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Reunião Normal — 15/5/1968 — 4ª feira

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Sede de Nosso Senhor na Cruz; formas de egoísmo e o valor das almas

Eu vou tratar de um assunto hoje à noite, que é propriamente – não se assustem com a gravidade da expressão – é propriamente no sentido literal da palavra um ensaio. Porque é uma exposição a respeito de um tema sobre o qual, é um tema meio nebuloso e sobre o qual eu não tive oportunidade de refletir muito a fundo, porque resolvi em vez de refletir muito a fundo tratar dele por alto, aqui no auditório uma noite, e até de preferência uma noite onde houvesse pouca gente. E depois com as observações que eu recebesse, em os comentários, etc,.etc. então tentar construir uma coisa, me facilitaria constituir alguma coisa de encontro a isso, quer dizer, em função disso.

A questão é a seguinte: Nosso Senhor Jesus Cristo do alto da Cruz Ele diz: Sitio, Ele tinha sede. E todos os intérpretes concordam em que essa sede que Ele tinha não era apenas a sede física que realmente Ele tinha por causa da efusão abundante de sangue, mas que era sobretudo a sede das almas, e que Ele tenha essa sede das almas. Bem.

Nós ouvimos falar também em sede- entre passagens, porque eu conheço pouquíssimo o Evangelho de memória, infelizmente; naturalmente eu já li mas de memória eu não conheço – mas em outras passagens do Evangelho eu me lembro que Ele fala de sede. Ele fala também na sede de justiça, aqueles que tem fome e sede de justiça. E nós temos aqui então duas formas de sede das almas: a sede de justiça e a sede que a alma tem das outras almas.

Nós podemos dizer que também a alma tem sede de Nosso Senhor Cicut cervus desiderat ad fontis acquarum, diz um salmo,it desideret anima mea Dominum, uma coisa assim como o cervo vai às fontes das águas, assim a minha alma também vai ao meu Deus, não é? É até freqüente em símbolos eucarísticos etc., nós vermos uma fonte com dois veadozinhos se dessedentando.

(Dr. Luiz Nazareno: Mesa da comunhão, não é?)

Mesa da comunhão, etc., etc.

(Dr. José Fernando: … [faltam palavras] …)

É na Igreja Constantiniana era um tema muito… [faltam palavras] …, porque esta sede é evidentemente a sede que a alma tem de deus, não é? Está escrito lá: “Assim como o cervo vai para água, assim minha alma vai para Deus”, não é? E o desejo que nós temos de comungar, a nostalgia eucarística quando nós não comungamos é exatamente essa sede.

Bem, então nós temos três espécies de sede que nós podemos imaginar: a sede que Deus tem das almas, a sede que nós temos de Deus, a sede que nós devemos ter uns das almas dos outros, não é?

Agora, todas essas três sedes tem isso de comum que são apetências e atrações puramente espirituais de alma para alma, em que o corpo non ci entra per niente,é a alma que deseja uma outra alma, não é isso? Naturalmente uma sede a inexprimível da parte de Deus que não precisa de ninguém, que é perfeito e se basta a Si próprio e que quer condescender em ter sede de nós. Uma sede muito menor, mas nos santos, ardentíssima, de nós para com Deus. E uma sede que o apóstolo tem das almas junto às quais ele vai fazer apostolado.

Bom, agora quais são as características dessa sede, quais são as razões de ser dessa sede? Afinal de contas o que é isso? Como é que isto se passa nas almas? Pergunta que é muito importante para nós perguntarmos a nós mesmos em que medida temos esta sede, e o que nós devemos fazer para acender essa sede em nós, e quais são os fatores que podem acender essa sede ou podem fazer deperecê-la em nós, não é?

Agora, para nós conhecermos isso me parece que nós temos que ser racionais, quer dizer, temos que ver no que [é] que a alma humana legitimamente pede isto. Se ele deve pedir e no que é que legitimamente ela pede isto. E para isto eu achava que era preciso preparar um pouco o terreno, calcar um pouco o terreno nas nossas almas, tratando de um outro aspecto da questão, que é a seguinte:

As almas que não têm sede de outras almas, do que [é] que elas tem sede? É uma coisa que se pode perguntar.

Eu tenho a impressão de que há duas espécies de almas: há umas almas que tem sede de almas e há outras que tem sede de utilidades, não têm propriamente sede de almas. A vida delas passa-se pouco mais ou menos indiferentemente as outras almas. Mas querendo apenas ter utilidades. Essas utilidades naturalmente podem ser de todos os objetos, de todas as formas possíveis: utilidades materiais, utilidades de saúde, de conforto, de prestígio, de popularidade, o que queriam, não é? Uma das formas dessas utilidades é uma alma sentir o convívio de uma outra mas que não é propriamente a sede de almas. Sentir o convívio de uma outra por causa do instinto de sociabilidade que impõe a necessidade de um convívio.

Uma outra forma é a forma sentimental de uma alma sentir o desejo de ser adorada por outra mas que não é também a sede das almas. E essas são maneiras utilitárias de ser.

É preciso dizer que o desejo de ser adorado por outrem, o desejo de sentir o convívio de uma outra alma ainda representam uma forma menos vil de egoísmo do que o egoísmo puramente utilitário, que é o egoísmo assim: eu tenho o que eu quero, eu estou bem equipado, eu tenho a minha casa, eu tenho o meu apartamento, tenho os meus objetos, a vida do meu corpo está bem atendida, eu ouço uma música que agrada aos meus ouvidos, como uma corrida que deleita o meu paladar, e portanto eu estou atendido na minhas utilidades, eu não preciso de mais nada, nem mais ninguém, não é isso? Eu tenho bons empregados que me pagam os impostos em ordem, etc. eu não preciso de mais ninguém, não é isto? Isto é a forma mais vil, porque é uma forma de utilitarismo do corpo, e que enquanto diz respeito apenas ao corpo é evidentemente mais baixo do que o utilitarismo que diz respeito à alma. Mas esta forma de utilitarismo da alma ainda é uma forma de utilitarismo.

Bom, nós temos muitos modos de ser antigos e modernos que mostram que se vai descambando do utilitarismo espiritual para o utilitarismo material. Antigamente, vamos dizer, por exemplo um pai… [faltam palavras] …

(Dr. Plinio Xavier: Dá licença um instantinho.)

Bem. Vamos para frente. Eu estava falando então desta sede de almas, não é? Eu estava dizendo que nos costumes a gente nota que o utilitarismo vai cada vez mais deixando de ser espiritual e passando a ser material, não é? E nesse ponto a gente nota por exemplo o seguinte: que a vida de família antigamente era uma vida de família em que este convívio de almas era uma coisa muito intensa e passava até por ser a principal finalidade da vida de família. A gente nota hoje que esse convívio de almas vem sendo cada vez menos intenso nas famílias, mas que pelo contrário a permuta de vantagens práticas vai cada vez mais dando vida à vida família, quer dizer, a vida de família vai refluindo do espírito para a matéria, não é? Bom.

Mas nós poderíamos então perguntar-nos o seguinte: Esta sede, esta atração romântica, a necessidade romântica de uma alma para outra, no que é que é parecida e no que é que é diferente da sede de almas? E nos perguntamos então exatamente o que [é] que vem a ser essa sede de alma e como é que a gente pode tê-la.

Os senhores estão vendo que é um assunto muito bizantino, não é? E que eu compreendo bem que às dez horas da noite não seja um assunto inteiramente adequado, mas nós temos a noite para tratar nossos casos e eu prometi a um dos que estão aqui na sala que eu trataria do assunto antes de ir embora. De maneira que eu gostaria de deixar o assunto… [faltam palavras] …

(Dr. Castilho: …..)

Um pouco é porque se move numa zona de cogitações muito cheia de imponderáveis, não é verdade?

(Dr. Castilho: Não é bizantino.)

Bem. É, bizantino propriamente não é, mas facilmente pode parecer bizantino. Bom.

(Dr. Luis Nazareno: A respeito da família, se eu entendi bem o senhor- antigamente a família era uma utilidade mo…[faltam palavras] …)

Sobretudo moral. Mental se você quiser.

(Dr. Luis Nazareno: …[faltam palavras] … moral e espiritual, e hoje é cada vez mais material.)

