Santo do Dia ─ 6/5/68 ─ 2ª feira – p. 6 de 6

Santo do Dia ─ 6/5/68 ─ 2ª feira

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Nada na terra é capaz de nos dar tanta felicidade quanto a “sápida scientia” do enlevo * Por vezes, a “sápida scientia” dos maus supera a dos bons; daí a queixa de Nosso Senhor: “os filhos das trevas são mais perspicazes do que os filhos da Luz” * Nossa Senhora quer pegar os menos capazes e, por meio deles, operar maravilhas * A bondade da Senhora Dona Lucilia foi o modo pelo qual o Senhor Doutor Plinio conheceu a bondade de Nossa Senhora e do Sagrado Coração de Jesus * Olhando para a imagem de Mater Boni Consilii deveríamos compreender qual tem de ser nosso relacionamento para com Nossa Senhora

Amanhã, sete de maio, vai ser Festa de Santo Estanislau, bispo e mártir. Bispo de Cracóvia, foi martirizado por ter censurado a vida escandalosa do rei da Polônia. Padroeiro daquele país, século XI.

Por mais bela que possa ser a evocação de Santo Estanislau para o dia de amanhã, lembrando-nos de que a Polônia geme sob um jugo mil vezes mais cruel do que o rei que mandou matar Santo Estanislau, e lembrando que este infeliz país, tão cheio de glória nos fatos da Civilização Cristã e da Igreja Católica, não tem um Santo Estanislau que seja capaz de dizer aos tiranos de hoje a verdade que Santo Estanislau soube dizer a um tirano tão menos mau [de] outrora; não tem aqueles bispos, aqueles pastores capazes de se expor ao martírio, mas pelo contrário, falsos pastores, capazes apenas de composição que lhes evitem os sofrimentos e quaisquer que sejam as aplicações que este tema seja capaz.

* A história das reações dos membros do Grupo em relação ao Senhor Doutor Plinio constitui um verdadeiro drama

Parece-me, entretanto, que eu devo mais me referir às palavras do meu caro Martim Afonso e à vossa presença aqui e ao reencetamento do Santo do Dia do que propriamente ao santo que amanhã a Igreja Católica venera.

Foi muito delicada a vossa atenção de delegar um de vós para me saudar especialmente no momento em que os Santos do Dia recomeçam.

Com efeito, dentro do Grupo é uma coisa bem verdadeira que vós que sois os que chegam lá por onze e vinte, e que assistem o Santo do Dia, que vós representais como que uma família de almas, uma comunidade especial e que o Santo do Dia é feito particularmente para vós. E o que ele possa ter de benfazejo para os outros membros do Grupo que me ouvem, vem não tanto muitas vezes de minha palavra, mas da refração que esta palavra encontra em vós.

Quantas e quantas vezes durante este longo tempo de enfermidade eu me lembrei do momento em que vós entráveis, lembrei-me de vos ter visto por vezes chegar, quando eu mesmo chegava atrasado para a reunião, vos ter visto chegar com passo apressado e até correndo. E até uns, tropeçando às vezes um pouco por cima dos outros para chegarem a tempo para pegarem o Santo do Dia. Quantas vezes eu vi, e me deleitei em espírito vendo com que pressa vós montáveis as cadeiras para o Santo do Dia, sendo que a recompensa daqueles que traziam as cadeiras e as montavam era de ficarem sentados nas primeiras filas para poder acompanhar melhor o Santo do Dia.

Quantas e quantas vezes eu me lembrei de tudo aquilo que me diz o vosso olhar durante o Santo do Dia, porque vós bem o sabeis, eu converso com os olhares para conversar com as almas. E eu seria incapaz, creio eu, de fazer uma conferência no escuro ou de olhos fechados, de tal maneira aquilo que eu vou dizendo vai sendo modelado pela expressão do olhar daqueles a quem eu vou falando, e de tal maneira eu vivo no olhar dos meus interlocutores e dos meus ouvintes.

Quantas e quantas vezes eu vejo olhares que estão ávidos de entender aquilo que Martim Afonso dizia que vós deveis entender.

Quantas e quantas vezes eu acompanho a história de uma alma através da história de um olhar.

Quanta alegria em perceber olhares que reascendem, quanta tristeza em perceber olhares acesos que vão aos poucos, ao longo dos meses ou ao longo dos anos, perdendo o seu brilho. Pessoas que estão às vezes em posição de máxima avidez, mas que parecem estrelas que vão se apagando, que vão murchando, que vão passando para os cantos da sala ─ não que os que estejam no canto da sala andem com os olhares mortos ─ mas é um modo figurado de dizer que vão tomando uma posição marginal em relação ao que se passa.

