Santo
do Dia (Rua Pará) – 29/5/1968 – 4ª feira [SD
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Santo do Dia1 (Rua Pará) — 29/5/1968 — 4ª feira [SD 278]
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Pode haver revolucionário mais ou menos tíbio, mas ele não é heresia branca em relação à Revolução * Os semicontra-revolucionários têm, em sua alma, influências contra-revolucionárias sem dinamismo, enquanto que nos contra-revolucionários as influências revolucionárias têm dinamismo * Explicações para os coágulos revolucionários: heresia branca e falta de coragem para romper com o ambiente * Um menino que se deixa absorver pela mentalidade da família, rompe com esta mais tarde, por comodismo ou carreirosa * É preciso ter grande amor à verdade, serenidade e força de alma para fazer crítica meticulosa dos erros que querem nos impingir * O calvário para o qual fomos chamados: fazer crítica implacável e constante de tudo aquilo que em torno de nós cheira a Revolução
* Pode haver revolucionário mais ou menos tíbio, mas ele não é heresia branca em relação à Revolução
Eu tenho aqui uma condensação das respostas à questão formulada:
Por que razão os revolucionários não têm necessidade de serem lembrados constantemente o motivo pelo qual devem odiar?
Ontem nós examinamos uma dessas razões, e era questão da heresia branca, que eles não têm e nós temos. Quer dizer, não há revolucionários heresia branca. A heresia branca não foi uma coisa que penetrou de maneira a corromper a alma do revolucionário no que diz respeito à Revolução.
Aquele que nós chamamos heresia branca é um semicontra-revolucionário. Mas em relação à Revolução ele não é heresia branca. Ele é heresia branca em relação à Contra-Revolução. De maneira que revolucionário infectado de heresia branca a respeito da Revolução, isto é uma coisa que não existe.
Pode haver revolucionários tíbios, ou melhor, mais tíbios ou menos tíbios, mas todo revolucionário participa daquele sal especial, daquele ódio para com a Igreja Católica bem compreendida e para com a ordem medieval e cristã, na qual a Igreja Católica exprimiu o seu ideal social do modo mais próximo à sua verdadeira doutrina.
* Os semicontra-revolucionários têm, em sua alma, influências contra-revolucionárias sem dinamismo, enquanto que nos contra-revolucionários as influências revolucionárias têm dinamismo
Temos aqui, agora, outras explicações.
A graça que nos dirige para a virtude total, para a imitação, encontra de nossa parte, quando muito, uma meia correspondência, de tal forma que acabamos estabelecendo em nossa alma uma espécie de modus vivendi entre a Revolução e a Contra-Revolução. Nesta situação, a alma encontra-se incapacitada de amar muito intensamente os princípios contra-revolucionários e odiar os revolucionários. Ademais, os coágulos contra-revolucionários que existem na alma dos revolucionários são poucos e sem dinamismo, enquanto a na alma dos contra-revolucionários, os coágulos são muitos, atuantes e dinâmicos.
Então, por que os revolucionários vêem mais em nós os princípios contra-revolucionários do que nós vemos neles os princípios revolucionários? Estando mais os revolucionários entregues aos seus princípios, sua sensibilidade para perceber o que se lhes opõem é também muito grande, pois é próprio de quem ama muito algo, odiar também muito o seu contrário.
Eu louvo muito essa resposta que muito corretamente está formulada. Não sei se formulada pelo Dr. Paulinho. Mas em termos muito corretos do ponto de vista da RCR e que acaba dizendo o seguinte:
Os semicontra-revolucionários têm influências na sua alma contra-revolucionárias, mas que são influências sem dinamismo, enquanto os contra-revolucionários têm influências revolucionárias na sua alma, mas essas influências revolucionárias têm dinamismo. O resultado é que lá os coágulos contra-revolucionários não lhes impedem de ver a verdade, ou melhor, de ver o ultramontanismo, enquanto em nós exatamente as influências revolucionárias nos impedem de ver com toda a alma o ultramontanismo.