Não sei se querem exemplos, eu acho que os exemplos todo mundo tem em vista. Se quiserem algum exemplo posso dar, não sei, de como era a família antigamente e como é que ela é hoje, mas eu acho que é supérfluo, não é? Entra pelos olhos, não é?

(Dr. Alberto Du Plessis: A decadência da família não se teria dado nos dois campos também. Antigamente ao lado de uma afinidade espiritual muito grande tinha uma afinidade material também maior do que hoje.)

É verdade. Mas pela decadência da afinidade espiritual a material fica a única que existe, quer dizer, sem ter aumentado, pelo contrário também minguou, ela fica entretanto elevada ao nível do principal porque o outro principal desapareceu.

(Dr. Alberto:O outro sumiu.)

Sumiu. Não é? Bom. Então, nós deveríamos fazer uma distinção da verdadeira sede de almas e do que [é] que é esta necessidade romântica das almas conviverem umas com as outras, serem adoradas etc, etc. etc. Bom.

Então eu começaria por dizer o seguinte.

Eu gostaria de primeiro, se nós temos então em presença, de três categorias: os que têm apenas a necessidade de um convívio material, os que têm a necessidade de um convívio de almas mas um convívio interessado, e os que têm uma sede de almas desinteressada.

Nós deveríamos então começar por analisar um pouquinho o que que tem de errado na mentalidade daqueles que tem apenas a apetência material, de um convívio material. O que caracteriza a alma deles é uma coisa curiosa que é a seguinte: um completo adormecimento do seguinte traço fundamental do espírito humano. O espírito humano gosta das coisas ou porque se parecem com ele e o tonificam, ou porque são diferentes dele mas de uma diferença harmônica e o completam. Mas o espírito humano tem necessidade desse duplo contato com coisas parecidas e com coisas harmonicamente diversas. Sem isso o espírito humano não vive. E é propriamente a respiração da alma, da alma humana, que é a alma criada, que é a alma contingente, é propriamente a respiração da alma humana essa necessidade de semelhanças e de dessemelhanças harmônicas.

Bom, é isso que a pessoa encontrava por exemplo na amizade, encontrava vamos dizer, até na “fassurada”; havia um fenômeno de alma de que o romantismo por exemplo na “fassurada” era a expressão. E esse fenômeno de alma era isto: a alma que sentia apetência de semelhanças e de harmônicas dessemelhanças.

Bom. O que caracteriza as almas das pessoas que caíram para o estado do puro utilitarismo material é que elas não têm a menor necessidade nem semelhanças nem de dessemelhanças.

Elas são fechadas em si como numa torre e não se incomodam do convívio de ninguém que seja semelhante ou dessemelhante com ela. Mais ainda: os objetos materiais que a cercam não têm para elas expressão de alma. Têm quando muito uma conotação artística puramente sensível: tal cor agrada aos olhos ou não, tal som deleita aos ouvidos ou não. Mas um significado espiritual que importe em afinidade ou em harmonia de dessemelhanças, isto eles negam completamente. Eles não negam, eles sentem, eles abstraem completamente.

Eu tenho a impressão de que o norte americano representa isso no mais alto grau. Eu tenho a impressão de que os povos anglo-saxônicos são muito mais suscetíveis disso do que os povos latinos. E por isto nós nos encontramos nos povos anglo-saxônicos ou de uma forte dose de anglo-saxônismo, nos encontramos uns tipos característicos disso. Por exemplo francês calvinista, não é? As próprias estampas representando Calvino, não é? Era um homem que podia passar dez mil anos sozinho. Ele construía doutrinas. Mas as doutrinas eram para uso dele. Se ele quisesse difundir essas doutrinas era apenas ter pessoas que o aplaudissem. Mas a gente vê que para ele o aplauso nem era uma coisa tão importante. A coisa importante era o prazer pessoal de ter feito uma doutrina e de se aplaudir a si próprio. Há uma espécie de auto-suficiência, mas uma auto-suficiência mórbida, uma auto-suficiência doentia que quebra os vínculos das almas entre si e que cria esse tipo de coisa. Bem.

Outro tipo é por exemplo de inglês ou de escocês, não é? Esse tipo por exemplo para nós latinos é inconcebível, não é? Mas inglês ou escocês que chega aos domingos, compra uma série de garrafas de uísque para embebedar, tranca no quarto e passa bebendo. Depois dorme e segunda-feira cedo já cozinhou a bebedeira e sai. Ele não precisou de companheiro. Para nós brasileiros embebedar sozinho não acontece. A gente embebeda com um amigo ou com uma “fassura”.

De todos os descendentes de sangue ibérico, sangue italiano onde a proporção de sangue anglo-germânico é muito pequena isto não acontece, é inconcebível. Eu por exemplo nunca quis falar de um brasileiro que se tranca no quarto e se embebeda sozinho. Eu acho que nem concebe isto. Eu creio que ainda que ele fosse um prisioneiro. Talvez si um prisioneiro que não pode sair, entre embebedar-se e não se embebedar, aí ele se embebeda. Mas fora disto ele era capaz de fazer um heroísmo, de fazer um túnel até por debaixo do muro se fosse possível do outro para passar a metade da bebida para se embriagarem juntos.

(Dr. Castilho:Losan (?))

Um losan (?), um fouquet etc. etc., mas não se compreende o prazer de uma pura degustação material sozinho. Bem. Eu digo isto para mostrar como é o tipo anglo-saxônico que não, que bebe sozinho. E que depois para os vizinhos de fora é um senhor muito respeitável que passou todo o domingo no seu quarto, não é? De fato passou bêbado, cantou, quase morreu etc. mas na segunda-feira, pontualmente a bebedeira dele está reabsorvida e ele vai para o emprego. Apenas o que tem é que o nariz dele está meio vermelho, não é? É o respeitável Mister Ix, ta acabado. Bem.

(Dr. Azeredo: Outro costume inglês nesse sentido é trancar o cadáver no quarto.)

É isso.

(Dr. Azeredo: Trancar o cadáver no quarto e o povo fora.)

Tá acabado. Bom. Agora. Há tipo de alemão do sul, que é meio influenciado pela atmosfera latina e que se embriaga em cervejaria, não é? Cantando, não é? “Ó lorelai”, etc. etc. ta bom. Mas prussiano não, não é? Vai sozinho para uma floresta , senta embaixo de um pinheiro: plon! plon! plon!, está compreendendo? No meio de elaborações metafísicas porque o alemão não deixa a metafísica, não é? “Oh, que coisa”…

Ainda outro dia eu estava ouvindo a “Lorelai” ainda era para a coitadinha de mamãe ouvir, ouviu? Mas eu estava com as palavras, ela não entendia alemão, e eu estava cantando a “Lorelai”, que era uma canção que nós cantávamos em pequeno para ela distrair: Mamãe, a senhora se lembra, nós cantávamos isto em pequeno, etc., não é?

Bem, a “Lorelai” é uma coisa mais ou menos assim: uma mulher, mas hum! Não é nada do que nós entendemos como uma mulher, não é?

(Dr. Plinio Xavier: Uma prussiana.)

Uma prussiana, está compreendendo? Sentada no - o Reno não é propriamente prussiano mas a coisa é … [faltam palavras] … .Bem, sentada num rochedo do Reno. No alto do rochedo penteando os cabelos dourados com pente dourado. E é uma mulher malfazeja porque ela canta em cima do rochedo mas é uma virgem malvada, ela canta em cima do rochedo penteando o cabelo, não é? E a canção imita um pouco as vagas do Reno, sabe?

Die chant der iun chau in zie et dort obergan funderbar, está compreendendo? É uma coisa um pouco ondulada assim. Então os pescadores do Reno quando a noite começa a baixar e o Reno começa a correr no silêncio sozinho…Estão compreendendo bem o wagneriano do negócio, não é? Um rio que corre sozinho na noite, está compreendendo? Daí sai uma metafísica logo, logo,não é? O alemão que está pronto para isto, não é verdade?

