Santo
do Dia – 10/5/1968 – p.
Santo do Dia — 10/5/1968 — 6ª-feira [SD 257]
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São Francisco de Giólamo, jesuíta, pregador popular; adapta-se ao ambiente; proveito publicitário na procissão e pregação; abala as almas rudes pelo temor; reergue-as pela misericórdia; técnica da pregação popular; desapegado, desejando a salvação do próximo; glória e tentação do pregador popular; indiferente a aplausos ou vaias.
* Dados históricos * Graça de acordo com o ambiente * Engenho publicitário * Começa pelo temor, depois pela misericórdia * Modo popular de pregar * Sem pensar em si, desejando a salvação do próximo * Dito do sem-vergonha * Se flagelava com humildade. Canta à hora da morte * Objeção: está engrandecendo um mero pregador popular * A vaidade esvoaça, mas não entra * Ser indiferente aos aplausos ou vaias * É mais difícil conservar-se humilde sendo elogiado
São Francisco de Giólamo
* Dados históricos
Também é festa de São Francisco de Giólamo, cuja biografia contém a seguinte passagem no livro de…[falta palavra]…, “La Vie des Saints”:
São Francisco Giólamo nasceu a dezessete de dezembro de 1642. Tornando-se jesuíta, seu maior desejo era ser missionário nas Índias e Japão, mas Deus o destinou a evangelizar o reino de Nápoles, trabalho no qual se dedicou de corpo e alma.
Preparou, para auxiliá-lo, uma confraria de artesãos que se chamou Oratório da Missão; além de outros numerosos trabalhos, todos os domingos acompanhavam São Francisco em suas pregações pelas ruas e praças de Nápoles. Saíam cantando da Igreja de Gesú Nuovo e, em procissão, dirigiam-se aos locais mais freqüentados.
À vista da procissão, os elementos de má vida abandonavam, mas sem cólera, o que estavam fazendo, mas não [ousavam a resistir?]… [uma palavra ilegível] …à força e à santidade [e aos atos de fé?] do que foi que neles havia.
Francisco subia, então, a um lugar mais elevado e falava ao povo. Começava descrevendo, com [rara?] energia, os horríveis efeitos do pecado e os castigos que esperavam o pecador.
Quando o temor estava em todos os corações, ele falava sobre a misericórdia de Deus. Depois dizia aos presentes que faria penitência por si e por eles. Ajoelhava-se ante uma cruz e, o rosto em lágrimas, flagelava-se com uma disciplina de ferro. Não era preciso mais para o povo segui-lo cheio de arrependimento.
Grande devoto da Virgem, Esta freqüentemente enviava-lhe os pecadores que [desejava se convertessem?]. Tornou-se famoso o caso de um homem, há muito afastado da Igreja, que Nossa Senhora o protegeu por causa do respeito com que saudava as suas imagens. Apareceu-lhe três vezes, ordenando que procurasse Francisco para confessar-se.
São Francisco de Giólamo morreu em 1716, cantando o Magnificat em agradecimento pela graças que recebera em sua vida.
* Graça de acordo com o ambiente
Essa vida é toda ela uma beleza. A gente começa por ver, aí, como a graça prepara as pessoas de acordo com o ambiente em que têm que atuar. É uma coisa evidente que este homem, que desejava fazer a pregação na distante China, no distante Japão, era um homem que tinha todo o necessário para pregar na próxima Itália. Os senhores estão vendo que ele era italianíssimo e que o modo de ele pregar era italianíssimo também. É o sul da Itália, todo entusiasmado por música, todo entusiasmado por cerimônias externas, por procissões, por aparato etc., gente com a imaginação quente, fácil, ao contrário do que são os nórdicos. Os senhores estão vendo como é bem calculado ele sair, pelo sul da Itália ensolarada, de dentro de uma igreja napolitana, com um grupo de gente cantando e fazendo uma procissão. Os senhores estão vendo que é muito diferente, por exemplo, de um grupo de ingleses saindo da Catedral de Westminster, cantando e fazendo procissão nas brumas de Londres, não é? Encontrando um inglês: “Ooh, ooh, uoó, uó”. Na Itália tudo isto toma outro aspecto, outra poesia, etc.
