Santo
do Dia – 17/8/1967 – p.
Santo do Dia — 17/8/1967 — 5ª-feira
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Santo do Dia
[Santa Helena e comentário de um trecho de São Paulo aos Coríntios.]
Nós temos hoje a festa de Santa Helena, imperatriz e viúva. Estamos na novena do Imaculado Coração de Maria. Santa Helena foi mãe de Constantino Magno. Com ele assegurou o triunfo da Igreja sobre o paganismo. Deve-se-lhe a invenção da verdadeira Cruz. Século III
Ernest Hello, no livro chamado “Fisionomia dos Santos”, tem o seguinte comentário: “Realizadas suas obras, quer dizer, a descoberta da Cruz, Santa Helena deixou Jerusalém, mas a sua viagem toda foi ilustrada pelos seus benefícios. Por toda parte onde passava levantava uma igreja, socorria os pobres, consolava os infelizes, abria as portas das prisões. A libertação dos cativos parece ter sido uma de suas obras e uma de suas glórias. Há muito magnificência no caráter de Santa Helena. A imperatriz tinha as mãos abertas e passava fazendo i bem. Constantino fez a sua mãe uma soberba recepção e tomou para si uma pequena parcela da Cruz, doando a cidade de Roma um fragmento considerável. Santa Helena quis, em pessoa, levar a Roma o presente de Constantino. A viagem foi-lhe assinalada por um episodio singular. Ao passar pelo Mar Adriático, a imperatriz ouviu contar os naufrágios horrorosos de que aquele mar era teatro e a impressão que Helena recebeu foi tão profunda, que ela atirou na água um dos cravos de Jesus, dos quatro cravos que trazia de Jerusalém. E São Gregório de Tours, que refere esse incidente no seu livro “Glorias dos Mártires” acrescenta que: “Desde aquele dia o Mar Adriático mudou de índole e perdeu o seu furor.”
Notável. Está feito o Santo do Dia. Não tem que dizer mais nada. “Foi a última viagem de Santa Helena e ela morreu em Roma. Constantino e os príncipes, seus filhos, já proclamados cézares, rodeavam o leito da imperatriz mãe. Ela fez a Constantino suas últimas recomendações . Suas palavras derradeiras foram para suplicar ao imperador que cuidasse da Igreja e da justiça. Deu-lhe por fim a derradeira benção e sua mão estava, quando morreu, na mão do imperador. Seu corpo, com grande pompa, foi depositado num sepulcro de Porfírio. Quanto às suas relíquias, sobre elas resta a maior incerteza. Santa Helena é uma grande figura histórica. A natureza e a graça doaram-na magnificamente. Elevada ao trono do mundo, fez o cristianismo assentar nesse trono pela primeira vez. Sua beleza, que a fez escolhida de Constancio, foi um meio de que Deus se serviu. O seu nome ilustre e venerado teria marcado talvez o inicio de uma época memorável., se Constantino tivesse sido fiel à graça. Ninguém pode saber que mudança teria experimentado o destino da História, se os pintores tivessem tido também a ocasião de pôr também uma aureola sobre a cabeça de Constantino, se o nome do imperador, como o de sua mãe, tivesse sido consagrado pela palavras que canoniza”.
