Reunião Normal (Sede do Reino de Maria – Pará) – 11/7/67 – 3ª feira – p. 18 de 18

Reunião Normal (Sede do Reino de Maria — Pará) — 11/7/67 — 3ª feira

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O orgulho e a impureza, que formam no homem uma incompatibilidade com vários aspectos da obra de Deus * Se há uma crise moral que origina o espírito da Revolução, essa crise só pode ser remediada com o auxílio da Graça, pois sem ela os homens não podem cumprir duravelmente os Mandamentos * O demônio começa a vencer quando ele consegue minguar a devoção a Nossa Senhora * O Reino de Maria: o demônio retirado para os seus antros infernais, e Nossa Senhora reinando sobre o mundo através dos homens e das instituições escolhidas por Ela * São Luiz Grignion de Montfort: além de profeta, o fiador do Reino de Maria * A devoção aos Corações de Jesus e Maria caracteriza uma ação da Graça para os Últimos Tempos, para os fins da História da Igreja, sendo uma Graça nova, uma misericórdia nova

* Providências para o lançamento da RCR na Argentina

Foi‑me pedido o tema da RCR, São Luiz Grignion e os Apóstolos dos Últimos [Tempos], com a idéia de que os princípios expostos aqui pudessem ser aproveitados para o prólogo da RCR argentina, que a TFP argentina está pensando em fazer, sob a forma de livro de bolso, edição de bolso. Naturalmente se preservaria como muito propagandístico o prefácio de Mons. Romulo Carboni, mas far‑se‑ia uma nova edição, e um prólogo para a nova edição. E observava bem Cosmim que os assuntos nossos da Contra‑Revolução, hoje mais do que nunca, só entram quando são abordados do ponto de vista religioso. Uma preocupação puramente social — ou desligada da preocupação religiosa — não interessa, não atrai as pessoas, não prende. É preciso que o ponto de vista religioso seja inteiramente expresso para que uma temática interesse. Daí a idéia dele de [que] um prólogo acentuando o interesse religioso da RCR poderia favorecer a saída do livro, independente do fato de que ofereceria o ângulo mais importante e mais alto, e mais abençoado pela própria Nossa Senhora, debaixo do qual o assunto poderia ser considerado.

Nós deveríamos considerar três questões diferentes nas relações entre a obra de São Luiz Grignion de Montfort e a RCR.

A primeira delas é o papel de Nossa Senhora na Contra‑Revolução. Depois, mais especialmente, o papel da escravidão a Nossa Senhora, quer dizer, da perfeita devoção na Contra‑Revolução. E em terceiro lugar, os traços de RCR dentro do livro de São Luiz Grignion de Montfort.

Isso seriam os vários aspectos a considerar.

* O orgulho e a impureza, que formam no homem uma incompatibilidade com vários aspectos da obra de Deus

A RCR apresenta a Revolução como um movimento nascido de uma deterioração moral. São dois vícios fundamentais — o do orgulho e o da impureza — que constituem no homem uma incompatibilidade com a doutrina católica, debaixo do seguinte ponto de vista: que a Igreja Católica como Ela é, a doutrina que Ela ensina, o Universo que Deus criou e que nós podemos conhecer melhor através dos prismas da Igreja Católica, tudo isto são coisas que o homem virtuoso, o homem puro e o homem humilde apetece a tudo isto, ele é simpático a tudo isto. Ele tem enlevo, ele tem alegria em ver que essas coisas são assim, e ele aceita tudo isso de bom coração.

Mas se uma pessoa cede algo ao vício do orgulho ou ao vício da impureza, começa a formar‑se nela uma incompatibilidade com vários aspectos da obra de Deus. É uma incompatibilidade com vários aspectos da obra de Deus. É uma incompatibilidade, vamos dizer, de início com o caráter hierárquico da Igreja, depois uma incompatibilidade com o caráter hierárquico da sociedade civil. Ou em ordem inversa.

Depois é uma incompatibilidade com o caráter hierárquico da família. E assim vai o igualitarismo se desenvolvendo até chegar ao sumo do comunismo. Quer dizer, a toda uma metafísica contrária à doutrina católica, que é feita, que é nascida de uma incompatibilidade da alma viciosa com a obra de Deus, e que nasce do orgulho.

Uma coisa mais ou menos paralela a essa se poderia dizer da impureza. O homem impuro tem os elementos necessários para implicar com a ordem estabelecida por Deus. Começa que o homem impuro é levado normalmente para o liberalismo. A ele irrita que haja uma regra, que haja um freio, que haja uma lei que circunscreva o transbordamento dos sentidos dele. E com isso tudo quanto é ascese começa a lhe parecer implicante. E com o parecer‑lhe implicante isso, naturalmente começa a aparecer uma implicância contra o próprio princípio da autoridade enquanto autoridade. E daí se vai para a frente.

O resultado é que a partir da impureza, a partir do orgulho, se formam os elementos necessários para uma visão diametralmente oposta à obra de Deus. Essa visão já não é portanto diferente num ponto ou noutro, mas à medida que esses vícios vão se aprofundando, e ao longo das gerações vão se tornar mais acentuados, vai‑se estruturando toda uma concepção que não é apenas outra, mas é o contrário, e é a mais contrária possível. E que acaba sendo em última análise a concepção gnóstica e revolucionária do universo.

* Se não fossem o orgulho e a sensualidiade a Revolução — como movimento organizado no mundo inteiro — não existiria

A Revolução, a doutrina da Revolução, é essa: a gnose. E a causa moral da Revolução está no orgulho e na sensualidade, e essas causas são causas de ordem moral. Portanto, nós vemos o seguinte: que todo o problema da Revolução e Contra‑Revolução é um problema moral, no fundo é uma questão moral. O que está dito nas linhas ou nas entrelinhas da RCR, é que se não fosse o orgulho e a sensualidade, a Revolução como movimento organizado no mundo inteiro não existiria. Ela não seria possível.

Se isto é verdade e se portanto no âmago do problema da Revolução e da Contra‑Revolução nós temos uma questão moral, nós [então] temos uma questão religiosa, porque todas as questões morais são questões substancialmente religiosas. Não há moral sem religião, e uma moral sem religião é a coisa mais inconsistente que se possa imaginar. E todo o problema moral é portanto um problema fundamentalmente religioso. Portanto a RCR, a luta da Revolução e da Contra‑Revolução, é uma luta que em seu âmago, em seu cerne, é uma luta religiosa.

* Se há uma crise moral que origina o espírito da Revolução, essa crise só pode ser remediada com o auxílio da Graça, pois sem ela os homens não podem cumprir duravelmente os Mandamentos

Se nós estamos no terreno da luta religiosa, nós compreendemos então melhor o papel de Nossa Senhora na Contra‑Revolução. Se há uma crise moral que origina o espírito da Revolução, então é verdade que essa crise só pode ser evitada com o auxílio da Graça, só pode ser remediada com o auxílio da Graça. Nós sabemos que é um dogma da Igreja, que nos diz que os homens não podem estavelmente, duravelmente, cumprir na sua integridade, os Mandamentos da Doutrina Católica, os Mandamentos da Lei de Deus, com simples recursos naturais.

Para eles cumprirem os Mandamentos é preciso que tenham o recurso da Graça. É claro que durante cinco minutos, dez minutos, o homem pode cumprir todos os Mandamentos da Lei de Deus. Mas cumprir, por exemplo, vamos dizer [durante] meses, durante um ano, durante anos, durante a vida inteira, os Mandamentos da Lei de Deus, sem o auxílio da Graça, a criatura humana não pode.

