Santo
do Dia (Rua Pará) – 10/7/67 – 2ª feira [SD
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Santo do Dia (Rua Pará) — 10/7/67 — 2ª feira [SD 066]
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Dados biográficos de São Pio I * A organização interna da Igreja no período catacumbal, uma maravilha de sabedoria, distância psíquica e serenidade dos primeiros fiéis em relação ao perigo * O florescimento de uma das coisas mais belas da Igreja: o eremitismo * Somos uma prova da ação do Espírito Santo na Igreja ao longo dos séculos * “Nós somos fagulhas que se desprendem sem se desprender, e que, sempre ligados à Igreja, somos em relação a ela lumen luminis, luz da luz da Igreja” * À semelhança dos fiéis do tempo de São Pio I, nós vamos, no combate, construindo nossa obra
* Dados biográficos de São Pio I
Estamos na novena de Nossa Senhora do Carmo. Amanhã, dia 11, será festa de São Pio I, Papa e mártir.
Dados biográficos tirados de Darras, “Vie des Saintes”:
São Pio I, primeiro Papa deste nome, nasceu na cidade de Aquiléia, e sucedeu a Santo Higino na Sé Apostólica. Foi amigo de São Policarpo e São Justino, o Apologista, lutando com eles contra a heresia gnóstica que assolava a Igreja. Fez um especial decreto para que o sacerdote, ao celebrar, cuidasse das espécies sagradas. Por exemplo, se por negligência deixasse cair uma gota do sangue de Nosso Senhor, deveria penitenciar-se por quarenta dias. Se o sangue caísse sobre o altar, e não na terra, a penitência seria somente de três, quatro, ou nove dias, conforme a quantidade derramada. Prescreveu o máximo respeito ao vinho e ao pão consagrados, exigindo que neles não se permitisse a mínima profanação. Testemunhava assim a grande fé da Igreja na presença real de Nosso Senhor na Eucaristia. Consagrou ainda a Igreja de Santa Prudenciana, no palácio onde São Pedro e São Paulo haviam trabalhado.
Depois de haver governado a Igreja por nove anos, São Pio I foi martirizado sob Marco Aurélio.
* A organização interna da Igreja no período catacumbal, uma maravilha de sabedoria, distância psíquica e serenidade dos primeiros fiéis em relação ao perigo
Os senhores estão vendo que é um papa que exerceu suas funções ainda no período das perseguições, e que em pleno apuro em que vivia a Igreja Católica fez este trabalho admirável, a que muitos papas estiveram associados, de organização interna da Igreja.
É uma coisa para a qual talvez não se chame talvez tanto a atenção durante o período da história catacumbal e que é muito importante, e é isto: a Igreja perseguida, pisada, calcada aos pés, deitando sangue por todas as vertentes, por todos os poros, a Igreja, quando Constantino a liberta, sai das catacumbas e passa a viver em pleno ar, vê-se que desde logo tem uma organização perfeita e acabada. Ela tem uma hierarquia, tem um direito próprio, tem todas as estruturas feitas, tem uma liturgia definida, tem um depósito estabelecido de doutrina, etc.
Quer dizer, desde a chegada de São Pedro a Roma e das viagens dos apóstolos — de São Paulo especialmente — até o momento em que a Igreja sai das catacumbas, houve um enorme trabalho, dentro das catacumbas, na organização que se fez. E uma entidade de caráter universal, a primeira entidade de caráter universal até então existente, e que parecia uma coisa absurda, porque todas as religiões e todas as organizações morriam ou se circunscreviam às fronteiras do próprio estado, a primeira organização deste porte se estrutura. E se estrutura com sabedoria, com um critério, com um acerto tal, que quando sai das catacumbas, é só continuar a viver, porque ela estava com tudo pronto.
Os senhores estão vendo que isto indica uma alta sabedoria, indica uma distância psíquica em relação ao perigo, uma serenidade no perigo que é uma verdadeira maravilha.
