Santo do Dia (Rua Pará) – 22/5/1967 – 2ª feira [SD 094] – p. 5 de 5

Santo do Dia (Rua Pará) — 22/5/1967 — 2ª feira [SD 094]

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Como foi encontrada a imagem de Nossa Senhora de Nazaré, em Portugal * Irradiação da invocação de Nossa Senhora de Nazaré por toda a Cristandade * Perseguições e reflorescimentos dessa devoção: princípio do Residuum revertetur * A piedade contagiosa do Beato Crispim de Viterbo * Frei Crispim era o bom odor de Nosso Senhor Jesus Cristo, em Orvieto * Contrastes que formaram a sacrossanta beleza medieval

Hoje, dia 22 de maio, é festa de Santa Joana, Virgem. Filha de D. Afonso V de Portugal, praticou na corte as mais altas virtudes. Tomou como emblema a coroa de espinhos e sob as ricas vestes trazia rudes silícios. Professou na Ordem dominicana, onde, após longa e dolorosa enfermidade, faleceu santamente no século XV.

Os senhores notem o equilíbrio que há nessa atitude. Ela continua a trajar-se como princesa porque respeitava sua própria dignidade e compreende que deve mantê-la. Ela usa silício, mas usa por debaixo de traje principesco. Isto é perfeito, não é?

Hoje estamos também na novena de Nossa Senhora Rainha.

* Como foi encontrada a imagem de Nossa Senhora de Nazaré, em Portugal

A invocação de Nossa Senhora a ser considerada hoje é Nossa Senhora de Nazaré, em Portugal. E o fato que é considerado aqui ocorreu por volta do ano de 1150.

Estando um jovem e vistoso cavalheiro português, D. Fuas Roupinho, à caça de um veado entre intensa neblina, vê-se subitamente no alto de um rochedo à beira-mar, e se seu cavalo não houvesse estancado, ter-se-ia precipitado ao mar. Cheio de terror e considerando o perigo, agradeceu ao Senhor de toda alma a sua salvação. Mas o perigo não passara de todo, pois o cavalo não podia avançar nem recuar sem precipitar-se no abismo. Procurando uma saída, nota o cavalheiro uma imagem de Nossa Senhora numa caverna do rochedo. E cheio de fé, lança-se aos pés implorando socorro. Ao tomar a imagem nas mãos, nota em pequeno pergaminho preso a ela, que narra ter sido venerada essa imagem já em Nazaré, há muito tempo.

Portanto, em Nazaré da Palestina.

Com a perseguição do imperador de Constantinopla ao culto das imagens, foi ela trazida à Espanha por um monge, e ali fora muito venerada, até que no século VIII, com a invasão dos mouros, foi ali escondida pelos fiéis, para não ser profanada.

Cheio de fé e confiança na Virgem, monta novamente o intrépido cavalheiro a sua montaria, esporando-a violentamente, consegue fazê-la dar um grande salto que atinge um ponto do qual lhe foi fácil descer. Cheio de gratidão à Virgem, mandou construir no local uma pequena capela, sendo depois substituída por magnífico templo.

* Irradiação da invocação de Nossa Senhora de Nazaré por toda a Cristandade

Mais uma vez nós estamos diante de um fato cheio de invocações graciosas. Os senhores podem imaginar esse D. Fuas Roupinho, que foi um dos heróis da independência de Portugal nas guerras com a Espanha, etc., um cavalheiro católico, está caçando um veado, está caçando no meio da névoa e de repente chega à beira-mar, não é?

Então a cena: o mar que é sempre uma coisa linda, um cavalheiro montado em seu cavalo, que é uma coisa, quando é verdadeiro cavalheiro, muito mais linda que o mar, as neblinas que também constituem um elemento lindo do quadro, mas não sabe como voltar, reza a Nossa Senhora… afinal vem esta graça.

A caverna também tem seu encanto. Os senhores imaginem que coisa bonita uma caverna à beira-mar onde há uma imagem abandonada guardada lá para ela ser protegida contra a sanha dos sarracenos, depois de já ter sido refugiada da sanha dos maometanos da Ásia Menor, dos cismáticos da Ásia Menor.

Bem, séculos se passam, os mares fazem todos seus movimentos, os dias se sucedem, as intempéries e o bom tempo… a imagem sozinha ali. É uma coisa linda essa solidão da imagem em face do mar, não é? Mas depois o desígnio da Providência: utilizar essa imagem para um reflorescimento do culto de Nossa Senhora.

