Reunião Normal ─ 26/10/67 ─ 5ª feira . 13 de 13

Reunião Normal ─ 26/10/67 ─ 5ª feira

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Algumas considerações a respeito do movimento universal de todas as coisas criadas por Deus * A beleza e a dignidade da inteligência do homem quando diante de um problema inextricável, ela explicita, formula e resolve. A polêmica * Há certos homens a quem Deus concede um dom de ação impressionante, exemplo: Talleyrand * O Senhor Doutor Plinio acha muito agradável assistir a conferência de um terceiro e acompanhar o relacionamento dele com o auditório * A ação de Deus em suas criaturas pode-se percebê-la desde um peixe até a queda dos Romanovs * As Reuniões de Recortes são uma prodigiosa lição de contemplação da ação de Deus * Que estado de espírito e que horizonte deve-se ter para assistir uma Reunião de Recortes * Só a Igreja Católica é verdadeira; só de seus frutos que se pode esperar toda sorte de bem

* Algumas considerações a respeito do movimento universal de todas as coisas criadas por Deus

Temos aqui uma notícia a respeito da morte de último imperador da China. Essa notícia se liga a um dos aspectos da Reunião de Recortes que eu não explicitei na reunião de 6ª feira passada, porque ela não cabia propriamente dentro do quadro em que eu me coloquei, porque eu tratei dos objetivos das Reuniões de Recortes, consideradas as repercussões terrenas da reunião.

Ora, em face do Céu, em face do sobrenatural, haveria outras considerações a fazer. Uma delas eu fiz no Santo do Dia na mesma noite e a outra eu a faço agora. De maneira que nós então ficamos com o quadro completo das finalidades das reuniões de recortes.

O princípio que se deve pôr é o seguinte: todo o mundo está de acordo em que Deus é admirável em todas as suas obras. E quando se lança esse princípio, o espírito se volta naturalmente, quando se fala de obras, para coisas que Deus criou. Então, para os seres, vários, de várias ordens, desde a pedra até o anjo, para a hierarquia desses seres, e para os panoramas da natureza, para as belezas da natureza, para as obras de arte feitas pelo homem, fala-se disso, e todo o mundo julga que a matéria está esgotada com essa visão de conjunto. Ora, isso não é verdade. Há uma outra coisa que também foi criada por Deus, mas que não consiste em seres individuais, substanciais, mas que foi criado por Deus e que é o movimento universal de todas as coisas.

Nós não podemos ter apenas uma visão estática do universo, parada, como se Deus tivesse criado um universo sem movimento, mas nós devemos ter uma noção do universo, considerado que todo ele está posto em movimento, e que este movimento comunicado por Deus ao universo, este movimento tem uma beleza própria, que obedece a regras próprias e que reflete à sua maneira também a perfeição, a sabedoria, as belezas de Deus.

* O cair das folhas das árvores e o movimento das estrelas

Assim, nós poderíamos dizer, por exemplo, que a queda de uma folha morta de uma árvore, que é um movimento, exercido pela atração sobre aquela matéria que se destaca da árvore, que a queda de uma folha morta de uma árvore é uma beleza da criação. Realmente é uma queda suave, gradual, a folha se desprende, quando ela não é arrancada por um tufão, ela se desprende, num momento indefinido, ela cai, mas ela cai tão harmoniosamente, tão placidamente em tal zig-zag, tão elegante, que a gente diria mais que ela está voando do que propriamente ela cai. E quando ela cai no chão, o seu cair é um cair ainda leve, um cair delicado, tem-se a impressão que ela oscula a face da terra antes de se desfazer e se transformar em terra ela mesma.

Também os movimentos gerais dos astros têm uma grande beleza. Platão imaginava que os astros eram esferas de cristal que giram sobre si e que cada uma tem uma sonoridade própria ao girar e que isso formava a beleza da música universal. Se bem que isto seja uma concepção fantasiosa, é uma concepção muito bonita, e que algo no fundo deve ter de verdadeiro, para sentidos que nós não captamos, que nós não temos, quem sabe lá se as rotações não produzem um certo ruído e uma certa harmonia.

Se uma pessoa conseguisse pegar no seu conjunto a trajetória das estrelas, não veria que elas realizam um movimento muito bonito? Os senhores querem coisa mais diferente de uma folha morta que cai? Mas coisa mais majestosa, mais bonita do que uma estrela cadente, em que ela sulca o céu assim como um risco de fogo? e depois cai assim, de repente, e se apaga antes de cair, com que dá a entender que a luz se recusa a pousar numa matéria tão vil como o chão, então se desfaz no ar. É uma coisa bonita, é uma coisa interessante.

