Santo do Dia (Sede do Reino de Maria) – 8/8/1967 – 3ª feira [SD 147] – p. 4 de 4

Santo do Dia (Sede do Reino de Maria) — 8/8/1967 — 3ª feira [SD 147]

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Desenvolvimento de um pensamento do Cura d’Ars sobre o necessidade do sofrimento como meio de santificação * À força de gemer, uma pessoa de mau gênio aprende a combater devaneios e adquire temperança * Como a alma, também o corpo precisa de uma certa violência para se sentir bem * O Sr. Dr. Plinio encerra a reunião com uma “pastilha desintoxicante do ecumenismo”: um diálogo do Cura d’Ars com um protestante

* Desenvolvimento de um pensamento do Cura d’Ars sobre o necessidade do sofrimento como meio de santificação

Hoje é festa de São João Batista Vianney, intercessor pela santificação do clero e modelo dos que têm cura de almas. Século XIX.

Estamos também na novena de Nossa Senhora da Assunção.

Monnin, “Espírito do Cura d’Ars nos seus Catecismos, Homilias e Conversação”, do Bem-Aventurado Cura d’Ars. Uma a respeito do sofrimento como privilégio:

Há pessoas que não amam a Deus, e que não lhe rezam e que prosperam. É mau sinal. Elas fizeram um pouco de bem através de muito mal. Deus recompensa nesta vida. Dizemos às vezes: Deus castiga aqueles a quem ama. Nem sempre é verdade. As provações, para quem Deus ama, não são castigos, são graças.

Os senhores vêem aí uma exposição a mais do grande princípio da doutrina católica de que o sofrimento é indispensável como meio para aproximação de Deus. É indispensável por um lado, porque Deus quer que completemos o que Ele quis que ficasse faltando à paixão d’Ele, para o bem das almas. Mas é indispensável por outro lado porque o homem, concebido no pecado original, precisa sofrer. Ele tem em si uma fonte permanente de desordem, de apetências desordenadas, de apetências más, que lhe vêm de sua natureza desregrada. A todo momento, a natureza do homem pede alguma coisa que não convém: quer aquilo que é dos outros, quer fazer o que não deve, quer pensar no que não deve pensar. A todo momento nossa natureza está nos convidando para fazer alguma coisa que não devemos, e o meio que nós temos de matar em nossa natureza esses apetites desordenados, é o sofrimento.

O homem que sofre, quebra uma certa exuberância desse lado mau da natureza. Mas é uma exuberância má do lado mau da natureza: deixa ele de ficar pretencioso, deixa ele de ficar mimado, deixa ele de ficar arrogante, deixa ele de ficar petulante, deixa de ficar exigente; ele se contenta com pouco, ele fica afetivo, ele fica compreensivo, ele fica humilde, porque ele sofre. Porque o contrário de tudo isto está em nós, e quando começa o sofrimento como uma chaga, a corroer a alma, aí é que todas essas coisas vão desaparecendo, vão minguando e a pessoa então vai melhorando.

* À força de gemer, uma pessoa de mau gênio aprende a combater devaneios e adquire temperança

Os senhores imaginem essa situação: uma pessoa com um gênio insuportável, uma pessoa muito suscetível, que fica sentida com qualquer coisa a qualquer momento, uma pessoa muito preocupada em estar no centro das coisas, em aparecer em tudo. Vamos dizer que essa pessoa toma de repente uma dor, que é uma dor na perna — vamos falar somente nos sofrimentos físicos. E é uma dessas coisas em que a pessoa fica quinze horas, em vinte e quatro, gemendo: “Ai, não posso mais. Venha, por favor, me fazer um pouco de companhia. Venha conversar um pouquinho, me traga tal objeto, me ajude em tal coisa, pelo amor de Deus tenha pena de mim”, etc.

É ou não é verdade que ao cabo de seis meses disso, esse gênio está muito quebrado? Foi passado a ferro. Por que foi passado a ferro? Porque à força de gemer e sofrer, a pessoa aprende isto, que a natureza humana concebida no pecado original detesta, e que é: o ter uma vida comum, normal, sem grandes prazeres, já é uma grande coisa, e que já se pode dizer feliz o homem que tem condições comuns de existência, de tal maneira esta vida é um vale de lágrimas, e que estar ambicionando a todo momento condições extraordinárias de existência, seja o que for, grande fortuna, grande consideração, o que quiserem, estar ambicionando a todo momento essas condições de existência, é uma coisa que indica um desregramento.

Quando a pessoa tem condições comuns bem garantidas, começa a sonhar, começa com devaneios. Mas quando à pessoa lhe falta essas condições mínimas de existência, ela começa a ter saudades: “Ah, que coisa boa aquilo! Eu sou a única que vou passar esta noite gemendo! Todo mundo nesta casa vai dormir e eu sozinho vou passar a noite inteira gemendo. Que grande coisa uma noite sem dor!”.

Antes disso a pessoa não queria saber de uma noite sem dor: queria uma noite de prazeres, ou então queria uma coisa que fosse a supercama, com não sei que mola, com uma armação que a pessoa vira para cá, a cama vira de lá, com um abanador e não sei quantas coisas. Isto é a felicidade. Como apanhou bem, começa a compreender que valor enorme tem um sono normal e uma cama normal.

Isto é o começo da temperança, é o andar térreo da temperança.

A pessoa começa a pensar normalmente que iria fazer viagens fabulosas. Gênero de gente que abre “O Estado” e lê: “Vôo para a Pérsia, coroação do Xá “. A viagem custa, digamos, dez mil contos. A pessoa que não tem mil, começa dizendo: “Mas é a prazo. Eu fico devendo mil coisas, vendo meu automóvel, mas dou uma sacada”, etc. Acaba indo a pé. Então é um infeliz. No dia em que vem a notícia da coroação do Xá na Pérsia, aquele está deitado, aborrecido, mau humorado com todo mundo.