E aí vem todo o drama da vida do Grupo, todo o drama desse capítulo palpitante da história das almas que é a história de vossas reações, diante de vossa vocação e diante do Santo do Dia.

Nossa Senhora, que por este ou por aquele modo, se manifesta e que muitas vezes nos fala pela voz daquele a quem Ela determina que comente o Santo do Dia para vós; Nossa Senhora, que por estas ou por aquelas formas, acende o enlevo em vossas almas. Almas que dizem “sim!”, almas que dizem “talvez”, almas que dizem “amanhã”, almas que não dizem nada, almas que se viram. E Nossa Senhora vai pegar as almas que se viraram, as almas que disseram “talvez”, as almas que disseram “amanhã”, e que suplica, pelos mil encantos da graça, a essas almas que mudem de posição e que se afervorem de novo. E que consegue às vezes vitórias espetaculares! Às vezes, hélas, derrotas tão tristes.

Mas, ao longo disto, é um capítulo da história das almas que se faz, e um capítulo básico da história das almas em que uma coisa se nota: é que as almas ficam e que Nossa Senhora vai sempre multiplicando as suas misericórdias, e que se tenha certeza de que, pela bondade d’Ela, pela extrema indulgência d’Ela, a grande maioria de vós acabará um dia compreendendo e um dia dizendo “sim”!

* Nada na terra é capaz de nos dar tanta felicidade quanto a “sápida scientia” do enlevo

Compreendo o quê, e dizendo sim ao quê?

A doutrina ultramontana é uma coisa que certamente pode ser reduzida a termos puramente especulativos. Mas, como eu falava hoje a um amigo com quem conversava, trata-se não só de ter a ciência da doutrina ultramontana, mas ter a sapiência da doutrina ultramontana. E esta sapiência é uma sápida scientia, é uma ciência com sabor.

Trata-se de uma compreensão que não é apenas uma compreensão especulativa, mas é uma compreensão feita de amor em que se toma o gosto da coisa. E exatamente o ponto difícil, o ponto [álgido?] é tomar o gosto da coisa ultramontana, tomar o sabor da coisa ultramontana, identificar a nossa alma com a doutrina católica nos seus aspectos mais tipicamente ultramontanos, identificar de modo tal que aqui nós tenhamos pego o sabor dos sabores, tenhamos degustado a degustação das degustações, tenhamos sentido aquela coisa única, inefável que não tem outra expressão senão a palavra “enlevo” para traduzi-la. E que é uma luz que brilha nos nossos olhos, é um conjunto de imponderáveis que se acendem para nós, é um conjunto de apetências que se despertam em nós rumo a esses imponderáveis e que nos fazem compreender que nada há, já aqui na terra, mais capaz de nos encher de felicidade, mais capaz de nos fazer transbordar da alegria de existirmos do que essa ciência saborosa, esse conhecimento cheio de sabor daquilo que é o reflexo de Deus na terra e que é a doutrina da Santa Igreja Católica, Apostólica e Romana.

Doutrina bem exposta, exposta portanto, dando o devido realce aos seus pontos culminantes que são os pontos precisamente que o mal odeia mais e que ele mais quer combater.

* Por vezes, a “sápida scientia” dos maus supera a dos bons; daí a queixa de Nosso Senhor: “os filhos das trevas são mais perspicazes do que os filhos da Luz”

E aqui nós tocamos no mistério dos mistérios. Essa sápida scientia que nos deve fazer sentir o gosto da coisa ultramontana em tudo quanto ela está presente, essa sápida scientia, os filhos das trevas a têm. Têm de um modo negativo. Mas eles estertoram diante de nossas afirmações e muitas vezes, com uma palavra qualquer nossa, eles sentem uma irritação tremenda. Às vezes com um gesto nosso ou um olhar nosso eles sentem uma irritação tremenda. Porque eles percebem toda a carga da doutrina ultramontana que, por via da coerência, ali se manifesta e ao mesmo tempo ali se oculta.

Eles têm o sabor da coisa má e o anti-sabor da coisa boa. E nós, que somos os filhos da Luz nós temos a vista tão menos aguda, nós percebemos tão menos o sabor da coisa boa, nós não temos muitas vezes pelo bem a intensidade de amor correspondente à intensidade de ódio que eles têm pelo bem. Nós não temos pelo mal a intensidade de ódio correspondendo à intensidade de amor que eles têm pelo mal.