Os senhores estão vendo a linda figura dessa imperatriz. É uma dessas imperatrizes próprias a figurar em mosaicos em algumas igrejas bizantinas, como os mosaicos de Ravena, porque é uma dessas obras primas da graça e da natureza. Pessoa dotada de requisitos físicos magníficos, ela por servir-se de sua beleza para ser esposa do imperador e servir-se de sua condição de esposa do imperador para influir sobre seu filho, também imperador e para, por essa forma, fazer Nosso Senhor Jesus Cristo sentar-se no trono do Império Romano. E com isso vem a conversão de Constantino e depois veio a outra grande ação dela que é a invenção da Santa Cruz. E com a invenção da Santa Cruz o nome dela se tornou definitivamente imortal. Entretanto, os senhores vêem como a morte dela esteve à altura disso. Pode haver uma coisa mais bonita do que uma imperatriz que morre., rodeado por seus filhos, que são todos eles já cézares, e com a mão posta na mão do imperador que dela recebera toda a sua glória? E que expira recomendando assistência à Santa Igreja Católica? Tudo isso é maravilhoso, tudo isso parece tirado de uns livros de Horas, das iluminuras de algum missal medieval, de tal maneira é esplendido. Todas essas coisas encontram, de algum modo, seu símbolo no episodio do Mar Adriático. É aquela noção que cada vez mais se generalizava de que tudo quanto toca a duríssima Paixão de Nossa Senhor Jesus Cristo foi dotado por Ele de um poder de suavizar, de um poder de amenizar, de um poder de consolar que é a maior maravilha de todo o universo. E por causa disso um cravo dEle que o fez sofrer de um modo tão tremendo, um cravo dEle traz o poder de aliviar as dores humanas; pelo que Ele sofreu naquela mão pelos homens, Ele deu aquele cravo o poder de aliviar as dores dos homens. Então, aquele cravo é jogado no mar angustiado, proceloso, de repente se tranqüiliza, transforma-se num mar manso, e a partir daquele momento os naufrágios deixam de existir. É a grande esmola que uma santa fez ao Mar Adriático e que transformou o Mar Adriático num mar que não causa mais o pavor dos navegantes. O que que se pode dizer disso? É todos esses milagres materiais não são senão analogias, ou comparações com os milagres espirituais e morais. Isto quer dizer que um prego da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, posto no fundo de nossa alma, também apazigua as paixões, elimina as tormentas, dulcifica a vida interior, lhe dá ânimo, lhe dá coragem, torna os piores precipícios de nossa vida transponíveis sem risco de naufrágio. E o que é que isso significa concretamente? Que um ato de enlevo, veneração e ternura pela Paixão infinitamente preciosa de Nosso Senhor Jesus Cristo, um ato de amor por qualquer de suas dores, desde que vá ap fundo de nossa alma como aquele cravo foi no fundo do Mar Adriático, tranqüiliza nossa alma, tira as agitações, torna nossa alma inteiramente orientada para a santidade, acaba com as apetências desordenadas e imundas, e por essa forma torna nossa vida espiritual praticável até o céu sem risco de naufrágio. Esse é o lindo símbolo que está posto nesse episódio da vida de Santa Helena.
Como o comentário foi breve e eu fiz de propósito breve, eu vou infligir aos senhores um segundo comentário, para atender o pedido de uma pessoa, que manda me dizer que a Epístola de São Paulo aos Coríntios de hoje é muito bonita e que seria próprio fazer dela um comentário.
“Irmão, somos dados em espetáculo ao mundo, aos anjos e aos homens. Somos néscios por amor de Cristo, mas vós sois sábios em Cristo. Nós fracos e vós, fortes. Vós nobres e nós ignóbeis. Até essa hora poderemos fome e sede, estamos nus, somos esbofeteados e não temos morada certa e afadigamo-nos a trabalhar com as nossas mãos. Amaldiçoam-nos e bendizemos. Blasfemam contra nós e rezamos. Somos tratados como a imundice desse mundo, a escoria de todos até agora. Não vos escreve essa coisa para vos envergonhar não vos escreve mas admoesto-vos como a filhos muito amadas em Nosso Senhor Jesus Cristo”.
