Santo
do Dia – 6/7/67 – 5ª feira .
Santo do Dia — 6/7/67 — 5ª feira
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Poucos na Inglaterra estavam dispostos a morrer pela Fé; São Tomás Morus fez então uma apologia do martírio, com lógica e didática, a fim de mostrar que o mártir é um eterno afortunado * São Tomás Morus emprega técnicas inacianas: para mover as almas, não basta a simples consideração da salvação e da perdição, convém mostrar também os contrastes entre esta e aquela * Pior do que hesitar diante do martírio, é morrer inadvertidamente e ir para o inferno por causa de uma bagatela! — Os argumentos de São Tomas valem sobretudo para nossa vida quotidiana * Abusar da misericórdia divina na nossa vida quotidiana, por moleza e superficialidade, constitui gravíssimo risco de perdição eterna * Para nossa perseverança, não basta o simples amor de Deus, nem o temor de Deus: é preciso pensar na graça da vocação e no Céu que está reservado para quem foi tão chamado como nós * No Céu constituiremos a corte íntima da Rainha, bem junto ao Canal de toda delícia, de toda glória e de todo amor, com o olhar d’Ela fixo sobre cada um de nós eternamente * Mais importante até do que não pecar, é vivermos o dia-a-dia na esperança da intimidade ímpar que teremos com Nossa Senhora no Céu
* Breve biografia de São Tomás Morus
Nós temos hoje, dia 6 de julho, a festa de um santo difícil: São Tomas Morus. Chanceler do reino, Henrique VIII mandou decapitá-lo por ódio à Fé Católica e ao primado do bem-aventurado Pedro. Século XVI.
Santa Maria Goretti, virgem e mártir. Morreu por amor à pureza. Sua relíquia se venera em nossa capela. Século XX.
A respeito de São Tomás Morus, nós temos o “Diálogo do Conforto na Tribulação”, capítulo VII.
Introdução biográfica:
Nascido em Londres em 1478, morreu ele mártir a 6 de julho de 1535, por haver recusado reconhecer Henrique VIII como chefe da igreja inglesa. Recusou dar sua aquiescência escrita a um ato do Parlamento, pelo qual era reconhecida a preeminência espiritual do soberano inglês à Sé de Roma. Não era válido tal ato, disse ele em sua defesa. Era contrário à constituição da Cristandade. E tal lei não era apenas contra as leis da Cristandade, era contrária às leis da Inglaterra, a Magna Carta ainda em vigor.
(…)
Era também contrária ao sagrado juramento que Sua Alteza Real, ele mesmo, e todos os príncipes cristãos, sempre com grande solenidade, proferiram na coroação.
E ele foi adiante, alegando “que tanto não pode esse Reino da Inglaterra recusar obediência à Sé de Roma, quanto uma criança recusar obediência à seu pai carnal”.
Ficou dois anos preso na Torre de Londres, antes de ser decapitado ali.
Entre outros escritos deixou: “Diálogo do Conforto na Tribulação”.
Um tio e o sobrinho se preparam, em Viena, para o martírio, ante a perspectiva da tomada da cidade pelo Grão Truco.
* Poucos na Inglaterra estavam dispostos a morrer pela Fé; São Tomás Morus fez então uma apologia do martírio, com lógica e didática, a fim de mostrar que o mártir é um eterno afortunado
O Grão Turco é Henrique VIII. É do último capítulo desse livro, escrito na prisão, o seguinte trecho — e agora vêm palavras textuais de São Tomás Morus:
Quantos romanos, quantas nobres coragens de outros vários países, decididamente deram suas próprias vidas e sofreram mortes muito dolorosas por suas pátrias e pelo desejo de, por suas mortes, ganharem a única recompensa de renome de fama mundana. E devemos nós nos esquivar de sofrer outro tanto pela honra eterna no Céu, e pela glória sem fim?
O demônio consegue também alguns hereges tão obstinados que suportam repetidamente mortes dolorosas por vanglória. E não é, então, mais do que uma vergonha que, triste, veja Nosso Senhor seus católicos renegarem sua Fé, em vez de sofrerem a mesma coisa para o Céu e para a verdadeira glória?
Preza a Deus — muitas vezes tenho dito — que a lembrança da bondade de Cristo, ao sofrer sua paixão por nós, a consideração do inferno em que cairemos se O renegarmos, a alegre meditação da vida eterna no Céu que alcançaremos com essa breve morte temporal pacientemente sofrida por ele, tivesse um lugar tão profundo em nosso peito quanto a razão permitisse, e como se fizermos nosso dever para com ela, e ela, a razão, trabalharmos e rezarmos verdadeiramente. Penso que eles, os católicos, conseguirão.