* Engenho publicitário
E está nosso homem inventando, portanto, um processo publicitário de primeira ordem para chamar a atenção. Chamar a atenção num lugar onde todo mundo canta; a poética Itália daquele tempo, em que se trabalhava pouco e se vivia muito. Vivia-se melhor, não é verdade? Então sai ele cantando, e os senhores imaginem aquelas ruas estreitinhas da Itália daquele tempo, saem as pessoas cantando da Igreja do Gesú, e cantando, naturalmente, hinos sacros etc., e todo mundo que sai [delle lodegli escure?], não é? E vai para a porta para ver passar a procissão, mesmo a sem-vergonhada, porque, para ouvir um pouco de música num tempo que não tem rádio, não tem televisão, era uma ocasião; mesmo a cachorrada sai para ouvir. Sai, a gente pode imaginar como: blasfemando, com uma garrafa meio partida na mão: “Ahn… vamos ver aquilo lá”. Bom, e fica. Sobe o santo… e começa a falar.
* Começa pelo temor, depois pela misericórdia
Agora, a alta psicologia da coisa. Ele entende bem que para aquele gênero de gente, é preciso começar a falar pelo temor, porque é gente embrutecida no pecado, endurecida no pecado e no seu atual estado de espírito, incapaz de amor; e, então, para descolar o apego desta gente aos bens da terra, é preciso começar a dizer para eles que são bens efêmeros, que são bens passageiros e, depois, falar das chamas do inferno no duro. Depois que os amedrontou bem e que, pelo temor, começou a produzir um começo de desapego em relação aos bens terrenos, então começa a falar da misericórdia. E os senhores estão vendo que falar da misericórdia é para dar a esperança dos bens futuros, para nutrir o amor de Deus e fazer com que Deus comece a aparecer com a sua Face amorosa. Os senhores estão vendo, aí, o caminho — pelo temor para o amor — como se faz bem. E os senhores estão vendo toda a espécie de aventureiro, toda espécie de mafioso, toda a espécie de sem-vergonha de fundo de bodega, que sai e começa:
* Modo popular de pregar
— Mas, como é esse inferno? E pega fogo? Não sei bem… Essa história, esse fogo, como é que é? — Ouve a voz do santo —. É? Morre, morre de repente… Cuidado com a morte súbita!
— Olha, Fulano — porque o pregador popular é assim —, vós soubestes, no vosso bairro, ontem, morreu a Fulana! E ela estava secando roupa naquela hora, está compreendendo? Quem é que haveria de dizer: “Conheceram a Margherita?”. E respondem de baixo…[falta palavra]…“A Margherita morreu!”. Agora, eu pergunto: você não pode morrer? E você, não pode?
Porque tem que ser personalizado, hein! Para a oratória popular, a coisa não pode ficar em teoria.
E começa. Um diz:
— Homem! — pergunta, de repente, para um mais velho — você não teve já uma tontura?
Está compreendendo.
— Eu já tive!
E um outro pensa: “Eu também tive, mas não conto!”
De repente, por essas coincidências que os oradores são capazes, os oradores assim inspirados são capazes: “Você conta que teve! Não tem algum aqui que não tem coragem de contar que já teve alguma tontura?”
[E um deles pensa:]
“Esse homem adivinhou o que está se passando em mim!”
* Sem pensar em si, desejando a salvação do próximo
Bem, depois de estar isso assim, vacilando, ele começa então a falar da misericórdia. Mas aí há um meio, uma prática em que a justiça e a misericórdia se osculam; é quando, depois, este homem dá uma prova da necessidade da justiça e dá uma prova da imensidade da misericórdia. Ele vai, ele mesmo, junto a uma cruz, ajoelha-se e diz: “Este sangue que vou derramar, é por Vós!”. E começa. E vê-se correr o sangue do inocente, e o pecador está embaixo, olhando, diz: “Mas será possível? Eu fugiria na disparada. Nós sabemos fugir. Fugiria na disparada de levar essa sova e ele leva essa sova por mim? Que coisa fabulosa! Está compreendendo?”. E a graça começa a atuar. Não há coisa mais eficaz do que uma dupla graça: a graça da humildade e a graça do sangue derramado. A gente ouvir um pregador destes, que fala, mas que tem a coragem de falar sem procurar chamar a atenção sobre si, sem ser mega, sem fazer espetáculo; ele, que está empolgando toda aquela gente, mas que está pensando abnegadamente na salvação daquela gente e na causa da Igreja, e que não está pensando nem um pouco em si. Pelo fato de sentirem que não há nele egoísmo, ele como que elide o egoísmo dos outros, como que elimina o egoísmo dos outros, como que arrasta os outros para abandonarem o seu próprio egoísmo; ele leva isto, ainda, à generosidade de derramar o seu próprio sangue.
