Santo do Dia (Rua Pará) – 12/7/1967 – 4ª feira [SD 066] – p. 6 de 6

Santo do Dia (Rua Pará) — 12/7/1967 — 4ª feira [SD 066]

Nome anterior do arquivo: 670712--Santo_do_Dia_4.doc

Situação do Norte da África quando da invasão dos vândalos * Sagração episcopal de Santo Eugênio * Malícia da Revolução quando fala das crueldades da Inquisição * O requinte de malícia da Revolução em nossos dias está em perseguir os fiéis e deixar os bispos em paz * A Revolução glorifica qualquer ato feito por patriotismo e coloca no esquecimento os mais sublimes, praticados por amor à Fé Católica * Firmeza dos católicos diante dos tribunais * Morte de Santo Eugênio, exilado no Languedoc

Amanhã, dia 13, é festa de Santo Eugênio e companheiros, na perseguição dos vândalos. Hoje, dia 12, continua a festa, a novena de Nossa Senhora do Carmo e amanhã também.

Os senhores estão vendo que é a festa, portanto, de muitos santos: Santo Eugênio e uma quantidade enorme de outros santos que foram vitimados durante a perseguição dos vândalos.

Sobre esta perseguição e sobre a vida de Santo Eugênio e sobre estes mártires, Godescard, “La Vie des Saints”, contém alguns dados impressionantes.

* Situação do Norte da África quando da invasão dos vândalos

Em 458, Genserico, rei dos vândalos e alanos, apoderou-se da África.

A situação era a seguinte:

Antes da queda do Império Romano do Ocidente, a África do Norte toda era romana. Era colônia romana e perfeitamente civilizada. Com a queda do Império Romano, os bárbaros começaram a invadir o império e em grande número estes bárbaros eram arianos, quer dizer, cristãos já batizados, mas hereges, e dotados de um verdadeiro furor contra a Igreja Católica.

Uma nação mais feroz do que as outras, a nação dos vândalos, atravessou a Gália, que hoje se chama França, depois atravessou a Península Ibérica e foi ter na África do Norte. E na África do Norte, então, atacou as colônias romanas florescentes que havia naquele tempo, em que uma cultura e uma civilização clássicas de alto requinte se desenvolviam.

Foi tal a decadência destes lugares que, por exemplo, a agricultura se retraiu e muitas destas partes que eram plantadas e que eram férteis passaram a se constituir em deserto por causa da decadência no trato da terra. E não é raro encontrar em pleno deserto, hoje em dia, ruínas de cidades romanas, de tal maneira se tornou infeliz o destino daquela parte da África, em virtude da invasão dos vândalos.

Os vândalos eram a nação bárbara mais feroz, e daí vem a expressão usada até hoje de qualificar alguém de vândalo quando é um destruidor estúpido de obras de arte, quando é uma pessoa de uma brutalidade, de uma falta de cortesia, de uma falta de compostura que faz dela um verdadeiro selvagem. Vândalo e selvagem são palavras que se tornaram mais ou menos sinônimas.

* Sagração episcopal de Santo Eugênio

É destes vândalos e da ação destruidora deles no norte da África que trata esta ficha.

Então, está escrito aqui:

Os vândalos eram arianos e bárbaros, deixando onde passavam total desolação, além de terem por costume a perseguição aos católicos, especialmente aos bispos.

A pedido do imperador Valentiniano, Genserico permitiu aos fiéis de Cartago que escolhessem um pastor para essa sé vacante há já vinte e quatro anos.

Quer dizer, Genserico, rei dos vândalos, não queria nomear um bispo para Cartago, que era a mais importante das cidades da África do Norte. Mas como o imperador romano, que tinha seu poder e sobretudo um grande prestígio, pediu esta nomeação, então Genserico, rei dos vândalos, concordou.

Eugênio, famoso pela santidade, foi escolhido com grandes festas, especialmente dos jovens, que nunca haviam visto sagração episcopal.

Os senhores estão vendo como mudaram os tempos. A sagração episcopal fazia … [inaudível]. Era um espetáculo bonito, todo mundo gostava de ver. E os jovens, pelo amor às festas, queriam comparecer para ver sagrar um bispo.

Os senhores vêem a inocência das condições ainda naquele tempo. Como havia mais apetência, como festa, como divertimento, de assistirem uma cerimônia grave, sublime, como isto atraía as pessoas.