Disso estou muito seguro, que se tivéssemos uma pequena parte de amor que Cristo teve e tem para nós, toda dor de perseguição desse Grão Turco não poderia afastar-nos dele, mas que haveria hoje tantos mártires aqui e na Hungria, quantos houve antes em outros países de antigamente.
E neste ponto não duvido nada, que se o Grão Turco se achasse aqui com todo o seu exército de volta, e todos os soldados prontos a nos infligir todos os terríveis tormentos que pudéssemos imaginar, e para aumentar nosso terror caíssem sobre nós subitamente com seus gritos e tambores e trombetas, executando a um só tempo, e com disparos de canhão para nos fazer um terrível alarido; e se subitamente então, do outro lado, o campo estremecesse, e se abrisse a terra e os demônios subissem do inferno e se mostrassem quais formas horrendas, como os pobres condenados os verão, e com aqueles ganidos espantosos dos cães infernais a estrugir por todos os lados; e pudéssemos olhar para dentro daquele pestilento abismo e ver o enxame de almas insensatas naquele perene tormento, nós ficaríamos tão aterrorizados com tal visão que pouco nos lembraríamos das hostes do Grão Turco.
E boa [Fé?], em que pesa tudo isso, penso ainda mais longe, que se aparecesse a grande glória de Deus, a Trindade em Sua maravilhosa majestade, Nosso Salvador em sua gloriosa humanidade sentado no trono, com sua Mãe Imaculada e todos aqueles gloriosos amigos, nos chamando para perto deles, e que entretanto o nosso caminho corresse através da morte dolorosa — jazia talvez antes que pudéssemos alcançá-los, à visão daquela glória nenhum homem recuaria, mas correria para ela com toda sua força. E, apesar de [que], se tivesse em nosso caminho maliciosamente, para nos matar, tantos aliciadores do Grão Turco, ou melhor, tantos atormentadores à soldo do Grão Turco, quanto são os demônios.
E, portanto, meu sobrinho, considerando ainda essas coisas, tenhamos confiança na ajuda de Deus. Preparemo-nos pela oração, com toda nossa confiança em sua ajuda, sem qualquer apoio em nossa própria força. Pensemos assim e preparemos nosso espírito com bastante antecipação. Conformemos nossa vontade com a d’Ele, não desejando ser trazido do perigo, da perseguição, pois parece ser um pensamento orgulhoso desejar o martírio. Mas desejando a ajuda e a força de Deus, se ele se dignar de permitir que soframos violentamente, sendo procurados, achados, trazidos contra nossa vontade, ou bem por seu desígnio, para o conforto de nossa cura, levados a sofrer.
Quando nos sentirmos demasiadamente ousados, lembremo-nos da fortaleza de Cristo. No nosso modo, lembremo-nos da dolorosa agonia de Cristo, do modo como ele mesmo, por nosso conforto, sofreu em Sua Paixão, do que nenhum temor nos faça desesperar.
E sempre invoquemos seu socorro, tal como ele mesmo de digne enviar-nos. E então não devemos nunca duvidar que ele nos preservará da morte dolorosa, ou não falhará de nos fortalecer de tal modo que alegremente por ela nos trará o Céu. E então fará mais por nós do que se dela nos tivesse livrado.
* São Tomás Morus emprega técnicas inacianas: para mover as almas, não basta a simples consideração da salvação e da perdição, convém mostrar também os contrastes entre esta e aquela
Essas lindas considerações de São Tomás Morus lembram os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola. Lembram pela técnica, pelo que tem de razoável, lembram também porque exploram muito o contraste.
Santo Inácio de Loyola nos seus Exercícios explora muito o contraste para mover as almas. Ele mostra, por exemplo, de um lado, o demônio querendo nos perder. Mas depois ele mostra Deus Nosso Senhor, em toda sua glória, querendo nos salvar. E procura mover a nossa alma não pela simples consideração da perdição, não pela simples consideração da salvação, mas também pelo vigoroso contraste que vai entre a salvação e a perdição, então fazendo com que a alma, historiada no que ela tem de mais profundo, pelo contraste, se lance para a deliberação boa. A utilização do contraste é uma regra excelente de psicologia, para movimentar as almas.