Como é verdadeira a lamentação de Nosso Senhor em relação aos filhos da Luz do seu tempo, mas que exprimia uma tentação dos filhos da Luz de todos os tempos, que é que os filhos da Luz são menos ágeis, são menos espertos do que os filhos das trevas. Os filhos da Luz são menos perspicazes do que os filhos das trevas, eles são menos levados a amar a Luz do que os filhos das trevas são levados a amar as trevas. Eles são menos levados a odiar as trevas do que os filhos das trevas são levados a [odiar] a Luz.

* A razão de ser do enlevo é o bom odor de Nosso Senhor Jesus Cristo

Pois bem, exatamente aqui está o segredo, aqui está o mistério. É a correspondência a uma forma de graça que nunca nos é recusada, e que pela devoção a Nossa Senhora, mais particularmente nós podemos alcançar, que é uma forma de graça que nos faz sentir o sabor da doutrina ultramontana e compreender que esse é o sabor dos sabores, que este é o enlevo dos enlevos e que nada na terra tem o valor daquilo que é o sabor, o perfume, o bom odor de Nosso Senhor Jesus Cristo.

O bom odor de Cristo que leva atrás de si todas as almas, especialmente as almas puras, as almas virgens. O bom odor de Cristo deve ser a razão de ser de todo o nosso enlevo.

* Nossa Senhora quer pegar os menos capazes e, por meio deles, operar maravilhas

Assim, ao agradecer essas palavras de saudação, eu não direi amabilidades que vos digam a respeito de vós mesmos aquilo que seja melhor do que seria o caso de dizer. Mas também eu posso dizer que há uma receptividade de um modo ou doutro presente aqui que se manifesta no vosso contínuo comparecimento, na vossa contínua atenção, nesse contínuo florescer da graça aqui, lá e acolá que manifesta bem que Nossa Senhora alguma intenção tem com tudo isto.

Ela tem uma intenção com uma tão longa paciência, uma tão longa perseverança, atraindo-vos tão longamente. E isto é aquilo que eu dizia nas minhas palavras de sábado: que nós todos sejamos perfeitos apóstolos dos últimos tempos, aqueles homens de uma fibra inquebrantável, aqueles homens de uma largueza de horizontes enorme, de uma força de alma extraordinária, tudo pela graça de Deus obtida pelos rogos de Maria que faz, que são ou que devem ser os maiores guerreiros da História.

Meus queridos capengas, capenguice é a particularidade de alma que toca à vossa geração. Nossa Senhora quer fazer convosco uma maravilha; Ela quer pegar os menos capazes para habitar neles e mostrar neles o seu poder, e ganhar por meio deles as grandes lutas que por meio dos homens capazes, das gerações capazes Ela não ganhou.

A vossa debilidade, a vossa fraqueza deve ser uma ocasião para atrair a misericórdia d’Ela e para acender em vós aquela forma verdadeira de amor de que Santa Teresinha do Menino Jesus falava. Ela dizia: “para o amor nada é impossível”.

Para os capengas, desde que tocados pelo enlevo, desde que guiados pelo amor à doutrina católica ultramontana, para os capengas apesar da capenguice, nada pode ser impossível desde que verdadeiramente eles sintam o enlevo. Não porque eles são grandes homens e podem esperar de suas forças, mas porque Nossa Senhora pode fazer grandes coisas por meio dos fracos para mostrar quanto Ela é grande.

Que Ela faça acender o fogo da fidelidade na tocha de vossa fraqueza, e que no fogo dessa fidelidade a terra inteira pode ser incendiada.

Assim, que Nossa Senhora do Bom Conselho pronuncie no interior de nossas almas, de todos nós, aquela palavra de ouro: “Sede fiéis, meus filhos, que eu serei fiel também! Sede fiéis que eu não faltarei à minha promessa, Eu vos atraí para essa Causa, diz Nossa Senhora, com a promessa que vós tereis um destino extraordinário, de que vós derrubareis as muralhas da sinagoga de Satanás e de que vós reinareis comigo no Céu”.

Ela será fiel e pela fidelidade d’Ela, Ela causará ─ peço eu a Ela ─ a vossa fidelidade. Seja sob o signo deste pedido de fidelidade, sob o olhar amoroso de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano, seja sob esses auspícios [em] que o Santo do Dia se [recomeça].