* Dito do sem-vergonha
Os senhores estão vendo qual é o resultado dessas missões. Lembra-me um dito do sem-vergonha — a expressão é muito popularesca, mas ao personagem a gente só pode se referir assim —, do sem-vergonha do Napoleão. Uma vez perguntaram para ele, quando ele estava no fastígio da glória dele, pensando em proclamar-se imperador, perguntaram para ele: “Diga uma coisa, por que é que, de uma vez, o senhor — ou você, ou tu, ou sei lá eu como — não se faz aclamar Deus”. Ele disse: “Porque, depois de Jesus Cristo, só há um remédio de a gente ser tomado a sério como Deus. É subir numa cruz e fazer-se crucificar. Fora disso, ninguém mais toma a sério nada. Crucificar eu não quero”. Esse dito do Napoleão nunca me saiu do espírito.
* Se flagelava com humildade. Canta à hora da morte
Christianus alter Christus. Este homem não se crucificava, mas para ser tomado a sério, ele se flagelava. E na sua flagelação, feita com humildade, porque uma flagelação orgulhosa não conseguiria coisa nenhuma, na sua flagelação, feita com humildade, com desprendimento, ele levava as almas atrás de si. O resultado os senhores vêem, o lindo fecho dessa vida: um pecador, a quem Nossa Senhora aparecia — um pregador a quem Nossa Senhora recomendava aos pecadores, em aparição, que fossem procurar. Um homem que se conserva inteiramente humilde e abnegado, apesar desse sucesso estrondoso, até o fim de sua vida. Bem, e que morre num ato de humildade, atribuindo tudo a Nossa Senhora como devia atribuir, porque São Paulo diz muito bem que, para Deus Nosso Senhor, cada um de nós é um servo inútil, atribuindo tudo a Nossa Senhora, e cantando o Magnificat para agradecer os dons de que ele fora objeto. E a morte de um santo é a mais bela das mortes que pode haver: morrer cantando o cântico com que Nossa Senhora agradeceu os dons que Ela mesma recebeu de Deus. Uma vida cheia e uma vida que proclamava, humilde e alegremente, sua própria plenitude no momento do seu ocaso.
* Objeção: está engrandecendo um mero pregador popular
Os senhores estão vendo que é uma vida que mereceria — se houvesse um verdadeiro poeta entre nós — mereceria que uma pessoa fizesse um poema dessa vida. Alguém me poderá dizer: “Doutor Plinio, o senhor não está o senhor mesmo engrandecendo um pouco demais o personagem? O senhor está fazendo como se este personagem fosse um homem que tivesse calcado aos pés todos os louros do mundo, como ele, afinal de contas, era um modesto pregador popular. O que era isto em comparação com um grande orador acadêmico?”. E eu digo, das coisas mais difíceis, é o indivíduo resistir ao apelo da demagogia e [exatamente] resistir à sedução desse contacto vivo com a multidão e dessa sensação de estar guiando as almas, porque está guiando a multidão. Isso é uma tentação de vaidade mais difícil, debaixo de alguns pontos de vista, e talvez debaixo de muitos pontos de vista, do que é a vaidade de quem está falando para um grande auditório frio, que ouve tudo com senso crítico, e que, depois, faz umas palmas, assim, com a ponta da mão.
Os senhores imaginem alguém que fala para a Academia Francesa de Letras, os senhores já imaginam um homem convidado para falar para a Academia Francesa de Letras e vendo aquelas caras daqueles — é o mais alto cenáculo literário do mundo —, aquelas caras daqueles franceses críticos, ouvindo aquilo. Terminando: “Oh! Bien”… O que é isto em comparação de um homem que vai carregado pelo povo e… “Viva!”, etc., etc., aquele turbilhão do entusiasmo popular e “populacheiro” que embriaga mais como um certo gênero de vinho popular embriaga mais do que champanha. Quer dizer, não, o argumento não vale. É uma magnífica mostra do que pode o homem, como vitória contra as formas — perseverando humilde —, contra as formas fáceis de popularidade. E, por isso mesmo, levando as almas a Nossa Senhora.