Bem, então. Eles nesta noite eles vão cansados e olhando assim voltam para casa quando ouvem a “Lorelai”. E então a “Lorelai” começa a cantar e eles ficam atraídos por ela e os barcos vão rumando em direção a ela e batem em pedras e eles morrem, e a Lorelai malvada fica feliz… e o Reno continua a correr…

Estão vendo que no fundo é um princípio eterno, metafísico da maldade humana e outras coisas assim que está empenhado dentro desta canção da Lorelai, é uma coisa evidente, não é? Bem, mas é uma coisa a ser feita solitária, ouviu? Não tem companhia, não tem o instinto de sociabilidade.

Bom, no norte-americano isto atinge ao auge da degradação. Porque o norte-americano não tem essas necessidades nem sequer internas de alma, mas é pura utilidade material. Ele não pensa nem nada. Ele pode estar sozinho como pode estar em companhia. Ele em geral quando está só ou está em companhia é apenas para fugir de um pouco de alma que possa parecer nele e afogar-se no barulho, não é? Mas é o utilitário material em confronto com esses isolados que não têm o senso da utilidade espiritual dos outros, porque se fecham em si e os outros lhes são indiferentes.

As várias categorias estão bem separadas ou não?

(Dr. Luis Nazareno: … [faltam palavras] …é mesma coisa entre o norte-americano e o prussiano?)

Não. O prussiano pensa em metafísica quando está sozinho e não precisa dos outros. O americano não pensa em nada nem sozinho nem com os outros.

(Dr. Luis Nazareno: Mas têm comum que ambos são isolados.)

O norte-americano pode estar isolado ou em companhia, para ele é indiferente.

(Dr. Castilho: Os dois são daquela primeira categoria da saída utilitária.)

Utilitária. São utilitários. Mas são estilos de utilitarismo diversos.

(Dr. Luis Nazareno: … [faltam palavras] …estão isolados enquanto não tem comunicação, não é?)

É. Nesse sentido se pode dizer, não é?

Bom, agora o romântico, como é que é? O romântico sente necessidade de um contato de alma. E ele sente a necessidade desse contato de alma quer para ele se completar, quer para sentir afinidade. E nesse ponto o romântico, sobretudo o romântico latino não se contenta com metafísica, mas ele procura a amizade e muitas vezes ele procura a “fassurada”. Mas ele procura ainda por uma utilidade. Quer dizer, é uma coisa mais nobre, mas ele procura ainda por utilidade.

Quer dizer, há uma utilidade de alam que está embrenhada nisto. Então quando nós vemos todo o modo romântico de considerar a amizade – o país que mais romantizou a amizade foi o alemão, a Alemanha – todo o modo romântico de considerar a amizade é o prazer da afinidade, não é? Por exemplo, aquelas marchas cerradas de alemães que vão pra morte fazendo “parede marsh”, não é? Bem, aquele bam! bam-bam! bam! bam-bam-bam, a metralha vai dizimando, o alemão continua a andar. Eles morrem numa espécie de bebriedade de se sentirem juntos, de juntos caminharem para a morte e de terem superado por esta forma até os extremos da morte, o abismo que separa uma alma da outra. E isto é para eles a amizade, não é? Certos modos por exemplo – que sabe que o alemão faz, não é? Aqui no Brasil por exemplo entre dois amigos brasileiros; incompreensível, não é?

Tem dois alemães tomando chope por exemplo, conversando – eu digo alemão, não é? Alemão de vidro eu já não sei como é. Por exemplo estão conversando sobre um tema qualquer, um negócio, não é? Ou então por exemplo eles chegam e contratam um negócio. Ou eles estão conversando a respeito de um músico predileto – isso é tema também, não é? – e chegam ao acordo sobre o músico , não é? Ou estão conversando sobre o partido político ou o filósofo. Os dois “elaborram”. Quando chegam à conclusão que os dois caem de acordo levantam o chope, batem um chope no outro, toma e fica um pouco quieto gozando a sublimidade do momento a que chegaram. Hum! Isso vai assim. Funciona deste jeito.

Bom, estão compreendendo que é o deleite de sentir a semelhança de um com o, evidentemente, não é? Bom.

O que é curioso é que no alemão a semelhança, o homem procura em outro homem, e a dessemelhança ele procura na mulher. É uma coisa que para o latino é difícil compreender. Porque como é que o sujeito vai se sobrecarregar com uma mulher dessemelhante? Pode haver pior abacaxi do que mulher dessemelhante, está compreendendo?

A Escritura diz que nada é pios do que morar com mulher briguenta. Que até casa com goteira é mais habitável do que casa com mulher briguenta, porque diz que a mulher o homem sai e vai atrás, enquanto a goteira pinga sempre do mesmo lado, o sujeito muda de lugar, a goteira está de lado, compreendeu?

Eu ao menos não tenho visto, eu muito raramente tenho visto homem que procura mulher dessemelhante, não é? Para o alemão não. A mulher precisa ser bonita. Bonita é secundário. A Lorerai está bonita porque tinha todas as qualidades. O bonito é ser uma mulher engraçada – é preciso ser engraçada; entende? Engraçada! Aquele mãozão, pezão! Está compreendendo?

Rosee uma vez contou que foi a um bar alemão aqui na Rua Brigadeiro Luiz Antônio, é perto do Giordano, daquela coisa… [faltam palavras] …

(Dr. José Fernando:…)

Como é?

(Dr. Plinio Xavier: Sivertal.)

Severtal, é. E que tinha uma alemãzona enorme dançando de borboleta preta, está compreendendo?

(risos)

É a coisa diz que mais engraçada… [faltam palavras] …e a mulher sabia pular, está compreendendo?,Ela pulava, está compreendemos? Que quando a borboleta caia no chão o tablado fazia plum; está compreendendo? A alemoada não notava hah, hah, hah! Achando aquilo como fantasia, está compreendendo? Charme, entende?

(Dr. Alberto: Professora de ginásio.)

É , professora de ginásio. Como criança pula na corda a borboleta pulava também, está compreendendo?

Aquilo é interessante… e depois diz que ela escondia com umas assas assim de tule e olhava assim. Minha irmã ficava toda espantada. Naturalmente brasileirada, uma mesa de brasileiros rindo-se cética e debochadamente. Quase todo mundo aqui é brasileiro pode imaginar o deboche que saia era horroroso, não é?

(Dr. Luis nazareno:Rindo dos outros alemães mais do que da dançarina.)

O que é? De tudo, do espírito alemão no fundo, não é? Rindo debochadamente do espírito alemão, de um deboche não bom, hein? Não bom, absolutamente; é rindo no fundo da seriedade, entende?

Bom, eu perdi um pouco o fio. Ah, a alemã deve saber dizer coisas surpreendentes e sempre novas para o homem. Estimulá-lo pela oposição a novos pensamentos, entende? Há ingleses que tem esse gênero, está compreendendo?

Eu me lembro de ter lido nas memórias do Príncipe de Galles ele contar – Duque de Windsor – ele contar o encontro dele com a Simpson, não é? Então ele ficou subjugado. Porque o apresentaram a Simpson e que ele começou uma conversinha a respeito dos hotéis da América – ele perguntou se ela tinha estado já na Inglaterra, ela disse que sim, e ele disse: “É, então está estranhando porque os hotéis ingleses são menos bons do que os norte-americanos”.

E que a Simpson deu uma gargalhada espirituosa – brasileiro fica nodoso com a saída, hein? Ao menos a maioria dos brasileiros – ela deu uma gargalhada espirituosa e disse o seguinte: “Eu não pensei que com o príncipe de Galles se conversasse uma tal banalidade”. Está vendo a provocação, não é? Inesperada, não é? Saiu dentro algo que ele não imaginava, está compreendendo? E que começa a brincar com ele, está compreendendo?

Então o pesadão fica entusiasmado com a libélula, está compreendendo? E vai atrás, não é? Eu confesso que eu não compreendo isto, isto é um

[Aqui o Sr. Dr. Plinio bate na mesa]

Respeite que negócio é este? Então sobretudo não dê trabalho, está compreendendo? Simplifique as coisas, vá amolar o boi, está compreendendo?

Bom. Mas a gente vê que o inglesão, meio, meio,[heutz?] está compreendendo? Embarcava nesta onda. Bom. Mas é uma forma de convívio de alma, não é?

Aonde a gente sente uma forma assim de convívio de alma, muito elevada, no ambiente do romantismo mas sem os defeitos do romantismo é nos Buissonets- de Santa Teresinha do Menino Jesus o Caio e eu algum dia ainda havemos de ir lá de Deus quiser juntos, não é Caio?