Se por outro lado o homem cai no estado de pecado e se acumulam nele as apetências para o mal, essa situação moral sem o auxílio da Graça, a fortiori não pode ser resolvida. E são necessários portanto auxílios de caráter sobrenatural para que o homem vença a situação em que ele caiu. E o resultado é que toda a preservação moral verdadeira — ou toda regeneração moral verdadeira — decorre da Graça. Então, nós vemos facilmente o papel de Nossa Senhora.

Se Nossa Senhora é a Medianeira Universal, se Nossa Senhora é o canal por onde passam todas as graças, nós compreendemos que esse auxílio indispensável para que não haja a Revolução e para que o Reino de Maria se estabeleça — para que termine a Revolução e para que derrote a Revolução — este auxílio é o auxílio das orações de Nossa Senhora. Quem pedir a Graça por meio d’Ela obtém. Quem não pedir por meio d’Ela não obtém.

Obtendo a Graça, os homens [não] correspondendo à Graça, é automático que a Contra‑Revolução desapareça. Os homens não correspondendo à Graça é inevitável que a Revolução triunfe. E portanto este afluxo da Graça sobre os homens, que é elemento fundamental para que a Revolução seja derrotada. Depende de Deus, é claro, mas Deus quis por um ato livre de Sua vontade, fazer depender de Nossa Senhora para a glória d’Ela e para a glória do Divino Filho d’Ela. De maneira tal, que de fato é Nossa Senhora que pede essas graças, e portanto a devoção a Nossa Senhora é a condição para que a Revolução seja esmagada e a Contra‑Revolução triunfe.

* Se a prática dos Mandamentos se tornar um fenômeno geral, a sociedade se estruturará bem

Eu insisto um pouco neste aspecto do que eu acabo de afirmar. Se nós tomarmos uma humanidade fiel à Graça, que receba de Nossa Senhora as graças necessárias e até convenientes para a prática dos Mandamentos, se a prática dos Mandamentos se tornar um fenômeno geral, é inevitável que a sociedade acabe se estruturando bem, porque com o estado de Graça vem a sabedoria. Com a sabedoria todas as coisas entram nos eixos.

Não há meio de não se estruturarem bem, não precisa estudar grandes sociologias, grandes economias, grandes finanças, para conseguir isso. Porque com o estado de Graça, não só pelo movimento natural, espontâneo, intrínseco de cada homem, tudo tende a entrar nos eixos, mas os estudos necessários se farão, se farão excelentemente e atingirão o seu resultado. De maneira tal que [com] a Graça obtida, tudo anda.

Se há uma recusa da Graça, nada anda. Se andar alguma coisa, é pior do que se não andasse. É como a civilização contemporânea: ela se construiu sobre a recusa da Graça. Ela alcançou alguns resultados estrepitosos, por exemplo nos Estados Unidos.

Esse resultado devora o homem. O país dos grandes resultados é o país das psicoses, é o país da “gagueira”. Por que? Porque é uma ordem de coisas construídas pelo homem, que parece ser uma afirmação do homem, mas que devora o homem. Quer dizer, o homem sem a Graça, ou não constrói nada ou constrói um cárcere, constrói uma câmara de torturar, constrói um palácio de delícias no qual ele sofre mais do que se fosse num campo de concentração. Por que? Porque sem a correspondência à Graça, absolutamente nada vale nada.

Agora se a gente toma em sentido oposto um povo em que [todo] o mundo cumpre os mandamentos, e que a sabedoria é uma virtude generalizada, o geral dos homens que tem capacidade de estudar, estudará. Quando estudar, estudará bem; estudando bem, encontrará soluções para os problemas. Portanto tudo anda bem.

De maneira que eu forço um pouco a nota, mas para exprimir até onde chega o meu pensamento: eu diria que é uma brincadeira de crianças organizar bem um país quando esse país é fiel à Graça. E [diria também] que é uma coisa impossível organizar bem um país quando esse país é infiel à Graça.

Mas é estritamente impossível, é até debaixo de certo ponto de vista melhor que não se organize, porque se organizar, é como eu digo, ele vai construir um monumento cujo peso vai cada vez mais se exercendo sobre ele e o prostrando no chão.

* A Graça só é obtida por meio de Nossa Senhora: a devoção autêntica a Ela é essencial para que a Contra‑Revolução exista e para que a Revolução desapareça

Então, nós temos isso, que como a Graça só se obtém por meio de Nossa Senhora, a devoção a Nossa Senhora é essencial para que a Contra‑Revolução exista e para que a Revolução desapareça.

Nós podemos dizer o seguinte: que quanto maior a devoção a Nossa Senhora, mais aberto o canal de graças. Se a devoção a Nossa Senhora for uma devoção inteiramente autêntica, é infalível que a oração daquele que pede seja atendida. E que portanto as graças chovam sobre um determinado país, ou uma determinada pessoa que reze.

Portanto acaba sendo que os problemas se resolvem, mas se a devoção a Nossa Senhora for pífia, se ela comportar restrições, se ela for uma devoção defectiva, então a Graça também encontra da parte do homem implicitamente uma certa resistência, que o homem não faz o necessário para obtê‑la. Nisto mesmo ele já é ingrato e com isso acontece que toda a vida, a seiva da sociedade deperece.

Costuma‑se dizer que Nossa Senhora está na economia da Graça de tal maneira que Jesus Cristo é a Cabeça do Corpo Místico, mas Nossa Senhora seria como o colo, o pescoço do Corpo Místico, porque tudo passa através d’Ela.

A imagem é inteiramente verdadeira na vida espiritual do indivíduo. Imaginem um indivíduo que tem pouca devoção a Nossa Senhora: é como o indivíduo que tem a corda atada no pescoço, e em que ele tem um fiozinho de respiração. Quando ele não tem nenhuma devoção, ele está asfixiado.

Se, pelo contrário, ele tiver uma grande devoção a Nossa Senhora, o pescoço está inteiramente livre e o ar penetra nos pulmões a plenos haustos e o homem pode viver normalmente. Assim é a posição de Nossa Senhora dentro de tudo aquilo que é o princípio fundamental da RCR, que é exatamente essa fecundidade enorme da Graça e esta materialidade e até nocividade de tudo quanto se faz de fora da ordem da Graça.

Este é o bê‑a‑bá. Aliás, é o que explica que nós aqui no Grupo sejamos muito pouco propensos a construir projetos de como será o Reino de Maria. Nós podemos nos lembrar como foi a Idade Média para aumentar em nós a apetência do Reino de Maria, para colher princípios segundo os quais o Reino de Maria exista, para desintoxicar as nossas mentes dos germes revolucionários que colocaram ali princípios opostos, para praticar o amor de Deus.

É claro que o conhecimento desses princípios da Idade Média servirão para o Reino de Maria. Mas nós não fazemos grandes planos porque havendo a correspondência à Graça — em condições aliás tão novas que são até imprevisíveis — havendo correspondência à Graça a coisa sai.

Eu não estou dizendo que a coisa sai automaticamente, mas estou dizendo que, havendo a correspondência à Graça, é forçoso que tudo se estruture bem. É preciso trabalhar, é preciso estudar, é preciso organizar, mas fará. O problema não é esse. O grande problema fundamental é haver a correspondência à Graça.

