Reunião Normal (Auditório da Santa Sabedoria) – 29/7/1967 – sábado – p. 16 de 16

Comissão B1 — 29/7/1967 — Sábado

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Isto representa... o Caram vai dizer o que isso representa.

(Sr. Caram: o [fundo?] geral da ordem de São João, e depois...)

Ordem de São João ou Ordem de Malta?

(Sr. Caram: ... [inaudível] ...)

Bem. Aqui os senhores estão vendo que é uma Ordem religiosa... Isso aqui é... provavelmente, uma pintura do século XIX representando o fato, não é? E embora o acontecimento histórico tivesse se passado em 1514, entretanto uma pintura feita no século passado situa a coisa num ambiente medieval, o que se compreende por todas as razões. É que a Ordem de Malta é uma instituição medieval e que conservou quadros medievais, estilos medievais muito depois de terminada a Idade Média, de maneira que se entende isto.

E contra uma corrente modernista que acha que as reconstituições medievais do século passado são péssimas, eu acho que as reconstituições medievais do século passado, para pegar o espírito da Idade Média, são simplesmente estupendas. E que, até mais, elas às vezes pegam melhor o espírito da Idade Média do que as próprias coisas medievais. Porque, às vezes, fora da coisa e com o recuo da coisa, a gente pega melhor a coisa do que quando está vivendo dentro dela.

É um pouquinho o que se dá quando a gente olha uma sala quando se está no jardim. Várias vezes eu tenho feito experiência aqui: se os senhores quiserem saber como a nossa sede é bonita, vão para o jardim e olhem a sede — quantas vezes eu já fiz esta experiência também — olhem a sede de fora para dentro e os senhores percebem fora dela melhor a beleza que ela tem do que quando os senhores estão de dentro.

Então, os senhores estão já... são pintores que estão na época moderna, no século XIX, e que, com o recuo de quatrocentos, quinhentos anos, de seiscentos anos pegam melhor a beleza da Idade Média do que os próprios medievais.

Então, aqui os senhores têm o espírito do que deveria ser a Ordem de Malta perfeitamente bem apanhado. E no que o espírito que ela teve difuso ao longo de sua história, o espírito da instituição representado num quadro simbólico.

Este quadro representa o Grão-Mestre cercado de seus conselheiros num capítulo geral, como os senhores estão vendo aqui, traçando planos. E o que ele tem aqui na mão é o mapa de uma fortaleza, e é evidente que ele está deliberando a respeito de planos de guerra, de outras coisas, dentro de seu capítulo geral, que é o seu grande Estado Maior, que é o seu Conselho.

Os senhores têm toda a composição que deve ser analisada, e antes de tudo o cenário. O cenário representa uma sala, que, pela configuração parece ser uma sala de porão. Os senhores estão vendo que as ogivas estão um pouco achatadas; que é... são coisas nitidamente com sabor românico ogival, meio de transição e um pouco baixas. O que se dá exatamente com freqüência nas salas inferiores, salas de porão. Entretanto, há uma certa profundidade que o quadro representa bem: os senhores têm aí uma série de três pilastras, três arcadas, estas arcadas são ogivais, não é? E aqui no fundo os senhores têm bem marcada uma ogiva e o esfumaçado da coisa e a falta de luz natural no ambiente — os senhores vêem que a luz vem toda de cá, no ambiente do fundo não há luz natural — dão uma idéia de que aqui não é janela, mas é um nicho; é uma janela condenada, com um nicho, transformada em nicho, em que se esboça um santo que é o fundo de todas as deliberações.

(Sr. –: É um… [inaudível] …não é?)

É. Então… É uma espécie de… [inaudível] …

Então, os senhores têm o primado da idéia religiosa expressa em três símbolos que ficam colocados mais ou menos em linha reta: a cruz, que é indispensável para marcar o ambiente, depois uma cruz… [inaudível] …sem florões, nem nada. A cruz da dor, sem enfeite, sem prataria; a cruz dura, que pesa mesmo nos ombros, que é a cruz do guerreiro. Bem. Depois, a cruz se repete bem no centro do peito do Grão-Mestre. O Grão-Mestre é a figura central e no peito dele está enorme a cruz e no fundo uma imagem.

Os senhores estão vendo, estão em linha reta, quase estão num só eixo, a alturas diversas do mesmo eixo, que é o eixo central do quadro. E com isso, muito discretamente o pintor, ao qual evidentemente não faltou inteligência, o pintor colocou estes símbolos no centro. Os senhores me dirão: “mas, Doutor Plinio, ele explicitou isto quando ele fez, ou agiu dirigido por um instinto?” É um problema que está à margem do nosso tema. Mas eu creio que se ele agiu por instinto, ele tinha um instinto muito fino, um instinto muito bem apanhado. Só há, a meu ver uma coisa fraca: ele deveria ter arranjado um jeito de colocar um discreto emblema religioso aqui. E há um enfeitezinho sem significado definido no gorro do Grão-Mestre, e que dá uma idéia de puro enfeite e não de símbolo. E homem não se enfeita com enfeite; enfeite de varão é símbolo.

Este é um problema fun-da-men-tal. Que exatamente nos tempos do Ancien Regime se esqueceu. Homem se enfeita com símbolo, porque a força da alma do varão é tão grande, que ele se enfeitar só porque, por exemplo, ele tem olhos castanhos, ele arranja topázio, ou se ele tem olhos azuis, ele pega um anel ametista, para colocar assim e ficarem vendo que os olhos dele são da cor do anel… A gente tem vontade de dar um pontapé no pelintra e jogar na lata de lixo, porque isso não é para homem. Agora, um símbolo, não; eu tenho alma, minha alma tem um sentido, eu tenho missão e minha missão tem um sentido. Então o meu símbolo é o adorno que realça em mim a expressão de minha missão, que dá em mim o significado do que eu sou e que exprime a beleza de minha alma e não de meu corpo, e com isto esse símbolo eu uso. Isso é adorno de homem. Os senhores pegam todo adorno da Idade Média não decadente é símbolo. E esta tese me é uma tese gratíssima. Para senhora, não; para senhora a coisa muda de aspecto. Mas adorno de homem é símbolo. Os senhores querem ver onde se vê isso com uma com uma beleza muito bonita? Como a Igreja compõe a fácies de seus dignatários. Por exemplo um Cardeal Merry del Val: não há o que não seja símbolo nele. Ele é um símbolo e tudo quanto ele traz, anel, alva, etc., são símbolos; é um homem revestido de símbolos. É um lindo homem, revestido de lindos símbolos que espelham a beleza de sua missão. Aqui está uma coisa que deve ser e que é bonita. Bem. Enfim, essa teoria do adorno é uma coisa que fica à margem.