* Explicações para os coágulos revolucionários: heresia branca e falta de coragem para romper com o ambiente
Mas poderíamos levar o problema mais longe, porque seria de perguntar o seguinte: “Está certo, mas por que na nossa alma de contra-revolucionários ficam tantos coágulos desses? Por que nós, ao cabo de tantos anos de freqüência ao Grupo, ainda temos coágulos desses? Por que não somos ultramontanos verdadeiros, a tal ponto que nenhum princípio mais resta em nossas almas que nos ate na posição contra-revolucionária ou que nos ate com simpatias na Revolução e que nos dê essa cegueira?”.
Isto aqui é uma primeira descrição do fenômeno, mas não é a descrição mais profunda do fenômeno.
A meu ver as explicações são múltiplas. Além desta da heresia branca, que a meu ver é de uma importância enorme, existe uma outra coisa que é a seguinte:
Nós somos cercados por uma porção de preconceitos do ambiente que nós aceitamos, por falta de varonilidade no combate contra o ambiente. Nós não temos a coragem de romper tão completamente com o ambiente, que nos sintamos interiormente verdadeiros párias em relação a esse ambiente. Nós não temos a coragem de pensar de tal maneira contra aqueles que nos rodeiam fora do Grupo, que fiquemos em pontos completamente opostos a eles. E isto é por causa de uma espécie de complexo de inferioridade que a sociedade moderna causa em nós, complexo que nos inibe de rompermos com ela de modo tão completo. Nós então ficamos meio influenciados pela sociedade moderna e esta meia influência, esta meia sujeição à sociedade moderna implica numa sujeição à Revolução.
Vamos ver a coisa em outros termos, e nós nos explicamos melhor.
Eu parto do pressuposto de que noventa e nove por cento dos senhores — e é um pressuposto que tem algo de otimista — pertencem a famílias revolucionárias ou semicontra-revolucionárias, como eu mesmo pertenço.
Em presença dessas famílias, o menino — que é o período em que se forma o subconsciente, forma o temperamento e toda a sua mentalidade — toma contato com a família e tem a graça de ser bom católico. E a graça o convida para tomar uma posição em contrapartida à posição de sua família. Mas ele em vez de tomar essa contraposição, ele vai capitulando diante da influência da família. E ele capitula por duas razões:
Em primeiro lugar, por uma razão de simpatia para com a família, de homogeneidade temperamental para com a família, e do gosto de levar uma vida cômoda em casa no convívio com os seus. Mas esta não é a razão principal.
* Um menino que se deixa absorver pela mentalidade da família, rompe com esta mais tarde, por comodismo ou carreirosa
Os senhores imaginem que o menino pertencesse assim a uma família com a mentalidade muito característica e que fosse se deixando absorver pela mentalidade da família. Mas quando ele ficasse mais velho, ele percebesse que a família está completamente desatualizada e que todo o mundo de hoje toma uma posição que é oposta à posição da família, de maneira que o mundo de hoje ridiculariza a família.
O menino começa a romper com a família — isso na imensa maioria dos casos — porque ele percebe um mundo maior do que o da família, mais autorizado, por títulos humanos, do que o da família e em que ele tem mais necessidade de se encaixar do que na própria família. Na família ele come, bebe e dorme. Mas os amigos, as companhias, o futuro dele, a carreira dele se fazem para fora da família. De maneira que ele quer pactuar com a opinião deste mundo, que é um mundo oposto à família, mas no qual ele quer se instalar bem.
É a dificuldade que têm as famílias que são semicontra-revolucionários moderadas em evitar que os filhos caiam completamente nas garras da Revolução. É o prestígio maior e as vantagens maiores que o mundo oferece em relação àquelas que a família pode oferecer.
De maneira que, então, na ordem dos prestígios humanos, temos mais imediatamente a família. Mas como valor supereminente, essa espécie de consenso universal que abre todas as portas, facilita todas as amizades, proporciona todas as simpatias e é condição para todas as carreiras, é condição para um cômodo conviver com todo mundo. E isto é uma força que de tal maneira impressiona, que as pessoas, por comodismo, por egoísmo, por carreirosa, por uma porção de outras coisas, se dobram diante dessa força.