Pois bem: os senhores estão vendo bem que quanto mais Nossa Senhora pede essa graça a nós, tanto mais nós a temos. Se Ela pede pouco, nós não temos; se Ela deixasse sem pedido, nós não teríamos nada. Quer dizer: afinal de contas, como tudo passa por Ela, a mediação universal d’Ela nos indica bem qual é o papel e o poder d’Ela na marcha ascensional desse fator fundamental da Contra‑Revolução que é a Graça.

* O demônio é um forte fator de propulsão da Revolução, porém está na dependência de Nossa Senhora

A contrario sensu, nós podíamos dizer o mesmo a respeito de Nossa Senhora e do demônio. Porque o papel do demônio na eclosão e nos progressos da Revolução foi enorme. Foi o demônio que conseguiu tentar o homem, induzindo‑o a uma posição revolucionária e a extremos revolucionários, que estão abaixo até da miséria humana. E a fazer uma Revolução como a atual, que é pior do que o grau de decadência da natureza humana.

Se o demônio não estivesse ali para tentar o homem, a coisa não teria saído tão terrível quanto ela é. Ora, este fator de propulsão tão forte da Revolução, ele está inteiramente na dependência de Nossa Senhora. Porque basta Nossa Senhora ter o mínimo ato de império sobre o inferno, que o inferno inteiro treme, se confunde, se recolhe e desaparece. Basta, pelo contrário, Ela entender que, para o castigo dos homens, é conveniente deixar o demônio com certo raio de ação, que o demônio progride tanto quanto Ela deixar, mas o demônio está debaixo da dependência d’Ela completamente.

Então, os fatores enormes da Revolução que são a Graça e o demônio, esses dependem do império d’Ela, do domínio d’Ela. Nós vemos portanto o papel de Nossa Senhora já por aí na Revolução e na Contra‑Revolução.

* Nossa Senhora tem uma realeza verdadeira que lhe foi dada por Deus, não sendo somente uma simples executora da vontade direta d’Ele, mas uma Rainha que age em união com a vontade d’Ele

É preciso acrescentar que Nossa Senhora, a mediação de Nossa Senhora deve ser vista do ponto de vista da oração, etc., mas Nossa Senhora não é apenas Aquela que reza por todo o Universo, mas Ela é a Rainha do Universo e que essa realeza é uma realeza verdadeira.

Eu tive ocasião de empregar uma vez uma imagem que Dom Sigaud me disse que é inteiramente certa, para a gente compreender um pouco o que é o papel de Nossa Senhora como Rainha. Alguém poderia dizer: “Dr. Plinio, dizer que Nossa Senhora é Rainha é conversa, porque Nossa Senhora faz tudo quanto Deus quer, Ela é escrava de Deus. Portanto, em última análise, Nossa Senhora não é Rainha. Ela é simplesmente como um vidro transparente e inerte através do qual passam os raios divinos, mas o verdadeiro Rei é Deus”.

Entra aqui uma finura, que é preciso considerar: imaginem um diretor de colégio que tem meninos sumamente insubordinados, ele vai, castiga esses meninos, e impõe uma ditadura de ferro no colégio. Depois ele se afasta e diz à mãe dele o seguinte:

Eu sei que vós governareis esse colégio, de um modo diferente do que eu governo, porque eu governo com vara de ferro e vós tendes um coração materno e pelo vosso coração vos governareis de um modo diferente do meu. Eu quero que agora que eu castiguei esses meninos, governeis vós e não eu. Eu vos dou a direção do colégio.”

Esta senhora vai dirigir o colégio como o diretor quer, mas por um método que é dela e não dele. E que ao mesmo tempo representa a vontade dela enquanto distinta da dele, mas em que ela faz inteiramente a vontade dele.

Assim é Nossa Senhora como Rainha do Universo. Nosso Senhor deu a Ela, que é unicamente Mãe, que não tem papel de juiz, uma realeza cuja misericórdia vai além daquilo que a justiça d’Ele e a posição d’Ele de juiz, propriamente Ele quer exercer. Então Ele coloca Ela como Mãe, com todos os parti pris da mãe, com todas as indulgências da Mãe, com todos os não‑exageros, mas extremos de misericórdia da Mãe, que a autoridade paterna de si não comporta. Ele A coloca como Rainha do Universo para esse efeito, para governar o Universo assim. E a vontade d’Ele é que Ela faça algo que Ele não quereria fazer se governasse [??] abstração d’Ela.

É, portanto, enquanto se distingue d’Ele enquanto Rainha do Universo, que Ela melhor faz a vontade d’Ele. E então há um regime verdadeiramente marial de governo do Universo. E este regime explica o papel de Nossa Senhora como quem dirige os acontecimentos, como quem dispõe dos acontecimentos: decreta aquilo que deve acontecer. É claro que sempre inspirada por Deus, em união com Deus, etc. Nossa Senhora em comparação com Deus é absolutamente nada, e é infinitamente inferior a Deus, isso é evidente, mas Ele quis livremente dar para Ela este papel por um ato de liberalidade d’Ele. Então, é Nossa Senhora que regula o curso dos acontecimentos terrenos. Depende d’Ela a duração da Revolução, depende d’Ela a duração da Contra‑Revolução, é Ela que intervém nos acontecimentos para que a Revolução não vença. Basta lembrar de Lepanto, por exemplo.

Quantos outros fatos da História da Igreja em que Ela deixou claro que era uma intervenção direta d’Ela que influía nos acontecimentos. E então a gente compreende que mais do que além da simples grande Orante, Medianeira onipotente e suplicante, Ela é verdadeiramente a Rainha que conduz os acontecimentos e dirige a História.

Quando a Igreja canta a respeito d’Ela “Tu só exterminastes todas as heresias no universo inteiro”, diz que o papel d’Ela no extermínio das heresias foi como que único. O que equivale a dizer que Ela dirige a História, porque quem dirige o extermínio das heresias dirige os triunfos da ortodoxia, quem dirige uma coisa e outra dirige a História. Ela é verdadeiramente a Rainha. Esta realeza de Nossa Senhora então nos dá uma visão a mais do papel d’Ela dentro de toda a problemática RCR.

Esta noção a respeito de Nossa Senhora está ligada à mediação universal. E me parece que explica bem como a devoção a Nossa Senhora está absolutamente na raiz de todas as vitórias da Contra‑Revolução.

* O demônio começa a vencer quando ele consegue minguar a devoção a Nossa Senhora

Haveria um trabalho interessante de História para fazer, mostrando como o demônio, quando ele começa a vencer, é porque ele consegue minguar a devoção a Nossa Senhora. Todas as decadências da Cristandade e todas as vitórias da Revolução têm como ponto de partida um minguamento na devoção a Nossa Senhora. Se não fosse esse minguamento, a Revolução não caminharia.

Os senhores têm o exemplo característico na Europa da Revolução Francesa. Porque a Europa da Revolução Francesa, é como um floresta combustível em que [com] uma simples fagulha pega fogo em tudo. A devoção a Nossa Senhora nos países católicos fora prodigiosamente diminuída pelo jansenismo. O resultado já se viu. Quer dizer, [se] a devoção a Nossa Senhora mingua, fica tudo acessível à Revolução. Então, aqui seria uma primeira idéia em que eu reúno conceitos creio muito conhecidos entre nós.

Agora tem o segundo ponto que é o seguinte: estas e algumas outras vistas tiradas da teologia comum, conhecida, são o suficiente para explicar o papel de Nossa Senhora na temática RCR?