* A carga de cavalaria do exército do Kaiser e os peixes japoneses com seus véus prestigiosos

Os senhores podem subir e considerar o movimento dos pássaros, por exemplo, o movimento das borboletas. Os senhores podem subir ainda mais e considerar um exército em marcha. Há aqui um livro chamado L’Allemagne moderne, mas é do tempo do kaiser, uma fotografia que foi o enlevo do meu tempo de menino, são duas fotografias. Uma do exército do kaiser fazendo manobras no campo de… [inaudível] … uma verdadeira beleza! um mundo de batalhões manobrando! E a outra, uma carga de cavalaria do exército do Kaiser. Era uma beleza, eles chamavam isso de… [inaudível] … da cavalaria, tocando para a frente. A glória daqueles capacetes de aço, daquelas couraças, aqueles corcéis brancos, aquela poeira, em cavalaria poeira é bonito, em automóvel é horrendo, em cavalaria é uma beleza a poeira. Um tropel que levanta uma poeira. A gente diz, por exemplo, “a poeira dos cavalos de Carlos Magno”, que beleza! Carlos Magno chegando coroado de poeira, nimbado de poeira! São coisas diferentes, outras situações.

Eu poderia repetir para os senhores cem coisas já sabidas com maior ou menor sabor, mas, por exemplo, um dos modos interessantes pelo qual o homem pega a beleza do universo que Deus pôs no universo, é o peixe. Em geral as pessoas gostam de ter aquário, não é só para ver o peixe. Se os peixes estivessem paradinhos no aquário e não se movessem, o aquário perdia a graça. Mas aquelas voltas que, sobretudo os peixes japoneses, com aqueles véus prestigiosos, dão dentro d’água, fazem assim, giram o corpo, depois descem, depois sobem, os véus executam danças de toda a ordem, depois são véus bonitos, vermelho de dourado e o peixe faz aquilo com aquela placidez do ininteligente: ele vai para frente, até bater com o focinho no vidro, e também para ele não acontece nada, quando bate ele também não se assusta, nem vê o que está fora. A gente pode por o dedo ali, que ele não liga, ele simplesmente faz uma curva elegante de desdém, mexe uma porção de véus e vai para outro lado, é uma beleza. É a beleza do movimento, é a beleza da ação.

* O ceifador de grama

Eu falei da ação, a ação do homem, e sobretudo se nós a considerarmos não como ação física, mas um movimento espiritual, a ação do homem também tem muita beleza. Uma ação do homem que tem indiscutível beleza, ao menos para mim, é uma modesta pequena beleza, mas eu gosto muito de detectar beleza nas ações pequenas da vida de todos os dias: é o ceifador de grama, com aquele alfanje e que está no canteiro cortando, decapitando a grama, pula aquela grama, e a gente tem a impressão de que aquilo é leve, a gente tem a impressão de que ele está fazendo a barba da terra, aquilo é como uma navalha; de fato isso é uma ilusão, ele não pode encostar aquilo no chão para o trabalho dele. Mas como parece é uma beleza. O alfanje que vai ceifando e decidindo o destino de milhares de gramas que saltam. Quando ele sai, aquele gramado está direitinho, arranjado, tem-se a impressão até de que está limpo, é um movimento bonito. Eu nunca vi, mas me disseram que o movimento dos ceifadores de trigo é muito bonito.

Essas são ações materiais do homem.

* A beleza e a dignidade da inteligência do homem quando diante de um problema inextricável, ela explicita, formula e resolve. A polêmica

Mas que dizer então das ações intelectuais do homem?

Por exemplo, um problema bem montado; vamos dizer o seguinte, um problema bem explicitado, bem formulado e depois bem resolvido. Que coisa bonita! Aí é o espírito do homem que está agindo. De uma situação pantanosa, ele extrai o problema e define. E quando o problema parece insolúvel, ele toca o problema com a ponta de seu dedo mental e desfaz o problema. Está aí, a solução é tal assim. É uma coisa bonita, é uma coisa digna. Isto quer se trate de um problema metafísico, quer se trate de um problema político, porque até o problema político tem a sua beleza, a solução do problema político tem a sua beleza como ação do homem. O homem pegar uma situação intrincada, cheia de dificuldades, montou-se contra ele um dispositivo sem saída, ele olha, ele atina, de repente ele percebe um parafuzinho que desmantelado arruína a máquina do adversário, ele tira e aquilo cai. Isso é uma beleza.

Beleza, a meu ver, ainda mais bonita é a do choque frontal da luta política. Eu acho muito mais beleza na guerra e na luta quando elas são à maneira de torneios medievais: lança no peito do adversário, de frente, um dos dois cai do cavalo. Eu acho isso muito mais bonito do que a rasteira, embora não negue que a rasteira tem o seu charme próprio inconfundível. Acho também a manobra de esmagamento político, muito mais bonita do que a manobra maquiavélica, embora, vejam bem, que o maquiavelismo tem uma espécie de lucidez, de luminosidade, de agilidade própria, que o esmagamento político direito não tem. Mas tudo isso são belezas da ação humana. Ação mental de toda a ordem.

* Há certos homens a quem Deus concede um dom de ação impressionante, exemplo: Talleyrand

Nessa linha, a gente pode dizer que há certos homens a quem Deus deu o dom da ação impressionante. Qualquer coisa que eles fazem, qualquer coisa que resolvam, uma deliberação que tomem, uma gentileza que façam e que é uma manobra e que atinge o seu auge. Tudo isso tem neles o impressionante que tem, por exemplo, uma música bem tocada. Por quê? É porque aquela ação quase se destaca do objetivo, para constituir uma ação vista enquanto tal, na sua beleza própria. Então aquilo isolado, tomado como técnica de realização, assume uma formosura e assume um brilho especial.