* A bondade da Senhora Dona Lucilia foi o modo pelo qual o Senhor Doutor Plinio conheceu a bondade de Nossa Senhora e do Sagrado Coração de Jesus

Durante as reflexões que eu, por ocasião de minha doença, fiz sobre Nossa Senhora de Genazzano, me chamou muito a atenção ─ eu já tive ocasião de comentar isso ─ a inteira intimidade do Menino Jesus com Nossa Senhora. Ele até passa a mão pelo pescoço d’Ela e a ponta dos dedos d’Ele se vê pelo pescoço d’Ela.

Essa intimidade, quando ainda a minha querida e saudosa mãe ─ a que Martim Afonso quis referir-se ─ minha querida e saudosa mãe estava viva, eu me lembrava que era a intimidade que eu tinha com ela, uma intimidade tão cheia de respeito, tão cheia de admiração, tão cheia de veneração e de ternura, mas uma verdadeira intimidade. Ela sabia ser pequena, ela sabia ser afável, ela sabia ser meiga ainda quando eu era um menino que dependia completamente dela e que ela para mim era a grande e eu era o pequeno.

E por isso, desde os meus primeiros dias eu chamava de “mãezinha”. Eu nem sabia falar bem e eu dizia “manguinha”, mas já era a idéia do que havia nela de miúdo, de pequeno, de proporcionado a mim, de exorável por mim, de compassivo para comigo. Era esta a idéia que brotava em mim de toda a mansidão e de toda a bondade dela. A bondade dela foi para mim o modo pelo qual eu conheci a bondade de Nossa Senhora e a bondade do Sagrado Coração de Jesus.

* Olhando para a imagem de Mater Boni Consilii deveríamos compreender qual tem de ser nosso relacionamento para com Nossa Senhora

E olhando agora para esta imagem e vendo ali o Menino Jesus tão protegido por Ela e tão agarrado a Ela, eu quisera que um raio de graça descesse sobre cada um de nós e que nós compreendêssemos que nós devemos ser assim com Nossa Senhora: filhos intimíssimos, filhos que sabem que a misericórdia d’Ela não se cansa nunca, que o perdão d’Ela não se recusa nunca, que o sorriso quase que nos antecede, apenas nós nos voltamos para Ela e que a própria graça de nós nos voltarmos para Ela, vem da intercessão que Ela fez por nós.

Assim, uma confiança sem limites e contínua na bondade d’Ela, em todas as ocasiões, em todas as circunstâncias, de todos os modos dizendo a Ela: “Salve Rainha, Mãe de Misericórdia, vida, doçura, esperança nossa, salve.”

Salve no sentido etimológico e latino da palavra saudação: que eu te saúdo Rainha. Mas nós poderíamos fazer aí um barbarismo e dizer também: “Salvai-nos Rainha, Mãe de Misericórdia, vida, doçura, esperança nossa, salvai-nos!”

Mãe e Mãe de Misericórdia, Ela que é a nossa vida, porque se não fosse a misericórdia d’Ela nós estaríamos mortos; toda a doçura de nossa vida nos vem d’Ela e Ela tem uma doçura tal para com seus filhos, ainda mesmo quando eles são fracos e não são fiéis. Ela tem uma doçura tal que esta é por excelência a doçura do Universo e todas as formas materiais de doçura, a doçura do mel, a doçura do açúcar, a doçura da brisa não são nada, não são senão pálidas imagens, a própria doçura dos corações maternos, não é senão uma pálida imagem desta doçura das doçuras que é a doçura do Imaculado Coração de Maria, cheia da própria doçura de Nosso Senhor Jesus Cristo. Vida, doçura, esperança nossa, salve.

É só nEla que nós podemos esperar, na intercessão d’Ela por nós, na misericórdia d’Ela para conosco. Mas aí nós temos uma esperança que é uma esperança invencível, porque quem tem tal Mãe e uma Mãe que de tal maneira induz os seus filhos a olhar para Ela, este nunca poderá deixar de esperar.

Assim, são essas palavras de esperança que eu vos dirijo, com os olhos postos em Nossa Senhora de Genazzano ao reencetar esta longa série de Santos do Dia.

Que o olhar de Nossa Senhora seja a luz interna de todas as nossas almas e que seja a estrela que guie neste mar tempestuoso a nossa vida.

Ave Maris Stella.

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