Hoje uma sagração episcopal grande número de pessoas não quer assistir, por quê? Porque é grave, porque é sublime, e não é uma chanchada que possa ser vista na televisão. Os senhores vêem, portanto, como as coisas mudaram profundamente.

* Malícia da Revolução quando fala das crueldades da Inquisição

Entretanto, instigado pelos arianos, o novo rei sucessor de Genserico começou a perseguir o prelado, atingindo também os fiéis com sua cólera. Numerosas virgens consagradas foram torturadas horrivelmente. Bispos, padres, diáconos e leigos, em número de cinco mil, foram exilados no deserto.

Eu não sei se os senhores se dão bem conta do que representa ser exilado para o deserto. Condições de vida insuficientes, ou de todo em todo inexistentes. E as pessoas reduzidas ali, sem defesa, a viver no meio de feras, de intempéries, uma vida miserável, ou a morrer. Quer dizer, cinco mil pessoas foram assim condenadas para o deserto.

Agora, os senhores estão vendo a malícia da Revolução.

A Revolução fala da crueldade da Inquisição. Se a Inquisição tivesse feito uma coisa destas, seria uma destas condenações famosas, e todo mundo diria: “E aquelas cinco mil vítimas que a Inquisição mandou para o deserto? Que conta você dá? Criancinhas, velhos, virgens, mães de família… Você não tem pena desta gente sentindo sede? O tremor das crianças durante a noite vendo uivar … [inaudível]? Para você não diz nada? Fanático!”.

Mas como isto não foi feito pela Igreja contra seus inimigos, mas foi feito pelos inimigos da Igreja contra a Igreja, silêncio… Não se fala.

Agora, que a Inquisição tenha mandado matar um herege qualquer, ou queimar um, ou dois, ou cinco hereges numa cidade espanhola, oh, pobres hereges. Cinco! Já pensou que representação? É desta má fé que é feita a Revolução.

* O requinte de malícia da Revolução em nossos dias está em perseguir os fiéis e deixar os bispos em paz

Aliás, eu não quero fazer um Santo do Dia muito extenso, mas eu não me contenho em mostrar como a Revolução cresceu de malícia num outro ponto.

Estes vândalos aqui penetravam na África, começando por perseguir os bispos, os senhores viram. É exatamente o que o comunismo e o nazismo não fazem. Não tocam nos bispos; toca na base e deixa os pastores em paz. Os senhores estão vendo que é uma malícia muito maior, porque o pastor vendo partir uma ovelha, duas ovelhas, cinco ovelhas, ele pensa: “Puxa, mas algum dia é o dia do pastor. Como é que é este negócio? Depois não se pode dizer que esta gente é tão ruim assim. Por que é que eu vou brigar com eles? Não me atacaram. Ora, eu sou a coluna desta igreja. Se eles não derrubaram a coluna, vale a pena poupar a coluna, senão cai toda a igreja. Não é verdade? Então, não vamos”… etc.

Os senhores vêem como a malícia se requintou e como o vândalo que irrompe num palácio episcopal com uma espada em punho e procura o bispo, isto é odioso, deve ser morto, é claro. Este vândalo é menos malicioso do que o político sagaz, que diz: “Não persiga o bispo. Deixa o bispo. Não paga conta nem de luz, nem de água, nem de telefone, deixa o bispo com o fornecimento normal de víveres para o seu palácio, não toquem no bispo. Toquem nos outros, mas não toquem no bispo”. Os senhores vêem a malícia … [inaudível].

Então, quando a gente diz “um vândalo”, há qualquer coisa, eu diria de quase onomatopaico na palavra, de musicado: o vândalo. A gente tem a impressão que eles vão, entram todos os ventos de uma tropa, de uma horda de gente que chega montada a cavalo sem sela e dirigindo o cavalo pela crina, de olhos injetados, exclamando brados, passando dentro de palácios e choupanas, parando, matando gente, tocando fogo e depois continuando.

É verdade e é horroroso ser um flagelo de Deus. Mas como a malícia requintada é pior e mais execrável do que a violência. E como cresceu em malícia a Revolução.

Aí os senhores estão vendo o que é o progresso do mal na Humanidade. E como era necessário que o ultramontanismo progredisse e que a religião católica se acentuasse à medida que se acentua o mal. O contrário nem se compreenderia.