Então, nesse episódio, o D. Fuas Roupinho recebe duas graças insignes que lhe indicam que Nossa Senhora quer que ali o culto d’Ela refloresça. Fita-se o culto, ele manda construir a capelinha, mas as graças concedidas por Nossa Senhora aos fiéis que ali vão são tantas, que em lugar de uma capelinha, dentro em breve está um magnífico mosteiro. E a invocação de Nossa Senhora de Nazaré se irradia por toda Cristandade.

Esse fato de 1150, em nossos dias: o Estado do Pará, e mais especialmente a cidade de Belém do Pará, tem como padroeira Nossa Senhora de Nazaré. E assim a imagem de Nossa Senhora de Nazaré um pouco por toda parte.

Na Igreja de … na Basílica da Carmo, onde nós fazíamos nossa adoração perpétua, havia uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré na nave do lado direito de quem entra, bem próximo às portas simétricas com a sacristia, guardada numa espécie de caixa com vidro, uma coisa bem arranjada… Vidro ou matéria plástica muito boa, não me lembro bem, embalada, uma coisa que fazia uma certa vista. E assim essa devoção, a partir desse fato de D. Fuas Roupinho, se espalha pelo mundo inteiro.

* Perseguições e reflorescimentos dessa devoção: princípio do Residuum revertetur

Aqui os senhores têm mais uma vez a fixação do princípio residuum revertetur, o resto voltará.

A imagem foi completamente abandonada e voltou… Ela fugiu, foi perseguida duas vezes, e em cada uma das duas vezes houve um reflorescimento da devoção a Ela. Com isso se mostra que a coisa chegada ao ponto de sua extinção, pode ser procedida pela Providência para voltar novamente a uma grande glória.

Aí os senhores têm o pensamento: é de um lado — são dois pensamentos — a inesgotável misericórdia de Nossa Senhora, mas de outro lado também, este princípio: de que quando a gente está mal, quando a gente está num desastre, a gente deve fazer o possível para salvar isto aqui se puder, porque depois isto vai ser semente para uma nova vitória e uma nova ressurreição.

Eu me lembro quantas coisas em nossos piores tempos nós fizemos: nós fizemos … [inaudível]… do “Legionário”, isto e aquilo para agir melhor, e que ninguém podia prever que viria humanamente falando.

[Inaudível]… representada aqui está e continua a florescer depois de sucessivos naufrágios. Quem confia em Nossa Senhora, deve agir assim. Esta é a lei da confiança. Residuum revertetur.

* A piedade contagiosa do Beato Crispim de Viterbo

Nós temos uma ficha biográfica que é a vida do Beato Crispim de Viterbo, cuja festa deve ocorrer amanhã. Ele foi irmão leigo capuchinho e sua relíquia se venera em nossa capela. Século XVII.

Traços biográficos de Daras, “La Vie des Saints”:

Nascido em 1668, foi oferecido desde a idade de 5 anos a Nossa Senhora, por quem teve especial predileção toda a vida. Ingressando entre os capuchinhos, quis ficar entre os irmãos leigos, tomando por modelo São Félix de Cantalício.

O encantador São Félix de Cantalício, a respeito do qual falamos, se não me engano, sexta-feira à noite.

Trabalhava nos jardins, fazia compras, cuidava dos doentes, passando as noites em oração e nas práticas de penitência. Ao ser encarregado da cozinha, nela armou um altar à Santíssima Virgem. Aí era visitado por grandes senhores, cardeais e pelo próprio Papa Clemente XI que uma ocasião … [inaudível]… a sua imagem da Mãe de Deus.

Os senhores vêem que é a piedade contagiosa de um verdadeiro irmão, verdadeiramente capuchinho. Ele arma um altarzinho na própria cozinha, e os grandes do mundo, tanto da Igreja como da sociedade temporal, ali vão atraídos pela piedade dele a Nossa Senhora.

Sua protetora concedeu-lhe o dom dos milagres.

Não é pouco, não é?!…

Certa vez, como curasse uma pessoa chegada ao sumo pontífice, o médico … [inaudível]: “Vossos remédios têm mais virtude que os nossos”. E o bem-aventurado respondeu: “Senhor, vós sois um médico sábio e a cidade de Roma vos conhece por tal. Mas a Santíssima Virgem é muito mais sábia do que vós e do que todos os médicos do mundo.

Um guarda de Orvieto como irmão encarregado da despensa do convento, logo tornou-se estimado na cidade. O governador conversava com ele e o cardeal … [inaudível]…, Bispo da cidade, parava sua carruagem na rua para se entreter com o pobre frade.