(Sr. –: … [inaudível] …)

Muito mal representado. Eu acho pedras preciosas uma espécie de bolota… Caio, veja o original pequeno.

(Dr. José Fernando: Eu acho o original está melhor ainda.)

(Dr. Luiz Nazareno: Como é que fica nessas representações medievais um certo fundo meio romântico? Não existe também, ou não?)

Existe. Mas aí entra todo o problema do romantismo. É que o romantismo, de algum modo exprimia… — é a mesma coisa do original — o romantismo, de algum modo exprimia, vamos dizer, com uma certa hipertrofia do sentimento, o romantismo exprimia sentimentos… alguns veios do romantismo exprimiam sentimentos bons, com uma certa hipertrofia do sentimento. De maneira que para nós que ignoramos tudo do caso, e que temos mais facilidade em conhecer as doutrinas de uma época do que os sentimentos de uma época, as coisas do romantismo exageradas em si, entretanto, têm a vantagem de nos tornar muito sensível o tempo.

(Dr. Luiz Nazareno: Sei… Mas sempre fica uma certa … não?)

Ah, fica. Isso é indiscutível. Isso fica.

Aqui, por exemplo, é claro que em nenhum capítulo, a não ser em raras ocasiões da História, teve essa beleza pictórica. Não é? E que aí há uma plenitude de sentimentos em cada um, que o homem não alcança. Que um grande grupo de homens não alcança. Por exemplo, ninguém aqui está com aridez, ninguém aqui está distraído, todo mundo está num uníssono com o Grão-Mestre, que é uma beleza de expressão de unidade religiosa, mas que assim não se alcança. Onde está uma Santa Terezinha do Menino Jesus por aí dormindo de tédio? Como ela dormia durante o Ofício?

(Dr. José Fernando: Olha, tem dois ali que estão num soninho, hein.)

Aqui? Contemplação. E contemplação… este aqui…

(Dr. Luiz Nazareno: Há um implicante lá na frente.)

Qual é o implicante? Esse aqui?

(Dr. Luiz Nazareno: Não, mais abaixo.)

[Risos]

É francês… é francês; Ele está entre… [inaudível] … , e outra coisa, meio objetante, não é? O velho aqui, mais generoso, amplo, etc., etc., e esses estão pondo contrafortes ao que o velho disse. É uma coisa evidente!

(Dr. Luiz Nazareno: Mas, Doutor Plinio, não tem qualquer coisa de etéreo?)

De meio ideal. Mas eu justifico a existência de quadros assim, desde que a pessoa compreenda que isso é etéreo. Porque uma certa imagem do etéreo serve para compreender melhor o fundo da realidade das coisas. Não é?

(Dr. Luiz Nazareno: … [inaudível]…)

[Outros intervêm, mas não se entende]

Mas é preciso se defender. Certamente,

Bom. Continuamos?

Bem. Os senhores têm, colocado bem no centro do quadro é uma idéia de uma Ordem religiosa que está toda ela colaborando para uma finalidade altamente sapiencial. O quadro nos dá uma idéia de sapiencialidade em tudo: o ambiente é sapiencial, é recolhido, é sábio. É um ambiente feito para que [os] mais altos princípios sejam conhecidos e sejam tomados na devida consideração. Para facilitar uma posição ogival da alma, em que todos aspectos da realidade e todos aspectos da alma confluem para o mesmo ponto central. Não é isto?

Bem. E por isto há um ambiente de grande recolhimento e de uníssono total. O Grão-Mestre dá a diretriz — nos vamos daqui a pouco comentar a pessoa do Grão-Mestre — o Grão-Mestre dá a diretriz e essa diretriz é recebida a seu modo por cada um, inclusive por este, que você acertou bem, é muito objetante. Está compreendendo? Objetante por natureza, mas não é um homem que está no momento fazendo fronda. É gênero de europeu; tem pilhas de europeus assim. Bem.

Então, agora, aqui está colocado em plena luz, no meio, o Grão-Mestre. A luz bate nele, e é um símbolo muito bonito de mediação que esse homem encontrou, entende, esse pintor — tudo isso eu não sei se ele intuiu, se ele teve na mente, mas a intuição artística é cheia de coisas implícitas que carregam isto. Notem que a luz bate nele, e é não só a partir deste ponto onde ele está que ela se refrata em graus desiguais para o resto, mas, mais ainda, a gente tem a impressão que da couraça dele, do branco do arminho dele, das barbas dele, da cruz dele, do rosto dele, ele é uma espécie de espelho que aumenta a luz que bate nele. E esta luz vagamente insinua — o artista soube fazer a coisa — esta luz vagamente insinua algo que desce do céu. Isto não é bem uma inspiração, mas é um auxílio divino, uma graça divina, se os senhores quiserem, um carisma. A tal ponto que, embora a gente perceba que a luz venha de cá e bata nele e seja [recebida?] pelos outros, a idéia vaga que fica é que a luz irradia dele.

(Dr. Luiz Nazareno: A gente pode notar porque ele… não é um reflexo dele que… [inaudível] …o próprio personagem, mais claro que os outros.)

Mais claro que os outros. Ele estudou tudo, para simbolizar isso. Estudou com muito jeito, eu acho. Ele tinha um senso simbólico de muito valor, este homem, não é? E por isso também muito dotada de percepções simbólicas a nossa Comissão do Movimento, sugerindo de aceitar esse quadro aqui. Bem.