* É preciso ter grande amor à verdade, serenidade e força de alma para fazer crítica meticulosa dos erros que querem nos impingir
Acontece que é preciso ter um grande amor à verdade — mas à verdade verdadeira, quer dizer, à doutrina católica — para a pessoa fazer a seguinte reflexão: “Eu percebo que essas coisas que a família me ensina são erradas. Eu percebo que minha família tem prestígio no mundo dela — não é preciso que seja prestígio na alta sociedade, isto é outra questão. No círculo das relações dela, ela tem prestígio, eu percebo isto, porque ela no fundo afina com o mundo, mas eu sei que a verdade é outra. E eu, antes de tudo e de mais nada, não fecharei os meus olhos, e montarei, para não me deixar dominar pelo erro e pelo mal, uma crítica implacável e meticulosa dos erros que esta gente está me impingindo. Para isto é preciso ter uma serenidade, é preciso ter uma força de alma, é preciso ter um amor à verdade, que se chamam amor de Deus. Porque só quando a gente ama a Deus sobre todas as coisas é que gente se decide a esse trabalho”.
Porque os senhores sabem qual é o resultado desse trabalho, quando a gente se entrega inteiramente a Ele? É que a graça e a sabedoria penetram em nossa alma; é que a nossa vida espiritual encontra recursos maravilhosos para o cumprimento dos mandamentos da Lei de Deus; é que nossa alma tem uma luminosidade especial para conhecer a doutrina católica e, por assim dizer, para encarnar a Igreja Católica.
Mas em cada homem que a gente encontra, a gente sente a impossibilidade de estabelecer um pacto de alma completo. Porque a gente antes de dar a uma amizade inteiramente a esse homem, é obrigado a analisá-lo, e ao analisá-lo, a gente descobre a eiva da Revolução. Em cada movimento coletivo que se levante, a gente é obrigado a ficar alheio, porque a gente percebe que se a gente for se associar àquele entusiasmo coletivo, aquele entusiasmo coletivo tendo a eiva da Revolução, a gente devora algo da Revolução que a gente não quer devorar.
Por isto a gente não pode ser torcedor de partidas de esporte, a gente não pode ser torcedor de nada daquilo pelo que os homens torcem, porque os homens torcem a la revolucionários, e participando nós da torcida deles, nós bebemos, haurimos o espírito deles. A gente não pode ter as conversas que eles gostam, porque conversando no estilo deles, entram estilos revolucionários de conversa e a Revolução nos entra alma adentro.
A todo momento nós encontramos a necessidade de levantar uma barreira, a necessidade de dizer um não. E ainda que nós sejamos muito diplomatas e para evitar atrito e para evitar choques nós não digamos as coisas expressamente, os outros notam que nós somos um corpo estranho no ambiente deles. E eles se afastam de nós, formam um todo contra nós.
* O calvário para o qual fomos chamados: fazer crítica implacável e constante de tudo aquilo que em torno de nós cheira a Revolução
Os senhores estão vendo bem que nessas operações que são feitas pelo Zerbini e outros aqui, como todo organismo tende a rejeitar um corpo estranho, e que mil providências são necessárias, que parecem quase miraculosas à primeira vista para os homens, para que um organismo humano aceite o enxerto de um outro corpo.
Pois isto é ainda mais exigente da parte dos ambientes humanos. Os ambientes humanos rejeitam aquilo que lhes é verdadeiramente heterogêneo, e rejeitam com uma intransigência parecida com essa do organismo. E a gente é obrigado não só a ter uma censura contínua aos outros, mas ter uma censura dos outros contra a gente.
Há nisso uma imolação, há nisso um martírio, há nisso um sacrifício, há nisso um calvário que a gente tem que subir até o alto. Este é o calvário para o qual fomos chamados, porque a condição da ortodoxia é esta. A condição de ser contra-revolucionário é esta. A condição de ser bom membro do Grupo é esta. É esta crítica implacável e constante de tudo aquilo que em torno de nós, em todos os ambientes em que vivemos, cheire a Revolução.
(…)
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1) Já existe um “Santo do Dia” nesta data. Provavelmente este texto se refere a uma “Reunião Normal”.