Santo do Dia – 10/8/1967 – p. 5 de 5

Santo do Dia — 10/8/1967 — 5ª-feira

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* História * Entre carvões e filosofia * Crepúsculo no arrabalde * Sossego que dá santa inveja * Não se importa de ser objeto de caçoada * Empáfia da “cúpula pobre” * Mútuo embevecimento * Deposuit potentes de sede… * Reação de um grã-fino * Tinto de sangue * Época sem maravilhas, tudo é incitação ao pecado * Do pântano sai o lírio

* História

Os dados que eu vou ler são tirados de Rohrbacher, “Vidas dos Santos”. A escolha de Santo Alexandre:

Em meados do 3º século, os cristãos de Comana, no Ponto, enviaram deputados a São Gregório Taumaturgo, bispo de Cesaréia, pedindo-lhe um bispo. São Gregório dirigiu-se à cidade procurando um pastor para a nova diocese. Os magistrados e principais do lugar, procuravam o mais nobre, o mais eloqüente ou o que mais se distinguisse por brilhantes qualidades. Apresentaram-lhe numerosos pretendentes. São Gregório, que considerava mais a virtude, disse-lhes que não deviam desdenhar mesmo aqueles cujo exterior parecesse desprezível. Um dos que presidiu a eleição quis ridicularizar as palavras do santo e disse:

Se não quereis o que temos de melhor, é preciso ir buscar um bispo entre os artesãos e a plebe. Aconselho-vos Alexandre, o carvoeiro. Nós todos consentiremos na escolha.

E quem é esse Alexandre? respondeu Gregório.

Apresentaram-no rindo, estava semi-nu, coberto de andrajos sujos e rotos. Via-se claramente qual era sua profissão pelo negrume das mãos e do rosto. Todo mundo começou a rir, vendo esta figura em meio à assembléia.

Alexandre não estava admirado, não olhou ninguém e parecia estar satisfeito com o seu estado. Isto fez São Gregório…

É a cúpula podre que estava querendo impor um “bispo cúpula podre”.

considerar que neste homem havia algo de extraordinário.

Quer dizer, como o homem estava normal, satisfeito no seu estado de carvoeiro, ele achava que era interessante.

De fato, ele era um filósofo cristão sagacíssimo, um verdadeiro sábio. Não fora a necessidade que o reduzira àquele estado, mas o desejo de se ocultar para praticar a virtude. Ele era jovem e belo, não lhe faltaria ocasiões de tentação, e ele queria ser casto. A poeira do carvão que o desfigurava, era como uma máscara que o impedia de ser reconhecido. Seu ofício servia-lhe, ainda, para viver inocentemente e praticar boas obras. São Gregório, descobrindo quem era, mandou que o banhassem e vestissem, com seus próprios trajes.

Assim, ele veio aparecer um outro homem, atraindo a atenção de todos os olhares. “Não vos admireis — disse São Gregório — se vós vos enganastes, julgando segundo os sentidos. O demônio queria tornar inútil esse vaso de eleição, escondendo-o”.

Consagrado solenemente, ao fazer seu primeiro discurso, Alexandre assombrou os presentes.

Parece um conto de fadas, não? Não há o que não seja admirável, não é?

Um ateniense que o ouvia, dele zombou por não ter elegância ática, mas foi repreendido numa visão que teve.

Santo Alexandre, célebre por sua pregação, governou dignamente a Igreja de Comana até a perseguição de Décio, quando então sofreu o martírio pela Fé.

* Entre carvões e filosofia

Mais uma vez, meus senhores, eu me encontro neste apuro: o que dizer? Que comentários fazer de uma coisa dessas? Os senhores vêem que o maravilhoso se soma ao maravilhoso. Um jovem belo, grande filósofo, sagacíssimo, um verdadeiro sábio que resolve fugir do mundo. Então vai para um lugarejo como Comana e se faz carvoeiro. Carvoeiro, como os senhores sabem, é uma profissão modesta, humilde e ele escolhe essa profissão, para ali desaparecer e, exatamente, usa a cara cheia de carvão e todo ele cheio de carvão, para que sua formosura não atraísse manifestações de admiração. Por esta forma, ele vive inocentemente numa profissão árdua, que lhe dá pobreza, mas em que ele não tem ocasiões de pecado, de roubo e outras coisas assim, e ele, então, vive entre seus carvões e sua filosofia.

