Santo do Dia (Sede da Rua Pará) – 20/5/1968 – 2ª-feira – p. 3 de 3

Santo do Dia (Sede da Rua Pará) — 20/5/1968 — 2ª-feira

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Santo André Bosoli

Alguém me fez esta pergunta: “Sendo a graça de Nossa Senhora a única que nos pode mover e apetecer em adquirir este espírito total e meticulosamente contra-revolucionário, seria o caso de se fazerem orações oficiais do Grupo nessa intenção?”

Eu tenho impressão de que seria, talvez, útil estas explanações que eu fiz a respeito deste assunto — ver se não der trabalho demais, aproveitar para a “Circular Boletim”, porque isso ficava uma coisa escrita e poderia, de tempos em tempos, ser relembrada como ponto de importância fundamental, para nós desenvolvermos o nosso apostolado. Quanto ao que está sugerido aqui, de orações especiais nesse sentido, me parece que o que se poderia fazer seria, talvez, uma oração pequena — que se me lembrarem, eu poderia compor — a ser rezada, vamos dizer, no começo e no encerramento de qualquer atividade de apostolado, por pequena que fosse. Qualquer atividade do Grupo. Portanto, vamos dizer — já que eu tenho o meu Humberto aqui, diante dos olhos — no começo do trabalho do atelier, rezar. Em cada período, rezar no fim. Mas isso seria preciso que cada dois ou três meses a oração variasse um pouco e me pedissem para modificar o texto da oração, porque, no contrário, cai numa espécie de rotina e a rotina deixa de impressionar.

Eu tenho a impressão que se houvesse um pedido de uma graça de uma assistência de Nossa Senhora, para aquela atividade que nós vamos desenvolver, em razão do fato de que nós purificamos a nossa intenção para só atender a glória d’Ela, eu tenho a impressão de que este seria um modo muito útil de fazer com que todo mundo rezasse as orações. De maneira de que por esta forma, eu responderia à pergunta que aqui me foi feita.

Uma outra pessoa me disse o seguinte… Mas eu prefiro deixar esta última pergunta para amanhã à noite, para tratar de uma outra questão que eu sou capaz de me esquecer e que fica um pouco à margem disto, aparentemente à margem disto; de fato, não fica.

Nas repercussões dos rapazes que estiveram na Faculdade, eu notei o seguinte: que eles sentiram que foram atacados com uma intensidade de ódio extraordinários, que todas as pessoas que os atacaram, atacaram com um ódio furibundo, um ódio demoníaco. Digo mal, em quase todas as faculdades que estiveram algumas das pessoas que os atacaram, atacaram com um ódio furibundo, um ódio demoníaco, um ódio que não esperavam encontrar. Agora, de onde é que vem este ódio? Os senhores procurando analisar, fazer o filme da cena em que foram atacados, os senhores encontram o seguinte: Aqueles rapazes carregados de ódio, eles tinham inteiramente, diante do espírito, presente a idéia de quem são os senhores. A idéia do princípio que os senhores representam. E os senhores devem ter notado uma coisa curiosa — ao menos pelas repercussões que chegaram a mim — nem a palavra “família”, nem a palavra “propriedade” causaram tanta irritação quanto à palavra “tradição”. E é porque os senhores não representam uma família qualquer, uma propriedade qualquer, mas os senhores representam uma tradição de propriedade, um modo de ser tradicional da família que os senhores desejam manter, e que é como foi plasmada pela Igreja na Idade Média — que ainda está meio viva hoje em dia, e que nós queremos conservar viva, hoje em dia, como ponto de partida para a ressurreição do espírito que formou e que plasmou, na Idade Média, essas coisas.

Em última análise os senhores eram odiados com todo o ódio que a Idade Média é odiada. E eles tinham em vista toda uma espécie de antiteologia da História, quando eles consideravam os senhores. Eles tinham no mais alto grau, para o mal, esta visão da finalidade última do que eles estavam fazendo naquele momento, que nem sempre no espírito nosso estava presente. Quer dizer, enquanto muitos dos que iam às escolas, nesses oposicionistas viam apenas um rapaz, um rapaz desligado de vínculos com ideologias, um boboca com o qual era preciso gritar, eles viam nos senhores um princípio. O resultado é o seguinte: é que os senhores atacavam a eles com menos furor do que eles atacavam os senhores, porque os senhores atacavam indivíduos e eles atacavam princípios. E o ódio que a gente tem a um indivíduo nunca é tão grande quanto o ódio que se tem a um princípio, quando a gente tem o espírito suficientemente temperado para poder odiar um princípio.

