram, e é o seguinte:
A monarquia alemã era de um fausto, de uma glória extraordinária, mas conservou sempre uma nota patriarcal, uma nota de guimitriskai (?) que eu não saberia traduzir isto para o português, cause se quiserem é em inglês, uma nota que a monarquia francesa não tinha, na monarquia francesa as coisas se passavam de um modo diferente. Mesmo São Luís julgando, sentado numa cadeira de carvalho, debaixo do carvalho de Vincennes, num trono, mesmo São Luís não tinha no seu perfil espiritual algo que é a síntese de todas as classes sociais. Ele era um aristocrata que se aproximava do povo.
* Afabilidade e intimidade na monarquia austríaca, expressas no modo de anunciar o nascimento do novo arquiduque e nos festejos do povo
Nos Imperadores do Sacro Império e nos Imperadores da Casa d’Áustria não era a culminância da ordem social que era afável para com o povo, mas uma espécie de síntese de todas as classes neles, por onde a monarquia austríaca, mais esplendorosa do que a francesa por vários lados, comportava cenas dessas:
No século XVIII a Imperatriz Maria Teresa está no teatro, ópera de Viena, soleníssima, e recebe a notícia de que o filho mais velho teria um filho. Ela faz um sinal e interrompe a orquestra, pára e ela grita para o povo: “José teve um filho!”. Todo mundo se levanta, aplaude, dança e tal, e viva a Imperatriz, e viva o novo arquiduque, etc. Mas numa espécie de intimidade que nós não vemos Maria Antonieta, austríaca afrancesada, ter. E se ela tivesse nem ficava bem para ela, não é?
A um compete dizer: “José teve um filho”, o outro tem a graça de aparecer num balcão de teatro, no balcão de Castela, precedido por alabardeiros, por uma corte e um homem que bate três vezes com a lança pesada e diz: “Nós temos a hora e a alegria de vos anunciar que a muito alta poderosa princesa tal foi agraciada por Deus Nosso Senhor com o nascimento de um delfim!”, e uma grande reverência! São estilos, cada estilo tem sua razão de ser e sua beleza.
(…)
Mas não quer dizer que eu não ceda de pleno, de compreensão e de admiração para com o estilo austríaco e para esta beleza: o Imperador joga daí ouro para o povo, pouco depois começam os festejos, fontes estão preparadas e não têm essa água ordinária … [inaudível]… começam a deitar vinho umas e leite, outras. Trazem por conta de novo imperador para a praça pública bois inteiros que começam a ser assados. O povo começa a dançar e está preparado um monte de trigo e o Imperador tem que sair correndo a cavalo com uma espécie de litro na mão e encher o trigo com aquele litro, e o povo todo aplaude porque o imperador provou que anda bem a cavalo, porque não é fácil o cavalo andar no meio da trigalhada.
E assim, entre festejos, e um pouco entre festejos quase um pouco infantis, o bom alemãozão, grossão, é um pouco infantilzão. Mas nisso entra também o melhor do sabor dos pães que ele faz e dos gerânios que ele cultiva, uma coisa um pouco infantil, um pouco popular, muito guerreira, sumamente aristocrática, em todo caso metafísica, mas que é diferente da frieza azul e ouro das plumas, das sedas e do esplendor de Versailles. São coisas diversas.
E com isto está feito o comentário desta noite. É para nós amarmos a Igreja Católica, na variedade das almas que ela produziu.
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1) Pelo tema tratado, mais parece ser uma conferência sobre “Europeização”.