Então, os papéis dele e a mesa também são de uma alvura enorme. Ele, os pensamentos dele, o raio de ação dele são mais claros que de todos os outros; ele tem como poder uma certa irradiação divina, um certo carisma que enche o resto da sala em modos diferentes. Também ele é o homem idealmente posto para representar este papel. Eu, poucas fisionomias imaginaria tão adequadas para isto, porque ele é no seu esplendor o italianão — pode ter querido representar o francês, mas não é, — é no seu esplendor um italianão. O italianão do tipo do tipo do Mediterrâneo — os senhores notem como ele é: ele é um homem possante, o corpo dele é um corpão, a cara dele é uma carona, mas os traços dele, por exemplo, o narigão, os olhos, têm uma harmonia delicada. São traços que têm uma harmonia delicada. É incontestável. E há nele todo, no conjunto, um misto de delicadeza e de estabilidade. Agora, melhor são os olhos: os olhos grandões, atentos como olho de boi e [que] olha assim para ver como é que é e como é que não é o negócio. Não sei como é isto, está compreendendo? Mas é assim. E depois tem uma espécie de olhar próprio do esperto de grande classe — o esperto de grande classe não tem o olhão [vivo?]; o esperto de grande classe tem o olhão morto que de vez em quando olha assim e percebe; dá uma pescada na realidade e volta para seus antros interiores, está compreendendo? Quer dizer, pega o negócio e “eu te colhi e eu agora vou te analisar na minha calma. Quer você se mexa, quer você não se mexa; quer você dê uma cambalhota, quer você não dê, o flash que eu queria colher está colhido. Vai ser levado para meus laboratórios interiores para te analisar e para te julgar”

Olhem a calma do Grão-Mestre, a distância psíquica e o olhar meio oblíquo. Ele não está olhando para ninguém, mas ele tem uma difusa desconfiança deste [monge?] que está aqui. Difusa. É a desconfiança do chefe, que sabe que em qualquer muralha, de repente, vem o adversário. E que — me perdoem, eu vou dizer isso olhando para cá —, que em qualquer colaborador, por mais bem amado que seja, de vez em quando o demônio faz um ataque, e de vez em quando a muralha cambaleia. Isso é preciso reconhecer.

Então, a carona dele … [inaudível] …será que não tem? Como é isto? está compreendendo. E a gente vê que o domínio que ele exerce sobre todo esse pessoal, é um domínio feito dessa distância psíquica e desses registros de personalidade diferentes que se movem. Ele é um tipo esplêndido como… [ilegível] … Há uma teoria do mando, aqui, e do mando de uma Ordem militar e sacral que é magnífica neste velho. Os senhores querem ver, por exemplo, outra coisa: é ou não é verdade que esse velho é inteiramente militar? Tem tudo. Os senhores podem imaginar este homem combatendo a qualquer hora. Bem.

Mas não é verdade que o corpo dele é de militar, a cara é de um general, mas o olhar é de um homem de pensamento, um homem de ação, de um diplomata? O que é que descreve melhor um Grão-Mestre da Ordem de Malta senão isso? Evidentemente, não é?

Bem. Agora, o traje: couraça, um colar com uma insígnia, [hermíria?], que é um principado e um manto, que eu me comprazeria em imaginar de um violeta quase vermelho-escuro. É como eu imaginaria bem esse manto. Bem. [Ermíria] é um principado; ele devia usar uma coroa. Ele não tinha uma coroa. O que é que isto, entretanto, lembra de coroa? Porque isso lembra alguma coisa de coroa. Os senhores sabem o que é? Aquela toucazinha interna das coroas de príncipe, não de rei. Mas de outras que exatamente tinham uma forma muito análoga a essa. É o príncipe soberano, Grão-Mestre da Ordem de Malta que está com o [afure?] que lhe convém; é um símbolo.

(Sr. –: … [inaudível] …)

É um …….. Muito.

Quer dizer, o personagem está magnífico.

Não sei se está bem objetiva a descrição do personagem ou querem fazer uma pergunta, qualquer coisa.

(Sr. –: …outro personagem…também. O senhor acha de uma outra Ordem que foi confabular com ele?)

Não. Deve ser um homem que participa do poder dele.

(Sr. –: O terceiro para cá.)

Ah, não. Aqui é uma espécie de estola.

Esse aqui?

(Sr. –: É.)

Eu interpreto ao menos como sendo uma espécie de estola.

(Sr. –: Mas não de arminho.)

Não, não, não. Uma estola com bordado. Ao menos é como eu interpreto. Aqui me parece que é arminho. Bem.

Agora, os senhores estão vendo que a sala se compõe de três tipos de personagens: os senhores estão vendo que há guerreiros, inteiramente armados a la medieval, eles estão um pouco esparsos por vários lados da sala, depois os senhores estão vendo que existem homens de governo, existem clérigos — os senhores estão vendo aqui — e existem homens de administração. Bem. Que compõem o conjunto da Ordem de Malta, e que não estão apresentados em bancadas distintas, mas estão apresentados meio misturados para darem uma idéia de conjunto. E a gente vê que o Grão-Mestre está traçando planos e que o que ele diz está sendo recebido com uma colaboração fantástica por todo mundo. Os senhores vejam estes guerreiros aqui que estão numa atitude quase de oração. Estes aqui estão em profundo recolhimento e são uns velhinhos que estão um pouco babando, que têm uma sabedoria quintessenciada, foram experimentados em cem coisas e que deu um ou outro conselho raro; eles nem estão conseguindo acompanhar as coisas, mas têm um lugar de honra, porque as honras não se perdem. E eles estão percebendo a linha geral e estão profundamente recolhidos e comovidos. A atitude deles significa “a tradição continua”. Mais ainda, ela cresce. Eles estão embevecidos com as decisões do Grão-Mestre que para eles, que para eles é um menino, porque esse grão mestre tem uns setenta anos e eles, embora da mesma idade, estão com estado de espírito de noventa. Bem.

Agora, aqui os senhores, então, vêem outros. Este aqui está colaborando com o Grão-Mestre. É a éminence grise, é o Maquiavel esperto que está vendo alguma coisinha sutil, que até o está preocupando um pouco — cara de conselheiro florentino, entende — está preocupando um pouco e está cochichando: “tal coisa…” E o Grão-Mestre olha para a mesma direção que ele, o que dá exatamente a idéia da consonância dos dois, não é? Bem. Depois, olha como ele nem fala, ele está aprontando para falar. Ele está acabando de olhar e já está cutucando para dizer qualquer coisa para o Grão-Mestre. Notem bonitas relações entre ele e o Grão-Mestre. Ele é um personagem de penumbra. Vejam como ele não está paramentado nem nada disso; ele parece um religioso porque aqui está uma cruz. Deve ser algum Capelão da Ordem. Mas notem de outro lado a intimidade: como ele está junto do Grão-Mestre, colado no Grão-Mestre, e a familiaridade com que ele pega no Grão-Mestre; é um conselheiro íntimo, sujeito ao seu senhor, mas tão íntimo que tem com ele uma certa igualdade e, de um certo ponto de vista uma certa superioridade, porque ele é o especialista em sutilezas, em velhacarias. Assessor de que todo superior precisa. De maneira que aqui está ele. Bem.