Quer dizer, eles viam toda a “RCR” — não leram a “RCR”, não ouviram falar da “RCR”, mas toda “RCR” estava na cabeça deles. É porque eles amam o comunismo, amam a Revolução Francesa, amam o Protestantismo, amam o Humanismo, amam a Renascença, é por esta razão que eles odiavam aos senhores. E eles sentiam isto. E eles odiavam com esta carga de ódio. Pelo contrário, nós não tínhamos sempre presente que eles representavam o comunismo, a Revolução Francesa, o Protestantismo, a Renascença. Para nós, nós não tínhamos bastante fé que eles eram os representantes da Revolução. Resultado também, nós não lutávamos com a energia com que eles lutavam. E um pouco do que nos ficou na alma, foi uma surpresa de ter encontrado tanto ódio diante de nós, foi porque nós encontramos a Revolução.

Seja esse o maior lucro da nossa campanha. É a experiência — já que hoje se fala tanto em experiência —, é a experiência viva do que é a realidade da Revolução. Quatrocentos anos de ódio urraram pela boca desses demônios, quando atacaram os senhores. O ódio de Lutero contra as partículas consagradas, o ódio de Calvino contra Nossa Senhora, o ódio dos renascentistas contra a pureza, contra a castidade, contra a ordem tradicional medieval, contra o gótico. O ódio dos revolucionários franceses contra a hierarquia político social. O ódio dos comunistas contra a hierarquia social e econômica, tudo isto estava no espírito deles. E enquanto nós não tivermos tanta convicção de que eles são a Revolução, quanto eles têm a convicção de que nós somos a Contra Revolução, nós não lutaremos. Não há escola que adiante.

Nós não encontraremos…

(…)

do ódio deles, e nós não teremos um ódio maior do que o deles.

Ora, em luta vence quem odeia mais, vence quem berra mais, e para poder berrar é preciso odiar! Não é preciso ter nem boas laringes, nem bons pulmões, é preciso ter ódio! É o ódio santo com que Deus manda para o inferno os condenados. O ódio com que os Anjos bons expulsaram os maus do inferno… do Céu. O ódio da Contra-Reforma, o ódio das Cruzadas, o ódio dos chouans, o ódio dos carlistas. O nosso tem que ser maior, por que eles presenciaram abominações maiores do que nós presenciamos?.

Aqui está. É esta compenetração que, mais do que tudo, eu creio que o nosso curso deve dar. Sem isto, não adianta nada! Nem temos as bênçãos do Céu. Nós não temos as bênçãos de Nossa Senhora se não formos para a luta com esta compenetração e esse ódio. A Revolução não é uma coisa abstrata, não é uma coisa que está nas nuvens. Ela está concretamente nos homens que nos rodeiam. E ela se polariza especialmente nos homens que mais nos rodeiam. Estes são a tal Revolução de que está escrita na “RCR”, e nesses é preciso saber ver a Revolução viva e atuando. E quem não sabe isto, nunca entenderá a “RCR”. Eu acho isto tão importante que, se quiserem me fazer alguma pergunta sobre isto, fariam a gentileza de pôr por escrito, e eu, amanhã, responderia. Mas, para mim — para usar uma palavra péssima de hoje —, a vivência disso é o fruto mais precioso desta campanha.

A título de curiosidade eu queria saber — levantem o braço os que entenderam para eu ter um pouco uma idéia. Bem, agora me digam: era o caso de, de vez em quando, cada dois meses, cada três meses reprisar isto ou isto já está visto? Agora eu pergunto: os senhores acham que para esses indivíduos, que odeiam os senhores, é preciso reprisar cada dois ou três meses? Então eu pergunto: o que é que eles têm, que nós não temos? Não acham essa pergunta interessante? Então os senhores me respondam amanhã, esta pergunta por escrito. Realmente, eu ficaria encantado — eu não vou mandar todos responderem, mas se alguns quiserem me responder, dizer isto: o que é que eles têm, que nós não temos, este é o nosso déficit. É aí que nós temos que crescer, para sobrepujá-los. O que é? Eu fico esperando a resposta.

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Sede da Rua Pará