Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 26/5/1967 – 6ª feira [SD 302] – p. 7 de 7

Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 26/5/1967 — 6ª feira [SD 302]

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Quem se levantará por mim contra os malfeitores? Quem estará por mim contra os operários do mal?” — Considerando seu isolamento, o Fundador faz suas estas amargas queixas do Salmo * Caráter profético do Salmo: Nosso Senhor, abandonado pelos Apóstolos, poderia fazer exatamente a mesma lamentação * Na face inteira do mundo, a esta hora, quem está descendo com Nosso Senhor ao “lagar onde se esmagam as uvas”? * Esta ação de reparação direta, que é de estar aos pés da Cruz, parece que está reservado a nós * O Fundador prepara seus discípulos para terem o espírito dos Apóstolos dos Últimos Tempos * Uma vez que o dia da misericórdia parece que não vem, pedir que venha pelo menos o dia da cólera, pois a maior misericórdia é cair de uma vez o castigo * Apresentar aos pés de Nossa Senhora uma vontade contrita e humilhada * A única reparação verdadeira: entregar tudo, fazer tudo, sacrificar tudo, renunciar a tudo com o objetivo de lutar no meio da tormenta, para que Nossa Senhora vença * Pedir a nossa Senhora que faça de nós almas inteiramente reparadoras * Sentir alegria na previsão das maravilhas que nossa Senhora fará por nós, transformando-nos nos guerreiros dos últimos tempos

* “Quem se levantará por mim contra os malfeitores? Quem estará por mim contra os operários do mal?” — Considerando seu isolamento, o Fundador faz suas estas amargas queixas do Salmo

Nós devemos fazer um comentário de caráter religioso a respeito desses acontecimentos. Eu encontrei, neste salmo que é um Salmo cheio de sugestões, uma expressão muito bonita. É a seguinte:

Quem se levantará por mim contra os malfeitores? Quem estará por mim contra os operários do mal?”

É uma pergunta à maneira de uma queixa amarguíssima. Inúmeras vezes me tem subido aos lábios quando eu considero o isolamento do Grupo, em face não só de seus adversários, mas daqueles que seriam naturalmente interessados em apoiar o Grupo na luta contra os adversários. Por exemplo, nosso isolamento em relação a todos os fazendeiros que não se levantam contra nós, não se colocam de nosso lado contra os malfeitores que querem a Reforma Agrária, não estão por nós contra os operários do mal.

O clero: quantos sacerdotes que no, no fundo, mais ou menos, sabem que nós temos razão, mas que não se levantam de nosso lado contra os opressores, contra os operários do mal, quer dizer, aqueles que fazem o mal, que operam o mal, quer dizer, os “fassures”, não tomam posição? Pelo contrário, nós temos que lutar sós, temos que lutar com um enorme peso de uma luta travada inteiramente sós.

É o Grupo que luta só, porque ninguém se levanta do lado dele.

* Caráter profético do Salmo: Nosso Senhor, abandonado pelos Apóstolos, poderia fazer exatamente a mesma lamentação

Agora, isto a meu ver tem um caráter profético e descreve também a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Descreve a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo em que Ele ficou exatamente assim, porque houve um momento em que Ele foi abandonado pelos Apóstolos, em que Ele teve apenas do seu lado Nossa Senhora, as santas mulheres e São João Evangelista, em que Ele podia exatamente fazer esta lamentação que está escrita aqui: “Quem se levantará por mim contra os malfeitores? Quem estará por mim contra os operários do mal?”

Quer dizer, os malfeitores todos se levantaram contra Ele, os operários do mal uniram, concentraram toda a população de Jerusalém contra Ele.

E há uma outra lamentação que não sei de que Profeta é, que diz esta coisa linda: “Desci ao lagar para esmagar as uvas e não houve quem me acompanhasse”. O lagar que esmaga as uvas é, naquele tempo em que se esmagavam as uvas com os pés… Eles enchiam uma tina, um lagar, com uvas e as pessoas andavam em cima e esmagavam as uvas, mas o resultado é que os trajes dessa pessoa ficavam completamente tintas de vermelho por causa da cor das uvas, e as pessoas ficavam como se estivessem completamente ensangüentadas. Então Nosso Senhor diz de si: “Eu desci ao lagar onde se esmagam as uvas”. Quer dizer: “Eu desci ao lagar onde minha túnica ia ficar completamente rubra, onde eu ia derramar o meu sangue inteiramente, e eu não encontrei um só que descesse comigo para isso”.