Quando a gente vai aos Buissonets a gente sente aquele ambiente da “História de Uma Alma”, e a gente percebe que Monsier Martin, com a gravidade dele, a respeitabilidade dele, o espírito sobrenatural dele, ele literalmente alimentava a vida dos Buissonets, e que as filhas durante muito tempo viveram da substância espiritual de Monsier Martin, de gravitar em torno da alma dele e de receber o calor do espírito dele.

Mas é uma coisa engraçada – talvez eu desaponte um pouco o meu Caio dizendo o que eu vou dizer – mas os Buissonets para mim falaram menos de Santa Teresinha diretamente do que de Santa Teresinha vista no Monsier Martin, ouviu? A grande presença ali é do Monsier Martin, ouviu? Onde se compreende aliás sendo ele o dono da casa, não é? Bom.

Agora, isto em que entravam notas religiosas na família de Santa Teresinha e que nós vamos examinar daqui a pouco, entravam notas de puro afeto humano na família romântica, mas em que entrava esta coisa assim do querer, e do estimar etc. etc. etc. que era a satisfação de uma necessidade de alma. Bom.

Eu agora vou tratar da parte sobrenatural e da parte metafísica como é que se põe isso, e o que [é] que é que vem a ser propriamente a sede de alma. Eu queria saber se essa descrição que eu fiz é uma descrição clara para todo mundo ou se os senhores têm a sensação de estarem andando assim, numa paisagem que a Escritura qualifica ínvio et inaquoso, um lugar sem caminhos nem águas. Isto está claro? Ou alguém quer objetar algo ou quer acrescentar algo ou quer ponderar algo ou como é?

Digam-me com toda franqueza: o assunto é consistente ou inconsistente? Vamos por a coisa de outra maneira: temática eu a consegui torná-la claro? Quem quiser fazer pergunta levante o braço e faça. Alberto.

(Dr. Alberto: Justamente se o ponto que o senhor pretende chegar a provar vamos dizer a pessoa, o convívio humano exige uma superioridade maior do que um solitário que fica pensando.)

Não. Eu quero provar, eu quero explicar o que é que a sede sobrenatural de almas que está na Escritura. Eu posso tratar do assunto que você está tratando. De passagem não me custa nada.

(Dr. Alberto: Agora, eu fiquei um pouco com a impressão, talvez haja engano, eu tenha entendido errado, quer dizer, que o senhor sempre põe num nível superior o puro contato humano. Aquele que fica sozinho para se embriagar não tem dúvida nenhuma, mas não vem aqui o sujeito… [faltam palavras] .. o filósofo que reúne sem se comunicar com a filosofia seria sempre superior ao que pensa sozinho e depois escreve um livro e pouco se incomoda… [faltam palavras] ..)

Em via de regra como norma geral é o seguinte: o homem não pode deixar de ter muito interesse pelos outros homens. Um filósofo que pouco se incomode com a repercussão de seu livro anda mal – como eu mostrarei daqui a pouco – porque ele deve querer fazer bem aos outros. Ele não pode ser indiferente a que os outros aproveitem ou não do bem que ele fez.

(Dr. Alberto: Uma forma de egoísmo.)

Uma forma de egoísmo. O que é diferente de ser um solitário contemplativo que já [é] uma outra coisa que cabe dentro de outras categorias, mas isto é uma forma de egoísmo.

(Dr. Alberto: … [faltam palavras] ..questão de temperamento não se pode falar em superioridade e inferioridade. Vamos supor que esse filósofo que escrevesse o livro, e depois violentando o seu temperamento saísse por aí propagando o livro e as suas idéias, quer dizer aí ele teria feito um ato de agregação.)

É isso.

(Dr. Alberto: Mas o temperamento em si, quer dizer, o temperamento em si nada tem com… [faltam palavras] …)

Não, é o contrário. O temperamento é ruim. Ele teria vencido o temperamento.

(Dr. Alberto: O temperamento em si é ruim?)

Ah, em si é ruim. O por temperamento ser indiferente aos outros não é em si pecado, desde que o indivíduo não ceda à solicitação do temperamento. Mas em si é um mal, se ele ceder é um mal.

(Dr. Alberto: Essa indiferente, quer dizer, indiferente mas é um… [faltam palavras] ..não é ser indiferente, é não ter gosto pela coisa, indiferente é… [faltam palavras] ..Por exemplo eu não sou indiferente aos leprosos lá do… [faltam palavras] …, mas eu não tenho gosto pelo… [faltam palavras] …)

[risos]

É mas na realidade, na realidade a indiferença de temperamento de que se trata aqui é uma indiferença… [faltam palavras] …o temperamento humano por uma limitação que está na condição humana não é vibrátil pelas coisas muito distantes realmente. Mas ser indiferente inclusive àquilo que rodeia a gente, que a gente conhece, isto é um defeito de temperamento.

(Dr. Alberto: Quer dizer, o temperamento em si já está errado.)

Já está errado, não é? Borelli.

(Dr. Antônio Augusto Borelli: Não haveria um contento humano, meramente humano legítimo, para aperfeiçoamento das qualidades meramente humanas?)

Existe.

(Dr. Borelli: Seria naturalmente completado pelo contato sobrenatural, não é?)

Muito mais do que completado porque ele não forma um compartimento estanque, nada é estanque ao sobrenatural, é vivificado pelo sobrenatural, não é?

Bem. Qual é então a posição verdadeira diante dessas sucessivas posições erradas que eu tenho apontado, e que eu tenho apontado mais para poder definir e clarificar melhor qual é a posição verdadeira, qual é então a posição verdadeira?

A posição verdadeira é a seguinte.

Vamos antes de passar propriamente para a religião considerar mais – quer dizer para o lado da Revelação – considerar mais a metafísica, a razão natural, etc. para depois passar para a Revelação.

A coisa é a seguinte: vamos dizer por exemplo um alemão, vamos retomar a Lorelai. Eu censuro ou não censuro que um homem pense no Reno que corre sozinho durante a noite? E todos os mistérios, tudo aquilo que pode simbolizar um rio caudaloso e profundo que sem ser olhado por ninguém corre durante a noite nas trevas. Eu… [faltam palavras] ..

(Sr. –: … [faltam palavras] … Como é bonito, não é?)

É bonito. Bem. Eu digo francamente uma coisa dessas, eu aplaudo. Eu acho que isso é um modo elevado de ver as coisas, é um modo nobre de ver as coisas. Um alemão que se coloca por exemplo – aí vem os mil lados por onde eu gosto muito da cultura alemã – um alemão que se coloca por exemplo no Báltico, nuns pinheirais que dão para o mar – porque lá tem esse lado bonito: os pinheirais perecem, eu não tenho toda certeza, que são nativos e que dão para o mar, não é?

A gente pode imaginar uma encosta que desce com os pinheiros e com aquele sombrio do “Tanenbaum”, não é? Formando filas como soldados prussianos, não é? Esse tem que ser plantado, é claro. Bem, que descem até o mar e depois aquele Báltico que ferve, ferve gélido junto a algumas pedras, não é verdade? E o silêncio vazio da natureza. O alemão chega lá, não é?

[uma exclamação]

Bom. O Bethoven com a tempestade por exemplo, não é? Ou o Wagner com as mil coisas dele, sobretudo Wagner que eu acho que têm um pouquinho mais de categoria apesar de tudo. Senão como músico ao menos como pensador, porque o Wagner era muito pensador, têm um pouquinho mais de categoria do que o Bethoven.

Bem, Então pega aquela coisa dele toda; vamos dizer por exemplo, as chamas que vão subindo, etc. e que acabam queimando e – coisa muito do alemão – a poesia da destruição, está compreendendo? Berlin destruída eles acham uma beleza, hein? Não acham uma tristeza como nós achamos, é lindo! Quebrou Berlim, e o Fuhrer estava embaixo com bombas! Entende? Isso é um final wagneriano! Bem. É o … [faltam palavras] ..

