Santo do Dia – 17/8/1967 – p. 5 de 5

Santo do Dia — 17/8/1967 — 5ª-feira

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* Dados biográficos * Sistema educacional de uma santa * Impressão de estar em pecado * Sol e trevas. Dons extraordinários * Solo para cravar a cruz. Marcas no coração * Coração de Santa Teresa * Graça de nos prepararmos para o futuro * O dom de prever revela o quilate da alma * Convulsão na Ordem Espiritual * Senso do futuro e amor à cruz

Neste dia, em 1965, a TFP foi declarada de utilidade pública.

Nós estamos na novena do Imaculado Coração de Maria.

* Dados biográficos

Os traços biográficos de Santa Clara de Monte Falco, que eu vou ler aqui, são tirados do livro “O Verdadeiro Rosto dos Santos”, de Scamoni:

Clara da Cruz, nascida em 1275, de uma família remediada de Monte Falco, na Hungria, levou vida reclusa desde a idade de seis anos, sob os cuidados de sua irmã, a Bem-aventurada Joana de Monte Falco, e passou a ser eremita da Ordem de Santo Agostinho, quando aquela comunidade de reclusas se transformou num convento de monjas daquela Ordem. Ainda muito jovem, ao morrer sua irmã, sucedeu-a na direção do convento.

Já desde então sua meninice tivera freqüentes êxtases e visões. Posteriormente, durante onze anos, mergulhou na mais profunda noite da alma. Neste prolongado período de sua vida, acreditou-se desprezada por Deus. Ao voltar de suas confissões, nada mais fazia que chorar em sua cela, e acreditava que ia morrer por não achar nenhum confessor que pudesse ajudá-la em seu sofrimento. Os confessores julgavam sempre sobre a realidade e consideravam como certo que, moralmente, a santa não pecava, enquanto a infeliz penitente sentia a evidência metafísica de que não poderia senão pecar.

No fim daqueles anos, encontrou a paz, porém, de vez em quando experimentava visões ou vaticinava durante semanas ou meses inteiros. Isto a debilitava tanto, que as religiosas de seu convento julgavam sempre que chegara a hora de sua morte.

Sabia ler na consciência das irmãs, com clareza absoluta descobria tudo quanto acontecia no coração das pessoas que se encomendavam às suas orações e lhes predizia acontecimentos que não poderia saber por via natural.

Um dia, enquanto rezava, apareceu-lhe o Senhor, carregado com sua Cruz, e lhe disse: “Procuro um solo firme, onde possa cravar a minha Cruz. Se queres ser este solo, morre na cruz”. A santa, que continuamente contemplava a Paixão do Senhor, recebeu, então, uma forma especial de estigmas.

Quando de sua morte, ocorrida a 17 de agosto de 1308, as irmãs trataram de obter [a] confirmação de algumas misteriosas palavras de sua abadessa. Abriram o cadáver e encontraram o coração estigmatizado, com o sinal da Cruz e a imagem dos instrumentos da Paixão. Estes estigmas ainda hoje podem ser observados no coração da santa.

* Sistema educacional de uma santa

Como os senhores estão vendo, é uma vida em que as maravilhas se acrescem umas às outras. Em primeiro lugar, o fato de ser irmã, ela mesma, de uma bem-aventurada, e bem-aventurada que a educou de maneira tal, que ela levou [uma] vida reclusa desde a idade de seis anos. A partir desta idade até o fim de sua vida, ela levou uma vida reclusa. Nós vemos que isto fez uma santa, para educar uma outra santa, e desta educação assim dada, resultou santidade.

Os senhores têm aí um elemento para se defenderem contra uma idéia que esses malfadados erros atuais, ligados ao “aggiornamento”, estão espalhando, de que o ato pelo qual a pessoa se consagra a Deus, só pode ser um ato adulto, de maneira tal que é só depois que a pessoa atingiu a idade adulta que deve batizar-se, que deve crismar-se, que deve contrair seus primeiros compromissos para com Deus Nosso Senhor. Isto não é verdade. A partir do momento em que a pessoa está na idade da razão, já é capaz de assumir compromissos vários, e o batismo é uma graça, é um sacramento que pode ser conferido à pessoa antes mesmo da idade da razão, e a razão profunda disto, em última análise, está em que o homem deve ser marcado pela graça desde pequeno, o mais cedo possível e, portanto, deve ser possível que ele receba os sacramentos logo no início da sua existência. Qualquer consideração em sentido contrário tem que desaparecer diante deste fato.

E os senhores vêem aqui esta monja, que recebeu uma educação excelente desde os seis anos de idade. No que ela deu? Ela deu numa grande santa e numa grande mística. Por quê? Porque, desde pequena a sua alma foi preparada para este destino.