* Na face inteira do mundo, a esta hora, quem está descendo com Nosso Senhor ao “lagar onde se esmagam as uvas”?

Agora, os senhores notem como se repete a situação, porque nós estamos comentando isso. Eu pergunto o seguinte: na face inteira do mundo, a esta hora, qual é um movimento organizado e com expressão que esteja descendo com Nosso Senhor ao “lagar onde se esmagavam as uvas”? Quem é que está observando o abandono em que Ele fica, está observando a trama dos adversários, está observando as razões pelas quais a cólera d’Ele pode estar subindo até os limites em que Nossa Senhora, que entretanto é a Onipotência Suplicante, não consiga conter essa cólera?

Então, o enorme drama que a Humanidade está assistindo, mas que foi um drama que Ele viveu na paixão d’Ele, que Ele previu, que Ele pressentiu. De maneira tal que, como Ele doou-se por tudo o que suceder, nós de algum modo, retrospectivamente, podemos aumentar ou diminuir as dores d’Ele na Paixão d’Ele e na paixão co-redentora d’Ela. Não há ninguém.

Nesta hora, é vinte para a meia-noite deste dia, na face inteira da terra, quem é que está reunido para analisar seriamente isto, com olhos de considerar a Paixão de Cristo, as dores de Nossa Senhora, os interesses da Santa Igreja Católica e mais nada? Sem se preocupar com simpatias e com antipatias, com questões de nacionalidade, mas tomando em consideração só isto, e tomando esta consideração que enche a vida inteira de tal maneira que a gente não se preocupa com nada ao longo do dia inteiro e da noite inteira, a não ser com isto: como é que está a luta da Revolução? A tal ponto que o nosso próprio apostolado individual, a gente considera que é importante na medida em que ele é um fenômeno intrínseco a esse grande ciclo que marca a Revolução e a Contra-Revolução.

* Esta ação de reparação direta, que é de estar aos pés da Cruz, parece que está reservado a nós

Pouquíssimas haverá no mundo almas que consolam a Nosso Senhor e a Nossa Senhora, que oferecem reparação, é verdade. Mas eu creio que a quase totalidade dessas almas, se não a totalidade, ignora a razão principal pela qual Eles estão sofrendo, não têm noção da Paixão d’Eles como está sendo.

Quem tenha medido o crime até o fim, tenha odiado o crime até o fim, tenha amado até o fim e esteja medindo passo por passo o que esteja acontecendo, esta ação de reparação direta que é de estar aos pés da Cruz, recolhendo cada gota de sangue, cada lágrima, cada gemido, sofrendo com cada coisa, indignando-se a cada blasfêmia ou com cada crueldade, este papel com esta lucidez, parece-nos reservado a nós.

* O Fundador prepara seus discípulos para terem o espírito dos Apóstolos dos Últimos Tempos

É evidente que isto nos é dado para a ordem da ação para nós fazermos o que estamos fazendo, e fazermos muito mais do que estamos fazendo. Nesse sentido, aqueles que assistem à reunião de sexta-feira são verdadeiros privilegiados, porque eles têm a possibilidade de entrar fundo nessas meditações e de se prepararem para a ação que tome o homem inteiro, uma ação de heróis.

Santa Teresinha do Menino Jesus dizia que para o amor nada é impossível. Há de estar chegando o momento em que essas palavras têm que dizer tudo. Tem que haver um enlevo tal, uma convicção tão profunda, um amor tal, uma compaixão tão completa, que nada seja impossível para um grupo de pessoas, um grupo de varões católicos, por pouco numerosos que eles sejam. E estas reuniões são uma preparação da mentalidade dessas pessoas pare terem o espírito dos Apóstolos dos Últimos Tempos, para serem capazes de tudo aquilo de que o amor mais acendrado é capaz.

* Uma vez que o dia da misericórdia parece que não vem, pedir que venha pelo menos o dia da cólera, pois a maior misericórdia é cair de uma vez o castigo

É verdade que isto nos é dado para a ação, mas é também verdade que isto é dado para duas formas de ação. Primeiro, é a ação prática a qual eu estou aludindo. Mas mais importante do que essa, é a ação propriamente religiosa. É em função de haver almas que sentindo isso, peçam o apressamento do dia da cólera de Deus.

