Santo
do Dia (Rua Pará) – 24/5/1967 – 6ª feira [SD
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Santo do Dia (Rua Pará) — 24/5/1967 — 6ª feira [SD 121]
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Um dos episódios culminantes da Idade Média: São Gregório VII obriga o mais alto hierarca temporal a lhe pedir perdão * Nem tudo se resolve por doutrina, mas especialmente pelo exemplo, por isso a Igreja nos propõe os santos como modelos * Heresia subconsciente em muitos de nós: somos incapazes de imitar os santos por sermos de outra massa * Os santos intercedem por nós, principalmente nos dias de suas festas
* Um dos episódios culminantes da Idade Média: São Gregório VII obriga o mais alto hierarca temporal a lhe pedir perdão
Amanhã é dia de São Gregório VII, um dos padroeiros do Grupo. É pena eu não me ter lembrado disso com certa antecedência, pois teria pedido ao professor para trazer aqui o Dictatus Papae, famoso documento de São Gregório VII, espécie de embrião da doutrina ultramontana e que exprime toda a grandeza de espírito dele, etc.
A história de São Gregório VII é tão conhecida, que quase não me dá margem para eu fazer um comentário. Entretanto, um certo comentário nós poderíamos fazer. E é o seguinte: qual a utilização que devemos fazer, para nossa formação espiritual, da narração da vida de um santo?
Por exemplo, quando nos lembramos aqui do famoso episódio de Canossa, em que São Gregório VII foi de uma tal severidade com imperador Henrique IV, o mais alto hierarca da terra, imperador do Sacro Império Romano Germânico, que se obstinava em não querer reconhecer ao Papa o direito de nomear, de dar investidura aos bispos, que ele acabou reduzindo Henrique IV a uma necessidade, para não perder o trono, de ir pela neve, atravessar os Alpes e ir pedir perdão a ele em Canossa. Durante três dias, o imperador ficou do lado de fora do castelo de Canossa, pedindo perdão. Afinal de contas, São Gregório VII o recebeu. Foi um dos episódios culminantes da Idade Média.
A maravilha desta cena: o poder temporal, com toda a sua força, aniquilado diante do poder espiritual, a matéria reduzida à servidão diante do espírito, a força reduzida à vassalagem diante do Direito, e o reconhecimento da suprema supremacia, se se pudesse dizer, do Vigário de Nosso Senhor Jesus Cristo na terra.
Ele deu aí um exemplo admirável de perspicácia, e um exemplo admirável de fortaleza. Parece perspicácia, porque ele sentiu quais eram as razões pelas quais ele não deveria ceder. De fortaleza, porque ele não cedeu mesmo, até levar o adversário completamente à derrota.
* Nem tudo se resolve por doutrina, mas especialmente pelo exemplo, por isso a Igreja nos propõe os santos como modelos
Qual é, para nossa vida espiritual, a utilidade dessa reflexão?
A Igreja Católica não é uma mera escola filosófica, uma escola de pensadores moralistas que inventam coisas no ar e depois recomendam aos outros que sigam. A fé entra num conúbio harmonioso com uma filosofia, que é a filosofia escolástica de Santo Tomás de Aquino. Ela tem uma moral própria, que é a única moral verdadeira, que é a moral cristã. É uma moral inteiramente verdadeira, sem erros e contendo todas as verdades.
De outro lado, também é verdade que ela quer que conheçamos essa doutrina e que nós a aprofundemos. Mas na Igreja Católica nem tudo se resolve por doutrina, e nem tudo se resolve de livro na mão, por meio de imaginações e de elucubrações de caráter teórico. Há algo mais do que isso.
A Igreja sabe que nós, como homens que somos, somos influenciáveis pelos exemplos. Há um provérbio antigo que diz: as palavras voam e os exemplos arrastam. O exemplo é aquilo que nos atrai, que nos arrasta. A palavra pode persuadir; quem move, em geral, é o exemplo. Por isso é que a Igreja propõe à nossa meditação o exemplo dos santos. É exatamente para meditarmos na seguinte base: porque sem isto este exemplo não seria aproveitável, não seria exemplo.
Nós temos o defeito de achar que os santos e, sobretudo os santos do passado, eram feitos de uma outra massa da qual não somos feitos, de uma outra substância, uma outra ordem de coisas, de maneira tal que não podemos ter nenhuma comparação com eles. Conseqüência, não somos obrigados a repetir o que eles fizeram: “Aquilo é para uma pessoa tão mais elevada do que eu, que é até mega eu achar que me posso comparar ou imitar aquele santo”.
Pelo contrário, a Igreja, se nos propõe os santos como exemplo, é porque eles foram homens como nós, concebidos como nós no pecado original, sofrendo tentações para o pecado, muitas vezes maiores do que as nossas, e que confiaram na graça de Deus, lutaram e se santificaram, e por isso ficaram santos.
Por causa disso, Santo Inácio de Loyola se converteu com o exemplo dos santos. Os senhores sabem que era um mundano, que ele era um pecador que durante uma longa enfermidade, por não ter mais o que ler, começou a ler livros de santos. E, de repente, lhe veio à cabeça o seguinte: “Se estes fizeram, por que não eu?”. Ele compreendeu que o que estava ao alcance dos santo, estava ao alcance dele. E daí veio sua emenda.
* Heresia subconsciente em muitos de nós: somos incapazes de imitar os santos por sermos de outra massa
Não devemos ouvir a vida dos santos com o pressuposto de que não são exemplo para nós. Não seria um exemplo se fosse um homem de outra massa, que nós não pudéssemos imitar. Ou se a graça de Deus fosse uma graça tal, que para nós de hoje em dia não se dá, estamos exilados dessa graça, somos os enjeitados dessa graça. Isso é antiteológico, é errado, frisa pela heresia. E é esta heresia subconsciente que está no espírito de muitos de nós.
Então, devemos considerar que o santo é um modelo vivo, de nossa qualidade e de nossa categoria.
* Os santos intercedem por nós, principalmente nos dias de suas festas
De mais a mais, além de modelo, é ele um intercessor. Cada santo reza para que pratiquemos todas as virtudes, mas especialmente aquela em que ele foi insigne. E se eu sou mole, se eu sou pamonha, São Gregório VII reza para mim, para eu ter força.
Em terceiro lugar, a festa do santo é uma ocasião em que as graças difundidas por este santo são mais abundantes. Então, a gente deve rezar para os santos com muito cuidado nas suas festas (nas outras ocasiões também). Por isso nós terminamos esta conferência e vamos aproveitar os últimos dias da festa de Nossa Senhora Auxiliadora, implorando o auxílio d’Ela para nós.
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