* Impressão de estar em pecado

Os senhores vêem que ela teve um período que foi um período de visões, depois um período de aridez tremenda e depois um período de consolações. Não foi só que as visões se tinham retirado dela, mas é pior, que ela estava na impressão contínua de [que] estava pecando e ela tinha até a sensação metafísica de que não podia senão pecar. Agora os senhores podem imaginar a dilaceração de uma alma que ama a Deus sobre todas as coisas, que tem, sobre todas as coisas horror, portanto, ao pecado, o desejo de perseverar na prática da virtude e que se vê dilacerada por esta impressão de que ela está continuamente em estado de pecado. Os senhores compreendem a provação que isto representa. Como ela tinha que reagir contra isto. Ela chorava, ela lutava, ela naturalmente reagiu, porque, do contrário, ela teria desesperado, mas os senhores compreendem o tormento que ela teve que carregar.

* Sol e trevas. Dons extraordinários

Como tantas vezes acontece na vida dos místicos, depois de um período de sol e de um longo período de trevas, abre-se o sol de novo e, então, o sobrenatural começa de novo a se manifestar. Nela o sobrenatural, que nunca a tinha abandonado, começa a deitar nela sinais sensíveis. Ela recebe, então, dons extraordinários. O mais evidentemente milagroso dos quais é o dom de prever o futuro, porque nisto não há telepatia, não há coisa nenhuma que possa explicar. Que uma pessoa preveja o futuro, não há coisa natural que possa dar uma explicação da previsão do futuro. Os senhores vêem que ela era largamente favorecida com isto. Não só ela tinha o discernimento das almas, mas ela era favorecida com a visão do futuro.

* Solo para cravar a cruz. Marcas no coração

Esta vida, assim, trabalhada pela graça, pelo infortúnio, novamente pela graça e trabalhada pela graça, sobretudo quando era um período de infortúnio, esta pessoa, com esta vida tão extraordinária, recebeu, em última análise, no fim, um convite de Nosso Senhor. E este convite era um convite para o heroísmo completo, para uma renúncia total, era o convite de se entregar a Nossa Senhora completamente, era o convite de se dar a Nossa Senhora de tal maneira que ela pudesse ser o solo em que a cruz se cravasse. Um solo consistente. Que bonita imagem! As almas fracas são solos trêmulos, em que a cruz se crava, mas tomba por terra. Nosso Senhor não quer que a Cruz d’Ele, tão preciosa, tombe por terra. Ele precisa [de] almas que sejam solos firmes como a rocha, para ali implantar a Cruz. Ela aceitou e, depois da morta, se encontrou nela não só a cruz, mas o instrumento da Paixão no coração. Isto até hoje se vê, na igreja onde o coração dela é visível.

Os senhores estão vendo que maravilha de relações de Nosso Senhor com uma alma, como Ele prepara a alma pela alegria, pelas trevas, pelo sofrimento. Ele prepara a alma para um holocausto supremo, e quando feito o holocausto supremo, Ele colhe a alma e leva a alma para o Céu; mas, para sua própria glória, deixando sinais aqui na terra, para que se possa compreender qual é a realidade das operações da graça, nas almas a quem Deus ama especialmente. E, então, os senhores têm aí esse milagre destes estigmas, desta cruz, que se tornaram visíveis neste coração.

* Coração de Santa Teresa

Não é a única vez que isto aconteceu na história da Igreja. Os senhores sabem que Santa Teresa de Jesus, numa de suas visões, disse que apareceu a ela um anjo, provavelmente um serafim, e que transpassou o coração dela com um dardo de amor, e que a partir deste momento, ela teve o coração dela atingido. Ela morreu mais tarde. Quando se fez a autópsia, tirou-se o coração e notou-se que havia, no coração, um furo. Era exatamente o dardo de amor deste anjo, no coração de Santa Teresa. Coisa belíssima, é que então as religiosas, para conservarem o coração que tinha de tal maneira a marca do milagre, as religiosas colocaram o coração numa espécie de redoma de cristal, rigorosamente protegida contra o ar, e colocaram na igreja para ser venerado. Com o tempo, não se sabe como, desenvolveu-se, dentro desta redoma de cristal, uma espécie de planta, que era uma planta toda cheia de espinhos, que circundou este coração, para dar a entender exatamente quanto este coração tinha sofrido e com que fidelidade tinha sofrido, e que maravilhas Deus faz para glorificar a fidelidade daqueles que sofrem por Ele.