O salmo é todo feito para isto: pedir que uma vez que o dia da misericórdia parece que não vem, que venha pelo menos o dia da cólera, porque a maior misericórdia é cair de uma vez esse castigo. E a cólera e a misericórdia aí se identificam, se unem num mesmo pedido.

Pedir isto, mas pedir com desejo ardente de uma alma que sente, que sabe o que quer e porque é que quer. Então, os senhores têm, nesta perspectiva, a nossa função reparadora, a nossa função de piedade.

* Apresentar aos pés de Nossa Senhora uma vontade contrita e humilhada

Numa reunião destas, saber oferecer um coração contrito e humilhado. Um dos salmos penitenciais diz exatamente isto: “Senhor, Vós não recusais um coração contrito e humilhado”. E coração aqui quer dizer vontade. “Vós não recusais, nada rejeitais a uma vontade contrita e humilhada”.

Apresentar aqui uma vontade contrita e humilhada aos pés de Nossa Senhora e apresentar em torno desses pontos de meditação que muito rapidamente eu vou enunciar:

* Primeira coisa que causa verdadeira contrição e que humilha é presenciar as humilhações da Santa Igreja

Primeira coisa que me causa verdadeira contrição e que me humilha é eu presenciar as humilhações da Santa Igreja Católica Apostólica Romana neste mundo de hoje. Quer dizer, Ela está só, com a pior de todas as solidões. Nenhuma solidão é solidão em comparação com essa! Ela está só e como Ela não tem olhos para ver, nem tem meios para se defender, Ela está com os olhos vendados e as mãos amarradas, como Nosso Senhor por ocasião da flagelação na coluna, em que esbofeteavam a Ele, davam risada e diziam: “Advinha quem é!”.

Ela está posta como o ludíbrio de todos os povos, porque no meio dessa mascarada toda, nada é mais triste e nada se presta mais ao escárnio do que essa posição: ser traído, ser abandonado, fazerem tudo, ser saqueado até pelos seus. É a instituição mais desorganizada, mais desprestigiada, mais aviltada (como tudo quanto não seja estritamente sobrenatural), mais aviltada que há na terra.

E essa é a nossa rainha, é a nossa mãe, a Igreja Católica Apostólica Romana, que é apresentada pela Liturgia como uma dama sem mancha nem ruga. Nesta posição Ela está!

Isto deve determinar em mim uma humilhação. Então a minha mãe está assim, e eu que sou parte deste corpo, não tenho contrição pelos pecados que eu tenha nisto, ou pelos pecados que os outros fizeram, e não me humilho? Eu preciso me humilhar e ter a minha alma contrita por causa disto.

* Estar só é uma coisa muito dolorosa, mas estar só no meio de inimigos é o requinte da solidão

Estar só é uma coisa muito dolorosa. Mas estar só no meio de inimigos, ter em torno de si exclusivamente inimigos, é o requinte da solidão. Porque uma coisa é a solidão de um homem que está no deserto, outra coisa é a solidão de um homem perseguido pelo mundo inteiro, e que em torno de si só tem inimigos. É esta a solidão da Igreja Católica. Tudo está coligado contra Ela. Tudo. E esta coligação é magnífica, é poderosa, está em um verdadeiro triunfo.

Quer dizer, é a pior das solidões. Não é a solidão de Nosso Senhor quando Ele foi ao deserto fazer o seu retiro e depois tentado. É a solidão d’Ele no meio da Paixão.

* Não são inimigos que estão parados, mas tramando o golpe final

Estar só no meio de inimigos ainda não é nada. Não são inimigos que estão parados, são inimigos que estão em ação, que estão tramando o golpe final. Essa solidão não é só cheia de amargura, mas é uma solidão cheia de angústia, cheia de apreensões.

* Nossa Senhora nos pede que rompamos essa solidão da Igreja com uma entrega total, sem limites

O que Nossa Senhora nos pede ao pé da Cruz, quando Ela vê essa solidão da Igreja Católica? Ela nos pede que nós rompamos essa solidão, e que nós estejamos com a Igreja Católica em toda linha, com o sacrifício de toda a nossa vida e com a entrega completa de toda a nossa obra. Porque quanto mais a Igreja está só, tanto mais Ela precisa inteiramente dos poucos que estão com Ela, e esta tremenda solidão é um apelo a uma entrega total, a uma entrega completamente sem limites.