Vamos dizer, por exemplo, um problema resolvido por Talleyrand. É uma ação. Os senhores conhecem a situação clássica: Congresso de Viena, a França a grande derrotada, Talleyrand comparece numa reunião das quatro ou cinco grandes potências da Europa do Congresso de Viena, por consideração de Metternich.

Então está Metternich, o representante inglês: Lorde Castelrei e o representante prussiano, representante russo, cujo nome a História grande esqueceu, a História pequena sabe, mas a História grande esqueceu. Entra o representante prussiano lá, vê Talleyrand, vê… [inaudível] … Talleyrand indolente, impassível, já essa indolência é uma beleza. O fraco que pode ser esmagado pelo forte, mas que é tão inteligente, que ele não teme ver o tolo chegar perto. Porque ele sabe que na hora “H” ele põe um lencinho vermelho e o touro passa de lado.

Daí Talleyrand deu uma declaração. Ele diz: “O direito dos povos”…

O embaixador prussiano interrompe e diz a ele: “Eu quero saber o que faz o direito nessa reunião?!”

Talleyrand sorri e diz: “Uma coisa muito importante, ele dá o direito de estar sentado aqui!”

Sabor! É uma ação humana. Está acabado. Não tem mais nada para dizer. Depois de dito isto o outro fica quieto. A saída é: “É verdade, bom está acabado”.

Esta ação é muito bonita por uma ação de superioridade da inteligência sobre a força. A força vem e investe, a inteligência faz um lançarote e a força se aniquila, dobra-se diante do prestígio da inteligência. E este lançarote a inteligência faz com uma indolência, aparente indolência aliás, por detrás disso uma sagacidade suma, mas uma indolência aristocrática, com facilidade e toca o barco.

* O bilhete de Talleyrand a Carlos X reconciliando-se com os Bourbons: “Monseigneur, nós estamos fartos de glória, traga-nos a honra”

O mesmo Talleyrand. Napoleão está para cair. O futuro Carlos X, em nome de Luís XVIII de Bourbon, está às porteiras da França. Talleyrand quer se reconciliar com os Bourbons. É preciso dizer uma palavra amável. Ele manda um emissário a Carlos X, só com estas palavras: “Monseigneur, nós estamos fartos de glória, por fim, traga-nos a honra”.

Está dito tudo. Quer dizer, aquela glória sem honra de Napoleão, porque Napoleão teve isso exatamente: glória sem honra. Napoleão fica arrasado. O que entra com a honra sem a glória, entra normal. O que tem a glória sem honra é a glória do Meneguetti.

Com um bilhete que ele [Talleyrand] rasgou de uma folha de papel, o emissário partiu e disse para ele [Talleyrand] ─ era Monsieur de Vilèle, um nobrezinho, de cabecinha e de nobreza pequenininha, escreveu memórias assim:

O monsieur de Vilêle disse a ele: “Alteza ─ ele era príncipe, um príncipe muito equívoco e… [inaudível]. Disse: “Alteza, agora uma fórmula”.

Diz ele: “Pois não, meu caro, rasgue a folha e rabisque somente em cima um bilhete:

Monseigneur, nós estamos fartos de glória, traga-nos enfim a honra.

Entregue para Carlos X”.

Carlos X, grande deleitador de pratos desses, fica contente, e está feita a reconciliação, está posta a ponte. O que é isso? É uma ação humana, mas é uma ação humana cheia de beleza.

* São Gregório VII e Henrique IV

São Gregório VII, exigindo que o imperador do Sacro Império romano-alemão lhe fosse beijar os pés em Canoça. É uma ação cheia de beleza. É a consciência de que o Papa tem de ser o mais alto hierarca da Terra, do universo, a consciência de que o crime é tanto mais grave quanto mais é nocivo à Cristandade e que, portanto, o crime praticado pelo imperador contra o papado é o mais grave de todos os crimes, pede uma penitência.

Ele está numa região nevosa, montanhosa, na pior das estações, o imperador, se quiser, venha pedir perdão, ele não se move. O imperador vai de trenó, às vezes andando de gatinho pela neve para pedir perdão a São Gregório VII.

São Gregório VII o deixa esperar três dias do lado de fora do castelo. Afinal, a pedidos de íntimos, e não pelo desejo de São Gregório VII, apresenta-se Henrique IV. Tem que beijar os pés de São Gregório VII, sem isso não lhe será dado o perdão. É uma beleza, mais o quê? Uma ação humana cheia de majestade, cheia de sacralidade, em que a gente vê o temporal agachar-se de quatro diante do espiritual, porque a Terra está infinitamente abaixo do Céu. E porque ninguém tem o poder daquele a quem foi dito: “Tudo o que desligares na Terra será desligado no Céu, tudo o que ligares na Terra será ligado no Céu”. São ações humanas.