* Crepúsculo no arrabalde

Os senhores podem imaginar o que seria um crepúsculo de Santo Alexandre, carvoeiro? Sentado num casebre qualquer, num arrabalde de Comana — se é que Comana não era toda ela um arrabalde — bem, sentado num casebre qualquer, num ponto que começa já o mato, talvez num lugar onde ele retirasse lenha, de uma terra abandonada, porque não havia Reforma Agrária, e onde crescesse mato para reduzir a carvão; silêncio, uma tarde pesada, calor, ele sentado do lado de fora da casa, uma comidinha sendo preparada na cozinha, ele esperando que acabasse de cozer, e ele olhando aquilo e fazendo filosofia com as mãos sujas, com o rosto sujo e pensando, distinguindo, contra-distinguindo, fazendo uma arquitetura de espírito, elevando-se até a teologia, rezando a Nossa Senhora, tendo eventualmente uma visão e depois entrando para ir comer as aboborinhas que ele tiver feito, e voltar de lá de novo… A horas tantas, ia para a igreja rezar, visita ao Santíssimo Sacramento, à imagem de Nossa Senhora e, depois, começava a noite casta, pia e tranqüila de sua Comana.

* Sossego que dá santa inveja

Os senhores podem imaginar uma coisa melhor do que isto? Dá uma vontade da gente deixar tudo, tudo isto aqui e ir correndo para dentro do carvão de Santo Alexandre, com a condição de não ouvir falar do mundo moderno. Não têm mais De Gaulle, não tem mais nada disso, acabou. Não tem mais ninguém. Bem, e levar a vida tranqüila, casta e despreocupada; que coisa maravilhosa, não é verdade?

* Não se importa de ser objeto de caçoada

Bem, esse homem é chamado, de repente, para uma assembléia e aí vem o toque do extraordinário. Começam a rir dele: “Está aí! Pega esse carvoeiro!”. Ele muito mais inteligente que todos aqueles, muito mais culto que todos aqueles, sentindo-se bem, porque caçoavam dele. Ama a humildade, pratica o que está escrito na “Imitação de Cristo”: “Ama, fica alegre em ser ignorado e ser tido em conta de nada”. Dão risada dele e ele que, interiormente poderia estar dando risada de todos, ele satisfeito. Com certeza embevecido, olhando para São Gregório Taumaturgo. Taumaturgo quer dizer, fazedor de milagres.

* Empáfia da “cúpula pobre”

Os senhores podem imaginar uma cúpula podre, pequena de Comana. Deveria ser uma Pirapora qualquer. Os senhores podem imaginar a elite de Pirapora. — Se houver alguém aqui de Pirapora, eu soltei o nome irrefletidamente; mas eu não posso dizer que volto atrás, mas, pelo menos, não vou para frente… bem, não insisto —. Vamos não pensar em Pirapora. Em Pirituba, para evitar outras… [faltam palavras] …, o nome é perigoso, para ficar em Pirituba também. Bem, então é melhor falar em “X”. Bem, em um lugar “X” qualquer, e os senhores imaginem ali os notáveis do lugar, umas figurinhas, uns caquinhos importantinhos, todos metidos, tudo zero no fundo, como em geral notabilidade de cúpula podre de aldeia. Todos querendo um bispo que enfeitasse a eles, com considerações apenas humanas; e, ali, a figura provavelmente majestosa, venerável, sábia, calma, cheia de interioridades e de mistérios, de São Gregório Taumaturgo, célebre por ser fazedor de milagres e que está presidindo a reunião.

* Mútuo embevecimento

Então estão dois santos, um em face do outro; em torno a pequena borra de Comana, mas dois santos, um em face do outro, e a gente vê o que a nota não nos diz: é o embevecimento de Santo Alexandre por São Gregório. Mas havia um embevecimento de São Gregório por Santo Alexandre. Ele olhou Santo Alexandre e percebeu que era uma pessoa de alto valor. Então começou a se interessar, mandou ver quem é, e, afinal de contas, tirou o brilhante de dentro da ganga.