Então nós assistimos a esta cena:

Numerosas virgens consagradas foram torturadas horrivelmente. Bispos, padres, diáconos e leigos, em número de cinco mil, foram exilados no deserto. O povo seguia seus bispos com velas nas mãos, enquanto mães carregando seus filhos imploravam aos prelados: “Quem nos deixais indo ao martírio? Quem batizará nossas crianças? Quem nos dará a penitência e nos reconciliará com Deus? Quem nos enterrará após a morte? Quem oferecerá o sacrifício divino? Deixai-nos ir convosco”.

Quer dizer, o povo, indignado, pedia para participar do exílio e do martírio. Os senhores vêem que coisa linda estes bispos, estes clérigos, estes leigos, estas virgens, caminhando ou para o martírio ou para o deserto, com uma procissão de gente com vela na mão, chorando a partida deles e desejando o martírio, ou desejando o deserto para não ficarem privados da companhia de seus verdadeiros hierarcas e pastores.

São estas as cenas que a perseguição hoje evita. Ela, de todos os modos, evita que isto se dê. Por quê? Porque ela compreendeu que assim ela não ganha terreno. Ela se tornou extraordinariamente mais maliciosa.

* A Revolução glorifica qualquer ato feito por patriotismo e coloca no esquecimento os mais sublimes, praticados por amor à Fé Católica

Continua a ficha:

Após uma conferência entre ortodoxos e arianos, conferência doutrinária exigida pelo rei Hunerico, que implicava com o nome de católico, a perseguição acendeu-se sob várias formas,…

Quer dizer, a conferência não chegou a resultado.

especialmente contra os vândalos que haviam abjurado o arianismo. Deram os mártires notáveis exemplos.

Uma mulher de nome Denise, cruelmente torturada, só se preocupava que seu filho, de delicada compleição, se deixasse abater. Vendo-o tremer ante o suplício, não vacilou.

Vejam que linda apóstrofe.

Lançando-lhe um olhar, disse: “Meu filho, lembra-te que fomos batizados no nome da Trindade, no seio da Igreja, nossa mãe”. E o jovem enfrentou corajosamente o martírio.

Se uma mulher romana ou grega tivesse feito isto em favor da pátria, havia estátua em louvor dela. Se ela tivesse um nome qualquer de matrona, Cornélia, por exemplo, todo mundo diria: “Mas, que heroísmo! Cornélia, a grande! Que Roma grandiosa que produziu uma mulher assim, que na hora da morte dela e de seu filho, não pensava na sua própria morte, nem pensava, nem se enternecia com a morte do filho e só pensava na grandeza da pátria romana”. Então, garanto para os senhores que haveria praça Cornélia, rua Cornélia, Cornelópolis, ode a Cornélia, hino a Cornélia, a grande mulher. Como isto não foi feito por patriotismo, mas foi feito por um sentimento incomparavelmente mais alto ainda do que o patriotismo, que é a fé católica, como foi feito por amor a Nosso Senhor Jesus Cristo, este fato sublime fica enterrado. Não se conta.

Entretanto, os senhores querem maior superação da natureza pela graça do que esta?

Toda mãe quando vê que vai morrer, ela pensa no filho que deixa. Mas se ela vê a vida do filho ameaçada, ela só se preocupa com a vida do filho. E ela dirá ao juiz: “Mate-me, mas solte meu filho”. Esta não estava preocupada com isto. Ela queria que o filho dela perseverasse até o fim. E o último pensamento dela foi de animar o filho. É o uso da autoridade materna, ou da autoridade paterna, não para desviar da vocação, não para afastar do cumprimento do dever, mas para levar até o holocausto.

Esta mãe poderia ser a padroeira de tantas e tantas mães que nós conhecemos, das quais a Igreja pede que o filho dê tanto menos do que a sua vida, apenas a perseverança dentro do Grupo e que chegam às vezes a se distanciar do filho só porque o filho segue a verdadeira doutrina católica.

* Firmeza dos católicos diante dos tribunais

Continua:

Deve-se notar que os bispos cismáticos, que eram os bispos vândalos arianos, hereges, tornaram-se cruéis perseguidores.

Quer dizer, eles foram perseguidores implacáveis. É que a corrupção do ótimo é péssima. E nada pior do que um mau bispo, porque nada de mais admirável do que um grande bispo.