Eu creio que nós poderíamos fazer um muito bonito trabalho de História, se nós fizéssemos a História das ações humanas, consideradas enquanto ação.

* Alexandre Magno trata o rei vencido com dignidades de monarca

Aquele famoso rei, Pólius da Índia, Alexandre derrotou-o, levou de roldão todos os povos da Ásia e chegou até a Índia e prendeu esse homem. Chega lá, esse homem vem para ele, todo cheio de correntes, cadeias, etc., e reduzido a escravo, como eram os dominados na antiguidade. Quando ele chega diante de Alexandre, ele está com toda sua grandeza. Alexandre pergunta para ele:

Como queres ser tratado?

Como rei!

[Ele respondeu] com tanta e tanta grandeza, que ele [Alexandre] disse:

Pois não! Desatem as corrente e tratem-no como rei.

Ele sai sem agradecimento, uma coisa pequena. Por quê? Porque ele é rei. É uma ação humana.

Eu creio que nós poderíamos fazer todo um tratado, são dessas coisas que eu gostaria de fazer, se eu tivesse tempo de fazer, uma história dos atos humanos impressionantes, e uma teoria da ação humana. Seria tomar os atos enquanto atos e não principalmente pela sua finalidade. E consideraria os estilos de ação, os modos, etc.

* Luiz XIV e o Duque de Saint Simon: “Sire, je suis fait pour attendre vos heures”

Por exemplo, uma ação humana: Luiz XIV. O Duque de Saint Simon vai pedir uma hora para Luiz XIV, para entrar numa briga com o rei. E o rei sabe que a coisa era uma encrenca armada. Saint Simon se apresenta e pede uma audiência para o rei. O rei diz: “Tal dia e tal hora. O Sr. já está livre?” Saint Simon dá essa resposta magnífica: Sire, je suis fait pour attendre vos heures; majestade, eu sou feito para esperar suas horas. É uma grande resposta. Humilde, mas com toda a classe que tem a humildade. É uma ação de alta categoria de nobreza. Eu gostaria de fazer toda uma teoria assim da ação humana, de ordenar, de sistematizar isso. Os filhos das trevas abominariam isso. Mas ainda há pela Terra filhos da luz que ainda leriam isso. E há filhos da penumbra, os enteados da penumbra, que lendo isso talvez tivesse vontade de ficar filhos da luz. De maneira que se poderia fazer algo com isso.

Eu acrescento de passagem que essas são as coisas que fazem com que a virtude da sabedoria torne a vida humana vivível. A gente para tornar a vida vivível não precisa ir ao teatro, não precisa ir ao cinema, nem precisa passear e nem precisa conversar muito com os outros. É só a gente ter as antenas desdobradas para pegar o que a vida quotidiana e a História oferecem de exemplo dessa natureza; e saber analisar isso.

Às vezes, a gente vai ver na menor das coisas, porque é preciso encontrar essas coisas no chão, se a gente vai esperar, as grandes ocasiões são raras. Ou a gente vê isso nas pequenas ocasiões, ou a gente não tem nada.

* No gesto de um músico guardar o seu instrumento, o Senhor Doutor Plinio observa “uma longa ancestralidade de cafajestismo”

Mas vamos dizer, por exemplo, num gesto de ridículo que tem um daqueles músicos do Jordano, aliás, do Brahma, sempre que ele guarda seu instrumento de música, sempre que eu posso na hora de acabar a música eu olho para ele, para vê-lo repetir o gesto dele. Porque há uma ancestralidade longa de cafajestismo atrás daquilo. E há toda uma teoria de cafajestismo através da ação dele. Isso distrai a gente. É subir com o espírito a considerações mais altas. Quer considerando o cafajestismo, quer considerando a elegância, quer considerando o acerto, quer considerando a força, quer considerando a utilidade, enfim, as mil qualidades que a ação pode ter, a vida se torna extraordinariamente interessante, quando a gente presta a atenção na ação humana.

* O Senhor Doutor Plinio acha muito agradável assistir a conferência de um terceiro e acompanhar o relacionamento dele com o auditório

Uma das coisa que eu gosto muito, infelizmente essa ocasião me é dada raramente, é quando eu estou assistindo uma conferência, na mesa e não estou eu mesmo fazendo a conferência, de tal maneira sou obrigado a prestar a atenção para ver se meu auditório não está desmaiando de tédio, que eu não tenho tempo para prestar atenção em outra coisa. Mas é muito agradável quando a gente está assistindo a conferência de um outro, estar prestando atenção na co-relação entre as caras e os altos e baixos do conferencista. É uma coisa curiosíssima.