Aqui os senhores tomam uma outra cara que está como quem está aprendendo, surpresa e muito [arguto?] e muito embevecido.

Aqui os senhores têm… Esse quadro poderia chamar se chamar, com o aspecto natural da coisa e não sobrenatural, o quadro do enlevo.

Aqui os senhores têm outra cara recolhida e como quem diz: “como isto confere com os princípios gerais que eu sempre contemplei e sempre amei”.

Aqui é mais poca, mas também italianão, hein? A Itália está muito bem — …[inaudível] …seria de conversadores italianos — a Itália está aqui muito bem representada: italianos com cara dramática tipo [Gabri?] magníficos não é? Aqui tem em quantidade, está compreendendo? Aqui italianão meio decrépito… [inaudível] …físico, posto numa posição alegre de não saber qual é, teso ainda, e que concorda com isso, sem saber mas muito bem do que se trata, não é? É a fé cega.

Aqui é a lucidez. Aqui é uma semi lucidez: “mas, eu topo a parada, porque estou com dois ou três pontos vendo que tudo está bom e o resto vou para a frente”.

Aqui é o contrário, aqui é uma coisa assim: o homem, que, aliás tem uma caixeta de segredos na mão — segredo naquele tempo se guardava assim — e com uma cara misteriosa e um ligeiro sorriso, como se ele soubesse, está compreendendo? Como quem diz: “esta turma toda não sabe umas tantas coisas que eu tenho à mão, como justificam isto. E com isto está esplêndido”. É uma outra forma de sentimento.

Esse, literalmente, está rezando.

Os senhores estão vendo que inteligência compôs esse quadro, não é? E depois, meus caros, me permitam um parêntesis, hein. Como é agradável viver quando a gente entra nessa escola. A gente não precisa ligar rádio quando a gente está em presença deste quadro. Tem o quadro, a gente passa uma tarde. Mais ainda, mais ainda: sabem como é que é gostoso ter esse quadro? É a gente por tudo isso dentro da cabeça e, de vez em quando, encontrar um conhecido dentro do quadro na hora em que está assinando um papel, na hora em que está passando para atender um telefonema, dar uma olhada e consolar-se do corretor horroroso com que vai falar, olhando para uma dessas caras, ouviu. Isto é magnífico, mas é magnífico. É assim que se vive! Entretenimento é isto, a meu ver. Os senhores vêem que uma pessoa tem esse quadro, pode passar horas… Isto alegra a vida de um homem, é um fator bem estar para o homem. Bem .

Este está literalmente rezando. Isto é uma cara confusa, num fundo confuso, e meio de [tratativas?], é meio medíocre este aqui. Todos os níveis de pessoas estão misturados dentro disso.

Aqui, é muito devoto, muito bom, um pouco bobão. O jeito dele é um pouco assim meio portuguesão no sentido pejorativo. A palavra comporta mil sentidos ótimos, mas aqui está um pouco pejorativo. Mas na hora de matar ele mata mesmo, está compreendendo? Ele aqui, ele está muito envelhecido e quando chegar a hora de matar ele diz: “Não. Eu tinha aquele plano, eu agora vou furar e rachar”, está compreendendo? É o poder executivo, está compreendendo? Por isso representado com mais… com barba mais preta , mais moço, ele é uma espécie de benjamim, depois muito conservado, não é?

(Sr. –: Ele está com a mão na espada, não é?)

Ah, é verdade! Eu não tinha notado. Ele está com a mão na espada. Que é o espírito dele. Bem.

Notem o enfeitão dele. O enfeitão prende uma capa. É um enfeitão pesadão, entende? como ele é pesadão. Ele é feito para esmagar. É tipo calcanhar de Nossa Senhora: pega a serpente e lhe esmaga os miolos mesmo! É ótimo. O que é preciso, em última análise, no meio de vueltas y volteretas, é preciso chegar à serpente e acabar com ela. Isso é que é preciso. E é do que este homem está cheio, entende? Dele se poderia dizer zelo zelatus sum pro Domino Deo exercituum. Bem.

Agora, este aqui, está muito bem apanhado. Porque, não sei se os senhores notam que ele faz um pouco bando à parte e em relação a esses aqui, ele está como ele está em relação a todos os outros. Ele tem um papel que um está vendo; ele está um pouco isolado do conjunto e ele está como que conferindo o que o Grão-Mestre diz, não é verdade? Ele está fazendo não um plano de oposição, mas é uma forma de colaboração que consiste em dar os contrafortes. Então é o tipo de francês calvinista: todo esse cabelo dele para trás, com essas entradas grandes, e depois o nariz que pende e uma barbinha que escorre, é fel; na ponta dessa barbinha tem uma gotinha de fel, entende. Olhos muito precisos, mas dessas caras que [dizem]: “Eu não sei porque, henhenhen…” É o jeito dele. Bom. E ele tem um papel que até certo ponto pode atacar o Grão-Mestre em falso[?] Ele está conferindo.

Mas olha a calma do Grão-Mestre. O Grão-Mestre “nem te liga”, deixa ele vir com a [orquestração?]. O Grão-Mestre paira acima dele completamente, está compreendendo? Não tem medo. Mas nenhum. Ele também não está com vontade de derrubar o Grão-Mestre. O Grão-Mestre toma esta cara de oposicionista e enfeuda-o no seu sistema como sendo o corretivo dele próprio. Está muito bonita esta forma feudal de colaboração.

(Sr. –: Por que ele está sentado?)

Parece exatamente que ele está fazendo um trabalho que é um trabalho de conferir o que o Grão-Mestre comenta, dá notas, etc. A função dele é [quando] o Grão-Mestre tem um lapso de memória, ele corrige. Ele é o revisor do Grão-Mestre, está compreendendo? Essa é a posição.

(Sr. –: … [inaudível] …)

Pode ser também. Ou… [inaudível] …, mas ele está de couraça, é pouco provável. Bem.

Dá uma idéia de rara firmeza de espírito, hein, esse homem aqui. Rara firmeza de espírito. Mas nas vias de santificação a mais perigosa, hein. Eu dou graças a Nossa Senhora por não me ter pedido que entrasse nessa via, ouviu…

(Dr. Luiz Nazareno: São Tomé…)

Como é?