Aqui os senhores têm o pensamento dele expresso de um modo até brilhante, mas que em duas palavras poderia ser resumido da maneira seguinte; o problema é: o homem vai morrer, porque ele vai sofrer uma perseguição que dele vai exigir o martírio como condição especial. Esse martírio, além de representar a morte, traz o inconveniente de que pode trazer consigo muito sofrimento. Então, o homem vacila.
E para levar o homem a não vacilar, ele faz uma série de raciocínios. E esses raciocínios terminam nessa figura. E essa figura é uma figura eminentemente inaciana: aqui está o homem, perto dele estão os exércitos do rei. E os exércitos do rei vão lhe arrebatar a vida. Mas por detrás dos exércitos do rei, estão os demônios numa forma a mais horrenda possível. E o homem então pensa: “se eu ceder ao medo que eu tenho da força do rei, eu serei um demônio como aqueles. Eu vou sofrer daquela desdita, eu vou me tornar hediondo como aquele […inaudível], eu vou ser como ele”.
Então, o receio de ser atormentado por aquele rei eternamente, tormento muito mais perigoso do que ser atormentado transitoriamente pelo […inaudível], o receio não de ficar posto em pedaços — porque o corpo morre, mas a alma não morre — mas o receio de ficar com a alma à maneira das almas daqueles precitos que estão lá. Esse receio faz com que a pessoa perceba que o perigo do exército do rei é muito pequeno, e muito maior perigo é tornar-se um demônio.
E então a pessoa, de medo de um perigo maior, escolhe o perigo menor. E resigna-se a morrer mártir, de medo de enfrentar um tormento mil vezes maior, que é o tormento da eternidade. O raciocínio não poderia ser mais claro, não poderia ser mais convincente.
Os senhores tomem o próprio caso dele. Ele foi condenado à morte, foi decepado. Ele teve, vamos dizer, umas horas de agonia próximas, na expectativa da morte que vinha, e teve um momento de dor suprema, que foi o momento em que o machado do verdugo se abateu sobre ele, e separou a sua cabeça do corpo, e com isso separou a sua alma do corpo, e com isso ele morreu uma morte violenta.
Mas quanto tempo durou isso? Suponhamos que isso tenha durado, a morte, tenha durado dez minutos — nem isso pode ter durado. Acabou-se.
Bem, mas o quê é isso em comparação de ser um demônio por toda a eternidade, atormentado pelos espíritos mais horrorosos, sentindo em si o horror de uma transformação — quer dizer, ele, que era um homem vivo, [andando?] de um lado para outro, fez dele um precito nojento, asqueroso, cheio de contradições, cheio de infelicidade, atormentando-se a si próprio e ao mesmo tempo sendo atormentado por toda a eternidade por seus companheiros. Quer dizer, tormento por tormento, não é verdade que os exércitos do reino, à primeira vista tão temíveis, passam a ser nada em comparação com os exércitos de Satanás?
Ora, se ele ceder, ele se expõe à morte. Pode ser que Deus depois não lhe conceda a graça da penitência final em proporções extraordinárias — a graça ordinária todo mundo tem. E pode portanto ser, é provável que ele se coloque em posição de cair no inferno. Então, de medo do inferno, essa alma resolve enfrentar o carrasco.
* Após utilizar os contrastes para despertar no leitor o temor de Deus, São Tomás Morus visa infundir o puro amor de Deus, tratando da Paixão e Morte de Nosso Senhor
Mas depois ele figura, na retaguarda das hostes infernais, uma outra coisa. E essa é uma visão cheia de encanto. É uma visão maravilhosa. É Nossa Senhora sentada à direita de Seu Divino Filho e com toda a corte celeste, que olha para o homem ameaçado de martírio com amizade, com afeto, com ternura, que olha com uma espécie de avidez, com aquela avidez com que Nosso Senhor disse do alto da cruz “Eu tenho sede”. Quer dizer, “Eu tenho sede no meu corpo”, é verdade, Ele quis dizer isso, mas sobretudo, “Eu tenho sede de almas”.
Nosso Senhor olha para aquela alma e diz: “meu filho, Eu tenho sede de ti, Eu tenho sede de tua alma, tenho sede de que ela se una à mim, Eu tenho sede do teu amor. Na minha felicidade eterna inacessível, perfeita, entretanto, teu amor, a união de tua alma com a minha me dará alegria. E Eu peço à tua alma esse ato de sublime fidelidade. Aqui está a recompensa imensa, aqui estou Eu, aqui está minha Mãe Santíssima, aqui está toda a corte celeste. Aqui está a eternidade que te espera com um cúmulo insondável de felicidades eternas.
