Santo do Dia (Rua Pará) – 5/6/1967 – 2ª feira [SD 116] – p. 3 de 3

Santo do Dia (Rua Pará) — 5/6/1967 — 2ª feira [SD 116]

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Biografia de Santa Clotilde * A transformação dos sapos em flores-de-lis, uma imagem do Grand-Retour * Santa Clotilde foi uma espécie de Chanteclair de sua época, a primeira que fez raiar o sol

Clotilde foi rainha da França, filha do rei Childerico, esposa de Clóis. Às suas piedosas orações deve a França o dom da Fé. Século VI.

A respeito de Santa Clotilde, Pourrat, no livro “Les Saints de France”, diz o seguinte:

* Biografia de Santa Clotilde

Santa Clotilde era princesa burgunda, tendo visto toda sua família assassinada por seu tio Gondebaud, que poupou somente Clotilde e sua irmã, tendo feito educá-las na religião católica, embora fosse ele ariano. Clóvis, rei dos francos, tendo ouvido falar da beleza e virtudes da princesa, pediu-a em casamento ao tio. Não a obtendo, dirige-se diretamente a Clotilde, enviando-lhe seu anel real como penhor, através de um emissário. Clotilde aceitou.

Embora pagão, e temendo então magoá-lo, Gondebaud permitiu o noivado.

Casando-se com Clóvis, a princesa tudo fez para sua conversão. Nada obteve de início, pois seus filhos morriam logo após o batismo e Clóvis atribuía o fato ao sacramento. Clotilde rezava e penitenciava-se, até que raiou o dia da vitória de Tolbiaca, quando o rei franco, vencedor, fez-se batizar com seus soldados por São Remis. Estava fundado o primeiro reino católico europeu.

Clóvis morreu em 511 e Clotilde pediu aos seus filhos que vingassem sua família. Como não pudessem fazer contra Gondebaud, que morrera, matam São Sigismundo, seu filho e sucessor. Mas logo após, Clodomiro, filho mais velho de Clotilde e herdeiro do trono, foi morto também. Sentindo o peso do castigo, a rainha retira-se para Tours, funda um mosteiro e dedica-se a cuidar de seus netos, filhos de Clodomiro.

Mas seus outros filhos temendo a posição futura das crianças, afastam-nas de Clotilde sob falsos pretextos. Enviam-lhe mais tarde um emissário com uma espada nua e um par de tesouras: a rainha deve escolher entre ver seus netos mortos ou cortar-lhes os cabelos e enviá-los para o claustro. Cheia de cólera pelo embuste que sofrera, Santa Clotilde responde: “Se não podem subir ao trono, prefiro vê-los mortos a tonsurados”. Ao conhecerem a resposta, os tios matam duas crianças. A terceira, salva, será São Cloud.

Cheia de dor, Clotilde dedica-se o resto de sua vida à oração e às boas obras. Uma tarde, rezando no túmulo de São Martinho, ouviu uma voz que predizia sua morte. Chamou então seus filhos, ordenou-lhes que guardassem a lei de Cristo, vivessem em harmonia, protegessem os pobres, fossem os pais de seu povo e defensores de Igreja e que se penitenciassem de seus crimes. A 3 de Junho de 545, tendo recebido o Viático e feito profissão pública da Fé, entregou a alma a Deus. Foi enterrada junto a Clóvis e a Santa Genoveva, da qual fora amiga durante a vida.

Santa Clotilde, sem dúvida, recebeu uma missão especial: ela tudo transformou. Uma lenda comum em Strasbourg conta que no dia do batismo dos francos, em Reims, um anjo trouxe a Clotilde as armas do novo reino: as de Clóvis eram três sapos, que se transformaram em três flores-de-lis.

* A transformação dos sapos em flores-de-lis, uma imagem do Grand‑Retour

Os senhores notam aqui mais uma manifestação do maravilhoso medieval. As armas do rei pagão eram três sapos, mas ao receber ele o batismo, transformam-se em flores-de-lis. É a ação da Igreja que toca o que é natural e decaído e transforma os sapos em flores-de-lis.

Não encontro imagem mais bonita para o Grand‑Retour, que deve ter lugar por ocasião da Bagarre, do que essa de sapos que se transformam em flores-de-lis. A Bíblia fala de transformação das pedras em filhos de Abraão, e já é uma coisa linda, mas esta é mais poética e bonita.

A gente pode imaginar um sapo, uma rã, com aquela pele rugosa, aquele aspecto horrível dos pântanos, aquela suficiência cafajeste, plebéia, aquela falta de respiração que dá idéia de avidez que tem o sapo, se transforma e vira em um lírio maravilhoso. Este é Grand‑Retour e a transformação que as almas por ocasião do Reino de Maria devem sofrer.

Aí estava o valor das lendas e do maravilhoso. Dizem muito mais às vezes do que um acontecimento autenticamente histórico.

Toda a história de Santa Clotilde pode basear-se nisto: transformação de sapos em flores-de-lis.

Ela era de um meio ariano. Católica, casou-se com um rei pagão. Teve filhos criminosos, que se jogaram uns contra os outros, ao par de ter um filho santo, que foi o famoso Saint Cloud. Ela foi de uma raça de sapos transformada numa pura flor-de-lis. Teve junto de si algumas outras flores-de-lis, mas o resto era sapo em via de transformação.

E aí vemos a tragédia de sua vida. Era tão grande o peso do paganismo, era tão grande o peso dos maus costumes antigos, que era preciso uma virtude heróica para não cair nos pecados do paganismo, ainda que se tivesse sido batizado como católico.

* Santa Clotilde foi uma espécie de Chanteclair de sua época, a primeira que fez raiar o sol

Não sei se sabem de um fato curioso, de uma índia muito piedosa que o Pe. Anchieta encontrou por aqui quando São Paulo não era mais do que o Pátio do Colégio. Ela estava muito triste e ele perguntou o que ele sentia. Ela: “Estou, padre, com saudade de comer o braço de uma criança tapuia…”. Ela era batizada, comungava, não comeria o braço da criança, mas tinha vontade de comê-lo…

O pessoal que rodeava Santa Clotilde não era antropófago, mas pouco faltava para que o fossem. Eram batizados, mas tinham saudades das coisas bárbaras.

Ela no meio de tudo isto, flor-de-lis das mais perfeitas e admiráveis, ensinando a virtude, a mansidão e dando também admiráveis exemplos de senso de sua própria dignidade.

Não sei se prestaram atenção ao episódio de seus netos, quando ela reponde que prefere vê-los mortos a terem o cabelo cortado. Como a obrigação deles é de reinar, prefiro que morram a que não reinem. Vejam o senso de dignidade que entra aí. Foram mortos, mas ela continuou a cumprir sua missão.

Ela é uma espécie de Chanteclair daquela época: é a primeira que faz raiar o sol. Nela o sol da santidade começa a raiar para os francos. Trabalha para a conversão do rei e dá exemplos das virtudes que o reino acabará por praticar. É uma santa admirável, que está na aurora dessa transformação dos sapos em flor-de-lis.

É muito oportuno que lhe peçamos que nos consiga a graça de vermos a hora da outra transformação de sapos em flor-de-lis, e quando houver o Grand-Retour, quando se começar a trabalhar para a reconstrução do mundo futuro, que sejamos no mundo novo o que ela foi no mundo dela: os precursores de um admirável progresso. Esse então verdadeiro, porque progresso em Nosso Senhor e em Nossa Senhora…

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