* O Reino de Maria: o demônio retirado para os seus antros infernais, e Nossa Senhora reinando sobre o mundo através dos homens e das instituições escolhidas por Ela

Nas últimas avenidas da perspectiva da Contra‑Revolução está a idéia do Reino de Maria, quer dizer, uma era histórica que será inaugurada por uma vitória espetacularmente obtida por Nossa Senhora sobre os seus inimigos. O demônio que é expulso da Terra se volta para os seus antros infernais, e Nossa Senhora que reina sobre o mundo através dos homens e das instituições que Ela escolher para isso. Nessa perspectiva do Reino de Maria, nós encontramos na obra de São Luiz Grignion de Montfort a respeito dessa perspectiva algumas coisas misteriosas.

Ele é, sem dúvida, um profeta que anuncia que essa era virá. Ele fala disso claramente: é a época em que virão os grandes santos de Nossa Senhora, vai haver um dilúvio que vai lavar a humanidade e que vem então a época do Espírito Santo, que ele confunde, identifica com o Reino de Nossa Senhora, etc.

Ele afirma que vai ser uma era de florescimento da Igreja como até então nunca houve. Ele chega a ter essa impressão que os santos do reinado de Nossa Senhora vão ser em relação aos santos anteriores como os carvalhos são em relação à grama.

Quando a gente considera que grandes santos a Igreja produziu até agora, a gente perde o pé na consideração da grandeza desses santos que devem vir debaixo desse bafejo de Nossa Senhora. Mas não há nada de mais razoável do que imaginar que a santidade cresça enormemente, numa era histórica onde a situação concreta de Nossa Senhora deve crescer enormemente também. De maneira que não há dificuldade em admitir isso.

* São Luiz Grignion de Montfort: além de profeta, o fiador do Reino de Maria

Então, nós podemos dizer que São Luiz Grignion de Montfort dá peso, dá autoridade, dá consistência com seu valor de pensador, mas sobretudo, sobretudo e sobretudo com sua autoridade de santo canonizado pela Igreja, às esperanças que se vêem em muitas outras revelações particulares de que nós vamos ter uma época em que Nossa Senhora verdadeiramente triunfe.

Ele é, portanto, o profeta, mas mais do que o profeta ele é o fiador do Reino de Maria. A canonização dele e o acerto extraordinário de toda a obra dele nos servem de apoio para essa esperança de um Reino de Maria que deve vir.

Mas quando a gente analisa a obra dele nota ainda qualquer coisa de mais profundo nessa obra, e que é o seguinte: ele faz umas insinuações de que as relações entre Nossa Senhora e as almas — e especialmente as almas que a Ela se entregam na qualidade de verdadeiros escravos — que essas relações não foram, não são conhecidas até o fundo pelos teólogos. E que delas se pode dizer e se pode tirar coisas ainda não conhecidas, ainda a serem exploradas nos tesouros da Revelação e da Tradição e que vão muito mais longe do que os teólogos dizem.

Ele fala do famoso segredo que há na verdadeira escravidão a Nossa Senhora. Segredo este, diz ele, por onde a Graça opera, no verdadeiro escravo, operações inefáveis que não se sabe bem exatamente como são, e operações que é também uma união inefável, cujo verdadeiro alcance, cujo verdadeiro modo de ser nós não conhecemos bem, e que representam a quintessência recôndita da verdadeira escravidão.

Quer dizer, fica acenado aí um progresso da teologia, e um progresso da teologia especialmente no que diz respeito a esta parte das relações da Graça com a alma, mediante Nossa Senhora. Coisa que ao mesmo tempo a gente vê que já existia no tempo dele, esta relação e que entretanto precisava ser explicitada, mas ao mesmo tempo coisa que a gente vê que além disto, além de precisar ser explicitada, iria crescer de intensidade com o curso dos tempos para atingir toda a sua intensidade no Reino de Maria. E no Reino de Maria produzir essa plenitude histórica, esse auge de santidade que deveria brilhar na Igreja e que nasceria deste mistério.

Nos comentários que fiz aos membros da Pará e Martim sobre o Tratado, não houve um texto que me caísse debaixo dos olhos e em que houvesse essa insinuação e que eu não a fizesse sentir a eles, de maneira que eles percebessem qual é o mistério que há dentro disso e que me parece a coisa mais radiosa como esperança da aurora do Reino de Maria.

Este mistério, como é um mistério, nós a respeito dele nada podemos dizer ou podemos tirar apenas alguns traços, algumas pinceladas, algumas coisas muito ligeiras. Mas me parece que São Luiz Grignion, enquanto o Cristóvão Colombo desse novo continente da teologia, deixa entrever coisa sobre as quais a gente precisa ter os olhos postos quando a gente quer estabelecer uma relação entre o Tratado da Verdadeira Devoção e o problema RCR.

Porque então o auge da Contra‑Revolução é este auge desta ação misteriosa de Nossa Senhora. E então a Contra‑Revolução pelo menos por um jogo de probabilidades começa a aparecer como um avanço progressivo de Nossa Senhora nas almas e uma acentuação desta ação misteriosa d’Ela nas almas, de tal maneira que quando este sol chegar ao meio‑dia nós teremos a Revolução esmagada.

Há uma gestação portanto do Reino de Maria nas almas, por um progresso novo, inédito desta ação misteriosa, que se realiza na noite desta espécie de Idade Média do demônio que nós vivemos. Mas em que já começa a haver algo que chegará ao seu meio‑dia, quando o Reino de Maria for proclamado.

* No apocalipse há conceitos especiais contidos de um modo simbólico que ainda não foram desvendados a respeito das relações de Nossa Senhora com os Apóstolos

Há uma coisa curiosa na Maria de Ágreda em que ela diz que no Apocalipse há um mundo de conceitos especiais contidos e um modo simbólico, que ainda não foram desvendados a respeito das relações de Nossa Senhora com os Apóstolos, especialmente com São João Evangelista. E que nunca ninguém… só quando chegar a época em que os teólogos de repente pegarem as cifras do Apocalipse a respeito disso, é que eles conhecerão todo o tesouro que a Revelação contém ali dentro e o Magistério da Igreja poderá se exercer na sua plenitude quanto a esse novo panorama.

Isso vai muito de acordo com o que diz São Luiz Grignion de Montfort. Quer dizer, forma um todo. E eu não vejo nessa concepção de Maria de Ágreda nada de heterodoxo. Quer dizer, não [é] uma coisa que está provada pelo simples fato dela dizer, mas é uma coisa que não tem nada de heterodoxo.

Agora, haverá um momento presumivelmente em que isso vai se desatar, e em que esse conhecimento vai se consumar. Então, nós temos este outro dado que é o progresso desse mistério de Graça. Quer dizer, houve uma devoção a Nossa Senhora ao longo dos tempos, mas ela em certo momento, pelo desejo de Nossa Senhora, começou a tomar um desenvolvimento maior, uma consistência maior. E essa consistência maior vai desenvolvendo esse mistério dentro das almas e é o triunfo desse mistério que acaba com o reino do demônio e do mundo, e estabelece o verdadeiro reino de Nossa Senhora.

Eu dou agora impressões pessoais que são de caráter meramente conjetural, e eu vou tomar ares de quem argumenta a favor delas, porque eu tenho que mostrar o que tem essa conjetura de consistente, mas eu compreendo que isso é conjeturar, quer dizer, não pensem que eu dou isso como indiscutível, apenas eu vou argumentar com afinco, porque eu quero mostrar o por onde essa conjetura tem razão de ser.