Bom então eu pergunto: não há uma certa elevação de espírito em ver isso? É claro. Porque isto afinal de contas é um modo de perceber que todas essas coisas naturais são símbolos de realidades de caráter metafísico superiores – eu estou me exprimindo de um modo muito vago como eles se exprimem – e que portanto no Reno que corre, à noite, caudaloso etc. que neste Reno se observa uma espécie de ordem natural das coisas, válida independente do juízo que os homens possam fazer a respeito dela. E a gente nota que esta coisa não existiria, este Reno não existiria correndo assim na noite se não tivesse um espectador com E maiúsculo que o vê e par ao qual ele corre E não tivesse um Autor quer o tivesse feito correr, e que fosse o Divino Espectador que o vê correr. É uma coisa evidente, algo fala de Deus.

Bom. Mas diante de uma posição assim wagneriano-metafísica se eu pudesse me exprimir por esta forma – a consideração é elevada, a posição do pensamento é uma posição elevada, mas nós podemos nos perguntar se diante dela o homem não é capaz de tomar uma atitude ordenada e outra atitude desordenada. É claro que sim, porque em face de tudo o homem é capaz de tomar uma atitude ordenada e outra desordenada. Em face de tudo há uma ordem e uma desordem. Então se trata de perguntar aqui qual é a posição ordenada e qual é a desordenada.

A posição ordenada – preferem que eu dê primeiro a desordenada ou a ordenada? Ou é indiferente?

(Sr. –: Indiferente.)

Bem. A posição desordenada consiste no seguinte: Eu peguei, eu captei, eu percebi o mistério desse Reno que corre durante a noite. Eu percebi o mistério desses pinheirais, e percebi a beleza disso. Como a minha alma se sente grande ao considerar esse mistério! Como eu subo e cresço desenvolvendo-me na meditação disto! Como isto é um manjar superior para meu espírito! E como eu daí me enlevo com a grandeza que eu adquiri com isso! Como eu me inebrio com essa grandeza! Como eu me torno radioso com a grandeza mesma que eu adquiri!

O termo final da meditação não é o Reno, nem é Deus que criou o Reno e que é o Divino Espectador para o qual o Reno corre, mas sou eu enquanto tendo aurido uma grandeza nesta consideração.

E aqui está a posição egoística e desordenada. Esta leva o homem a fechar-se e a não querer se abrir nem sequer para os discípulos. Mas pensar o seguinte: Oh outros homens burros, eu passo por esta cidade desconhecido, mas eu não comunico a vocês o oceano que eu levo dentro de mim! Eu vi, eu sei, dentro do meu espírito habitavam esses valores que vocês ricaços ou plebe ignora, são incapazes de compreender!

Eu vou a um restaurante, me sento num canto enquanto a orquestra toca Wagner, eu olho com piedade para todo mundo, porque eu só é que compreendi! Na minha alma há um santuário interior no qual repercutem esses valores, e nesse santuário há um ídolo e esse ídolo, me chamo eu mesmo! Eu me adoro tendo o captado isto! Esta é a posição fundamentalmente desordenada.

Essa posição não dá sede das almas, mas não dá sede de Deus também, porque eu me dessedento em mim. Eu me bebo. É uma coisa monstruosa, mas eu me nutro de mim. É como uma pessoa comer seus próprios dedos, seus próprios braços. Eu não preciso de nada nem de ninguém! O termo final de minha meditação sou eu! E o meu ídolo diante do qual eu vivo e para o qual eu vivo sou eu, compreendendo e enriquecido dessas coisas! Quer dizer, esta é a posição má, é a posição errada. Eu consegui tornar clara essa posição ou não? Bom.

Agora qual é a posição certa? A posição certa é a seguinte. É uma posição que provoca abnegação. Diante desse Reno que corre e desse mistério do Reno e dessa grandeza que aparece a mim com isso, eu tenho um primeiro movimento que é o movimento de enlevo, quer dizer, depois do conhecimento uma veneração: Que coisa enorme! Como por detrás disso há um Deus único e verdadeiro do qual isto não é senão um símbolo, uma manifestação insuficiente e contingente como todo símbolo e toda manifestação! E como em Deus isto existe, mas existe de um modo increado e de um modo que eu nem posso imaginar como é! E como eu venero esse Deus que é assim!

Bem, Depois do outro lado ternura. Quer dizer quanto amor. Não é só admiração e respeito, mas quanto amor! Como Ele é superior a mim! Que coisa adorável amar alguém tão superior a mim e que me ajuda a sair de dentro de minha própria charneca, de dentro de minha própria miséria, de dentro de minha própria contingência para amá-lo desinteressadamente porque Ele é Ele, sem mais nada, sem outra consideração. Esta é a posição verdadeira e a posição desinteressada.

É certo que nessa posição desinteressada eu encontro a satisfação de tudo quanto a minha alma precisa. Quer dizer, eu encontro a divina afinidade comigo mesmo. E eu encontro ao mesmo tempo a divina dessemelhança de mim, e que minha alma portanto encontra ali um repouso inteiro. Mas se por absurdo eu não encontrasse ali o repouso inteiro ainda amaria, e amaria porque Ele é Ele, e porque é daquele jeito, e veneraria e respeitaria porque Ele é Ele e Ele é daquele jeito. Quer dizer há uma posição por onde o termo final não sou eu mas é Ele. E o movimento não é um movimento de egoísmo,mas é um movimento de me dar.

É verdade que eu tudo nesse movimento. Mas esse lucro não é a razão do meu movimento. A razão do meu movimento é dar-me. E dar-me desinteressadamente. E isto é que é propriamente o holocausto.

O holocausto é menos eu dar a minha vida do que eu dar meu ser, dar minha alma, dar meu amor, dar a homenagem da minha inteligência e de todo o meu ser por causa daquilo que ele merece, aquilo que é. Esta é a posição adequada da alma, e que provoca na alma a sede de Deus.

Restar-me-ia mostrar como isto provoca paralelamente a sede de almas.

Eu creio que isto da sede de Deus é uma coisa tão conhecida que eu apenas de passagem deveria acrescentar duas notas.

Primeiro: Que eu creio que meditações dessa natureza se fazem muito pouco. Sobretudo começando por mostrar Deus enquanto admirável, para depois mostrá-lo enquanto amável. Porque de fato a gente não ama inteiramente senão aquilo que a gente admirou inteiramente.

O primeiro elemento do amor é a admiração. E o mandamento “amar a Deus sobre todas as coisas” inclui o “admirar a Deus sobre todas as coisas”, e reconhecer a sublimidade, a excelsitude de Deus por cima de todas as excelsitudes e com fim do caminho de todas as sublimidades e de todas as excelsitudes que a gente considera. E nesse sentido a natureza é de fato um manancial inesgotável. E o que a gente pode considerar aí na natureza foi feito para nós considerarmos e nos devemos de fato considerar. Mas daí eu passaria para o lado sobrenatural, depois a sede das almas, que eu estou na consideração natural ainda.

Quanto ao lado sobrenatural [acontece?] … [faltam palavras] …Bom. Vamos passar primeiro do lado natural material – o Reno afinal não é senão matéria – vamos passar daí para o lado espiritual natural.

O lado espiritual natural me deve levar a perceber, a reconhecer que por mais bonita que seja a natureza, todas as belezas da natureza são menos belas do que uma alma humana. E que a alma humana considerada em si um ser que pensa, que é capaz de pensar e de querer e de tomar atitude própria perante as coisas vale imensamente, incomensuravelmente mais do que as coisas perante as quais esse ser toma posição.

Quer dizer, para mim é mais belo do que o Reno, Wagner – que aliás eu censuro, hein, eu estou mencionando Wagner apenas de passagem – Wagner enquanto musicando o Reno. Que haja uma criatura capaz de interpretar o Reno, de analisar o Reno, de formar um juízo e um ato de vontade a respeito do Reno, é mais belo do que o Reno.

E eu preciso ter a sensação, a noção da beleza e do valor de cada alma para eu ter uma noção exata do valor do universo. Enquanto eu ficar em considerações a respeito de graminha, de florzinha ou de queda d’água majestosa ou de pinheiro do Báltico eu fiquei numa baixa de nível, porque por mais altas que sejam as considerações que tudo isto se presta à alma humana vale mais do que tudo isto. E se eu não sou capaz de perceber a beleza espiritual por cima da beleza material, eu não compreendi nada do universo.

E aqui eu tenho a impressão de que esta é uma das nações de que o homem contemporâneo é mais pobre. Ele não sabe compreender a beleza de uma alam. Ele não sabe entender quão bela é qualquer alma.

