Santo
do Dia (Rua Pará) – 28/7/1967 – 6ª feira [SD
- IIA D 034] – p.
Santo do Dia (Rua Pará) — 28/7/1967 — 6ª feira [SD - IIA D 034]
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A convocação da primeira Cruzada por Urbano II em Clermont-Ferrand * Quanta beleza oferece esta cena, comparável à tristeza de nossos dias * Quantas faces serenas encontramos pela rua e, entretanto, passam-se coisas hoje em dia incomparavelmente piores do que o Santo Sepulcro dominado pelos infiéis * Os grandes movimentos de alma da Cristandade não se fazem sem grandes moções do Divino Espírito Santo — Devemos dizer as palavras, ter os gestos e alçar o estandarte que produza esse efeito * Uma prece a Nossa Senhora na gravidade das horas e dias que se aproximam
Hoje é festa do Bem‑aventurado João Soler, confessor, que foi prior geral da Ordem do Carmo. Fundou a Ordem segunda das monjas e a Ordem terceira. Século XV.
Amanhã, 29 de julho, será a festa do Bem‑aventurado Urbano II, Papa.
* A convocação da primeira Cruzada por Urbano II em Clermont-Ferrand
Os dados biográficos dele foram tirados do Spada:
Urbano II foi papa de 1088 a 1099. Defensor da liberdade da Igreja, continuador da obra de São Gregório VII. Promoveu a I Cruzada.
O Concílio de Clermont tinha como finalidade principal discutir a Cruzada. O povo esperava o dia da anunciada expedição. Finalmente o Papa satisfez a sua impaciência. Sentou‑se no trono, especialmente preparado para a ocasião, tendo ao seu lado o eremita Pedro. A seus pés uma enorme multidão: cardeais, abades, sacerdotes, monges, cavaleiros e o povo.
Após as palavras de Pedro, descrevendo o que vira em Jerusalém, Urbano II dirigiu‑se a todos: “Ide, irmãos, ide com esperança ao assalto dos inimigos de Deus, que já há muito dominam a Síria, a Armênia e os países da Ásia Menor. Muitos danos já fizeram: usurparam o Sepulcro de Cristo, os maravilhosos monumentos de nossa Fé, vedaram aos peregrinos o ingresso numa cidade à qual somente os cristãos sabem dar o real valor. Não é o bastante para escurecer a serenidade de nossa face?
“Ide e mostrai o vosso valor! Ide, soldados, e vossa fama se estenderá por todo o mundo. Não temeis perder o Reino de Deus por grande tribulação. Se cairdes prisioneiros, enfrentai os piores tormentos por vossa Fé e salvareis vossas almas ao perder o corpo.
“Não hesiteis, irmãos caríssimos, em sacrificar vossa vida pelo bem dos irmãos. Não vos detenha o amor à vossa família, à vossa pátria, ou às riquezas, pois o homem deve seu amor principalmente a Deus, e a terra inteira é vossa. E qual maior felicidade para um Cristão, ver, durante a vida, os lugares onde o Senhor falou a língua dos homens?”.
Às palavras do pontífice, os fiéis responderam unanimemente: “Deus o quer!”.
E Urbano II acrescentou: “Esse vosso grito não seria unânime se não fosse inspirado pelo Espírito Santo! Seja então essa palavra vosso grito de guerra, anunciando o poder do Deus dos exércitos! E quem empreender essa viagem deverá levar a figura da Cruz. A Cruz esteja em vossa espada e em vosso peito, sobre as armas e os estandartes. Seja ela para vós o louro das vitórias ou a palma do martírio, e a insígnia para reunir os filhos dispersos da casa de Israel. Ela vos recordará continuamente que Jesus Cristo morreu por vós e que por Ele deveis morrer”.
A partida da Cruzada foi marcada para 15 de agosto, festa da Assunção de Maria.
* Quanta beleza oferece esta cena, comparável à tristeza de nossos dias
Os senhores vêem quanta beleza oferece esta cena. Quanta beleza comparável às tristezas de nossos dias.
Em primeiro lugar, o Concílio de Clermont: um concílio sob a presidência do Papa e — ó coisa maravilhosa! — um Santo sentado na Sede de São Pedro! A luz colocada num candelabro, para iluminar todos os povos. Aquele que é o foco de irradiação da virtude, colocado na cátedra onde se ensina a verdade e o bem, e se dirige às falanges de Nosso Senhor e de Nossa Senhora para a luta contra o adversário.