Mas eu tenho uma certa impressão de que esta ação de Nossa Senhora até o fundo nas almas, essa ação misteriosa, há alguns vislumbres por onde a gente compreende algo a respeito dela. E ainda muito ortodoxos, muito sérios, muito sólidos, embora à maneira de vislumbres.

* A devoção ao Sagrado Coração de Jesus é a devoção ao próprio Nosso Senhor Jesus Cristo, ao espírito d’Ele

Houve tempo — e isso ainda recentemente se repetiu — em que eu andei lendo a respeito da devoção ao Sagrado Coração de Jesus e do Coração Imaculado de Maria. Li até encíclicas a respeito disso, para responder à seguinte pergunta: em essência, o que é a devoção ao Sagrado Coração de Jesus? E depois, por conexão, o que é a devoção ao Coração Imaculado de Maria?

Nós sabemos que o objeto dessa devoção é o Coração de carne de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou o Coração de carne de Nossa Senhora. Mas é evidente que é enquanto membro do corpo Divino‑Humano d’Ele, ou do corpo sagrado e imaculado d’Ela, mas que são sobretudo símbolos de alguma coisa de ordem espiritual.

Então, qual é essa coisa simbolizada através do coração? As encíclicas respondem bastante claramente a respeito de Nosso Senhor Jesus Cristo, e não é difícil fazer a transposição em relação ao Coração Imaculado de Maria. Resumindo: a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, como as encíclicas apresentam, é a devoção a Nosso Senhor Jesus Cristo, quer dizer, aquilo que nós poderemos chamar o espírito de Nosso Senhor Jesus Cristo, portanto a doutrina d’Ele, mas não apenas a doutrina, mas aquilo que é a sabedoria d’Ele, a santidade d’Ele, quer dizer, uma doutrina, uma ordem de santidade, não só enquanto concebida, mas enquanto possuída, e personificada, e vivida. Quer dizer, algo de lógico e algo que se contém nesta expressão meio imponderável que é o espírito de alguém, como por exemplo o espírito de Elias.

O que é o espírito de Elias?

A comparação até não é muito feliz porque é a Graça de Elias. Mas vamos dizer, por exemplo, o espírito da Companhia de Jesus. O que é o espírito da Companhia de Jesus?

No seu bom sentido, é o espírito de Santo Inácio. Mas o que é o espírito de Santo Inácio? É o conjunto de doutrinas que ele tinha enquanto especificamente dele e enquanto vividas por ele, possuídas por ele, simbolizadas por ele. De tal maneira que ele era o paradigma do próprio espírito dele.

Então é o espírito de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas é o espírito enquanto querendo disseminar‑se, enquanto querendo contagiar, enquanto querendo conquistar, quer dizer, um espírito enquanto amoroso dos homens. E como em face de uma humanidade pecadora o maior triunfo desse espírito não é a justiça, mas é a conquista, acaba sendo a misericórdia. Porque pela justiça Deus manda o pecador para o inferno, pela misericórdia Deus conquista o pecador. O maior triunfo de Deus está em perdoar e em converter.

Então, nós compreendemos o aspecto misericordioso da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, que é tão acentuado na piedade popular. Aliás também muito acentuado em muitos documentos da Santa Igreja: o Coração de Jesus enquanto fonte de misericórdia.

* A devoção aos Corações de Jesus e Maria caracteriza uma ação da Graça para os Últimos Tempos, para os fins da História da Igreja, sendo uma Graça nova, uma misericórdia nova

Paralelamente a gente entende o que é o Imaculado Coração de Maria, nem é preciso tratar disso. Mas quando a gente presta bem atenção nessas duas invocações e devoções, a mim ao menos me parece que isso tudo que é tão lógico, que é tão consistente, tem meandros dentro dos quais cabe alguma coisa que a gente intui e que não sabe dizer, a gente tem a impressão de que não foram inteiramente ditas.

Há uma espécie de comunicação de Nosso Senhor a quem Lhe cultua o Coração, maior, mais completa, mais inteira do que quem Lhe cultua os outros mistérios. É uma coisa curiosa, mas há isso. Há uma espécie de comunicação mais plena de Nossa Senhora a quem Lhe cultua o Coração Imaculado.

Os que tratam dessas duas devoções, dizem que são devoções para os últimos tempos, devoções para os fins da História da Igreja, as últimas expansões da misericórdia. Então, nós voltamos mais uma vez à impressão de um acréscimo da Graça que se opera por maravilhas de misericórdia, progressivamente e mais intensamente a partir do momento em que essas duas devoções foram reveladas aos homens. Os senhores estão vendo que é portanto mais uma tinta para a idéia de um mistério de Graça a se manifestar, um mistério de Graça a se declarar.

Eu vou dar minhas impressões até o fim. Eu devo dizer, naturalmente com todas as reservas, cautelas, etc., que considerando o Grupo como ele é, com as suas fragilidades — é indispensável dizer — com suas misérias.

Depois — é indispensável dizer — com tudo o que ele tem de tão bonito que parece uma Legende Dorée; a gente tem a impressão de que essa Graça nova, essa misericórdia nova, incidiu sobre uma humanidade em extremo pútrida, e no pútrido incluo minha geração também — eu não estou falando aqui da geração nova, estou falando de todos os homens vivos hoje — e quase que tornada inidônea à força de vício, para praticar verdadeiramente a santidade.

De tal maneira decadente, pela decadência biológica da humanidade, de tal maneira decadente do ponto de vista moral, que é uma coisa que pareceria dever vir o fim do mundo e acabar com esse lixo logo. A única solução seria acabar com esse lixo imediatamente.

Eu vejo em mim e em todos os leigos do movimento uma coisa curiosa, que é uma luta entre uma Graça persistente, inefavelmente obstinada, que deita a mão em cada um de nós e como que não larga, e um série enorme de repelões em sentido contrário, de recusas, de molezas, de fechar os olhos, de aridez de toda ordem, infidelidades de toda espécie, de todo tamanho.

* O Sr. Dr. Plinio diz como ele vê a ação dessa Graça nova sobre a vida espiritual de alguns Membros do Grupo

Parece‑me ver uma vitória progressiva dessa Graça, marcada de um modo muito interessante pela forma pela qual as pessoas melhoram dentro do Grupo. Porque são poucas as pessoas do Grupo que progridem segundo os cânones clássicos como uma pessoa que sobe uma escada.

A gente tem paradas enormes, a gente tem às vezes derrapadas para baixo, mas uma vida espiritual ascensional, inteiramente normal dentro do Grupo, é muito rara. O que a gente entretanto nota é que há gente que melhora. Quando melhora, é uma coisa curiosa, passa‑se a ponte pequena à maneira de conversão. Melhora por um trabalho de maturação, da qual a pessoa não se dá conta, melhora de repente e melhora muito e depois, helás, não raras vezes, pára. Depois vem novamente uma Graça que toca para a frente.

