Santo
do Dia (Rua Pará) – 26/11/1967 – Domingo [SD 032]
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Santo do Dia (Rua Pará) — 26/11/1967 — Domingo1 [SD 032]
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Dados biográficos de Santo Elesbão * Como rei católico, desterrou da Etiópia os que não adorassem a Jesus Cristo como verdadeiro Deus * Para conservar a limpeza virginal do coração , o santo recusou o matrimônio * De extrema devoção à Virgem Maria, combateu a heresia com a espada e com a oração * Decadência da hagiografia: lugares comuns que permitem encaixar qualquer santo no sermão * Santo Abraão, eremita, ensina que as paixões continuam, sendo apenas reprimidas pelos santos * Nosso Fundador insiste na refutação do erro segundo o qual as pessoas, no total, nascem boas * Outro erro é pensar que os homens não têm instintos maus * Vigilância contínua, pois até o último alento, as más inclinações acompanham até um varão mais santo
Ah! nós estamos no 7ª dia da novena da Festa de Cristo Rei. Neste dia, em 1946, D. Geraldo de Proença Sigaud foi eleito Bispo. É… no dia 27. Amanhã, nós vamos ter festa de Santo Elesbão e festa de Santo Abraão, Eremita.
Eu acho interessante comentarmos de Santo Elesbão, porque deve ser com certeza o tal Santo Elesbão que sucedeu aos … [inaudível]… é o que subiu ao trono depois de morto o rei do santo de ontem.
* Dados biográficos de Santo Elesbão
Santo Elesbão, imperador, é … [inaudível]… imperador 47 da Abissínia, advogado dos perigos do mar.
Nasceu preto esse glorioso santo. Assim devia ser porque é dos filhos de Etiópia…
Ah! é o mesmo autor de ontem. A subida da ladeira ainda não é tão íngreme.
Assim devia ser, porque este é dos filhos de Etiópia, a flor própria natural. Mas tão limpo e claro de consciência, que jamais culpa grave entre Deus a manchar-lhe a candidez do interior.
Por enquanto ainda se acompanha, não é?
Sendo assim reconhecido em toda a Igreja como um dos maiores santos que nela militaram, como também pelo mais poderoso monarca do seu século. De tal sorte que, não havendo já debaixo do sol coisa que no mundo pode causar novidade, só para aplaudir a santidade deste infante, ainda hoje a fama possa encontrar novos assuntos.
Aqui já está mais complicado.
Ele diz, em última análise o seguinte: que vivendo na terra, não debaixo do sol, nada existe de novo, mas que tal é a santidade deste príncipe, que no comentário desta santidade sempre pode se encontrar alguma coisa de novo, embora não haja mais nada debaixo do sol. Não falta certo estro à frase.
Concluídas as honras e cerimônias do funeral do pai de Elesbão, deram seus passados, feliz princípio, os obséquios da coroação do príncipe.
Muito bonita a frase, não é? Vejam, vejam a frase como tem seu encanto.
Concluídas as honras e cerimônias do funeral do pai de Elesbão, em linguagem jornalística de hoje, concluído o enterro. Não, não é só isto. Enterro é enfiar dentro da terra, não é? O enterro é muito mais do que isto, não é? Consta de honra e cerimônias várias. Então concluídas as honras e cerimônias fúnebres é muito mais bonito do que falar simplesmente num enterro, não é?
Então deram seus passados, feliz princípio, obséquios da coroação do príncipe, as homenagens da coroação do príncipe. Rei morto, rei morto. Dá feliz princípio, é lindo. Vestiu-se a nobreza e a plebe de gala, precedendo na corte e continuando nas mais cidades, flamantes e vistosas luminárias.
Não sei se isto está claro ou não. Levante os braços quem achar que está claro. Acho que está, não está?
* Como rei católico, desterrou da Etiópia os que não adorassem a Jesus Cristo como verdadeiro Deus
Não dava um só passo fora da jurisdição em termos da verdade.
Jurisdição em termos da verdade, outra delícia.
E por esta razão foi sempre um servo observantíssimo da lei de Cristo, segundo mostravam os ordinários indicados de sua extrema religião. Nenhum foi tão evidente como a pública displicência que tinha dos infames apóstatas da fé católica.
Displicência quer dizer público desprezo.
A estes, que pela maior parte eram Nestorianos, e a todos os judeus conhecidos, desterrou da Etiópia em seus domínios,…
Racista e segregacionista segundo a Igreja pós-conciliar.
… determinando por expressa lei que nos seus reinos se estabeleceu e fez observar que não admite-se neles viver de assento pessoa que não confessasse e adorasse a Jesus Cristo por verdadeiro Deus.