Um conferencista toca o seu auditório como um violinista toca seu violino. A questão é que a maior parte dos casos, o conferencista não sabe tocar violino. Mas se ele soubesse tocar violino, era uma coisa lindíssima ver os pedaços verdadeiramente bons da conferência dele, os auditórios em geral, em que pesem os conferencistas, os auditórios em geral são juízes muito bons. Eles em geral, percebem o valor do conferencista e em geral prestam atenção e a sanção do auditório contra o conferencista, os senhores não pensem que são as poucas palmas no fim, não. É o não prestar atenção. Quando o conferencista começa a pocar, a atenção do auditório desvia e some. É a vingança do ouvinte. Ele não pode se levantar e não pode protestar, ele presta atenção, deixa de prestar atenção. Então, a atenção vai morrendo no auditório, formam-se no auditório ilhotas de atenção, arquipélagos.

Quando o conferencista é razoável, aquilo se transforma em terra firme, quando o conferencista é poca, os arquipélagos vão diminuindo, vão se reduzindo, no fim é o mar, onde existem um ou outro rochedo, um fanático de conferência que presta atenção, o resto está longe. Terminada o conferência aquelas palmas convencionais, que podem ser longas, mas tem o ruído de convencional. A gente diria uma máquina assim. Se prolonga durante algum tempo, e todo mundo se levanta sem pressa. O conferencista cacete não dá pressa de sair, ele é tão cacete que ninguém tem coragem de se mover, todo mundo sai meio entorpecido da conferência. E está aí o resultado.

Os senhores têm aí uma idéia do que poderia ser uma teoria da ação humana. Agora, nós poderíamos nos elevar mais ainda e considerar não mais a teoria da ação de uma homem, mas a teoria da ação de uma família. A continuidade da ação de uma família, através da História, com as mesmas atitudes, com os mesmos gestos, com os mesmos ritos, etc. E muito mais bonito seria fazer uma teoria da ação dos povos, para mim é aonde a coisa chega ao mais belo, é a teoria da ação das instituições. Certas instituições nos seios dos povos, que se formam e que acabam tomando uma índole própria e que transmitem essa índole por uma espécie de hereditariedade como se fosse uma família. E que esta instituição tem uma história como se fosse um homem. E ela tem um nascer, tem um apogeu, tem uma estabilidade e depois tem uma morte como se fosse um homem também. E a gente então, acompanhar isso nas instituições é uma verdadeira beleza.

Por exemplo, a carta judiciária, ou então, a carta episcopal. São duas cartas parecidas, ambas togadas, e ambas com uma forma de solenidade, quieta, modorrenta, aparentemente boba e no fundo astutas. Existiam até o Concílio.

A gente olhando o evoluir desta carta, como, por exemplo, a carta episcopal e a carta judiciária, estão morrendo dentro da própria casca. Parecem árvores corroídas por um bicho dentro, de maneira que elas não mudam de casca, nem mudam de circunferência, mas dentro tudo vai se reduzindo a pó. Um belo dia, um ventozinho leva a árvore inteira, porque ela está vazia.(…)

o “playboysismo” matou a coisa.

É uma coisa bonita de considerar, é uma coisa bonita de ver. Esse bonito o que quer dizer?

É preciso ver Deus no fundo de tudo isso. É preciso ver a Sabedoria eterna e incriada por detrás de tudo isso. Deus criou as coisa com uma tal índole, com uma tal natureza, com um tal estilo, que a ação que delas brota é assim. E esta ação está nos planos de Deus, “para que se revelem as cogitações que estão no fundo de muitas almas”.

* A ação de Deus em suas criaturas pode-se percebê-la desde um peixe até a queda dos Romanovs

Então, para que se revele o bem e o mal, a verdade e o erro, morrem de um certo jeito, expiram de uma certa forma, ou sobem, vencem, etc., de uma determinada forma. Quer dizer, há aqui todo um mundo de regras que a gente poderia fazer um estudo, podia até fazer um simpósio a respeito disto, e seriam regras verdadeiramente bonitas. É Deus que por detrás as manifesta em toda essa movimentação, que vai do peixe até a queda dos Romanovs, por exemplo, que tudo isto, é um mover-se que por detrás é um mover de Deus, e que nos indica Deus se revelando na movimentação de suas obras. E não apenas nas suas obras taticamente considerado.

Se isto é assim, então nós devemos dizer que há um censo contemplativo que é especialmente feito para venerar e para admirar a ação de Deus. E as ações dos homens enquanto ações de Deus. Inclusive até a ação do demônio, enquanto ação de uma criatura que se tornou péssima e que opera o mal. E que dá realce à ação do bem pela hediondez da ação má que ele pratica. Tudo isto pode ser visto, e consistir uma visão, para usar uma palavra que os norte-americanos conspurcaram, fascinante do universo, ou se quiserem, exide, pior que fascinante do universo. Exide em sabedoria é incompatível, vamos eliminar a palavra péssima. Isso tudo nos levaria, portanto, à idéia de que existe uma contemplação de Deus na ação.

Está contemplação de Deus na ação, se faz de um modo super eminente, operando a contemplação de Deus na História. Quer dizer, é exatamente pela ascensão dos grandes povos, pelo operar dos povos na história, pela glória que eles dão a Deus, quer servindo a Deus, quer revoltando-se contra Ele, fazendo-se esmagar por Ele, em todas essas coisas, nós notamos Deus que mostra sua Sabedoria na História e que mais que mostrar sua Sabedoria, mostra pelos imponderáveis, algo de sua própria face, na fisionomia dos acontecimentos históricos que Ele produziu. É a fisionomia das instituições e a fisionomia dos acontecimentos históricos.