São Tomé, esse gênero de gente assim. Bom.

Mas, estes dois aqui sofrem uma certa influência dele e estão acompanhando muito embevecidos a esta história e a atitude dele, não é? E como quem quer ver como é que sai… eles estão testando o Grão-Mestre. Agora o que tem nesta figura de bom é que ela está entusiasmada pelo fato do Grão-Mestre estar acertando. Esse gênero de gente fica horrorosa quando fica desapontada porque não pode fazer uma objeção. Ele está entusiasmado porque o Grão-Mestre está acertando.

Caras muito pensativas, hein. Muito bem apanhadas na meditação. Bem. O resto é galeria, não é? E os senhores olham essas caras, aqui, por exemplo, é cara de galeria; não estão “capiscando” grande coisa. Está segurando a grande [laeçona?] dele… e está acabado, não é? Bem.

Ele está cheirando o ambiente e concorda genericamente com o ambiente, mais nada. E aqui, mais ou menos as outras caras são assim.

Estes são a mesma coisa que estes mais com certo enlevo, não é? E assim se perde o quadro. Bem.

Numa sala sapiencial, um verdadeiro Conselho reunido. Onde o homem arquitetônico, colocado na posição arquitetônica, diz a palavra arquitetônica. Com a colaboração e depois o reflexo se distribui em tudo que ele diz em todos. Todos estão participando de uma mesma sabedoria; isto é a sala do Conselho recolhida, sapiencial e medieval de uma Ordem de Cavalaria. Eu acho este quadro soberbo.

Não sei se eu — eu não… [inaudível] … — mas se alguém quiser fazer uma objeção, ou uma retificação, ou qualquer coisa, estou inteiramente à disposição.

(Dr. Luiz Duncan: Doutor Plinio, o senhor disse que o olhar do Grão-Mestre era de desconfiança com certo grupo lá…)

[inaudível]

(Sr. –: O senhor nota algum fundamento desta desconfiança?)

É gente que nem está no quadro, ouviu? A fisionomia do Grão-Mestre e deste aqui olham para muito mais longe. E, depois, este olha com o olhar de detetive, de velhaco, meio assustado. Este olha com olhar de chefe. Diz: “Não, eu preciso ver, mas eu agüento a mão”. Ele não está assustado.

Quer dizer, o quadro é um mimo de estudo psicológico.

(Sr. –: Seria uma praça sitiada, nesta zona de ataque. Uma coisa mais séria por este lado.)

Mas eles não estão… estão preparando… Eles não estão com a atenção posta no centro do foco.

(Sr. –: … [inaudível] …)

É guerreiro hospitalar; infelizmente eles não têm uma finalidade doutrinária, etc., etc., além de converter, naturalmente.

(Sr. –: … [inaudível] …)

É. Bom.

É ou não é verdade que a gente compreende o bem que isso possa fazer a Comissão do Movimento. Um bem enorme, não é? É ou não é verdade que seria altamente desejável — e com isso a Comissão do Movimento dá um belo exemplo — , seria altamente desejável que quadros assim existissem em todas as nossas sedes. Porque forma muito. Um quadro desse tipo, por exemplo, — já que meus olhos caíram no Duncan e no Paulo Eugênio — na sede do Rio, como faria bem. No dia em que [Camões?], está compreendendo.

Mas, não acham que seria, por exemplo, para qualquer sede uma coisa benfazeja. Qualquer um dos senhores não gostaria de ter no respectivo quarto de dormir, para acordar, para levantar, um quadro desses?

Se os senhores consomem mais um comentário, vamos ver… alguém quer me perguntar algo disto…

(Sr. –: …………vai trazer a porta?)

É.

[Segundo quadro: escadaria da Catedral de Burgos]

Eu de propósito deixei os senhores olharem um pouco antes de começar o comentário, porque isso produz muita primeira impressão que é preciso por em ordem, porque é tão diverso do que a gente imaginava, como eu não sei dizer.

(Sr. –: …………eu não tinha)

Não… a outra coisa eu conheço bem. É incomparavelmente inferior a isto aqui.

O que prova… [inaudível] ….sabe por que? O gravador fez com tanta arte, que o que o olho não pega, a fotografia aponta)

É.

(Sr. –: Aquilo não seria fotografia, e que isso é mais próximo do tamanho original da gravura?)

Não. É gravura autêntica.

O Caio viu a gravura… ou o Eduardo. Aqui é gravura autêntica, não é? Não é litogravura.

Bem. Isto aqui é uma escada interna da Catedral de Burgos

(Sr. –: Vista interna da escada da Catedral de Burgos.)

Vista interna da escalera superior da Catedral de Burgos. É isso. Bem.

E, a meu ver, no gênero é — no gênero — é a arqui-escada. Porque tudo isto foi construído apenas para as pessoas saírem por aqui. Não é isto? Ou para chegarem até aqui. Os senhores estão vendo que há aqui uma escada, um lance, dois lances e chega aqui, não é isto? Então, a coisa tão banal, dois andares que devem dar acesso ao térreo da Catedral, aqui um andar, outro andar aqui, para fazer isto o artista inventou essa verdadeira epopéia, porque a meu ver isto é uma maravilha, simplesmente. E é uma maravilha de ordenação arquitetônica. Este quadro poderia ter o seguinte título: “Elevação e coerência”. É o que está aqui dentro; eu acho simplesmente estupendo. Bem.

Quem sabe se nós fazemos um comentário. O primeiro comentário é, aí, a elevação e o segundo comentário é, aí, a coerência.

Os senhores estão vendo aqui a elevação. Ele colocou três, quatro portas, indicadas uma em cima da outra: uma aqui, outra aqui, uma porta cega aqui e uma janela lá. Formando, portanto, ao longo de um muro muito alto, toda uma linha perpendicular muito elevada. Tão elevada que, no olho do homem ela como que se perde no céu. Porque o olho do homem atinge até aqui e a atenção dele fica vagamente atraída pelo resto. E, então, como que se perde no céu. Isto é como que [defeito na gravação] no céu a atenção humana. O céu da atenção humana pára aqui. … [inaudível] …que paira lá para cima. Bem.