O que é mais extraordinário, mais empolgante, é que quando se trata não de “sabuguice”, mas de fraquezas, em geral, quanto maior a queda, tanto maior a Graça que leva a pessoa para cima de novo. De maneira que em algumas vidas espirituais dentro do Grupo que eu conheço, a ascensão é assim: é um zigue‑zague em que os dois passos próximos assustam de tão admiráveis. Em certas pessoas… graças a Deus não é o grosso do Grupo. Eu acabaria desgastando as minhas últimas energias se o grosso do Grupo fosse assim, porque é extremamente difícil acompanhar essa montanha russa. Mas eu quero dizer que em algumas pessoas isso é assim; em outras não. Param e o gráfico é assim, outras assim, exatamente como penhascos. Em outras o gráfico é como eu disse; em poucas o gráfico é de uma escada. O que indica um tomar do assunto em mãos pela Providência muito maior do que no passado. Porque na economia do passado, se se fossem facilitar como eu tenho visto certa gente facilitar, a coisa dava em desastre no duro.

Eu me lembro (…) numa ocasião me que no tempo em que ele andou ruim — eu já ouvi essa confidência de duas pessoas — ele fez o possível para sair do Grupo, mas que ele não conseguia. E que ele chegou até a ficar com ódio do Grupo, porque ele não conseguia sair de dentro do Grupo. De fato não saiu. Nossa Senhora a horas tantas ou quantas o pegou pelo cabelo e ele depois deu excelente membro do Grupo. Mas foi assim.

Já de duas pessoas eu ouvi isso. Pintava o bode, etc., mas quando chegava a hora de sair do Grupo… Um dos dois me disse: “Eu agora vou fazer uma força e vou sair do Grupo”. Quando chegava na hora ele não saía.

Nesse sentido, tanta misericórdia, uma coisa tão boa, tão grande, mas debaixo de certos pontos de vista uma coisa tão nova, que eu sou levado a ver aí uma espécie de sinal precursor desta Graça superabundante, que no Reino de Maria vai prender os homens a Nossa Senhora. Não como a ligação do livre arbítrio, porque esses que querem sair do Grupo e não conseguem, evidentemente é porque em algo da Graça eles continuam a ser fiéis, mas é evidente que a Graça toma isso como se fosse uma coisa imensa e premia enormemente não tendo o que premiar, e que há aí uma conta sem juros, de pai para filho, que constitui o segredo a meu ver, da suscitação do Grupo, da perseverança do Grupo e desse fenômeno indiscutível e admirável que é a santificação do Grupo.

* A própria existência e expansão da TFP, que seria impossível de imaginar em condições normais, é evidentemente uma ação dessa Graça

Porque de uma humanidade podre, num país deteriorado moralmente que é o Brasil, tenha saído um Grupo como a TFP, que este Grupo tenha frutificado depois até em países alheios ao nosso, que se tenha estendido a um país do tamanho de um continente como está sucedendo no nosso e que tenha saído daí esta maravilha de ortodoxia, esta maravilha de devoção a Nossa Senhora e — é preciso dizê‑lo — esta maravilha de virtude. Porque há traços de virtude verdadeiramente maravilhosos no Grupo em toda a sua realidade, desde o Amazonas até o Rio Grande do Sul, até o Rio da Prata, até os Andes, isto é fora de dúvida.

Parece‑me que isto não seria explicável sem exatamente esta Graça dada aos fracos, essa Graça dada aos pequenos, e que corresponde àquela divisa da Igreja de Filadélfia, que é a Igreja do último período da vida da Igreja. Depois vem a sétima que é o fim do mundo. Mas dos últimos tempos que antecedem ao fim do mundo: fraca mas fiel. Uma Graça que sustenta na fidelidade fracos, aqueles que são muito fracos.

Aí exatamente eu seria levado a fazer uma reflexão: o que representa no ano de 1967 a expansão de um movimento no qual o grosso‑grossíssimo dos membros aspira a conservar o celibato, a renunciar a todas as vantagens, ambição, carreira, a simpatias, a benquerenças, e a tudo, com exclusivo intuito de servir à Igreja Católica?

Esse movimento se generaliza de um modo tal, que nós estivemos fazendo, [melhor dizendo] a Comissão do Movimento esteve fazendo o cômputo, entre membros pertencentes e periféricos próximos e remotos e remotíssimos em São Paulo, andamos pelos 500. É muito difícil calcular quanto ao resto do Brasil, mas a gente vê que passa dos 1.000 seguramente.

A gente liga isto à expansão do Movimento na Argentina, no Chile, no Uruguai, daqui a pouco no Paraguai e na Venezuela; os chilenos penetraram no Peru e nós estamos esperando que eles tragam os elementos fundamentais para a criação de uma TFP no Peru. Isto é como o alastramento de um grande movimento espiritual, como o alastramento do movimento na Idade Média. Tem todas essas características.

Na humanidade mais capenga, mais pobre e graças contínuas mais imerecidas, mas que vão formando um fluxo de virtude, que é absolutamente indiscutível.

Para falar só de uma coisa, mas é uma coisa palpável e portanto é fácil falar dela: os doadores de dinheiro para a TFP de São Paulo. Não se encontra — eu creio — no mundo inteiro, doadores de dinheiro que doem tanto dinheiro com uma tão completa despretensão em influir na direção do movimento.

Eu nunca recebi da parte de nenhum deles algo que significasse sombra de uma pressão. Nunca tive razão para recear, que fazendo o contrário do que eles querem, as contribuições deixassem de crescer. Não é retroceder, é deixar de crescer. Nunca as pessoas que dão o tempo integral — ou pior do que tempo integral, tempo‑sangue — e deitam lágrimas para o Grupo, nunca em nenhuma [vez], eu tive razão de achar que a gente dizendo tal coisa ou outra, a pessoa diminuísse o tempo que dá.

* As regenerações morais e conversões, evidente obra da Graça

Quer dizer, é uma liberdade de movimento, uma generosidade de doação. Tantos casos de regeneração moral magnífica, tantos casos de gente que passa de play‑boy ou de moleque de rua para o que há de mais recomendável em matéria de piedade e de virtude, que a gente não pode deixar de reconhecer que há ali um grande sopro da Graça, uma coisa eminentemente sobrenatural, mas comparável aos grandes sopros da Graça, que as grandes Histórias da Igreja registram, por exemplo na História da Igreja na Europa. Naturalmente ainda uma coisa de começo, é uma coisa ainda nos seus primeiros vagidos, nos seus primeiros movimentos, mas é, não tem conversa, é.

Mas tudo isto indica uma enormidade de Graça que verdadeiramente não tem proporção com nada do que se passa hoje. Agora, esta Graça é toda assentada na devoção a Nossa Senhora. Os senhores podem escrever isso que eu digo: se no Grupo algo existe bom, é por causa da devoção a Nossa Senhora.

Se nós tivéssemos uma diminuição da devoção a Nossa Senhora que fosse do tamanho de um milímetro — se em milímetros essas coisas pudessem se contar — o Grupo estourava agora à noite. Eu tenho impressão que não dava tempo de eu acabar a minha conferência. De tal maneira tudo isso é nascido da devoção a Nossa Senhora e vivido do alento d’Ela.

Os senhores vêem como as almas tomam a sério a devoção a Nossa Senhora, porque não se pode negar que aqui, pelo favor d’Ela e pela misericórdia d’Ela, devoção a Nossa Senhora existe mesmo. Isto não se pode negar. Será mais esclarecida em uns, menos em outros, mas existe mesmo, realizando aquela figura que eu falei: a devoção a Nossa Senhora está em relação a outras virtudes como o motor do avião em relação ao avião. O motor na frente leva atrás de si todo o resto. A devoção a Nossa Senhora é o motor de todas as virtudes. Estando em progresso, o resto vai. E isto Ela pôs aqui dentro.