Por que você é infeliz?

Eu não fui à coroação do Xá da Pérsia.

Eu tenho vontade de dar um tabefe de cada lado do rosto, porque com essas coisas a cura é assim, é tabefe. Porque se um coitado desses quebrar a perna e passar numa cadeira de rodas seis meses, ele compreende que a grande felicidade não é assistir à coroação do Xá da Pérsia, mas é ir dar uma voltinha no jardim. Ele fica lá no cadeirão dele pensando: “Se eu pudesse ao menos ir até a esquina ver passar o movimento, que delícia!”.

Aqui começa a entrar o juízo. É assim que se quebram as estravagâncias das pessoas; as luas, as manias quebram-se por meio do sofrimento.

Outra coisa, por exemplo: pessoa muito suscetível. De repente arrebenta qualquer coisa de ridículo na família. Porque antigamente havia isto: às vezes um membro qualquer da família caía num ridículo, e o sobrenome da família virava apelido. E aí aquele compreende que não é estar correndo atrás das considerações, mas que delícia é ser tratado como um anônimo, como um joão-ninguém: “Que gostoso o tempo em que eu usava o meu nome e ninguém ria de mim”.

Essas provações e essas falhas são indispensáveis e sem isto a pessoa não vive bem.

* Como a alma, também o corpo precisa de uma certa violência para se sentir bem

Mas há uma coisa mais, que é curiosa.

Há qualquer coisa na alma humana, que é parecida com o seguinte no corpo: o corpo que nunca faz esforço nenhum, este corpo padece. Por exemplo, um pachá, que viva no meio das almofadas.

Talvez a geração muito nova não saiba o que é um pachá. Levantem a mão os que sabem. Ah, sabem.

Eu vou fazer aos senhores uma murmuração. Os senhores apreciam e respeitam tanto a Martim, e é uma tão grande instituição a Martim. Os senhores acreditem — eu não teria coragem de dizer se não estivesse falando para lá — que quando a Martim se aproximou de nós não sabiam, alguns pelo menos, o que era um doge de Veneza. Eu acho que os senhores sabem o que é um doge de Veneza… Levantem a mão os que sabem. Ah, os senhores ante a Martim … Eu não vou cometer aqui a crueldade de perguntar o que é mesmo um doge de Veneza…

Tomem um paxá que nunca se mova, que passe o tempo todo fumando aquele narguilé, comendo aqueles doces colantes, brancos, vermelhos, de cores vivas, deitados num terraço, por exemplo.

A gente dirá: “Que vida deliciosa leva esse paxá!”. É uma ilusão. Porque há todos os distúrbios orgânicos que o paxá tem decorrentes de sua inação. E esses distúrbios orgânicos criam para o paxá então uma alternativa que é um inferno: se ele se move, é horrível, porque está desabituado; se ele não se move, é horrível, porque faz mal para a saúde. E ele se vê entre a doença e a violência. E daí ele afunda e morre precocemente por causa disso.

O corpo humano precisa de uma certa violência para se sentir bem. O mesmo se dá com a alma. Há algo na alma por onde, quando o homem não sofre, ele precisa do sofrimento. Ele acaba procurando sofrimento, porque há algo da alma do homem que sofre quando ele não sofre. E esta espécie de náusea de tudo que vem da falta de sofrimento, é um castigo daqueles a quem Deus não manda cruzes.

De maneira que esse pensamento do Bem-Aventurado Santo Cura d’Ars é um pensamento muito verdadeiro e muito justo e que devemos ter sempre em mente, a respeito da importância do sofrimento.

Há outras afirmações.

Agora não é sobre o sofrimento. É uma verdade muito grande:

Há uns que perdem a fé e só vêem o Inferno ao entrar nele.

Os senhores imaginem o susto de uma pessoa que não acreditava no Inferno. Morre e… Aliás, eu não acredito que uma pessoa não acredite no Inferno. Uma pessoa pode duvidar se o Inferno existe. Mas ter certeza disso, quem é que pode ter? A mais verossímil das coisas é o Inferno.

* O Sr. Dr. Plinio encerra a reunião com uma “pastilha desintoxicante do ecumenismo”: um diálogo do Cura d’Ars com um protestante

Agora tem uma coisa final, que é muito bonita, que é a seguinte:

O Cura d’Ars fez uma entrevista com um rico protestante, sem saber a religião do seu interlocutor. Ao se despedir pôs uma medalha em sua mão.

Sr. Cura, o senhor está dando uma medalha a um herege. Ao menos, eu não passo de um herege em seu ponto de vista. Apesar da diversidade de nossas crenças, espero que estaremos um dia ambos no Céu — disse o protestante.

O Cura, tomando a mão do interlocutor, disse:

A gente fica com medo do que vem depois disto. Fica-se com medo do resto. Ouçam o resto:

Ah, meu amigo!… Nós só estaremos unidos lá em cima se começarmos a estar unidos aqui na terra. A morte nada alterará nisso. A árvore onde cai, aí fica.

Sr. Cura, eu confio em Cristo que disse: “Aquele que crê em mim, terá a vida eterna”.

Nosso Senhor também disse outra coisa: que aquele que não escutasse a Igreja, devia ser considerado como um pagão; que devia haver um só rebanho e um só pastor, e estabeleceu São Pedro para ser o chefe desse rebanho. Não há duas maneiras de servir a Nosso Senhor, há uma só: é servi-lo como Ele quer ser servido.

Eu acho que com isso nós podemos deixar… com essa desintoxicação, com essa pastilha desintoxicante do ecumenismo, podemos encerrar nossa reunião.

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