Agora, os senhores estão vendo que de fato a atenção fica concentrada em torno dessas duas portas. Os senhores querem ver como perde se não pusesse isto? Os senhores imaginem que não houvesse isso aqui e fosse uma parede lambida; ficava pesadão e chato isso aqui. Seria interessante colocar aí um jornal, por exemplo, qualquer coisa, e os senhores veriam imediatamente como perde. Não sei se querem fazer.

[O Senhor Doutor Plinio cobre com algo]

Olhem como imediatamente fica pesadão.

Dá para outra direção, ai se sente melhor.

Olhe lá, como imediatamente fica pesadão.

Agora, é um problema, a obra-prima de equilíbrio é ter feito aqui uma coisa [pungente?], tirou, fica pesado. E isso foi obtido com esta janela cega em cima. Veja que artifício curioso.

Obrigado.

Bem. Por que que foi feito assim e não o contrário: aquela janela aqui e isto aqui; trocar. Pesava de novo. E depois isso aí ficava tão tênue aí que se perdia na noite dos tempos. Era preciso aqui tênue, depois algo mais enunciado ali e… [inaudível] …Então, aí, essa linha vertical fica assegurada e o que isto tem de pesadão fica resgatado por duas coisas: isto e pelo vigor da porta. A porta é uma porta forte e que sustenta algo.

Então, a idéia de leveza desse moucharabié — isso não é uma espécie de moucharabié, no fundo? — a idéia de leveza da coisa pesada, e que é o triunfo da arte, é o forte leve, o pesado leve, fica assegurado sem que 90% dos observadores se dê conta do porque. É puro jogo, jogo de ótica, exclusivo jogo de ótica. Mas isso é ter ótica, o resto não é ter ótica, é ter olho. É coisa muito diferente de ter ótica… [inaudível] …humm! Ele entendeu.

Mais engraçado é o seguinte: isto eu não explico. Eu acho que historicamente falando, esta janela foi feita por engano e depois enchida. Essa janela foi feita por razões utilitárias e que deu bonito assim. Eentretanto, os senhores estão vendo que é o que estou dizendo porque não tem conversa.

(Dr.Luiz Nazareno: …. “ moucharabié”, ou… )

É. A perspectiva confunde um pouco, porque realmente aqui tem-se a impressão que não tem passagem e a certa altura aqui parece que está colada. Mas, a meu ver, é defeito de visão, porque do contrário esta escada não teria sentido.

(Sr. –: …….. ……….. em baixo ,,,,,,,)

É, exatamente. É. Olha lá, está vendo?

É e resolve, no caso.

(Sr. –: E depois tem aquelas duas como que galerias que estão talvez se encontrando.)

É. Olha as duas mulheres estão subindo a escada. É um defeito de perspectiva da gravura.

(Dr. Eduardo Brotero: Aquilo não pode ser um pouco o que o senhor disse do remendo?)

Do que?

(Dr. Eduardo Brotero: Do remendo arquitetônico?)

É. Mas, sobretudo você sabe o que é que há? Há um mistério aí que vai longe… nem eu vou tratar disto aqui. Em geral a obra de arte grande excede a própria intuição do artista.

(Sr. –: Não é um problema de ……..)

Uma [vidente], não sei o que que é, viu. Benção da Civilização Cristã, eu não sei o que é que é, entende. Porque o… [inaudível] …não teve a intenção de fazer isso.

(Sr. –: … [inaudível …)

Talvez, mas que tenha tido a intenção, mas que tenha tido a intenção de fazer esse jogo de ótica, eu acho que não.

(Dr. Paulo Eugênio: ….pouco antes de onde essas ogivas saem e … outros planos, no mesmo plano que … pode fechar para colocar …)

É. Pode perfeitamente ser. Mas o que não exclui a idéia de que produzir essa harmonia vertical, provavelmente não foi a intenção de quem fez a ogiva. Foi a de produzir outras harmonias.

(Sr. –: Depois ela não continua para baixo. É só mesmo ……. Não era …..)

É.

E aí, pode haver uma galeria de ogivas aqui. E essa é necessária para completar a galeria. Perfeitamente verdade. Não exclui o fato de que ela salva do pesado o moucharabié e que esse salvar do pesado o moucharabié provavelmente não esteve nas intenções de quem fez.

(Sr. –: isso foi feito em épocas diferentes, não é?)

Provavelmente até.

(Sr. –: … [inaudível] …)

Depois, tanto mais que o que está aqui é muito mais artístico.

(Sr. –: Perece que foi intencional mesmo, porque… [inaudível] …)

Se podem por mil enfoques a esse respeito. O fato concreto é que salva o pesadão com esse moucharabié. Bem. Aqui os senhores têm elevação, não é verdade?

Agora aqui os senhores têm diferente. O próprio da marcha do pensamento é o seguinte: afirmado um princípio em toda a sua riqueza, ele dá origem a um leque de conseqüências. Agora, esse leque de conseqüências visto no seu conjunto, dá origem a uma conseqüência terminal que é a fiel imagem do princípio inicial. O pensamento humano anda em forma de losango. Ele se abre, se abre, se abre quando são tiradas dele todas conseqüências, o pensador diz: “Bem, mas tudo isso posto, o que é que se conclui? Conclui-se tal coisa”. Esta tal coisa concluída é a imagem final do pensamento inicial, é o correlato final do pensamento inicial.

Aqui os senhores têm uma nota inicial de harmonia. Olhem para o teto do moucharabié, o corpo do moucharabié, e depois os senhores vêem aqui como ele se abre, não é verdade? Aqui essa base. Base, corpo e teto formam uma harmonia bonita e que peanha… [inaudível] ….Uma verdadeira obra de arte, uma renda, essa peanha, e como termina e carrega bem o moucharabié.

Os senhores têm aqui uma ponta e outra ponta. Estas duas pontas são simétricas e constituem os dois pontos extremos harmônicos do moucharabié e sempre rampa: aqui é uma rampa que termina aqui, aqui é uma rampa que termina lá. Quer dizer, todo ele é feito de harmonias correlatas que dão idéia da lógica, que dão idéia do equilíbrio, da proporção do moucharabié, e que a meu ver é uma verdadeira beleza. Bem.