Há aqui qualquer coisa de maravilhoso, sobretudo se eu considero a “capenguice”. Essa misteriosa e tão dileta “capenguice”, que faz com que gente “capenga” faça maravilhas de não‑capenga. E eu sou levado a achar que isto é coerente com a idéia de uma Graça nova, num estilo novo, para um Reino novo. E eu recearia de ser ingrato em relação a Nossa Senhora se eu não reconhecesse que é verossímil que esta Graça nova fermente no Grupo de um modo especial. Quer dizer, que a aurora do Reino de Maria, esteja na vida quotidiana do Grupo.

Eu tenho impressão de que não seria correto que eu terminasse esta exposição sem falar um pouco a respeito de Santa Teresinha do Menino Jesus e da Pequena Via em conexão com isso. Me pareceria forçoso. Sublinho que tudo isso é conjetural.

Se isto é assim, nós então passamos para uma outra ordem de coisas. É uma ordem de idéias que parece colateral, mas que nada tem de colateral.

* O amor de Deus, como caracterizado em Santa Terezinha, é de uma intensidade tão poderosa que vai colher os pequenos e insignificantes e levá‑los à santidade

Há uma santa, canonizada pela Igreja, autêntica, grande santa, Santa Teresinha do Menino Jesus, que também na História de Uma Alma tem várias referências a um ritmo novo do amor de Deus, ou por outra, uma intensidade nova do amor de Deus. E é uma intensidade tão poderosa e tão intensa que ela vai colher aqueles que são pequenos, insignificantes, pouco poderosos em vários sentidos da palavra, ela vai colher estes e levá‑los para a santidade.

Então, é uma maior efusão da Graça de Deus enquanto conquistante, é uma maior efusão da benignidade de Deus, enquanto contentando‑Se com pouco para fazer grandes coisas, é uma maior manifestação da eficácia da Graça, enquanto tirando o grande daquilo que é pequeno.

Santa Teresinha diz que ela se imolou em vítima de holocausto ao Amor misericordioso de Deus para consagrar uma via que incontáveis almas deveriam seguir. E que ela no Céu passaria sua eternidade fazendo cair uma chuva de pétalas de rosas sobre a Terra.

Mas é evidente que as pétalas de rosas eram graças temporais como ela concede, mas graças temporais para conduzir a graças espirituais, e que estas graças espirituais eram esse maior amor de Deus de que nós acabamos de falar.

Agora, os senhores compreendem que deve haver uma relação entre essa esperança dele de um progresso do Amor misericordioso e a aurora do Reino de Maria.

Embora ela não tenha expresso isso em termos de Reino de Maria, percebia‑se também que o fato deveria se dar depois da morte dela, com uma certa continuidade, não era para começar a aparecer daí a mil anos. Mas a morte dela era de algum modo o desencadear disso. E que, portanto, a marcha progressiva do Amor Misericordioso no mundo era uma marcha que deveria ser feita a partir do caminho aberto por ela.

A gente vê que a Pequena Via acaba sendo — quando a gente a estuda em todos os seus aspectos — a vários títulos, a via pela qual as almas pequenas de uma humanidade decadente, seriam colhidas pela misericórdia e seriam levadas à santidade. E a gente vê que ela acaba sendo a espiritualidade específica daqueles que querem ser filhos de Nossa Senhora, escravos de Nossa Senhora, e subir nas vias da vida espiritual. Então, nós temos uma relação entre a Pequena Via e essa aurora do Reino de Maria.

É preciso chamar a atenção para mais duas coisas. Uma delas é que, historicamente falando, o número de almas a quem Santa Teresinha tenha ajudado aqui dentro do Movimento é sem conta. Ou o número de almas que ela atrai para o Movimento, ou o número de almas que ela conserva no Movimento, e que ela santifica dentro do Movimento, isso é sem conta.

Quando se fala de Santa Teresinha para as almas, a maior parte delas se intensifica no amor ao Movimento, se intensifica ao apego ao Grupo como instituição, o que significa bem que ela trabalha para isto. Nós vemos aí algo que é uma convergência diária das duas coisas: da Pequena Via e desta verdadeira escravidão a Nossa Senhora.

Isto posto, vem agora uma coisa que é puramente opinativa, é um sentimento puramente pessoal e que portanto é uma coisa que eu compreendo que se discuta, eu compreendo que alguém me diga que não vê, eu compreendo tudo quanto quiserem. Mas afinal, eu acho que se deve terminar uma conferência como esta, com esta impressão.

Eu tenho sempre a impressão de que a Graça do Movimento e a Graça da fidelidade em todos os membros do Grupo, inclusive em mim, é uma coisa por exemplo, e se eu me recordo de lembranças de minha (…) porque eu não compreendo que tanta e tanta coisa possa haver de tão bom, que tenha sido dado sem que eu (…)

Do que resulta naturalmente a idéia de que ela — mas aqui é uma conjetura puramente pessoal, mas no meu espírito essa conjetura está — de que ela tenha morrido por nós. E que foi a morte dela, talvez a morte de algumas pessoas como ela, aquelas irmãs de La Tour d’Auvergne e outras, que morreram seguindo a ela, que foi isso que preparou toda essa caudal de graças que está aqui dentro.

* O espírito de Santa Terezinha é propício e afim à Escravidão a Nossa Senhora, apesar de ela não a ter conhecido

Uma coisa que é puramente individual, vem ao caso aqui lembrar: estranha a gente que Santa Teresinha não tenha a mínima referência — ela teve uma verdadeira e grande devoção a Nossa Senhora — mas ela não tem a mínima referência à escravidão a Nossa Senhora e ao sistema de São Luiz‑Maria Grignion de Montfort. Tudo me leva a crer que ela não conheceu.

O Théophane Vénard, que era o mártir do Vietnã, do Vietnã atual, ao qual ela rezava, ela tinha uma relíquia e uma tampa dele amarrado ao cortinado dela no seu leito de doença. O Théophane Vénard era escravo de Nossa Senhora consagrado, e até assinava “S.M.”, Servo de Maria, embora ele fosse da Congregação das Missões.

Uma das seguidoras dela, Isabel do Sagrado Coração, conheceu a devoção de São Luís Grignion e a aconselhava às noviças.

A gente está vendo como o espírito dela é propício, é afim com isso, mas ela não conheceu. Mas eu não poderei me esquecer que eu lá pelos idos de mil novecentos e trinta e pouco eu fiz uma novena para Santa Teresinha, em que eu pedia duas graças: uma era de me cair nas mãos um livro de vida espiritual que desse andamento às coisas, porque estavam estagnadas. E a outra era de eu arranjar um bom dinheiro para eu não ter preocupações financeiras e poder cuidar do apostolado sem aborrecimentos.

* Tendo rezado a Santa Terezinha, o Sr. Dr. Plinio conheceu o “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”

Eu fui logo atendido na primeira graça. Na primeira semana eu fui ao Coração de Maria para comprar um livro de vida espiritual, naquele tempo em que aquilo era uma livraria que tinha coisas boas. Escolhi, escolhi — o dinheiro era curto naquele tempo e eu não podia comprar livros a esmo; eu só tinha dinheiro para comprar um livro — então escolhi muito para pelo menos levar o livro que me convinha. E afinal de contas um deles era o “Tratado da Verdadeira Devoção” e o outro não me lembro qual era. Depois, por uma bagatela, porque tinha impresso em vermelho e preto, uma edição muito bonitinha e porque, em última análise, o vermelho exerce sempre uma atração sobre mim, eu acabei, as duas conchas da balança iguais, decidindo pelo “Tratado da Verdadeira Devoção”.