Poder-se-ia dizer que uma obra tão delicada quanto a de fazer germinar a estrutura da Igreja de dentro de suas próprias sementes, esta obra pediria, normalmente, uma calma, uma tranqüilidade, que os homens atormentados com a perseguição não poderiam pensar em outra coisa. Mas o contrário é que é a verdade: durante todo aquele período, perseguidos, acuados, acossados, no risco de caírem de um momento para outro nas mãos do carrasco, estes homens continuavam a pensar, continuavam a rezar, e entre as invasões dos soldados romanos nas catacumbas, aperfeiçoava-se um ponto da liturgia, estruturava-se um ponto da doutrina, criava-se um costume novo.
Quer dizer, era uma calma e uma serenidade na perseguição que é verdadeiramente extraordinária, e que se conjuga harmonicamente com a calma de que davam provas na arena. Aquela sobranceria diante da morte, aquela tranqüilidade diante da morte, não era só na hora patética em que eles eram postos em campo em presença das feras e dos carrascos, mas era todo um estado de espírito sapiencial que os levava a se conservarem confiantes e tranqüilos, ante perigos que eles sentiam, cuja profundidade às vezes lhes faziam vibrar o instinto de conservação, mas que os fazia, apesar de tudo, construir, pedra por pedra, este edifício admirável.
* O florescimento de uma das coisas mais belas da Igreja: o eremitismo
Foi ainda nesse tempo que começou uma das coisas mais belas da Igreja, também como um aspecto positivo da organização da Igreja, que era o eremitismo. Muitos cristãos desse tempo, com pavor das perseguições dos circos, fugiam para o deserto para não serem pegos pela polícia do imperador. Então, iniciavam uma vida isolada, que era a vida eremítica de contemplação. Então, o estado contemplativo começou a nascer dentro da Igreja exatamente ao mesmo tempo em que floresciam os mártires.
Os senhores vêem quanta coisa florescia na Igreja e que panorama admirável da vida da Igreja temos naquele tempo. Quer dizer, os mártires se multiplicavam, o apostolado crescia e a Igreja penetrava por toda parte, e de outro lado temos que ela se enclausurava e que o estado contemplativo florescia. Isto tudo ao mesmo tempo como produto, como expressão, fruto de uma germinação admirável.
* Somos uma prova da ação do Espírito Santo na Igreja ao longo dos séculos
O que vemos por detrás disto? É uma coisa para a qual é preciso sempre chamar a atenção: é a presença do Espírito Santo na Igreja Católica Apostólica Romana.
Aquilo que constitui propriamente a Igreja não é o fato de ela ser, ou melhor, não é apenas o fato de ela ser uma sociedade de pessoas definidas, quer dizer, o Papa, os bispos, os clérigos e os fiéis. Mas é o fato de que além desse elemento humano que existe na Igreja, há algo que se chama o espírito da Igreja. E este espírito da Igreja é a continuidade, dentro da Igreja, de uma determinada mentalidade, de uma determinada sabedoria, de uma determinada fé, de uma determinada virtude, e que existe na Igreja não por obra do homem, mas por alguma coisa sobre-humana. É a ação do Espírito Santo, que faz exatamente que em todos os lugares, em todos os séculos, os bons católicos se entendam, os bons católicos se conheçam, os bons católicos se apóiem, entre eles não exista perigo de divergência nenhum. Eles são um só e quando eles morrem, outros lhes sucedem com a mesma mentalidade, com o mesmo espírito e até com uma mentalidade e um espírito ainda mais característicos do que os que os antecederam.
Nós somos uma prova curiosa disto.