Viver de assento quer dizer morar. Podia viver de passagem, viver de assento não podia.
Neste modo provava o cordial afeto que tinha ao mesmo Senhor, no qual incessantemente se abrasava, porque é próprio de quem ama com verdade querer que todos que ele estima, todos com ele estimem o mesmo bem.
Aí um bonito pensamento.
Como o rei era católico, ele queria que todos fossem católicos. Quem não fosse católico, que saltasse fora da Etiópia.
Está perfeitamente lógico e bem pensado.
* Para conservar a limpeza virginal do coração , o santo recusou o matrimônio
Foi na virtude da castidade, cristal sem mancha, espelho sem nódoa, com tal constância consagrou a Deus a primeira infância e limpeza do virginal coração, que nem honesto pretexto do matrimônio bastou a fazê-lo variar de mais árdua empresa de se conservar sempre intacto.
Em outros termos, ele foi puro a vida inteira.
Soube nesta matéria usar de tão rara prudência, que para não se desposar, só deu a entender a repugnância, não à causa, valendo-se para dissimular esta virtude tão convincente razões que todos, sem nenhum entender o projeto, lhe aprovaram a resolução.
Desta vez, eu confesso que nem eu entendi.
Achava-se a colônia Etiópia naquela conjuntura com bastante seguros, dando-lhe sucessores,…
Quer dizer, havia muitos príncipes que podiam herdar…
… os quais, segundo as leis do império, concorriam às devidas circunstâncias para empunhar o cetro.
* De extrema devoção à Virgem Maria, combateu a heresia com a espada e com a oração
Vendo que não podia extirpar do mundo todas as heresias, se valia do pranto para mover a Deus a que remediasse como poder de seu braço esse contagioso mal.
Quer dizer, não só perseguiu a heresia com a espada, mas com a oração.
Porém, nenhuma das suas virtudes o enobrece, de sorte que não realçasse sobre todas a extremada devoção que professara à Virgem Maria.
Foi tão filho de mãe, a mãe de Deus, antes como depois de vestir o hábito de sua carmelitana religião…
Quer dizer, devia ser ordem carmelitano terceiro. Deve ser isto, afinal.
* Decadência da hagiografia: lugares comuns que permitem encaixar qualquer santo no sermão
Isto é destes comentários, de ontem, que estava muito interessante. O de hoje bem, bem, bem, bem menos, porque não dá nenhum fato especial que são os lugares-comuns da hagiografia de um certo tempo que se fazia sermão para vida de santo assim. Havia sistemas de sermão para vida de santo. Então é sermão sobre a vida, vamos dizer, de Santo Ildefonso. Entre parênteses, vale também para santo tal, santo tal, santos de épocas diferentes, tudo diferente.
O sermão era feito assim meio anônimo, entende? Eram santos que, vamos dizer, tinham sido puros em moços e mantiveram puros até em velhos. Foram Padres e pregaram a lei de Deus. Sobre isso faz-se um sermão que é uma chave comum para todos eles. Então, vamos dizer, vale para santo tal, santo tal, e outros santos de análogas virtudes. Quer dizer, com um pouco de jeitinho, se encaixa quem quiser dentro do sermão.
Aqui está perfeitamente anônimo. Não há comentário a fazer, é a decadência da hagiografia, mas extrema.
* Santo Abraão, eremita, ensina que as paixões continuam, sendo apenas reprimidas pelos santos
Eu vou ler baixo esta coisa e se não houver também nós declaramos no fim do Santo do Dia. Não, esta tem que ser interessante, porque como começa vale a pena.
Santo Abraão, eremita, viveu vinte e três anos sobre a direção de São Pacóblio.
Este tem que ser interessante.
Depois viveu mais dezesseis sozinho, alimentando-se de favas com um pouco de sal.
Um velho que viveu cinqüenta anos sem comer pão e nem beber vinho, disse-lhe um dia:
— Eu matei a impureza, a avareza, as más impressões.
Abraão considerou aquela afirmativa por algum tempo e disse:
— Eis que tu entras na cela e no teu valho catre encontras uma mulher. Tu podes pensar que ali não está uma mulher?
Respondeu o velho:
— Não, mas combato o meu espírito para não a tocar.
Respondeu o outro:
— Eis aí, tornou o Santo Eremita, tu não mataste nada, a paixão vive, apenas está reprimida. Do mesmo modo estás a andar por aí e vês pelo chão pedras, cacos e entre eles ouro. Tua inteligência pode conceber o ouro como pedras e cacos?
— Não, respondeu o outro, mas combato o meu espírito para não lho apanhar do chão.