Isso São Paulo diz ao Coríntios, porque os Coríntios levavam uma vida inteiramente diferente dos outros católicos. Eles levavam uma vida de banquetes, uma vida agradável, uma vida dissipada, uma vida mundana, enquanto toda a Igreja estava na perseguição. E os Coríntios representava o que seria hoje um católico que leva uma vida agradável e dissipada, indiferente à perseguição interna tremenda que sofre dentro, porque passa a Santa Igreja Católica. Perseguição mil vezes pior que a dos cézares romanos, porque os cézares romanos faziam mártires e essa perseguição aqui faz apostatas. Então ele faz exatamente esse paralelo: qual é o papel do verdadeiro católico? “Ele é dado em espetáculo ao mundo, aos anjos e aos homens.” Agora, por que? “O verdadeiro católico é néscio por amor de Cristo”. Isso quer dizer, ele compreende bem que limitações tem sua inteligência, ele sabe ser disciplinado com sua inteligência, ele sabe curvar-se ao ensinamento da Igreja Católica, ele sabe praticar um ato de obediência com a sua inteligência, ele conhece as suas limitações. Depois, segunda qualidade: “Ele é fraco”. Quer dizer, ele sente a sua fraqueza, ele tem medo do pecado, ele é vigilante, ele trás as medidas necessárias para não pecar. De outro lado, o católico é ignóbil, quer dizer, ele é desprezado, ele é abandonado, ainda que ele seja pobre e que ele seja importante, pisam nele como se ele não fosse, pelo ódio que os pagãos têm contra os católicos. Pelo contrário, os falsos católicos como são? São os sábios. Pretendem saber de tudo e entender de tudo e não admitem freios para sua inteligência. Em segundo lugar, dizer-se fortes e também não querem freios para sua vontade. Eles circulam como entendem, fazer o que querem, mexem-se como entendem, eles são senhores de si, detestam a hierarquia e a disciplina, são igualitários. Depois, eles são ao mesmo tempo, paradoxalmente, nobres, quer dizer, são importantes. O mundo os tem em conta de grande coisa. Por que? Porque assim é exatamente com os maus católicos. Os senhores vêem confirmada essa posição dos católicos de Corinto em tudo quanto é democracia cristã e progressista. É uma coisa incrível. Mas nunca, por exemplo, na sociedade de São Paulo os padres tiveram tanta entrada com hoje, e nunca foi considerado na sociedade de São Paulo mais natural ser um líder católico e ser considerado como católico do que hoje em dia, com a condição de que esse padre seja um padre progressista, de que esse católico seja um católico progressista e que ele faça, admita as concessões ao mundo moderno. Então, esse é fortes, esse é nobre, este é seguro, este é considerado como sábio. O ultramontano é considerado exatamente como o contrário, por que? Porque não participa da sabedoria do mundo, está em luta com o mundo, os senhores estão vendo as duas tendências, as duas correntes, as duas posições como se diversificam. Então, atitude diversa: amaldiçoam-nos e bendizemos, blasfemam contra nós e rezamos.” É bem verdade. Mas também é verdade… [ilegível] …é que amaldiçoam-nos, mas chegará a hora de amaldiçoa-nos também: e blasfemam contra nós, mas chegará a hora de nós respondermos, não ficarmos apenas na oração, mas respondermos valentemente. Nosso Senhor Jesus Cristo, durante a Sua Paixão, fez isso. Ele sofreu a Paixão, mas Ele soube responder. Ele soube redargüir. Don Mayer observa muito bem que ele recomendou que levando uma bofetada no rosto, a gente voltasse o outro lado do rosto. Mas, diz Dom Mayer, isso depende das circunstâncias. E tanto é verdade que na Paixão dEle, quando Ele levou uma bofetada, Ele não voltou o outro lado; Ele deu uma resposta, Ele fez uma objeção. E essa objeção tendia a confusão daquele que tinha objetado. E Nosso Senhor Jesus Cristo, durante a Sua Paixão, referiu-se à maldição lançada por Deus contra aqueles que o perseguiam, quando Ele disse: “Não choreis sobre Mim, mas choreis sobre vós e vossos filhos.” Era exatamente a maldição que caia sobre o povo deícidio. E todo o funeral cósmico de Cristo, quer dizer, todo a luta da natureza, todo o terremoto que houve, era exatamente um sinal externo da maldição que caia sobre a humanidade pecadora, por causa da morte de Cristo.