* As Reuniões de Recortes são uma prodigiosa lição de contemplação da ação de Deus

Se isto é assim, então, nós temos uma prodigiosa lição de contemplação da ação de Deus nas Reuniões de Recortes. E isto se dá exatamente porque nós, nesta tormenta moderna, em que nós vemos o mundo inteiro levantar-se e afundar no abismo.

Uma vez um almirante que jantou em casa, descrevia um cruzador atingido por balas japonesas, ele disse: “ O cruzador sofreu o impacto, depois ele foi e levantou-se bem alto, quando ele estava bem alto, ele caiu bem alto e afundou”.

E eu me lembrei do modo pelo qual caem algumas coisas feridas por Deus, elas sobem bem alto, e quando elas estão no mais alto, elas se arrebentam, estraçalham e caem dentro da voragem.

E é bem a imagem da época contemporânea: tão alta em muitas de suas produções econômicas e muitas dessas coisas, entretanto quando ela está no mais alto, ela afunda completamente na voragem, ela somem na voragem. Nós estamos assistindo a História dessa voragem, estamos assistindo essa vingança de Deus, em que tudo aquilo que não serviu a Ele, está se suicidando a si próprio. E em que os ministros da destruição, são menos os homens que tomaram a bandeira do mal, do que os homens que ficaram segurando molemente farrapos da bandeira do bem, rasgaram a bandeira do bem, cada um ficou com um pedaço na mão, e todos estão se suicidando, estão se eliminando. Então esse imenso dies irae, essa espécie de imenso juízo final da época de hoje, em que a gente vê todas as glórias do passado, mesmo as mais gloriosas, afundarem e sumirem.(…)

ver depois do outro lado, à maneira dos últimos lampejos de glória, num ocaso de derrota, de vez em quando uma voz que se levanta, de vez em quando um ato de coragem, a gente tem a impressão dessas derrotas de ocaso com o céu vermelho, com a terra encharcada de sangue, com um adversário ignóbil triunfando, mas ao longe a fanfarra do vencido, que representa a ordem, o bem, que ainda dá um último toque antes de terminar sua agonia. Com uma grandeza que algo que depois que cessar na terra, se recolhe aos esplendores do Padre Eterno, e deixa a terra completamente abandonada. Isso é uma verdadeira beleza. Beleza sobretudo perceber na tempestade, no lodo, na escuridão, uma luz que vai se acendendo.(…)

saberá talvez.(…)

A respeito desse imperador chinês…

Repetindo o que eu disse: então a reunião de sexta-feira, explora esses contrastes.

* Sobre o perpetuar-se da dinastia chinesa afirma o Sr. Dr. Plinio: “para mim a mais brilhante forma de alicerçar o poder não é a força mas o prestígio”

Voltando ao que eu estava dizendo: então essas dinastias, continuam outras dinastias. E nós temos séculos. Na china, de tal maneira o passado [que] se sedimentou e parou foi forte, que as dinastias se sucederam na história dos chineses, como os homens se sucedem dentro de uma dinastia. Constituiram uma espécie de dinastia das dinastias, de continuidade. Milhares de anos de uma cultura raffiné, de uma tradição exquise de um continuidade feita muito menos da força do que do consenso geral, da persuasão e do prestígio. E para mim, a mais brilhante forma de alicerçar o poder, é o prestígio, não é a força, mas é o prestígio.

Tudo isso deu naquilo que é o celeste império. E deu naquele quadro, que é de mil e uma noites e que embevece a humanidade.

E é o quê?

É afinal de contas o quadro da monarquia chinesa, do império celeste, por sua arte, sua cultura, com sua serenidade, com sua paz, com aquela participação que tinha toda a população naquela sabedoria, infelizmente falsa em tantos pontos, do povo chinês. Tudo isso junto, constitui um quadro, e este quadro foi um valor para a história da humanidade. Todos os homens cultos do mundo inteiro a partir do momento em que tiveram conhecimento de que existia a China, tiveram um valor que se acendeu no seu espírito.

E isto foi um patrimônio comum para todos os homens até o momento em que a China ruiu. Cai a monarquia chinesa e um homem fica o representante desta continuidade. Queiram ou não queiram, ele cingiu a coroa imperial, ele tinha o sangue imperial nas veias. Queiram ou não queiram, ele é o herdeiro de tudo isso, e o representante de tudo isso. Isto morrerá como ele morrer; vencerá como ele vencer, será como ele for, mas o fecho é ele, e quem vai dar o ponto final à frase é ele. O significado último do movimento geral, vai ser dado por ele.

Então, os senhores compreendem que estudar a morte do imperador da China como ela se deu, não é estudar a biografiazinha de um individuozinho. Não é humanitariamente falando perguntar se ele valeu mais, se ele valeu menos, se ele sofreu mais, se ele sofreu menos.