Então nós temos Santo Eugênio, do qual daqui a pouco se vai falar, mas nós temos aí esta figura miserável dos apóstatas, dos bispos apóstatas.

Os católicos que haviam apostatado de medo do martírio assinalaram-se pela crueldade para com os irmãos que continuaram.

Isto é característico também. A corrupção do ótimo é péssima.

Eupidófaro, um destes, foi nomeado juiz em Cartago. Trouxeram-lhe o diácono Murita, que o levara a batizar.

Quer dizer, quando ele era pequeno, este diácono tinha batizado este juiz.

Murita mostrou ao povo a veste branca com a qual cobrira, em criança, o agora juiz. Dirigiu-se ao povo e disse ao verdugo: “Esta veste te acusará diante de Deus quando Ele vier julgar os homens. Eu a guardei para servir de testemunho de tua apostasia e ela te precipitará no Inferno. Estes linhos que te envolveram quando saíste, puro, das águas do batismo, redobrará o teu tormento quando estiveres mergulhado nas chamas eternas.

Isto é falar. Quer dizer: “Tu vais ao Inferno. Abra os olhos. Tu expões a tua salvação eterna. E aqui está o contraste: uma veste alva, do tempo em que eras filho de Deus, do tempo em que tua alma era o templo do Espírito Santo. Agora mede a tua situação, faze o paralelo e clama, porque o Inferno está aberto a teus pés”. E isto voltado para o povo, para cobrir de ignomínia aquele juiz.

Os senhores dirão: “Mas, Dr. Plinio, isto é muito duro”.

Eu direi: “E quando Nossa Senhora, agora em Fátima, fez ver aos pastores as almas no Inferno, condenadas ao Inferno, para aterrorizar a humanidade e evitar que os homens continuassem a pecar, isto era muito duro também? Então Nossa Senhora é dura? Existe dureza no Coração Imaculado de Nossa Senhora?”.

É que isto não é dureza. A dureza é não dizer estas palavras quando elas salvam, não dizê-las nas ocasiões e nas situações psicológicas em que elas são indispensáveis para a salvação.

E este homem, dizendo isto ao juiz, se expunha a um martírio ainda mais terrível. E aí mesmo ele praticava de modo admirável o conselho de Nosso Senhor: “Quando nós somos esbofeteados numa face, voltemos a outra face”. Porque ele dizendo isto ao juiz, ele se expunha a um martírio ainda mais terrível, para salvar o próprio juiz.

Isto é o modo admirável de praticar o perdão das injúrias. Admirável pela generosidade, mas também pela inteligência. Porque ficava claro o que ele visava. Ele visava o bem da alma daquele a quem ele confundia, a quem ele, pela salvação, insultava, em prol do qual, daqui a pouco, ele ia ser imolado.

Agora os senhores vejam como ainda aí a Revolução requintou.

Os senhores acham que ante um tribunal comunista, é possível puxar uma túnica destas e falar ao povo? Não é verdade que imediatamente ele seria morto ali na hora? Quer dizer, os senhores estão vendo como em todos os sentidos a iniqüidade e a Revolução se requintaram e se tornaram piores.

* Morte de Santo Eugênio, exilado no Languedoc

O sucessor de Hunerico condenou o bispo Santo Eugênio à morte, acabando por exilá-lo no Languedoc, onde ele veio a morrer em julho de 505.

Santo Eugênio, como sendo o bispo de tantos mártires, ficou sendo o símbolo de todos eles. E, portanto, a Igreja o colocou como a pedra preciosa num diadema. O diadema de ouro são estes inúmeros mártires. A pedra preciosa é o bispo, que levou toda esta gente ao martírio. Um bispo que morreu longe de sua pátria, depois de grande sofrimento, num exílio com certeza com ameaça de morte a todo momento.

Aí está, portanto, a figura de Santo Eugênio, apresentada no resplendor do rebanho, que ele conduziu ao Céu como verdadeiro bom pastor. Rezemos por ele, rezemos pelos nossos pastores, rezemos por nós, para nós termos, com ou sem esses pastores, a fidelidade que nós devemos ter à Santa Igreja Católica Apostólica Romana, nossa mãe santa, divina, indizivelmente amada.

*_*_*_*_*