Este homem, como um novo anjo, senta‑se na cátedra de São Pedro e se toma de zelo pela desventura dos lugares santos. Ele não pode tolerar que os lugares santos estejam de posse dos infiéis. Ele não pode suportar que seja tão difícil chegar até os lugares santos, e que se tenha que enfrentar tantas coisas, para ali se prestar culto a Nosso Senhor Jesus Cristo.
Mas, sobretudo, é o primeiro ponto que pesa: a glória de Deus ofendida pela posse pela parte dos infiéis de um lugar que a Cristandade é bastante forte para ter e para ali prestar o verdadeiro culto ao verdadeiro Deus.
Então, ele reúne um concílio e esse concílio, reunido em Clermont, na França, tem em torno de si uma multidão imensa que assiste à deliberação, e que espera o resultado da deliberação.
O Papa chega lá fora e se senta num trono, armado diante dessa população cheia de fé. Rodeiam‑no, naturalmente, os padres do concílio, e a gente tem ali uma miniatura maravilhosa da Igreja Católica, no esplendor de sua verdadeira beleza.
É uma assembléia em que está o Vigário de Cristo, um Santo! Em que estão os padres conciliares, padres movidos por um zelo autêntico da glória de Deus e que se reúnem em torno dele, numa atitude parecida com os anjos reunidos em torno de Deus.
Depois, a multidão dos fiéis fervorosos, entusiasmados, em cujos olhos se vê o espírito de luta e de sacrifício dos homens que vão para a Cruzada, das famílias que apoiarão esta resolução e que estão dispostas a todos os danos que o fato do chefe se cruzar pode trazer, para que o Santo Sepulcro seja libertado.
Cheio de eloqüência, perto do Papa, um simples frade. Vestido do modo mais pobre possível, mas com uma eloqüência de fogo: é Pedro, o Eremita.
Que coisa linda, um eremita que sai de seu ermo para se meter no mundo e para dizer coisas que só as almas que apreciam o silêncio sabem dizer. Aquelas palavras de fogo, aquelas palavras que movem, que comunicam a graça de Deus, que os homens que têm horror do silêncio não sabem dizer.
Ele fala, e depois fala o Papa. E o Papa, diante daquela multidão impressionada, o Papa tem algumas frases que a nós nos devem impressionar.
* Quantas faces serenas encontramos pela rua e, entretanto, passam‑se coisas hoje em dia incomparavelmente piores do que o Santo Sepulcro dominado pelos infiéis
Eu não farei contraste, eu não falarei — para só falar disso — da diferença daquelas multidões e essas multidões: as multidões de hoje e as multidões daquele tempo. As multidões de hoje, que falam da Idade Média como de uma época de impiedade e de atraso, as multidões demo‑cristãs de nossa época. Não faço esse contraste, nem outros contrastes por demais amargos para a gente fazer.
Mas eu tomo esse pensamento do Papa: “O Santo Sepulcro está em poder de infiéis. Vós não podeis ir lá para o devidamente cultuar. Vós o vedes de posse dos adversários da Igreja”. E ele pergunta: “Qual é a face que pode conservar, ante o que está aqui, a sua serenidade, pensando nisto?”
Quantas faces serenas nós encontramos pela rua. Entretanto, passam‑se coisas hoje em dia incomparavelmente piores do que o Santo Sepulcro dominado pelos infiéis.
Para só falar do que se pode dizer, e para não falar do que não se pode dizer e que é incomparavelmente mais amargo, pensemos apenas nas nações comunistas, opressas por uma tirania atéia. Isto não é muito pior do que o Santo Sepulcro dominado pelos infiéis? Não tem termo de comparação.
Entretanto, quantas faces tranqüilas! Faces que deveriam estar junto ao templo, junto ao altar, dentro do templo, chorando. Como estão alegres, piadísticas, desanuviadas!
Nós mesmos! Como estão nossas faces? E quantas vezes nossas faces se contraem pela preocupação de nossos interesses? E quantas vezes elas se contraem pelo zelo da Santa Igreja Católica?
Aqueles homens não conservaram a face serena. Mas eles eram seguidores verdadeiros de Nosso Senhor Jesus Cristo. Eles tinham a Igreja Católica verdadeiramente viva em suas almas. Eles eram presididos por um Santo.