Depois levei o Tratado para casa e comecei a ler, eu compreendi que era um Paraíso. Aí eu li o Tratado como se pode ler um livro de física por exemplo, tirando pontos, escrevendo, reescrevendo, reescrevendo até me meter inteiramente a coisa na cabeça, porque eu compreendi que era uma coisa do outro mundo.

Santa Teresinha foi muito menos rápida em atender a segunda parte do meu pedido, e muito mais parcimoniosa também. Mas a primeira parte como os senhores vêem ela atendeu generosamente.

Agora, os senhores estão vendo uma ligação dela, ação dela com São Luís Grignion de Montfort.

Eu tinha duas outras coisas que são ultra‑conjeturais. São impressões pessoais, são imponderáveis que me estão na alma. A primeira delas é a seguinte: o sistema de raciocinar post hoc, ergo propter hoc, “depois disso, portanto por causa disso”, é fálido. Mas, devagar, ele é fálido como prova, como conjetura não. Como primeira hipótese, quando a coisa acontece, depois acontece outra, em cadeia, o espírito humano é levado a admitir, como mais provável que aquilo seja causa do que aquilo não seja causa. Embora, em rigor, não seja causa, possa não ser causa.

Mas não chego a dizer uma presunção, mas quase uma presunção, há uma probabilidade de que o fato anterior é causa do fato posterior, quando são da mesma ordem, do mesmo ciclo, etc.

* A morte do Márcio Salino Peres, do Rio de Janeiro, à qual o Sr. Dr. Plinio inicialmente não deu muita importância, mas que originou diversas graças para ele e para muitos outros

Um fato é positivo — eu sei que vou baixar muito o nível, mas preciso dizer o que penso — é que esse menino Márcio, que morreu no Rio de Janeiro… Era na tranqüilidade de um domingo em que eu estava repousando, quando me telefona o Paulo Eugênio, depois de dois ou três do Rio de Janeiro, para me avisarem consternados que o Márcio tinha morrido.

Eu estava exausto, e no primeiro momento, eu tive vontade de responder: “Meus caros, se morreu, rezem por ele e enterrem. Para que telefonar para São Paulo para me dizer? Era um menino de 13, 14 anos do Movimento aí. Arranjem esse negócio, vamos rezar por ele. Lamento muito, participo muito disso, mas não há razão para dar três telefonemas de toda urgência para me comunicar que o Márcio morreu.”

Depois, pelos telefonemas, eu percebi que eles achavam esse Márcio um padrão de virtude. Não querendo desagradar a eles, eu os recebi com toda a paciência, eu participei do funeral deles em espírito, etc., mas sempre com uma interrogação. Depois eu pensei… Eu vou dizer aos senhores aonde chegou o meu espírito, a que malícia eu pensei: “Essa geração‑nova tem cada uma! Não é nem a primeira nem a última. Agora é o funeral de um menino de 13 anos que eles organizam como se fosse o acontecimento do dia.”

Mas, enfim, participei das pompas fúnebres.

Dali a pouco começaram a vir notícias de que uma graça ou outra tinha sido alcançada por intercessão do Márcio. Eu disse: “Ai, ai, o que vamos ter agora? Mas, enfim, vá lá”. Mas há um velho provérbio português‑latino, que meu pai gostava de citar: intelectus apertatus, discurrit, quando a pessoa está muito apertada, “dá tratos à bola”.

Eu tive depois alguns casos muito apertados e a esmo pedi para o Márcio. Vamos lá, estão dizendo que resolve o caso. Olhem, ele me resolveu sobretudo um caso, que era um caso que não tinha mais saída, não tinha! Tinha chegado ao último fôlego, ao último alento e não tinha mais saída. Eu olhava para o caso e era levado a rezar para o Márcio. Digo: “Quem sabe se o Márcio resolve esse caso”.

Começo a rezar para o Márcio, de repente eu vejo que não sei se a coisa começa a tomar jeito, toma mais um pouco de jeito, de repente anda um pouco, depois caminha mais, depois caminha bastante. À última hora da coisa começar — eu não digo a resolver‑se, mas caminhar para termos em que uma solução fosse possível — pluft: eu recebo um telefonema às três e meia da manhã, que me fazia ver que toda a coisa era impossível.

Eu rezei para o Márcio, rezei para o Márcio durante o telefonema. Eu sei que sou muito enigmático, mas só pode ser assim: a coisa cambaleou de todos os cambaleares durante o telefonema, e eu falando. A mulher que toma conta de mamãe, “mafiosa” e muito intrigada com esse telefonema às três e meia da manhã, e eu ainda obrigado a temperar a minha linguagem para que a mulher não percebesse o que era. E na outra ponta da linha ainda equilibrando a coisa. Numa cadeira giratória que faz assim, eu também cambaleava com a cadeira e telefonava.

A coisa foi indo, foi indo, afinal andou. Depois, de lá para cá, eu vi várias pessoas receberem graças que eu controlei, e insignes, obtidas pela intercessão dele.

Pois bem, por incrível que pareça, não me passou pela cabeça de pedir a fotografia dele. De repente alguém me deu a fotografia dele. É uma cara ótima, mas realmente de menino extraordinário, mas extraordinário. Uma cara séria — como isso é raro no século XX — pensativa, meditativa, sem aquilo que nós na reunião do MNF chamamos de pecado criteriológico. Uma cara, mas verdadeiramente, excelente, superior, de inspirar toda confiança.

Eu só não posso compreender como é que esse menino esteve em São Paulo no “Congressinho”, com certeza naquela noite na cerimônia apertou minha mão, porque todos apertaram, e eu não vi o menino. Mas eu não posso fugir à impressão de que foi uma vítima suplementar que morreu, por um suplemento de pecados — e que grosso suplemento! — e que tenha vindo mais muitas graças para o Grupo. Porque depois disso, vieram para o Grupo muitas graças.

Finalmente eu teria que dizer que eu tenho impressão de que esta tal Graça de Nossa Senhora, esta tal Graça do Reino de Maria, algumas almas muito eleitas d’Ela, desde Elias até o fim do mundo, tiveram e terão. Mas eram fatos individuais, que passarão a ser um fato coletivo quando vier o Reino de Maria. Mas eu acho que Elias teve. Ele foi o primeiro. Se Elias teve, Eliseu teve, porque ele recebeu o espírito de Elias.

Aqui entra mais uma vez o tal mistério, que é o tal espírito que se comunica: o que é essa comunicação do espírito, como se faz, qual é a realidade? Par mim está imbricado nisso. E alguns que constituem uma linha pontilhada, não uma linha contínua, mas um pontilhado ao longo da História tiveram.

Eu acho que São Luiz Grignion de Montfort teve de um modo magnífico. Eu acho que quem quiser ter uma idéia de como foi Elias, pode ler na Bíblia, mas pode ler também o livro de São Luiz Grignion de Montfort, porque essas figuras, umas prefiguram as outras e seguem as outras, mais ou menos como os anticristos, prefigurativos ao longo da História do Anticristo.

Acho que São Grignion de Montfort foi eminentemente isso: uma espécie de Elias. E que há assim uma espécie de gotas de graça de Elias que caem de vez em quando. E que há uma era em que essa graça de Elias vai ser patenteada para o mundo inteiro e aqui então vai ser o Reino de Maria.

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