Então, uma outra razão se acrescenta à primeira: além do terror de vir a ser um demônio, existe o desejo de ver a Nosso Senhor Jesus Cristo e Nossa Senhora.
Então, esse ato de puro amor, somado ao ato de santo temor, leva a alma a determinar-se ao martírio. E a determinar-se ao martírio porque o martírio não é senão uma bagatela em comparação desses grandes bens que esperam o homem, ou desses males terríveis que o aguardam.
Aqui está o mecanismo do pensamento de São Tomas Morus. Pensamento muito salutar, cheio de verdades de Fé, de uma lógica inteiramente irrecusável. Uma pessoa que tenha Fé e que recuse isso é verdadeiramente um demente, não tem idéia do que possa ser o destino eterno de um homem, arriscá-lo por um tormento de alguns minutos.
* Pior do que hesitar diante do martírio, é morrer inadvertidamente e ir para o inferno por causa de uma bagatela! — Os argumentos de São Tomas valem sobretudo para nossa vida quotidiana
Mas essa consideração é a única que vale para o martírio? Essa consideração só vale para os mártires? Não há considerações análogas que se podem fazer para aqueles que não são mártires?
Por certo, nós temos essa consideração [por] válida para o longo martírio de nossa existência de todos os dias. Todos os dias, para o homem sério, para o homem reto, que procura servir a Nossa Senhora, a vida tem algo de martírio. Porque nós temos renúncias a fazer, nós temos sacrifícios a efetuar, temos violências a fazer sobre nós mesmos, maiores ou menores, mas nós temos que fazê-las. E isso tudo é a Cruz de Cristo que nós carregamos conosco.
E esses argumentos valem, ainda muito mais para quem está na nossa vida quotidiana do que para quem está em ocasião de martírio. Porque nós sabemos que qualquer pessoa, de qualquer idade, pode morrer de um momento para outro. Essa é a última das banalidades. E numa cidade como São Paulo, isso é particularmente verdadeiro, com o trânsito que nós temos. Bem, é evidente.
Agora, uma pessoa colocar-se em condições de ir para o inferno, uma pessoa colocar-se em condições de preferir o Céu por causa de uma morte cruenta. Bem, a gente compreende que a pessoa hesite, mas a gente compreende que a pessoa tenha medo. O próprio Cristo, Nosso Senhor, quando se encontrou na perspectiva do martírio d’Ele […inaudível] começou a ter tédio e pavor de ficar cheio de tristeza. A gente compreende, portanto, que o homem se assuste.
Mas por quê bagatelas na vida quotidiana há pessoas que expõem as suas almas! É por um prazer, é por um olhar, é por um mau tato, é por uma felicidade de qualquer natureza. É folheando imprudentemente uma revista, é olhando imprudentemente para um cartaz de cinema, é consentindo, na rua, num mau olhar que se vai transformar num mau pensamento, e depois numa má resolução.
É consentindo num ato de orgulho, num ato de independência que vai esmorecer o calor de nossa vocação, que vai abalar a força de nossa perseverança. Mas são por coisas tão menores do que o sacrifício do martírio.
Os senhores pensam a todo momento, numa cidade como São Paulo, está morrendo gente. A todo momento está caindo gente no inferno, numa desdita completa, sem remédio, tornando-se hedionda, horrorosa, inimiga de Deus, perdendo o gáudio inefável do Céu e isso por causa de bagatelas dessas. Quando eu vou ler aquele necrológio nos jornais, ou quando eu vejo alguém mais ou menos próximo de mim que morre, eu penso muito nisso. Morreu.
Bem, na aparência, uma tragédia. Expirou, a sua família começa a chorar, os membros da família se abraçam, começam então as preocupações com os funerais, os pêsames etc. Mas ali está um cadáver. O que aconteceu com aquela alma? Aquela alma num momento foi julgada. Pode ter ido para o purgatório, menos provavelmente terá ido para Céu diretamente, muito provavelmente, em nossos dias terá ido para o inferno.
E aquele instante começa a desdita eterna, negra, completa, compacta, tal que aquela pessoa, ela mesma, se fosse convidada a ver a Deus, não quereria. Porque ela preferiria a sua eterna desdita por ódio de Deus.
Isso era uma pessoa que vinte e quatro horas antes, cinco horas antes, uma hora antes estava conversando conosco, estava comendo conosco, estava participando de nossa vida e, de repente, se transforma num […inaudível].