A alma do último maltrapilho que a gente encontra na rua bêbado – no tempo em que havia aqueles cabajeros, lembram-se? Em frente da Martim Francisco, eu gostava de olhar para eles, ouviu? Porque eram de lo último, o rebotalho do gênero humano. Mas a gente olhava para eles e a gente percebia uma centelha de beleza da alma humana até dentro deles. E ver essa centelha no lodo é uma espécie de particular elemento de realce da beleza dessa centelha, não é? E que em toda alma humana existe.

Toda alma, qualquer que ela seja, desfigurada pelo pecado original, pelos pecados atuais, ela tem entretanto uma beleza que é pelo menos uma beleza potencial que é uma coisa própria e que a gente deveria saber entender.

Ora, eu tenho a impressão de que essa noção da beleza das almas é uma noção para a qual a nossa educação não nos prepara, o nosso feitio, o nosso modo de ser não nos prepara, razão pela qual nós passamos junto dos outros sem saber ver os outros, sem saber entender os outros, sem saber ter em relação aos outros nem sentimento de afinidade nem de heterogeneidade, mas apenas de birras, de fobias e de simpatias.

Eu não sei se os senhores concordam comigo, se acham esse juízo exageradamente severo, mas eu penso que muito poucos são hoje em dia os homens, talvez se possa contar com os dedos numa cidade como São Paulo, e talvez não tomem todos os dedos da mão, os homens capazes de sentir uma beleza de qualquer alma, de ser colocar diante daquela alma e sentir a beleza dessa alma.

Não sei se gostariam que eu entrasse um pouco em pormenor sobre isso, ou se isso é uma coisa já sabida, ou como é que é?

(Dr. José Fernando: Quanto àqueles cabajeros seria interessante o senhor dizer o que encontrava, porque eu passava por eles e tinha: ah… [faltam palavras] …)

É. É que enquanto o indivíduo não está condenado ao inferno existe algo nele que está sendo procurado pela graça e visitado pela graça, algo nele que ainda pode vir a ser bom. E a gente percebe nele, ainda que ele esteja carregado com todas as culpas possíveis, a gente percebe o que que ele seria se ele fosse bom. E então a gente percebendo a alma humana na sua ordem, no seu esplendor por uma espécie de reconstituição quase arqueológica a gente tem uma censura maior dele como ele é, porque a gente compreende que obra prima divina ele espandongou para transformar naquilo. Mas a gente vê o que é que aquilo seria. Não sei se está claro esse pensamento.

(Dr. José Fernando: Então agora, o que que o senhor via ali, porque eu passava por eles… [faltam palavras] …)

Bom, naturalmente cada um é uma pessoa e cada um tem uma coisa, não é?

(Dr. José Fernando: … [faltam palavras] … sujos, satisfeitos naquela imundíce… [faltam palavras] …)

É tudo isso tinha, é evidente.

(Dr. José Fernando: … [faltam palavras] … me dava um repelão em ver aquilo, não é?)

É , mas a questão é a seguinte; que não é só isso.

A gente depois prestando atenção – eu já não me lembro deles para poder dizer algo- mas prestando atenção a gente percebia o que não era lá dentro, ouviu?

E eu vou dizer mais: eu creio que isso era o que levava Nosso Senhor a ter paciência com os apóstolos infiéis. Ver aquele pessoal, depois da Ceia Eucarística fazer aquele papel. É uma coisa abaixo de zero, não é? Como é que Ele continuou a amá-los? Um dos elementos desse amor era a consideração do que havia neles de potencialmente bom, e que Ele sabia que ia se transformar nos homens confirmados em graça e santos quando receberam Pentecostes.

(Dr. Castilho: … [faltam palavras] … uma consideração posta na ordem moral.)

Moral e natural.

(Dr. Castilho: Sim, mas na ordem natural mas na ordem moral. Não teria também uma consideração… [faltam palavras] …)

Ontológica.

(Dr. Castilho: Quer dizer, perfeição que há em ser espírito?)

Existem as duas coisas: a beleza de ser espírito que a gente só sente adequadamente na consideração de ordem intelectual e moral, porque pelos acidentes se conhece a substância.

E é pelas manifestações da inteligência que se percebe como é belo o ser inteligente, ou pelo menos mais comodamente se percebe como é belo o ser inteligente. E nas manifestações da virtude que se percebe mais comodamente como é belo ter vontade. De maneira que é este o modo corrente, comum, quase que eu diria humano de perceber a beleza ontológica do espírito. Embora depois por uma consideração metafísica se nos chegar à idéia da beleza ontológica do espírito enquanto espírito.

(Dr. Castilho: … [faltam palavras] …não deter o espírito na consideração do bom, o bom moral como essa pessoa é bom, como essa pessoa seria boa, mas aí passar para consideração da excelência.)

[faltam palavras] …do espírito, do espírito. Excelência que só se percebe, porque a excelência de toda coisa só se percebe quando ela está em ordem, então se percebe na ordem dela. Não é verdade? Pois não, Gonçalo.

(Sr. Gonçalo: Dr. Plinio, en el caso un persona, por ejemplo que percebere tanto el mal, como se puede imaginar que el haver perseverado igualmente nel bien? Hay alguna razón para ser un el persevero tanto: el mal se hubiera… [faltam palavras] …el bien ha perseverado igual?)

A gente tem muito em são Paulo, não é? Que era um zelosíssimo fariseu, não é? Converteu-se e deu num zelosíssimo apostolo, não é? A gente percebe apesar de toda metamorfose que vai do fariseu para o apóstolo, há uma certa continuidade que dá resposta à sua pergunta.

(Dr. Caio: O senhor poderia fazer numa outra noite… [faltam palavras] …)

[faltam palavras] …tário. É um utilitário que é a utilidade própria de aurir essas coisas e fechar-se nisso.

(Dr. Luis Nazareno: É apenas um nível um pouco mais alto. … [faltam palavras] …)

E de algum lado portanto pior, hein? Porque o mais alto aí é pior, hein? Uma ocasião eu disse o seguinte, e eu sustento o que eu disse: se eu conhecer um homem casto e sem fé eu tenho pânico dele, porque, que um homem consiga ser casto por mera adoração de si mesmo… [faltam palavras] …Está claro?

(Sr. –: E existe.)

Nas frias nações do norte, quem sabe? Aqui nas nossas Bahias eu não duvido um tanto, mas enfim.

Carlos, queria perguntar alguma coisa? Pergunte sentado mesmo, esteja à vontade. Nós só nos devemos levantar nas reuniões de sábado, não é?

(Sr. Carlos Ibargurem: Dr. Plinio eu pergunto um amor tan desordenado a su Hermano, tan perseverante, solo por amor de si mismo, no vai ai una cosa preternatural?)

A questão é a seguinte, que quando o extremo do amor a si mesmo, há um modo pelo qual o extremo do amor de si mesmo dá no preternatural. É quando o indivíduo começa a gozar dos deleites que o demônio põe nele, as fantasias que o demônio põe nele, mentiras que o demônio põe nele. É interessante, porque no reino do inferno só existe interesse, não é isso? Mas aí o interesse procura o preternatural, não é? Borelli ia perguntar alguma coisa?

(Dr. Borelli: Essa considerações que o senhor tem feito a respeito do flambões (?) regionais de diversos povos, justamente são para ressaltar a beleza das almas.)

Beleza das almas. É em geral em todo “Ambientes, Costumes, Civilizações” que eu faço, no fundo há um ressaltar da beleza da alma, não é? E claro que da alma, enquanto virtuosa, enquanto aderindo à verdade, não é? Que é só como ela é bela, mas é isto. Não é? Bom.

Agora, se eu tenho noção da beleza das almas, eu mais do que nas coisas materiais, mas do que no Reno, eu me elevo a Deus considerando as almas. É uma coisa evidente. E por uma questão de afinidade que é invencível, tem suas raízes na própria metafísica, aquilo que toca aos seres da mesma natureza que eu, toca minha natureza. Enquanto tocando minha natureza me toca a mim mesmo. Não por egoísmo mas por conaturalidade que é uma coisa diferente do egoísmo.