* Graça de nos prepararmos para o futuro

O que nós devemos pedir a Santa Clara de Monte Falco? Nós devemos pedir a ela duas coisas. Primeiro: ela teve a graça de prever o futuro. Ela que nos dê a graça de nos prepararmos para o futuro. A “Bagarre”, meus caros, está cada vez mais próxima. Ela está começando a deitar sinais e nós devemos nos preparar instantemente para esta hora, para, quando chegar o momento, nós estarmos em condições de servir irrestritamente a Nossa Senhora. E então, ela que previu o futuro, que ela nos dê este senso do futuro, que faça com que o homem, na presença dos acontecimentos atuais, saiba sentir quanto estes acontecimentos, ou o que estes acontecimentos contêm em si, e saiba perceber o futuro que está dentro destes acontecimentos.

* O dom de prever revela o quilate da alma

Isto não é uma profecia, mas é uma previsão, é a arte de prever. O dom de prever faz parte, exatamente, da boa construção da alma que sabe pressentir, com probabilidade senão com certeza, as linhas que o futuro vai tomar. As almas elevadas com freqüência têm isto. As almas que, pelo contrário, são banais, são vulgares, elas só sabem prever a rotina e só sabem prever que não acontecerá nada, que não haverá nada, e que tudo será como dantes, na situação… [faltam palavras] …É mesmo um teste de banalidade de alma a gente conversar com alguém e ver o que este alguém pensa. Quando alguém diz: “Não, isto tudo se resolve. O mundo várias vezes esteve por resvaladeiros, mas, no fundo, tudo se arranja, tudo continua bem!”, os senhores estejam certos que aí está o [sinal] de uma vulgaridade de alma que dá pena. Deve-se rezar por uma pessoa que é assim.

* Convulsão na Ordem Espiritual

Máxime de nossa época, onde tudo está fora dos gonzos, e o gonzo dos gonzos está colocado fora do lugar, que é a Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Não é possível! Se é verdade que a Igreja é o fundamento da Ordem Temporal, se é verdade que a Igreja é o fundamento de tudo quanto há de nobre, de digno, de grande na vida humana, não é possível haver a maior das convulsões que a história da Igreja conheça até hoje e não haver uma repercussão disto na Ordem Temporal. É inteiramente impossível. A esta convulsão na ordem eclesiástica tem que corresponder uma convulsão na Ordem Temporal. E se é verdade — e isto é inteiramente inegável — que a Igreja está inteira, está posta na “Bagarre”, então é inteiramente verdade que a “Bagarre” há de atingir a ordem civil. Ou, então, não é verdade que a ordem civil tem o seu princípio vital e sua seiva na Igreja; então, todas estas nossas teses são falsas e toda a doutrina católica é falsa. Mas se a seiva da ordem civil está na ordem religiosa, está no sobrenatural, se este grande princípio é verdadeiro, é impossível fazer com que a distribuição da seiva depaupere ao ponto de estar quase, quase estancada e de circular veneno pelos vasos que deveriam transmitir a seiva, e que isto não tenha, na árvore, uma repercussão qualquer, das mais profundas e das mais… [faltam palavras] …

* Senso do futuro e amor à cruz

Este senso do futuro, este senso dos aspectos profundos da realidade, que vão produzir depois os acontecimentos profundos do futuro, é uma coisa que nós devemos pedir a Santa Clara de Monte Falco. Nós devemos pedir a ela, também, o amor à cruz, o horror a uma monomania de ter uma vidinha sossegada, que fecha os nossos olhos para a gravidade dos fatos que estão se passando e dos fatos que hão de vir. A política do avestruz, que mete a cabeça dentro da areia e julga, com isto, que evita o perigo, é a política que toma os homens nas grandes horas do desespero.

Eu tenho a impressão que quando começou a chover o Dilúvio, muita gente do tempo de Noé dizia brincando e debicando: “Agora que o velhinho tem razão. Nós agora estamos perdidos, ele vai fazer duas arcas”. E talvez até tenham passado perto dele e tenham dito num tom de troça: “Então chegou a sua hora, hein! Nós agora vamos afogar, você vai ver”. Realmente, depois o Dilúvio subiu. Isto é [o] gênero de gente que não quer ver a realidade profunda, porque tem adoração à vidinha e tem medo do sofrimento, tem medo da cruz. Nós devemos pedir que nossos corações sejam capazes de servir de base, de sustentáculo da cruz, e para nós conseguirmos isto, devemos pedir a união a Nossa Senhora, com Nossa Senhora. Nada se consegue a não ser por meio d’Ela, e, por meio d’Ela, tudo se consegue. Peçamos por meio d’Ela e o mais pusilânime, o mais fraco dos corações poderá se tornar um coração ardente de amor pela cruz.

Estas são as duas graças que nós devemos pedir hoje.

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