* Frei Crispim era o bom odor de Nosso Senhor Jesus Cristo, em Orvieto

Os senhores vejam que encanto! Na cidade de Orvieto, cidade então de uma certa importância, com uma linda catedral. É uma catedral gótica que tem esse singular: que ela tem na fachada mosaicos coloridos muito bonitos, uma cidade de um vinho famoso, o vinho de Orvieto, cidade poética e prestigiosa da Itália antiga.

Chegada uma tardinha, o expediente de todas as corporações vai saindo, o movimento vai diminuindo, os sinos começam a tilintar chamando os fiéis, … [inaudível]… bênção do Santíssimo, Vésperas, e outros há, entram numa penumbra azulada no local e passam em frente ao palácio do governador … [inaudível]… e o governador também deixou seus trabalhos de dia e está descansando, não é? Está descansando… conversando com o padre, não é? O governador e o frade, natural; sem empáfia, sem petulância, mas com naturalidade. O governador embevecido, dando graças por ter a visita e a prosa de um simples frade capuchinho.

Os senhores vêem como isso é bonito! Como há aqui uma lei de harmonia dos contrários, … [inaudível]… tão antiigualitário, nesta perspectiva nos … [inaudível]… nos regozijamos de ver um grande enlevado na conversa com um pequeno, e que o pequeno tão maior do que o grande e do que qualquer deles.

O frei sai e vai andando, Frei Crispim de Viterbo vai andando pelas ruas tortuosas da cidade. De repente, uma barulheira de ferros e de ferraduras, etc., da carruagem do cardeal. O frei nem levanta os olhos, tão alta personagem que passa. O cardeal abre a porta e diz:

Entre, Frei Crispim, vamos conversar um pouco…

Oh, Eminência…

Frei Crispim, entre. O que é que me conta?

[Inaudível].

Ou então com toda naturalidade:

Eu tive uma visão assim… — e o cardeal olhando para ele…

Mas são cenas, são cenas que constituem o sabor do passado, de um passado que era segundo Jesus Cristo. E é, portanto, aquilo que se chama na Escritura o “bom odor de Nosso Senhor Jesus Cristo”, tão diferente da horrível … [inaudível]… moderna. De maneira que faz bem a gente recompor a cena.

Os habitantes de Orvieto não mais o deixaram ir embora.

Conspiração: transferiram Frei Crispim, mas o povo furioso, arma barricadas e Frei Crispim não sai, não é?

Nas vezes em que foi transferido, o povo negou-se a dar esmolas para o convento.

Bem se diz que o povo italiano… Era preciso fazer voltar frei Crispim ou os frades passavam fome. Mas sabia ser humilde.

Por anos seguidos foi insultado por uma religiosa à porta da qual vinha bater. O bem-aventurado dela sempre dizia: “Deus seja louvado, pois há em Orvieto uma pessoa que me conhece e que me trata como mereço”.

E isso não é heresia branca, isso é fioretti verdadeiro. Por quê? Porque todo homem merece ser tratado assim; todo homem! O justo peca sete vezes ao dia e, portanto, merece ouvir umas rabugices e desaforos. De maneira que ele tinha razão.

Frei Crispim ficou gravemente enfermo poucos dias antes da … [inaudível]… de São Félix de Cantalício, que era padroeiro dele. Como os frades lhe disseram que logo iria comparecer diante de Deus, respondeu-lhes que isso só ocorreria após a comemoração de São Félix, pois sua morte atrapalharia a festa do santo.

Outro fioretti, não é?

Morreu em Roma, em maio de 1750.

* Contrastes que formaram a sacrossanta beleza medieval

Os senhores podem querer mais admirável do que isto?!… Depois não é só isso, não é? Frei Crispim ou São Crispim, Beato Crispim de Viterbo, São Félix de Cantalício, são dois, mas a gente está vendo que é toda uma floração de irmãos leigos capuchinhos assim, desse gênero, não é? Talvez não tão eminentes na virtude, mas todos dessa escola, constituindo uma nota de glorificação da humanidade, da paz, da serenidade da alma, da bondade, naquela Idade Média tão gloriosa pela sua pompa, pelas suas lutas, pelas suas guerras, pelo espírito belicoso. Exatamente esse encontro de contrastes que dá a quintessência da beleza. E quando a gente quer compreender a beleza de uma coisa, tem que tentar a outra, e assim compreende.

Se a gente quiser compreender toda a beleza da Idade Média guerreira, tem que tentar em Frei Crispim e em São Félix de Cantalício. Quando a gente quer compreender toda a beleza de São Félix de Cantalício e do Beato Crispim de Viterbo, tem que … [inaudível]. É exatamente o conjunto dessas coisas que dá a sacrossanta beleza medieval, a beleza da Civilização Cristã. E os senhores imaginem como vai ser essa beleza no Reino de Maria.

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