É assim como por exemplo eu bato num cristal que tem uma nota vamos dizer, por exemplo dó, os outros cristais capazes de emitir a mesma nota vibram com isto. É uma conaturalidade, que não é o egoísmo mas é uma participação numa mesma natureza e portanto uma solidariedade que não tem diretamente um caráter egoísta. Não tem em si mesmo um caráter egoísta.

Bem. E acontece que por causa disto quando eu tenho o sensus animarum, e que eu através disso subo até Deus, nada me dá mais vontade de me unir a Deus, do que as outras almas estejam habitadas por Deus e possuídas por Deus e sejam, por assim dizer, deiformes. Porque eu compreendo, compreendo a bem dizer na minha própria natureza como é horrível que aquela alma não seja segundo Deus.

Eu compreendo a injúria que há a Deus a quem eu amo que aquela alma seja segundo Deus. Mas por outro lado eu compreendo como é admirável que a alma seja segundo Deus, como dá glória a Deus que seja segundo Deus. E por este amor que eu concebi em relação a Deus atuando e movimentando essa conaturalidade, eu tenho a sede de almas.

Aqui se dá exatamente a sede e o zelo pelas almas. Vem disto. Supõe uma estrutura de espírito por onde a gente conheça o valor da alma, tenha subido até Deus e saiba medir e sentir a ordem profunda que há em que uma alma seja segundo Deus, e a profunda desordem que há em que uma alma seja contra Deus, seja disconforme a Deus. Não só concebido teoricamente mas visto em cada alma.

O senso psicológico vem daí. A gente se torna psicológico às vezes com o auxílio da graça quando exatamente a gente é tão exigente em que ter bem uma imagem de como é Deus, a gente tem uma idéia tão precisa disto, e uma idéia tão exigente do que é a conformidade com Deus, e uma idéia tão intransigente em relação à desconformidade com Deus que a gente sente isto nos outros. Daí vem o senso psicológico. E daí vem o amor às almas.

Vamos dizer um músico. Você coloca um músico ouvindo um coro. Um bom músico imediatamente sente quando a nota de um coro está errada. Não é verdade? Por exemplo, um de nós pode ouvir e não perceber. Um bom músico imediatamente sente. Agora, por quê? Porque os valores da música estão de tal maneira presentes no espírito dele, ele os ama de tal maneira, ele por isso detesta de tal maneira a cacofonia que ele se torna perspicaz à força de conaturalidade, de amor e de execração.

Ora, isto se transpõe para o amor de Deus. E o senso psicológico é o notar a cacofonia das almas e a harmonia. Isto é que é o senso psicológico, não é outra coisa. E é por causa disso que em geral as almas que tem muita sede das almas são almas psicólogas. Naturalmente com um nível maior de explicitação, de intelectualização etc. etc. etc. E é por causa disso que todo santo é muito penetrante. Infelizmente nem todo penetrante é santo, mas todo santo é muito penetrante. Exatamente porque nós não ouvimos contar o caso de um santo que não tenha tido esse senso para tratar com as almas, esse tato, essa finura, esse discernimento. Às vezes homens do povo, rudes, ignorantes eles têm.

A contrário senso: a gente vai pedir comunhão para um padre – aconteceu por exemplo com minha mãe.

Ela era uma senhora de perto de oitenta anos, setenta e tantos anos. Foi comungar lá na igreja de Santa Cecília – uma senhora assim vai à igreja com dificuldade, não é? Ainda mais ela que não tinha automóvel, precisava ir de ônibus ou pegar um táxi com dificuldade etc. etc. vai lá e pede para comungar. O padre diz não, não dou comunhão à senhora. Há dez minutos que o sacrário está fechado.

Quer dizer, há uma primeira consideração que salta aos olhos, não é? Essa senhora está em idade de morrer. Quem sabe se é a última comunhão da vida dela que eu estou negando? É uma coisa que deveria comover uma alma qualquer quanto mais uma alma sacerdotal. Mas eu não quero ficar aí: olhar para aquela alma e pensar o seguinte: eu que sei o que é a união de uma alma com Deus, a alegria que Deus tem nisso, mas uma alegria porque nisso há um valor, há um bem. E o bem que há nessa alma em receber a Deus sou indiferente a isso.

Eu olhando para esta alma e vendo o que Ele em concreto lucra recebendo o Santíssimo Sacramento, eu sou indiferente a que ela tenha esse acréscimo de virtude. Porque não me diz nada que esta alma fique melhor, isso não me diz nada. Me diz o regulamento de minha igreja que eu quero cumprir para meu comodismo. Eu estou com preguiça. O padre estava na sacristia. Era só atravessar a capela-mor e entrar na capela do Santíssimo. Ele tinha preguiça de dar talvez dez ou quinze passos, de abrir o sacrário e de dar a comunhão. E isto para ele, poupar esse esforço valia mias do que acréscimo de luz, de beleza, de formosura que aquela alma podia receber. Esse era o… [faltam palavras] …-padre está vivo, é o atual vigário de Santa Cecília – é um padre que não tem sensus animarum. Nenhum! Nenhum!

Que contas ele tem que dar a Deus por ser assim, sendo batizado e a fortiori, sendo padre?! A gente fica horrorizado em pensar! Agora. Espanta que na hora de dar um conselho esse homem não sabia dar um conselho? Acha cacete dar conselho? Eu não espanto nada. Acho natural. Ele não estendeu bê-á-bá de nada daquilo.

(Prof. Fedeli: Tal fosse se desse.)

Se desse seria a mesma coisa que uma por exemplo de repente cantar cantochão, cantar o Magnificat. Ou um pouco cantar o Magnificat, não é? Bom.

Mas a pergunta é a seguinte: Eu católico – porque eu tenho que dar conta da minha alma sobretudo – eu católico quando eu estou em contato com as outras almas eu sei senti-las? Eu sei amá-las? Eu tenho sede delas? A sede delas faz-se disso. Instintivamente, ou normalmente ou racionalmente mas a sede delas faz-se disso. E, notem bem uma coisa hein: eu não consigo atrair para Nossa Senhora uma alma da qual eu não tenha sede.

Nada faz tão bem para uma alma, ainda que a alma rejeite, nada faz não bem para ela quanto ela sentir que a gente tem sede dela para Deus. Não para si mas para Nossa Senhora, para Deus Nosso Senhor.

Essa sede desinteressada de alguém quer fazem bem a uma alma, e depois de olhar a beleza dessa alma diz: Gratias agimus tibe propter mangnum tuam, eu Vos dou graças é meu Deus por causa da Vossa grande glória naquela alma. Não é? Agora, eu tenho a impressão que exatamente o ponto de partida fraco em tudo isto é que nós não sabemos sentir as almas, não sabemos querer as almas, o mundo das almas é um mundo fechando para nós. E o resultado nós não temos sede das almas. Há toda uma espécie de animologia, de ciência das almas que nós deveríamos ter.

Agora, de outro lado eu acho que ninguém consegue ser apostolo dos últimos tempos se não tem essa sede das almas. Eu não vejo como é que possa ser apóstolo dos últimos tempos: Apóstolo de qualquer tempo sem ter sede de almas. O resultado é que dá nos tais apostolados frios, os tais apostolados gélidos, a tal burocracia, a tal coisa que não vai para frente, que pega fogo em nada! Por que é? Não há o sensus animarum. Não se cultiva nas pessoas o sensus animarum. Aquela divisa de são Francisco de Salles, não é? Dai-me almas e tirai todo o resto. Eu não me incomodo com resto, dai-me as almas. Dai-me para vós, não para mim.

Bem. Eu tenho a impressão de que este é um ponto que nossa formação ainda mereceria realmente mais alguma outra explanação numa noite de paciência, porque me parece que é indispensável. Não é?

Agora, eu pergunto se vejo mal e se o tema enfim se me querem objetar alguma coisa. Antes de tudo nosso padre José Luís se esta ortodoxo. Meus caros.

(Dr. Plinio Xavier: … [faltam palavras] …)

(Sr. Gonçalo: … [faltam palavras] … de que hiciera un ciclo de reuniones con esto?)