* Deposuit potentes de sede…

Agora os senhores imaginem as notabilidadezinhas esmagadas, o mundanismo trucidado, quando entra esbelto, fino, limpo, trajado com os próprios trajes episcopais de São Gregório, entra, na mesma assembléia, Santo Alexandre. Então, a derrota completa. Aquele que fora esmagado, esse é levantado, e aqueles que estavam dando risadas, ficam quietos. Verifica-se o dito do Magnificat: “deposuit potentes de sede et exaltavit humiles” — tirou do trono aqueles que eram poderosos e exaltou aqueles que eram humildes. Aquelas grandezas locais, suburbanas, caipiras, estavam todas achatadas, não é isto? E a figura superior do novo bispo, ali. Ele é sagrado e faz um sermão que deixa todo mundo pasmo.

* Reação de um grã-fino

Pelo meio, havia um grã-fino. Esse grã-fino era o ateniense. Atenas, apesar de não ter mais importância política nenhuma, ainda era a cidade da cultura, a cidade do raffinement, numa época em que a pessoa ser raffinée, conferia prestígio. Não é como na nossa época de hoje, que o ser raffiné desprestigia. Naquele tempo conferia prestígio. Então, esse aí disse: “Bom, o sermão não é bastante ático, não é bastante helênico, não tem bastante estilo”. Teve uma visão que, naturalmente, arrebentou com ele.

* Tinto de sangue

No que é que termina a vida de Santo Alexandre? No meio da perseguição, ele é bispo. Um belo dia o prendem e ele derrama o nobre sangue dele em holocausto a Nosso Senhor Jesus Cristo e para testemunhar a sua adesão à Fé católica. É um mártir a mais, que depois de ter estado todo pintado de preto, acabou todo pintado de vermelho. Tinto com seu próprio sangue, ele, com certeza, foi levado para as catacumbas e, ali, o seu corpo foi guardado na piedade dos fiéis.

* Época sem maravilhas, tudo é incitação ao pecado

Mais maravilha do que isso, o que a gente pode querer? A gente só pode lamentar que nossa época não tenha maravilhas tais, mas é exatamente porque é na época infensa ao maravilhoso, e que Deus castigou dispondo as coisas de tal maneira que o maravilhoso, em nossa época, não aparece. Tudo é banal, tudo é raso, tudo é insípido, quando tudo não é hediondo e tudo não é uma contínua provocação para o pecado. A gente pode dizer que escapam a isto almas que, certamente, existem pelo mundo dispersas e que nós não conhecemos e que devem ser uma beleza rara.

* Do pântano sai o lírio

E escapam a isso as nossas TFP’s. É o que há de maravilhoso neste mundo, que não conhece mais o maravilhoso e que não tem mais maravilha nenhuma. Fora disto nada é maravilha. Mas também aqui está uma maravilha. É que dentro deste vaso de maravilhas, deste vaso de eleição que são as nossas TFP’s, Nossa Senhora faz a maravilha da fidelidade perfeita, da humildade completa, da sujeição da fidelidade à Igreja Católica Apostólica Romana nos seus piores dias, e nos momentos em que essa fidelidade seria menos fácil de esperar, seria mais difícil. Nossa Senhora põe ali a maravilha de uma devoção a Ela levada até todos os limites desejados por São Luís Maria Grignion de Montfort. Nossa Senhora faz com isto que um perfume de devoção marial se evole deste vaso, e este é a única coisa que emite perfume no meio desta pestilência, que emite luz no meio destas trevas, que é luminoso, que é nobre, que é digno de aspecto, é uma maravilha própria, é um lírio que floresce no pântano, na noite e na tempestade, para indicar que Deus, que a Providência, que Nossa Senhora tem desígnios para esta terra, e que residuum revertetur, a maravilha está reduzida a um ponto menos, mas ela terá uma verdadeira expansão no Reino de Maria, que, se Deus quiser, não vai tardar.

E o que nós devemos considerar na noite de hoje.

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