* A única reparação verdadeira: entregar tudo, fazer tudo, sacrificar tudo, renunciar a tudo com o objetivo de lutar no meio da tormenta, para que Nossa Senhora vença

O único ato reparador digno, à vista da situação, é nós dizermos a Nossa Senhora isto: “Minha Mãe, Vós me destes a graça de conhecer, de medir em toda sua profundidade a solidão de Vossa Igreja, portanto, a Vossa solidão e a solidão de Nosso Divino Filho. Vós me destes a graça de compreender que a Vossa solidão completa, a solidão não do homem isolado, mas do homem perseguido, não da instituição isolada, mas da instituição perseguida, pede um sentido de dedicação completo e de luta”.

Mas de uma luta que chegue até o fim: entregar tudo, fazer tudo, sacrificar tudo, renunciar a tudo com este objetivo de lutar no meio da tormenta, para que Nossa Senhora vença.

Quer dizer, esta entrega total é o sentido da nossa reparação. O que não for isto é reparação só de boca, não é uma reparação verdadeira, é uma reparação fraca, pífia, e que não satisfaz.

* Pedir a nossa Senhora que faça de nós almas inteiramente reparadoras

Por fim, há uma consideração. É que nós não somos capazes, pelas infidelidades de nossa vida passada e por mil defeitos que estão entre nós, nós não somos capazes de, de fato, nos dirigirmos à altura de alma verdadeiramente reparadora. Nós não somos capazes disso, então nós devemos pedir a Nossa Senhora que aceite pelo menos o desejo que teríamos de ser almas destas. Isto é pedir a Ela que nos faça almas reparadoras.

Então, recitar aquela oração, aquela jaculatória de São Luís Grignion de Montfort: “Opus tuum fac! Senhora, fazei Vós a Vossa obra. Aqui estou eu, que gostaria de ser uma alma reparadora, que gostaria de ser dignamente um Apóstolo dos Últimos Tempos. Infelizmente, como eu estou longe disso! Mas eu venho Vos oferecer meu pesar por esta situação e, junto com meu pesar, um pedido que eu faço pelo Sangue de Vosso Filho e pelas lágrimas que Vós vertestes: mudai-me. Tomai a minha alma, transformai esta pedra em um filho de Abraão, completai em mim aquilo que começastes a fazer, chamando-me para o Grupo. Fazei de mim uma alma inteiramente reparadora, por Vossa misericórdia e não pela luta das minhas forças que são praticamente nada. E aí Vós tereis feito uma dupla obra‑prima: Vós não tereis apenas ganho a guerra, mas Vós tereis suscitado soldados; Vós apenas não tereis suscitado soldados, mas Vós tereis ressuscitado soldados! Do fundo dos nossos defeitos nós clamamos a Vós, pedindo que nos ressusciteis e que nos deis o espírito dos Apóstolos dos Últimos Tempos, descritos na Oração Abrasada de São Luís Grignion de Montfort”.

* Sentir alegria na previsão das maravilhas que nossa Senhora fará por nós, transformando-nos nos guerreiros dos últimos tempos

Eu ouvi contar ontem um caso que eu não sei bem de quem é. É uma daquelas religiosas que serviam a Santa Teresinha do Menino Jesus e que formavam um cortejo com ela. Esta religiosa dizia essa coisa que eu acho uma perfeição no gênero.

Ela dizia que ela e as amigas dela, as outras da mesma escola, quando notavam em si uma fraqueza, um defeito que ainda não tinha sido tirado, sentiam alegria porque sabiam que eram muito fracas e que seria Nossa Senhora que teria de tirar esse defeito. Então já ficavam alegres pela futura maravilha que Nossa Senhora iria fazer nelas.

Eu creio que nada é melhor do que essa disposição de espírito para terminar essa reunião de reparação. É uma previsão de alegria das maravilhas que Nossa Senhora pode fazer em nós e fará por nós: transformar, dentro da pequena via, nos soldados guerreiros dos últimos tempos. E esta seria, no final, o meio minuto de súplica final: opus tuum fac. Isto é o que se acaba de pedir.

Uma pessoa pode estar muito desejosa de curar seus defeitos, mas sente uma impossibilidade de curá-los. Por quê? Porque a graça suficiente sempre é possível, mas a pessoa, por fraqueza, não corresponde. Confiando em Nossa Senhora, sabe que Nossa Senhora vai dar graças extraordinárias e vai remover esses defeitos. Então ela já fica alegre com antecedência pela beleza das graças extraordinárias que vai receber, proporcionadas à profundidade dos defeitos que tem. Eu acho isso um pensamento lindíssimo, de um vôo extraordinário.

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