Coitado, como ele há de ter sofrido…”

Não é isso, não. Essas são perguntas cabíveis, mas não é a consideração suprema. A consideração suprema é a seguinte: como morreu a glória do celeste império? Ela morreu no sangue e na glória? Ou ela morreu de modo infame e ignóbil?

Isto é uma pergunta que contém em si, mil anos de História. E fazer uma meditação contemplativa desse acontecimento, isto é ter verdadeiramente senso do movimento da História. Ver como é que tão alto termina.

É como quem toma um passo de balé e se pergunta como a figura vai pousar no chão de novo. Se vai cair como um pato, rolar como uma pedra ou pousar como um passarinho. Isto importa sumamente.

* Que estado de espírito e que horizonte deve-se ter para assistir uma Reunião de Recortes

Essa é uma forma do senso contemplativo que a gente precisa ter para assistir às reuniões de sexta-feira. É um dos mais belos sucos da Reunião de Recortes. A gente dá glória a Deus. Na sala do Reino de Maria, nós somos como seriam uns contemplativos, que vivessem no alto de uma montanha, num convento com arcadas góticas e que recebessem notícias da Terra e que ao receber notícias da Terra, se voltariam a Deus e louvariam a Deus, por tudo quanto pró e contra, a glória d’Ele se fez e pela beleza da ação d’Ele na História. Então diríamos: “Agimus tibi gratias propter magnam gloriam tuam ─ Nós vos damos graças, ó meu Rei, meu Senhor e meu Deus, meu Pai, por causa da vossa grande glória.” Este é o modo de ouvir as Reuniões de Recortes.

Pergunto se seria conveniente, eu algumas vezes às quintas-feiras, repetir alguns dos objetivos das reuniões de sextas-feiras, além do objetivo reparador já tratado, de maneira a familiarizar a nossa memória com essas noções. Então, poderia ser uma vez por mês, digamos na primeira quinta feira do mês.

Vamos então agora fazer uma aplicação ao imperador da China.

A notícia é da Associated Press, da Ansa e de um tal serviço especial.

* Leitura e comentários de um recorte sobre a morte do último Imperador da China

O último imperador da China e da Mandchúria morreu ontem em Pequim, de uma crise de leucemia. Tinha sessenta e um anos

O jornal japonês “Ni-hon”, que publicou ontem a notícia, acrescenta que os imperadores títeres do Manchucó…

Os senhores se lembram de que ele foi durante algum tempo imperador da China, mas títere do Japão.

vinha sofrendo de cancêr nos rins.

Então, já um primeiro dado: o homem morreu de cancêr.

O ex-imperador subiu ao trono em 1908 em virtude da morte de sua mãe…

Que era uma mulher inteligentíssima, de uma política extraordinária.

e ele tinha então, apenas 2 anos. E quatro anos depois, com seis anos, abdicou em razão da proclamação da República Chinesa. Depois de ter abdicado, ele continuou a morar no palácio imperial e a ser mantido pela república chinesa com todo o protocolo e com todas as dignidades vigentes no tempo do império.

Porque o imperador era também um chefe religioso. E enquanto chefe religioso, a religião chinesa, exigia que ele continuasse naquele protocolo e naquela situação. E ele vivia dentro daquilo como um papa vive dentro de seu Vaticano. Mas, preso, quer dizer, ele não podia sair de lá. Mas era um lugar enorme onde ele podia passear à vontade, etc. E ele era um homem estudioso e poeta. E publicou um bonito livro de versos de poesias dentro da escola tradicional chinesa. Então, os senhores tem duas notas, aliás três notas. Em primeiro lugar o cancêr, a sobrevida religiosa da instituição, em terceiro lugar as poesias.

Em 1934, ele subiu ao trono de Mandchucó. Em 1945 foi capturado pelos soviéticos que o entregaram às autoridades chinesas. Ele foi libertado em 1959, tendo ido trabalhar no jardim botânico de Pequim.

Eu li uma reportagem há algum tempo atrás, de uma pessoa que passando pelo jardim botânico, viu o último imperador da China varrendo folhas mortas. Ele era varredor do jardim botânico. Toda a população o conhecia. E quem quisesse passar por lá e vê-lo varrendo folhas mortas, podia fazer a vontade. Quer dizer, ele terminou nesta situação.

A parte que vem aqui é um tanto duvidosa, mas vamos ver:

Ele era ainda deputado ao congresso do povo ─ o parlamento chinês.

Quer dizer, deputado comunista.

O serviço de propaganda chinesa, distribuiu há algum tempo uma autobiografia do ex-imperador, que foi tratado sempre com grande respeito…

Varredor do jardim…

onde estava explicado as razões de sua conversão ao regime comunista da China atual.

Quer dizer, ele aderiu ao comunismo.

Em 1961, Tsai-Tao, declarou em Hong-Kong que seu sobrinho estava totalmente arrependido de seu passado e que desejava apenas tomar posse de um cargo qualquer dos organismos oficiais da China comunista.

Isso o tio dele declarou em Hong-Kong.