Estamos aqui por acaso, chilenos, argentinos, brasileiros de todos os quadrantes, que recebem a hereditariedade de todos os contingentes de imigração. Entretanto, nós aqui nos entusiasmamos por formas de pensar e sentir, por estilos de vida, pelo espírito, que é o espírito de uma era que não conhecemos, que é a Idade Média. Nós nos entusiasmamos por isto, porque isto não foi inventado por nós, mas foi uma tradição que estava no ar e que nós recolhemos, e recolhemos por fidelidade à Igreja Católica. E é o espírito da Igreja, ou seja, é o Divino Espírito Santo, que faz esta continuidade entre nós e aqueles que nos precederam — usando o termo da Missa — com o sinal da Fé, marcados com a mesma cruz, marcados com o mesmo Thau, tendo o mesmo espírito pelas gerações além.
Nós podemos subir até os primórdios do Novo Testamento, pode subir até o Profeta Elias, pode subir até Moisés, pode subir mais atrás ainda, há sempre uma geração de filhos da Virgem que vem combatendo os filhos da serpente, e esta geração é de gente que tem o mesmo espírito: é o espírito que na sinagoga pré-figurava a Igreja Católica e que hoje em dia é o espírito verdadeiro da verdadeira Igreja Católica Apostólica Romana.
* “Nós somos fagulhas que se desprendem sem se desprender, e que, sempre ligados à Igreja, somos em relação a ela lumen luminis, luz da luz da Igreja”
Eu me lembro que um padre — até um padre não muito teólogo, não, não muito inteligente e não muito esplendidíssimo — quando uma vez eu lhe contava a respeito de nosso grupo, etc., ele fazia uma cara muito embevecida. Eu lhe perguntei:
— Padre, o que o senhor está apreciando nisto?
E ele me disse:
— O lado teológico da coisa, porque nisto está a verdadeira vida da Igreja, na efervescência deste espírito dos senhores, desta atividade dos senhores. Ela se retira de certos setores, mas ela se concentra aí. É exatamente o espírito da Igreja que faz isto.
Quando nós consideramos o “Catolicismo”, quando consideramos “Fiducia”, “Cruzada”, a TFP brasileira, argentina, chilena, devemos considerar que isto tudo é fruto da Igreja Católica. Nós não somos senão rebentos da Igreja Católica Apostólica Romana.
Os senhores já viram, com certeza, muitas vezes fogueiras acesas durante a noite. Durante a noite é mais fácil a gente verificar o fato: de vez em quando desprende-se uma fagulha da fogueira. voa alto, e cai de novo no meio da fogueira. Nós somos umas fagulhas que se desprendem sem se desprender e que, sempre ligados à Igreja Católica, somos em relação a ela lumen luminis, luz da luz da Igreja. Não somos senão pedras do edifício vivo da Igreja Católica, pedras amorosas, encantadas de pertencerem a este edifício vivo da Igreja Católica, e qualquer coisa que em nós possa haver de bom, não é senão fruto dessa pertencença à Igreja Católica, habitada pelo Espírito Santo, templo do Espírito Santo e, portanto, no qual nascem todas as formas de bom espírito, de virtudes, de ultramontanismo, etc. Este é o processo espiritual pelo qual se forma um movimento como o nosso.
* À semelhança dos fiéis do tempo de São Pio I, nós vamos, no combate, construindo nossa obra
Pois há uma semelhança de situação entre os fiéis do tempo de São Pio I e os fiéis de hoje. Não temos, por enquanto, a perseguição cruenta, mas sofremos a perseguição incruenta. E esta perseguição incruenta tem como resultado que sejamos muito combatidos, mas Nossa Senhora nos ajuda que no combate nós vamos, pedra por pedra também, construindo a nossa obra, nós vamos estruturando, vamos recolhendo e explicitando a doutrina, vamos fazendo uma organização, vamos tornando cada vez mais protuberante um determinado espírito, para que quando chegue, afinal de contas, o dia da glorificação da Igreja no Reino de Maria, se possa dizer que ela não parou, mas que na pior das tormentas de sua história ela continuou a viver, a progredir, a frutificar e a ser cada vez mais ela mesma.
Estas são as reflexões que a festa de São Pio I nos deve sugerir.
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