E Santo Abraão então disse:
— A paixão vive, está apenas presa, dominada, mas eis que tu ouves falar de dois irmãos: um deles te ama, o outro te odeias, humilha-te. Um dia aparecem em tua casa, tu os recebe igualmente?
— Não, mas combato o meu espírito, combato o meu espírito procurando tratar bem o meu inimigo, assim como trato o amigo.
— Ora, vê tu, as paixões vivem, apenas são reprimidas pelos santos.
* Nosso Fundador insiste na refutação do erro segundo o qual as pessoas, no total, nascem boas
Abraão faleceu antes de antes de 368.
Bom, daqui se tira de uma forma muito singela um grande ensinamento, e esse ensinamento é preciso sempre estar insistindo sobre ele, de tal maneira nós fomos educados na consideração de um erro oposto. E é o seguinte:
Nós temos a idéia, que nos é inoculada na infância, que as pessoas no total nascem boas, que todo homem que nasce, na sua natureza é bom. Daí vem essa ternura um pouco idiota da criancinha: “Ah, nenezinho, coitadinho, como é bobinho, bonzinho”. A gente está olhando a cara dele e já está vendo o vício capital nos olhos, que vai ser que a primeira palavra que ele pode proferir já vem marcada com a maldade dele. Mas vem aquela coisa boba, um pouco norte-americana de pena de criança: “Ah, coitadinha, é anjinho, é santinho”, não sei o quê.
Então a criança é boa, a vida é que vai fazendo a criança má. A criança vai pecando, porque é tão duro não pecar, que seria pecado não perdoar, não ter pena dos pecados que o indivíduo comete pela dureza da vida.
A pessoa vai se tornando má. Mas vai se tornando má mais ou menos como seria, por exemplo, aqui esse pano se eu fosse jogando sobre ele borrifadas de tinta. Ele iria ficando sujo nos pontos borrifados, nos outros pedaços ele ainda estaria limpo.
Aí se diria também das pessoas antes tão más nisto, por exemplo: ele calunia as outras, isto é verdade, mas em matéria de dinheiro é muito honesto, ou então ele rouba, é verdade, mas tem uma pena da velha mãe dele, está compreendendo?
Uma pessoa seria um conglomerado de virtudes autênticas e de defeitos autênticos, quando a pessoa tem defeitos, mas haveria sempre na pessoa algum lado de bom e esse lado de bom lhe viria da própria natureza.
A Igreja ensina exatamente o contrário.
Primeiro lugar, que o homem não pode ser um conglomerado de virtudes e defeitos, e que em algum todo não se pode dizer que ele nem é bom, nem é mau, mas é bom sob tal aspecto, é mau sob aquele. O homem ou tem todas as virtudes fundamentais e defende os secundários, e nesse caso ele é bom, ou ele tem um defeito, um hábito do pecado mortal, e nesse caso ele inteiro é ruim. Porque o homem em estado de pecado mortal é inteiro ruim.
Esta história de dizer: “Fulano é muito bom. Coitado, ele não vai à missa aos domingos”, então não é bom, acabou-se. Está em estado de pecado mortal, não é bom.
— Então o senhor nega, vai dizer que ele é ladrão?
Não estou dizendo isto. Eu não estou dizendo que o homem mau tem todos os defeitos possíveis. Ele pode não ter alguns defeitos. Poderá mesmo ter algumas coisas que são à maneira de virtude. Mas a virtude num todo ele não tem, porque virtude é não estar em estado de pecado mortal.
* Outro erro é pensar que os homens não têm instintos maus
Agora, acontece que o outro erro é pensar que os homens não têm instintos maus.
Todo homem tem instintos péssimos, e se não fosse a correspondência à graça, o homem seria um entulho de defeitos morais. É a graça que nos vem através da Santa Igreja Católica que dá ao homem a força para observar duravelmente todos os mandamentos, e então ser bom, ser bom. Do contrário, é um entulho de defeitos. E mesmo quando o homem é bom, as paixões existem nele, ele tem que lutar continuamente contra elas. Se não lutar, ele cai.
Quer dizer, a vida é uma vigilância contínua, é uma luta perpétua.
* Vigilância contínua, pois até o último alento, as más inclinações acompanham até um varão mais santo
É isto que o nosso santo — esqueci do nome — quis salientar no diálogo que teve com este velho presunçoso, que achava que tinha morto em si todas as más inclinações. Isto não existe. Até o último alento as más inclinações acompanham, até um varão mais santo.
É preciso vigiar contra, vigiar a respeito delas e lutar contra elas. É um ensinamento do Santo do Dia de hoje.
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1) A data deve estar errada. Não havia “Santo do Dia” aos domingos.