* Abusar da misericórdia divina na nossa vida quotidiana, por moleza e superficialidade, constitui gravíssimo risco de perdição eterna
Há palavras que possam indicar a desventura, não do primeiro minuto no inferno — porque no inferno não há minutos —, mas a desventura de cair alguém nessa eternidade eterna infeliz e completamente imutável? Há algo que possa significar? Mas o quê é isso em comparação dessa coisa mil vezes pior: a pessoa inimiga de Deus ficar blasfemando contra Deus, ficar blasfemando contra Nossa Senhora, perde a amizade de Deus e se precipita no inferno por sua vontade própria, mas ao mesmo tempo por ódio de Deus? Quer dizer, Deus, o Sumo Bem, Nosso Senhor Jesus Cristo que fez por essa alma tudo quanto a gente sabe que fez. Rejeita tudo isso e odeia tudo isso. Há uma desgraça mais completa do que isso?
Entretanto, por quê as pessoas fazem isso?
Por moleza, por condescendência para com coisas que não deveriam condescender. Em última análise, por um cálculo de abuso da misericórdia divina: “Deus acabará me perdoando”. Do quê vale esse cálculo?
Imaginem os senhores que um dos senhores fosse um homem muito rico, e tivesse um leproso a quem vai visitar sempre no leprosário. E ajudasse esse leproso, e desse a esse leproso toda espécie de esmolas, boa companhia etc. E esse leproso pensasse o seguinte: “eu, pelas costas, vou caçoar desse homem. Eu vou me servir de confidências que ele faz para traí-lo. Eu vou abusar da misericórdia dele de todos os modos possível. Porque eu vejo que ele é tão bom, que eu posso fazer com ele o que quiser. Ele depois me perdoa. E quanto mais eu tenho certeza que ele é bom, mas eu vou abusar dele”.
O que os senhores fariam se fosse benfeitores desse homem? A propensão violenta era dizer: “bem, isso também é demais. Eu por você faria tudo, mas permitir que você abuse de minha bondade por essa forma, você encheu as medidas. Eu cesso com você”.
Agora, nós não provocamos, à la longue, a própria Misericórdia de Deus com nosso proceder? É uma coisa que é evidente que sim.
Então os senhores compreendem como nessa vida nós devemos tomar cuidado, nós devemos pensar, nós devemos ponderar o que pode nos custar qualquer ato de infidelidade.
* Para nossa perseverança, não basta o simples amor de Deus, nem o temor de Deus: é preciso pensar na graça da vocação e no Céu que está reservado para quem foi tão chamado como nós
Entretanto, é preciso dizer o seguinte: que não basta nós nos guiarmos apenas pelo temor, não basta nós nos guiarmos apenas pelo amor, não basta nós nos guiarmos apenas pelo temor. Nós devemos pensar na graça que nós recebemos na nossa vocação, nós devemos pensar no Céu que está preparado para aqueles que foram tão chamados quanto nós.
Quem foi chamado para ter da ortodoxia uma visão tão límpida na Terra quanto pode ter um membro do nosso movimento, foi chamado para ter no Céu uma visão beatífica particularmente alta e particularmente clara. Porque é evidente que o nível de senso católico indica o nível da clareza da visão que se vai ter de Deus. E todos nós, tendo sido chamados a ver a Igreja de uma particular lucidez, a amar a religião católica com um amor especial, mais do que os outros com uma fidelidade mais completa.
Deus exige de nós, nessa vida, é verdade, uma vida difícil, mas ele prepara um Céu particularmente maravilhoso, numa intimidade maior com Ele do que de muitas outras almas, sentindo o contato, a visão beatífica, a intuição direta de todas as perfeições d’Ele e o amor d’Ele nos inundando, as perfeições d’Ele todas nos enchendo e transformando em verdadeiros sóis, em verdadeiras fornalhas atingidas pelo amor d’Ele.
* No Céu constituiremos a corte íntima da Rainha, bem junto ao Canal de toda delícia, de toda glória e de todo amor, com o olhar d’Ela fixo sobre cada um de nós eternamente
Nós teremos eternamente o sorriso de Nossa Senhora. E se é verdade que na corte de um rei há uma pequena corte especial da rainha, nós podemos dizer que no Céu haverá toda uma corte celeste para honrar Nossa Senhora, porque Ela é a Rainha de tudo, Ela não é apenas uma Rainha-mãe, mas Ela é a Rainha de tudo, Deus lhe deu todas as realezas.