Diante de um mal menor do que o que sofremos com tanta moleza, com tanta displicência, diante desse mal eles se moveram como um só homem e puseram a cruz na copa de suas espadas, nos estandartes, nos escudos, no peito, e se moveu aquela imensa avalanche para retomar o sepulcro de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Hoje em dia, quão poucas coisas assim!
* Os grandes movimentos de alma da Cristandade não se fazem sem grandes moções do Divino Espírito Santo — Devemos dizer as palavras, ter os gestos e alçar o estandarte que produza esse efeito
No entanto, o Papa aqui diz uma coisa que nos deve entusiasmar e afervorar: diz que a unanimidade com que a massa resolveu tomar a cruz, provava que era o Espírito Santo que estava falando lá. E indicava bem que os grandes movimentos de alma da Cristandade não se fazem sem grandes moções do Divino Espírito Santo.
Nós podemos pedir, nós devemos esperar que, in extremis, um sopro do Espírito Santo percorra a terra e que sejam muitos os homens acordados do seu letargo e capazes de lutar contra o inimigo que está pronto a dar o último golpe.
E nossa missão é exatamente de sermos o ponto de detonação, o estopim dessa grande explosão. Nós devemos dizer as palavras, nós devemos ter os gestos, nós devemos alçar o estandarte que produza este efeito. Numa hora de aflição, talvez para muitos fora daqui, numa hora de desespero que se aproxima…
* Uma prece a Nossa Senhora na gravidade das horas e dias que se aproximam
Então devemos pedir isto a Nossa Senhora: “Minha Mãe, olhai para as condições de minha alma. Vede que essas condições são tais, que eu não consigo de nenhum modo me preparar convenientemente para uma missão tão grande que Vós quereis atribuir não só à minha fraqueza, mas à minha pouca fidelidade. E por isso, minha Mãe, tende pena de mim e fazei com que Vosso Coração Imaculado, Vosso Coração Sapiencial seja como que transplantado para meu peito pecador; que meu coração tíbio, fraco — Vós ainda diríeis muitas coisas a respeito dele que eu não sei, que eu não quero ver — já não seja senão um prolongamento do Vosso e que se possa dizer que não é mais meu coração que pulsa, mas é o Coração Imaculado de Maria que pulsa em mim.
“Que eu não deseje outra coisa, senão querer o que Vós quereis, pensar o que Vós pensais. Dar‑me a Vós de um modo superlativo e completo, para que as virtudes que difluem de Vós e que de nenhum modo se podem encontrar em minha miséria e minha falta de correspondência , que essas virtudes que difluem de Vós animem a minha alma e que me movam às coisas que eu não sou capaz de me mover.
“Para que não aconteça, minha Mãe, esta desventura, que seria a desventura das desventuras: no dia em que Vós me pedirdes que eu tenha um ânimo varonil, um espírito decidido, um braço forte, eu não esteja pronto para o encontro convosco, no dia e na hora em que aparecerdes diante de mim pedindo‑me que lute!
“E o meio que existe para que esta desventura não suceda, é pedir‑Vos precisamente que Vós façais de mim um prolongamento de Vossa pessoa, que Vós me comuniqueis vossas virtudes e prepareis minha alma.
“Eu estou como o paralítico à beira da piscina de Siloé: preciso que alguém me carregue e que me jogue nas águas de Vossa misericórdia para conseguir isto. Eu Vos peço: mandai meu anjo da guarda que faça isto,que no momento oportuno me fale e que faça de mim um verdadeiro apóstolo dos últimos tempos, no sentido pleno e autêntico da palavra, no sentido completo da palavra, como está descrito por São Luís Grignon de Montfort na sua Oração Arasada.”
E esta nossa oração terminaria dizendo: “Ó Coração Imaculado de Maria, que sois uma fornalha ardente de caridade a exemplo do Coração Sagrado de Vosso Divino Filho, comunicai‑me todas as chamas de vosso zelo para que Vós, cuja prece conseguiu que a água insípida, fria e banal se transforma‑se num vinho saboroso, generoso e forte, fazeis de mim, pecador, um apóstolo dos últimos tempos”.
É isto que devemos pedir a Nossa Senhora na gravidade das horas e dias que se aproximam.
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