Agora, esse moucharabié assim concebido é algo rico em sugestões que se desdobra, como se fossem grandes leques de conseqüências de harmonias que saem daqui, como seria, por exemplo, de uma fonte, dois braços de rio e que chegados ao extremo começam a voltar para a linha essencial. É a forma de losango do pensamento. Os senhores estão vendo que aqui há um losango posto nessa linha, não é verdade? e que dá uma idéia de coerência: aquilo que se abriu se fecha, aonde se abriu. A causa volta, desdobra seus efeitos que volta até a própria causa. Então como ponto terminal, essa magnífica manifestação de certeza: os senhores têm esses dois braços que descem aqui e aqui que desce aqui. É uma espécie de proclamação. Na hora que se esperaria que a escada fosse morrer pocamente, ela como que ressurge e se desdobra em dois movimentos diversos, de maneira que o fundo da escada… mas aí a gente quase não vê mais a escada morrer, a gente já não percebe mais a escada, não é isso? de tal maneira ela termina magnificamente. Esse trecho é soberbo é a… [inaudível] …fundamental da … [inaudível] …segura e proclamativa… [inaudível] …o que isso têm de muito compacto em comparação com o filigranesco disto que está aqui. E hierático, esse dragões pensam e parecem dizer: “Isto é assim mesmo, e eu ataco quem negar”. A gente diria, a vigilância e a força a serviço do sacral. É o que fica no fundo, assim, esfumaçado.

Bem. Agora, essa idéia de que o moucharabié que enquadra uma coisa mais delicada e mais interna, esta idéia é muito tapete na consideração desta porta. O moucharabié tem seus segredos. É como que um Sacrário. Essa porta como que é um fundo também, é uma porta profunda também e ela mesma com uma arquitetura esguia, — as coisas da renascença em geral são achatarradas — esta é esguia, os senhores estão vendo que estas figuras têm [de seus?] análogos aqui, e que constituem uma moldura magnífica para algo que vai lá para o fundo e que dá uma idéia mais uma vez de Sacrário. Que isso aqui tudo é moldura para guardar um mistério qualquer que está por trás. É o senso do mistério de tantas obras de arte magníficas. Pode ser a porta da rua; mas pouco importa. Para o olho humano, arquitetura é isto. E a meu ver isto é um exemplar magnífico de coerência. Isto é elevação, coerência que estão esplendidamente expressas aqui.

Talvez seja um pouco subjetivo isso, mas não se trata de trata aqui de jogar com fisionomias humanas, mas com coisas puramente geométricas, de maneira que é bem difícil exprimir bem isto. Bem.

Agora, o bonito é o seguinte: a pequena vida de todos os dias ao pé do monumento. Duas mulheres ainda meio mouras, — os senhores estão vendo que são meio mouras, não é? A gente não sabe se são mouras ou [freiras?]. Também a gente não sabe até que ponto se distingue uma coisa da outra.

(Sr. –: … [inaudível] …)

Tem de meio moura, tem qualquer coisa de moura. Bem.

E que é o arabesco, não é. Embora as linhas não são árabes, tudo isso é um arabesco, não é?

Bem. Aqui este homem que sobe aqui, espanholão forte, vigoroso, não é verdade? E aqui, um casal que conversa, um homem que está fazendo não sei bem… ah, está indo a uma pia de água benta, e uma mulher que está lá sentada descansando, meio rezando meio descansando. Depois, aqui um grupo que conversa e dois homens que conversam também, com as suas espadas. E aqui umas imagenzinhas para a vida cotidiana: lápides, etc., etc.

Esta visão nos conduz às parafernálias do monumento; são magníficas também. Os senhores já perceberam que beleza essa espécie de bacia que não sei para que é que serve? Que trabalho. Como ela compensa com a sua singeleza de linhas, o que ela tem de muito trabalhado. Bem. E como ela compensa… ela, ela… se diferencia bem desta coisa aqui. Olhem duas pias: uma aqui e outra, uma espécie de concha soberba que mantém essa [tina?]. Agora os senhores vêem aqui uma coisa que eu não sei bem o que é que é, porque está outra [tina?] ali…

(Sr. –: Não é um túmulo?)

Talvez. Um monumento funerário, talvez. Bom. Mas que é todo deste estilo. Mas que ao mesmo tempo já não têm nada que ver com isso. e que enche esse espaço. E aqui uma outra porta pequena, muito bonita. O painel está completo.

E está feita uma coisa que, ao meu ver, é simplesmente um magnificência.

(Dr. José Fernando: O senhor viu isto em Burgos?)

Não. Eu comprei essa gravura na Espanha. Duas gravuras a Catedral de Burgos, inclusive essa, mas no momento que eu estava desarrumando minha mala vindo da Europa, uma pessoa que estava me ajudando a desarrumar a mala pediu a gravura. Mas quando Eduardo e Caio me falaram da Comissão do Movimento, eu então sugeri de mandar fotografar isto.

(Sr. –: … [inaudível …)

Isso aqui é um gótico flamboyant, não é? A gente diria que isto é o contrário do gótico. Um preciosista em matéria de estilos — eu não sei se os senhores têm o desdém que eu tenho em relação aos preciosistas em matéria de estilo — um preciosista me diria: “Doutor Plinio esse monumento não tem valor nenhum, porque ele é uma mistura de estilos. … [inaudível] …é uma mistura…” Eu tenho vontade nem de falar, nem eu [percebo?] Tinha vontade de nem repetir o que ele disse, está compreendendo? Mas, enfim é preciso. Ele diria: “Isto aqui é encaixe de tradições árabes em linhas renascentistas, e portanto uma coisa espúria, que não tem pureza de estilo, nenhuma! Eu não vejo porque que o senhor se embevece com isso. Isso é um mucharabiá árabe, há qualquer coisa de filigranesco em tudo isto, e o senhor quer maior horror do que uma porta Renascença encimada por um moucharabiá. O senhor é um homem sem finura nenhuma, o senhor é um cretino, o senhor não compreende quais são as exigências do purismo de estilo”. E o único jeito é responder como a “Viúva alegre”: … [inaudível] … hahaha, … [inaudível] …hahaha, o senhor permita hahaha que eu dê gargalhada hahaha”, está compreendendo? Porque é isto, acabou-se. Não se responde de outro jeito.

Isto é lindo, não é? Me lembra da teoria de um grego a respeito de galinha. Eu não sei como é que ele provou que galinha não podia andar. Um outro pegou uma galinha e soltou e disse: “E agora?” está compreendendo? Eu dizia também : “estilo puro brababa dá em feio, não é? E agora?” Eu qualifico de cretino quem diga que nisso não há beleza em tudo isso. É mais que evidente, não é? Bom.