Depois continua: “Somos tratados como as imundices desse mundo e a escoria de todos até agora.” Esse ponto é preciso tomar muito em consideração. Nós outro dia ainda recebemos um filho das trevas aqui, para visita. A nossa sede, eu garanto, que é muitíssimo melhor do que a sede do movimentazinho dele. Ele olhou para isso aqui como ele olharia para uma estrebaria. Não foi capaz de fazer um elogio, de fazer uma gentileza, de fazer uma referencia. Porque? Porque se nós aqui nessa sede tivéssemos, eu não sei, os quadros mais magníficos que se possa imaginar, se fosse uma sede de palácio, para obter a beneplácito o prestigio dos filhos das trevas, não obteríamos com isso. Porque o filho da treva odeia tanto o filho da luz que o filho da luz pode fazer a maior maravilha do mundo. Se um de nós ressuscitamos um morte, a gente apresentasse: “Aqui está fulano, que ressuscito um morto.” A resposta do filho das trevas seria: “Prazer em conhecê-lo.” Fingiria que ouviu que ressuscitou um morto. Se a gente dissesse a ele: “Você entendeu? Ele ressuscitou um morto.” Ele diria: “Ah, sei, muito prazer.” Por que? Porque não há o que conquiste a simpatia dos filhos das trevas enquanto filho das trevas. Se ele continue filho das trevas, ele não simpatiza, não admira, não reconhece prestigio a nada do que fazem os filhos da luz, por mais magnífico que seja. E por causa disso nos tem em conta do que há de mais vil no universo, de mais imundo no universo. Se nós tivéssemos aqui presente, eu não sei, a Rainha da Inglaterra, ou se tivéssemos presente não sei que outro magnata, entrando um filho das trevas aqui a gente diria: tenho a honra de apresentá-lo à Rainha da Inglaterra. Se ele pudesse, ele diria: “Prazer.” Por que? Pensaria que é normal estar aqui a Rainha da Inglaterra. Se ele fosse depois à casa de outro filho das trevas e estive não lá o Governador do Espírito Santo, por exemplo, que é um pouco menos influente que a Rainha da Inglaterra, bem, chegaria lá e diria: “Sabe, eu estive em casa de fulano, sabe quem está lá? O Governador do Espírito Santo! Ele está hospedando o Governador do Espírito Santo! Está vendo que coisa extraordinária, está compreendendo… Mas você não encontrou a Rainha da Inglaterra naquele lugar? Ah, é verdade… Ela estava lá… Muda de assunto: choveu hoje… Isso é assim, absolutamente assim. E isto aí posto exatamente como a imundice do mundo. E é uma ilusão nós pretendermos um beneplácito, um apoio, um acordo, ou uma consideração dessa gente, porque não sai. Eles foram assim com Nosso Senhor Jesus Cristo. Nosso Senhor Jesus Cristo, que era tudo do modo mais superlativo e inimaginável que se possa fazer e que fez todos aqueles milagres. O que é interessante no modo de tratar a Nosso Senhor Jesus Cristo no meio da Paixão é que aqueles sacerdotes, Pilatos etc., fingiam nunca ter ouvido falar nEle. É um do povo, um do povinho que apareceu aí e está sendo julgado. Dias antes Ele for ovacionado em Jerusalém com uma homenagem enorme no domingo de Ramos. Não existe, não tem importância, não sei quem é Jesus Cristo? Jesus? Ah, filho de um carpinteiro? … Ah. Bom, vem cá, eu quero ver. E acabou-se. E essa é a inexorável posição dos filhos das trevas. Mas basta…[ faltam palavras] …um mau católico, que tudo muda. Ah, Tristão de Ataíde, não sabia. Aquele orador fabuloso. O Agripino [Griecco?]dizia que para quem sofre de insônia, as conferencias de Tristão de Ataíde eram incomparáveis. Tinha toda razão. Um escrito extraordinário! Perguntem qual o livro do Tristão de Ataíde cuja vida durou mais do que seis meses. Os senhores sabem de um nome de um livro celebre do Tristão de Ataíde? Não sabem. É um fluxo de livros, é um rio de papel, mas é nada. Oh, mas que grande homem… [faltam palavras] …exclusivamente porque ele pertence aos filhos das trevas. Aí está o ensinamento. Bem, então: “Não vos escrevo essas coisas para vos envergonhas, mas admoesto-vos como os filhos muito amados em Jesus Cristo, Nosso Senhor.” Há uma certa ironia na carta dele, e ele mostra que isso aqui, essa ironia é feita para admoestar-nos que essa admoestação não tem como efeito um puro envergonhá-los, mas é um ato de amor para que eles melhorem. E era essas palavras ele termina a Epístola.