Tsai-tao afirmou ainda que 1956, Mao Tse Tung lhe pedira que fosse visitar o imperador, e que ele encontrara um homem transformado, convertido em ardoroso defensor da política chinesa. Regressando a Pequim logo após a sua libertação, Po-Hi, que é o imperador, proclamou em numerosas ocasiões sua adesão às novas doutrinas da China popular e seu reconhecimento a Mao, “por lhe ter permitido desempenhar um novo papel a serviço do povo chinês”.

* A vida do último imperador chinês se divide em duas partes: a primeira cheia de alcandor; a segunda feita de esperanças e desilusões

Está última frase vem entre aspas, como tendo sido dita textualmente por Po-hi.

O que foi? Foi uma lavagem de cérebro? Foi uma coisa a que ele não pode resistir? Foi uma venda miserável para conservar uma vida inglória? A História dirá. No momento fica uma interrogação.

Agora, a que comentários se presta isso? Os senhores vêem a primeira parte da vida dele, a parte não comunista, como ainda é uma parte bonita. E como nela ainda se pode dizer que acaba com poesia o império chinês. Esse jovem, órfão, aos 2 anos, abandonado no meio de inimigos e que aos seis renúncia, tem-se a impressão de que é a última flor de uma árvore, flor pequena, mas ainda flor que a árvore produziu, pondo o final de uma imensa florada. Esse jovem é educado só, numa atmosfera saturada daquela religiosidade pesada e falsa, mas enfim de alguma dignidade da religião chinesa. Essa educação solitária faz com que ele se transforme num poeta. E aí a coisa teria morrido muito bonita. Se o último imperador da China, fosse um poeta solitário e contemplativo, dir-se-ia que a instituição teria acabado com beleza.

De repente vem uma surpresa: são os japoneses que tomam a China, e oferecem a esse homem um trono, é o trono da Mandchúria. Aí haveria possibilidade da instituição fazer muito mais do que morrer com beleza. Era de ela renascer. Haveria possibilidade dele lutar como um herói, dele tentar galvanizar toda a China e dele morrer como um herói no campo de batalha. Se ele não morresse como um herói, fugir e fazer o que está fazendo Chang-Kai-Tchec, tentar alimentar a resistência chinesa de fora da China. Mas passar a vida inteira uma vida de combate glorioso. Isso teria sido mil e mil vezes mais bonito do que a poesia. Não foi dado ao império chinês nenhum desses dois fins bonitos. A Providência não quis que isso fosse assim, pelo contrário tudo se arrasou. Ele se deixou prender, deixando-se prender, deixou-se achincalhar, e ele caiu mais baixo do que qualquer soberano do Ocidente jamais caiu.(…)

como comentário final da queda do império chinês.

E do que tem isso valor?

* Só a Igreja Católica é verdadeira; só de seus frutos que se pode esperar toda sorte de bem

Diz respeito ao que falávamos ontem, no Santo do Dia: só Deus é bom, só a Igreja Católica é verdadeira, é Santa e é boa. Onde ela toca com a sua influência, sai toda a espécie de bem, desde que os homens se abram para essa influência. De onde Ela está ausente, toda espécie de horror se pode recear. Toda espécie de capitulação, de covardia e de miséria, se pode recear. Uns restos de batismo, se assim se poderia exprimir, uns restos de batismo no Ocidente evitaram que se produzissem episódios assim, asquerosos como este. E termina assim num grande movimento, a História chinesa. Termina inglória. É trágico ver tanta grandeza, que termina em tanta ignomínia, é bem verdade. Mas que fulgor, que resplendor esta ignomínia [irada?] em favor da Igreja Católica, única fonte de toda a verdade, de toda grandeza, de toda beleza e de todo bem.

Aí estaria um comentário filosofado, em linhas muito largas, estético e espiritual, porque esse assunto tem algo de estético, da morte do último imperador chinês.

E é assim que eu gostaria que as Reuniões de Recortes fossem acompanhadas. Nessa perspectiva. Me parece que elas ganhariam muito. Eu não posso estar fazendo isso a todo momento com a matéria que eu dou. Senão eu teria que fazer a reunião durante toda a semana, tomando debaixo desse aspecto e depois desse e desse os mesmos acontecimentos. Não vai isso. Mas é um aspecto sem o qual eu creio que a Reunião de Recortes perde algo do seu melhor sal.

(Sr. –: [inaudível].)

Eu respondo a você com um fato e você vai ter um “flash”. Você conhece o fato do padre Anchieta que foi andando pelo mato e encontrou um índio velho, que disse que estava à espera de um homem vestido de preto e que explicaria qual era o verdadeiro Deus. Então, ele morreria. Simeão também.

As longas esperas têm uma beleza própria em todo esse jogo da Providência. A gente compreende bem que a Providência quereria que essa civilização que ela revelasse ao mesmo tempo a sua beleza e sua insuficiência e sua incapacidade de progresso e que no extremo da ansiedade reflorescesse uma conversão autêntica. Então, essa longa espera por aí se explica. Quanto mais velho for, mais venerável.

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