Agora, a questão é a seguinte, é que o estilo, a sabedoria… Ah, aqui os senhores têm a coisa gótica. Então Caio perguntou muito bem, como é que se harmoniza com isto. Porque se harmoniza. Se harmoniza a tal ponto que esta janela é indispensável para compor esse quadro. Bem. Então como é que harmoniza? O espírito disto aqui ainda é o espírito gótico. Embora a decoração e os desenhos sofram influências renascentista e influências árabes, o espírito é gótico. Os senhores sabem por que? Aqui, esta fachada é uma ogiva; esta linha é perfeitamente ogival e é por isso que ela se casa com esta ogiva. Isto poder-se-ia se chamar “variações dentro de uma ogiva”. É como isso poderia chamar. E a nota ogival está acentuada por isso. O que a ogiva tem de mais alto é o que nela predomina. Depois. Toda esta coerência, não é?, está também muito posta na coisa ogival, medieval. E aqui os senhores têm outra ogiva, de maneira que, no fundo, são dois jogos de ogiva: uma ogiva terminada por um moucharabié, e uma ogiva terminada num ponto ideal marcada entre estas colunas magníficas. Quer dizer a ogiva está presente no que isso tem de dominante, mas há uma certa leveza da decoração gótica que está presente aqui e ali. E que é uma mesma leveza difusa em tudo isto. Os senhores então encontram o casamento do gótico com isto.

Isso é a coisa como eu a vejo. Eu concebo que eu vejo bem que não estou dando nenhum argumento para provar a visão. Isso também não tem provas, não é? A gente diz e uma pessoa que não vê, aceita ou não aceita. Prova não tenho. Eu não posso provar que isso aqui é bonito. Ou a pessoa acha isso bonito, vamos dizer a pessoa x y e z poderia achar que isso é feio, ou que, por exemplo, haveria belezas para acrescentar nisso. Mas eu acho que isto aqui deveria ter uma sacralidade cem vezes maior do que tem, e há muita escadaria italiana que é menos bonita do que isto, e que a famosa escadaria da ferradura de Fontainebleau é menos bonita do que essa. Eu acho isso aqui mais bonito.

(Sr.Patrício Amunátegui: … comentando la grandiosidad com a graciosidad. Ahora non percalça esses valores…)

É uma pergunta muito boa.

(Sr. –: Grandiosidade e…)

E a graça… o gracioso. O grandioso e o gracioso. É uma pergunta muito boa porque exatamente aqui se nota muito. A linha é absolutamente grandiosa, toda ornamentação visa ao gracioso e compensa o que o grandioso tem por demais severo. Você não vê ai um ornamento que não seja tão ameno que quase convide ao sorriso, exceto essas duas colunas, com isto aqui que são o terrível; já não é só o grandioso, mas o grandioso terrível.

Não sei se repondo bem, Patrício.

(Sr. –: O segundo lance da escada lá é… [inaudível] …)

E acentua o aspecto ogival da coisa, não é? Quer dizer, … [inaudível] …não é um quadrado posto assim, mas é propriamente um losango. E mais ainda, é esta inclinação muito acentuada desta escada que pede esta compensação, que freia aquela.

(Sr. –: É planejado o fundo…)

Isto aqui? Isto aqui não… [inaudível] …mais não. O senhor vê que a minha vista está me enganando.

(Sr. –: É a perspectiva.)

Agora estou vendo que é. Estou vendo que é.

(Sr. –: … [inaudível] …)

É. E sabe isso o que tem?… É um quadro muito significativo; eu agora faria um teste.

Qual dos dois quadros os senhores acham mais formativo? Os que acham mais formativo o Grão-Mestre… querem por um ao pé do outro para decidirem ou não.

Qual dos dois os senhores reputam mais formativo? Os que reputam mais formativo o Grão-Mestre levantem o braço, deixe eu ver.

Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete.

Os que reputam mais formativo esse aqui, levantem o braço.

Um, dois três, quatro.

(Sr. –: …[inaudível … brasileira… [inaudível] …)

[O Senhor Doutor Plinio dá uma forte risada]

É. Mais qual o que tem mais densidade?

(Sr. –: é o de baixo.)

E quais são os que ficam na dúvida, levantem o braço.

Um, dois, três, quatro, cinco.

(Sr. –: …pode ser subjetivo,,,)

Ah, pode. Ah, você diz conforme um… é claro. E legitimamente subjetivas: quer dizer, um tem mais visão para uma coisa, outro mais para outra.

(Sr. –: … [inaudível] …)

É. Exatamente.

(Dr. Luiz Duncan: poder-se-ia dizer que objetivamente um é mais valioso do que outro? Aqui há mais valor de alma, mais valores humanos, analisados na própria pessoa humana. Enquanto que lá reflete estado de alma também do artista, e tudo isso…)

Aí peca muito pelo individual, está compreendendo? Ilegitimamente individual. Para mim, uma coisa arquitetônica qualquer é mais expressiva que a própria fisionomia humana. Para mim. Eu sei que em si não é. Mas é para mim. Em si não é. Mas é muito individual isso.Peculiaridades legitimamente individuais. E deve exercer largamente nessas coisas.

(Sr. –: … [inaudível] …)

Tem muito mais bom espírito dentro disso, tem mais valores sacrais, etc., etc. mas a nota que isto afirma é afirmada com mais eloqüência aqui. Vamos dizer, nenhuma das notas aqui está afirmada aqui com tanta eloqüência, quanto esta nota está afirmada aqui.

(Sr. –: O senhor nota a diferença.)

Noto a diferença. Mas isso torna muito difícil a comparação. Agora eu acredito o seguinte, hein. Dificilmente a Comissão do Movimento poderia conseguir dois quadros tão expressivos para a formação, como esses dois.

(Sr. –: esse aqui …[inaudível] …)

Mas eu compreendo muito bem, porque eu estou achando muito mais bonito aqui, do que na gravura que eu dei. Quer dizer, eu tinha me entusiasmado com aquilo mais eu encontro muito mais justificativa para o meu entusiasmo, nessa gravura do que na pequena.

*_*_*_*_*

1 Estava como Reunião Normal. Porém, além do áudio dizer que se trata de uma Comissão B, o tema — a análise de uma quadro da Ordem de Malta — é conhecido como tendo sido feito na Comissão B.

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