* A vaidade esvoaça, mas não entra
Eu me lembro que li na vida de, talvez tenha sido o maior missionário de todos os tempos, depois de São Paulo, São Vicente Ferrer, que ele entrou em Barcelona, ele era como Santo Antonio Maria Claret no século passado, quando ele pregava nas cidades, o povo de uma cidade ia a pé pelo caminho, e o povo da outra vinha ao encontro dele com um pálio e levavam, debaixo de um pálio, para a cidade. Quando ele entrava, era como um soberano que estivesse entrando: todos os sinos tocando, e naquele tempo o sino era o máximo da consagração, era como a televisão de hoje, a “sereia da Gazeta”, qualquer coisa. E no meio de toda aquela popularidade, alguém aproximou-se perto dele e perguntou: “Irmão Vicente, não vos sentis vaidoso — quando ele entrou em Barcelona, onde prepararam para ele uma consagração apoteótica —, não vos sentis vaidoso?”. Ele deu a resposta do homem humilde, ele disse: “A vaidade esvoaça do lado de fora de mim, mas não entra”. Quer dizer, “eu sinto a tentação da vaidade, mas eu não consinto”. Os senhores vejam que beleza são essas coisas, que fazem de um pequeno detalhe de uma vida de santo uma verdadeira maravilha.
* Ser indiferente aos aplausos ou vaias
Que isso nos toque a nós. O que eu desejo mais para cada um de nós, desejo para mim, desejo para cada um de nós que está presente aqui, é despretensão. É nós não nos preocuparmos com o que estão pensando de nós, não nos preocuparmos em fazer bonito papel diante dos outros, sermos indiferentes aos aplausos ou às vaias e, pelo contrário, sabermos calmamente tocar o nosso caminho, executando aquilo que Nossa Senhora quer de nós, compreendendo que, para Deus, todo o homem é pecador, todo o homem tem defeitos, e que as virtudes que ele tem, lhe vêm de Deus Nosso Senhor, porque não sai de sua natureza contaminada pelo pecado original, e que, portanto, é tudo a Deus Nosso Senhor, pelos rogos de Maria, que deve ser agradecido.
* É mais difícil conservar-se humilde sendo elogiado
Esta despretensão, aliás eu preciso dizer, um aspecto dela alguns dos senhores estão dando bonito exemplo agora. Eu fico muito contente de ver, me alegra de ver com que simplicidade os senhores vão às faculdades e são vaiados. Ser vaiado porque foram levar o Nome de Nosso Senhor Jesus Cristo lá, é uma bem-aventurança, é sofrer perseguição por amor à justiça. De toda alma eu os felicito. Eu digo: é mais difícil a gente se resignar a ser vaiado do que a gente se conservar humilde sendo elogiado. É um belo grau de humildade a gente ser vaiado, conservar-se humilde sendo elogiado é mais difícil. Conservar-se despretensioso num ambiente onde há simpatia com a gente, é mais difícil. Eu os convido, portanto, todos a praticarem, nos seus dois aspectos, a virtude da humildade, enfrentando com sobranceria a vaia e todos nós preparando as nossas almas para enfrentar, com sobranceria, uma outra coisa: é o contínuo apetite nosso de sermos bem vistos pelos outros, de sermos louvados pelos outros, de, veladamente ou não, sermos mais “megas” em relação aos outros. Que Nossa Senhora nos conceda essa despretensão e eu lhes garanto que todo o resto lhes será dado por acréscimo.
Mais uma vez, pela fidelidade ao horário, eu sou obrigado a não assistir ao alardo e a não ouvir o coro. Pior é que eu vou levando um dos senhores junto comigo, que é o Dr. Eduardo. Nós vamos sair pelo fundo, para não atrapalhar — se alguém pudesse fazer o favor de entregar o chapéu, eu ficaria agradecido.
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