Sabe o que [é] que tem? Existe a possibilidade mas essas coisas que eu - vamos dizer alguns dados muito deles até já foram objeto de reunião aqui mas algumas coisas e uma certa ordenação disto eu elocubrei enquanto estava doente – supõe uma certa calma e supõe outras elocubrações que a gente só vai fazendo muito aos poucos. Quer dizer quando eu tiver mais alguma coisa elocubrada eu posso apresentar. Aí com prazer enorme, não é? E por isso eu estava fazendo uma espécie de reuniões- sondagem. Pois não Gonçalo.

(Sr. Gonçalo: … [faltam palavras] …Dr. Plinio… [faltam palavras] …el medio y los medios como uno puede llegar, una persona llegar a tener esa sede de alma?)

O grande meio naturalmente é a oração, não é? Todo dom perfeito vem afinal do Divino Espírito Santo pela intercessão de Nossa Senhora. E portanto a primeira coisa é pedir, não é? Mas a par da oração eu tenho a impressão de que é exatamente às vezes a gente fazer alguma conferência desenvolvendo esse problema: como compreender que as almas são a única coisa que verdadeiramente valem no mundo, e que se nós não tivermos o nosso espírito aberto para esse amor às almas, esta sede das almas – a palavra amor está tão profanada que eu prefiro a expressão sede das almas – diz o amor no que ele tem de mais atuante. Não é isso?

Bem. Que nós não tivermos isto, nós passamos pela vida como uns cegos, nós não vimos nada e nós não vivemos. Não é? Agora ai é preciso tomar uma porção de exemplos, uma porção de coisas concretas etc. etc. seria uma outra elocubração. Mas é como eu vejo a coisa.

Há uma tese muito bonita de São Tomás – e que creio que é toda a doutrina católica, que nós andamos vendo no MNF e que é o seguinte: o valor da lama é tal que não se compreende, Deus não teria criado o universo material se ele não tivesse criado o universo espiritual. Uma das razões de ser do universo material é o espiritual. Não tinha razão de ser estas coisas, não seriam ontologicamente possíveis e criáveis por Deus de ciência… [faltam palavras] …ordinata, as coisas materiais se não houvesse as espirituais.

Deus criar por exemplo só o Reno e ficar olhando o Reno correr não está à altura d’Ele. Ou isto é para enquadrar o homem e complementar o homem ou não é nada. Agora, eu acho que disso as pessoas tem uma noção vaga. Me parece. Par anão dizer que Às vezes não tem nenhuma noção. Não é? Não sei se está claro ou se queriam me perguntar mais algumas coisa. Diga meu Castilho.

(Dr. Castilho: O senhor desenvolveu bem o que não era, substancialmente o que não era a sede de almas, no fim mostrou a importância da sede das almas, mas no meio desenvolveu pouco o que gerava a … [faltam palavras] …)

Não, qual é a substância da sede das almas,mais do que o que gerava, não é? A substância é dupla… [faltam palavras] …

(Dr. Castilho: ….)

Bom, daqui já eu posso dizer: a substância é dupla. Ela vem de minha atração por Deus que nasce de minha própria condição de ser espiritual mas ao mesmo tempo contingente e que compreende que ele é nada e que há um ser que é tudo e para o qual eu devo me dirigir, e ele vem quanto à sede das almas dos outros da noção, da afinidade das almas com Deus e da beleza que há em que elas sejam segundo Deus e do horror que há em que não sejam.

(Dr. Castilho: Sim. O senhor pode dar também a conaturalidade… [faltam palavras] …)

É. Um dos elementos desse horror é a conaturalidade. Aquilo que é da minha mesma natureza que eu sou muito mais sensível a isto. Quase que involuntariamente por instinto, independente de razão repercute em mim.

(Dr. Castilho: … [faltam palavras] …horror é que ela se afasta de Deus? E a excelência… [faltam palavras] …)

Isto. Que elas sejam deiformes, não é? Mas isto não deve ser concebido em termos abstratos mas em termos concretos. E esta alma que seria de tal jeito se ela fosse segundo Deus, e que cai na adoração de si mesma de um modo ou de outro no interesse, na vulgaridade, no crime, e que fica o contrário. Se eu tenho o sensus animarum para mim o progresso dessa alma é um gáudio e o declínio dela ou estagnação é um tormento. Não é?

Agora, fala-se em imitação de Cristo. Como é que a gente pode imitar Cristo se a gente não é assim? Toda a vida de Nosso Senhor foi isto, não é? O Luizinho parece que queria perguntar alguma coisa, não é?

(Dr. Luis Nazareno: Eu queria perguntar, Dr. Plinio, se é certo sobre o seguinte: em todos os ensinamentos que o senhor sempre dá, o senhor nos mostra um aspecto novo da doutrina católica… [faltam palavras] …)

Para ver se o biscoito fica deslambido. Bem.

(Dr. Luis Nazareno: Como é )

Para ver se o biscoito fica deslambido, mas enfim.

(Dr. Luis Nazareno: Me parece o seguinte: que essa questão de sede de almas, razões de fazer apostolado, deve haver na doutrina católica clássica que a gente aprendia no colégio. … [faltam palavras] …religiosas uma porção de motivos razoáveis mas se disse algo que o senhor falou por exemplo este conhecimento de potencialidade do bem nas almas, a vontade de penetrar nessa potencialidade, como isto explica por exemplo o amor que Nosso Senhor teve pelas almas? Ma parece uma coisa muito nova, que enfim quando mais um posto(?) que eu nunca vi explicado até agora. Me parecia que por aí se abre uma perspectiva diferente do apostolado. Não diferente enquanto desacordo com o que se ensinava antes, mas enquanto que enriquece muito. Não sei se… [faltam palavras] …)

É bem verdade. Mas é de outro lado uma novidade velha. Você imagina um padre ou um leigo, se não tiver conseguido um padre debruçado sobre um desses cabajeros nojentos, e com todo o ardor da alma dizendo a ele: “Lembrem-se de Deus” – na hora dele morrer – “lembrem-se de Deus, vamos rezar a Nossa Senhora” enfrentando o mau cheiro, o mau hálito do homem etc. etc. e com um zelo, com um verdadeiro desejo de salvá-lo. O que que se explica esse desejo? É que está vendo naquela alma que beleza haveria se essa alma aderisse a Deus, está vendo in concreto naquela alma. E quando a gente vê o modo pelo qual os santos trataram as almas a gente percebe que eles vêem isto, e mais ainda a gente percebe que isso toca algumas almas.

(Dr. Luis Nazareno: Agora o senhor compreende… [faltam palavras] …)

Compreende-se que isto é velho como a santidade.

(Dr. Luis Nazareno: Sim, por aí é velho, mas o senhor compreende isto se via fazer com zelo, mas a própria explicação desse zelo não se tinha, e esse zelo uma vez explicado favorece por uma outra ordem de coisas que precisa ser sustentada pela alma que é apoiada na natureza, o apostolado.)

Sim, ah, muito, isto dá ao apostolado sua chama.

(Dr. Luis Nazareno: Por razões análogas pelas quais essa explicação que o senhor nos dá a respeito da beleza do universo, de toda a ordem criada favorece na aslmas o amor de Deus e faz compreender qual é a vida cotidiana, na vida comum se ela a vida material ou a vida mental ou [espiritual?] a presença do primeiro mandamento, não é verdade?)

Sim. É bem isso sim.

(Dr. Luis Nazareno: Agora, analogamente, isto vamos dizer, isto nesta primeira coisa eu digo o seguinte: se essas explicações fossem… [faltam palavras] …a partir do primeiro mandamento… [faltam palavras] …não quer dizer que as pessoas que já nascem a Deus não tivesse implicitamente essas noções.)

Ah, sim.

(Dr. Luis Nazareno: A explicitação ajuda.)

Ah, muito.

(Dr. Luis Nazareno: Aqui também se põe… [faltam palavras] …a explicitação ajuda, quer dizer, é mais fácil ter zelo se o senhor nos explicitasse as razões, se a gente as tivesse presente.)

Ah, isso eu acredito que sim. Eu acho que é um incentivo para o zelo, enorme.

(Dr. Luis Nazareno: E isso é novo.)

É. Eu ao menos não li em nenhum lugar, ao menos é novo nesse sentido que eu elocubrei, compreende? E eu acho que para nós isso incentiva para o apostolado enormemente e eu digo que por exemplo se eu não tivesse um pouco disso eu não teria a capacidade de fazer algumas coisas para o apostolado que eu faço.

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