Mas Ela vai ter seus íntimos para a servirem, aqueles que são os escravos de Nossa Senhora, que são os Apóstolos dos Últimos Tempos vão ser chamados a estar particularmente perto d’Ela. Quer dizer, perto do canal próximo e direto de todas as delícias, de toda glória, de todo amor.
E, então, nós compreendemos o que que é a gente corresponder à graça nas condições difíceis dessa vida.
Dante, com uma intuição genial, quando chegou no último cântico do Céu, ele entendeu que ele não podia representar a Deus, que o talento dele não chegava para isso, que isso excede a todo talento.
Então ele vai subindo aos círculos sucessivos de Anjos, de santos e Anjos, até chegar bem alto onde está Nossa Senhora. E ali ele olha para Nossa Senhora e no olhar, nos olhos de Nossa Senhora, ele vê o reflexo de Deus. Então, o olhar embevecido, enlevado à Nossa Senhora, ele termina a Divina Comédia.
Nós vamos ter o olhar de Nossa Senhora fixado sobre cada um de nós eternamente. Esse olhar sempre diferente, com algo sempre novo, sempre igual a si mesmo, fazendo incidir sobre nós toda a bondade e todo o carinho de Deus, no que ele tem de mais requintado, no que ele tem de mais esplêndido.
Só o passar a eternidade sendo olhado com amor por Nossa Senhora já faria uma eternidade perfeitamente feliz. E isso é que nós devemos esperar.
* Mais importante até do que não pecar, é vivermos o dia-a-dia na esperança da intimidade ímpar que teremos com Nossa Senhora no Céu
Quando o ultramontano chega ao alardo no fim do dia e, quando aos pés do estandarte de Nossa Senhora, ele [entoa] um canto de louvor a Ela, ou um canto de união às dores d’Ela, ele deve pensar isso: “seja como for, o dia de triunfo da Revolução está [acabado,] um dia do reinado do demônio já passou, um dia me aproxima da Bagarre, um dia me aproxima do Reino de Maria. Nesse dia fui fiel, eu lutei, eu fui d’Ela, eu obtive, pela graça d’Ela, mais gente para Ela. Eu aumentei o início, eu tornei mais forte a base do Reino d’Ela que começa a luzir nessas trevas horrorosas”.
Ou, outra coisa: “eu não fui fiel, mas ao menos eu me voltei para Ela, ao menos eu contei com a misericórdia d’Ela, e eu dei a Ela uma forma de graça que só o pecador pode dar, e que é essa confiança de ser amado por Nossa Senhora ainda quando nós a tenhamos ofendido. Mas isto eu fiz, e aqui estou aos pés do estandarte d’Ela, e eu sei que se eu estiver todos os dias de minha vida aos pés do estandarte d’Ela, no Céu eu estarei junto à Ela, eu estarei bem junto ao Coração Imaculado e Sapiencial d’Ela. E então, no Céu, eu vou ter uma glória desmedidamente grande. Eu nem faço idéia do que me aguarda no Céu. E isso deve me alegrar e me dar ânimo para a luta quotidiana…”
Que Nossa Senhora fecunde essas palavras […inaudível] …e completamente imutável. Há algo que possa significar isso.
[Nota do datilógrafo: há um trecho repetido, já anotado anteriormente].
Há uma desgraça mais completa do que isso? Entretanto, porque as pessoas…
(…)
* Precisamos viver também em função das coisas que nesta terra são prenúncio do Céu: que alegria se daqui a cem anos, no Céu, todos os presentes aqui possam se lembrar desta noite!
… ao desejo das coisas, da felicidade eterna e da intimidade com Deus que nos aguardam na outra vida. Ao amor das coisas que na Terra representam o Céu, são prenúncios do Céu: a Santa Igreja Católica, toda a doutrina da Igreja, todas as leis da Igreja, todas as [instituições?] da Igreja, e a […inaudível] da Igreja na sua beleza […inaudível].
Que Deus nos dê exatamente isso, que nos dê o amor ao Grupo que é, dentro da Igreja, um esplendor especial da Igreja que nós fomos especialmente chamados a amar, e cujas delícias […inaudível]. Ele nos dará uma eternidade eternamente feliz. Que alegria que daqui a cem anos — eu estou certo que até os mais novos daqui estarão lá — daqui a cem anos, todos os que estão presentes aqui neste auditório possam se lembrar dessa noite, dessas palavras e com seus Anjos da Guarda darem uma Ação de Graças superabundantemente feliz à Nossa Senhora por os senhores terem chegado ao Céu.
Vamos pedir isso a Nossa Senhora.
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