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Reunião Normal1 — 16/05/1967 — 3ª feira
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Visita de Paulo VI a Fátima (50º aniversário das aparições)
No noticiário da visita do Santo Padre a Fátima, é preciso fazermos uma distinção, e em todos os acontecimentos desse gênero, entre dois aspectos: os aspectos secundários, em que tem algo de interessante, significativo, etc. e aquilo que é o eixo, o elemento central dos acontecimentos. Nós vamos considerar primeiramente os aspectos significativos e pitorescos, para depois irmos ao eixo dos acontecimentos.
A primeira coisa significativa que me parece no caso, é a questão das tempestades magnéticas e depois chuva torrencial vários dias, a chuva até durante o dia em que o Papa esteve em Fátima. Pode-se dizer que durante o dia todo choveu. É verdade que isto deu oportunidade a que as populações manifestassem um zelo admirável, não se afastando do local mesmo debaixo de uma chuva tremenda, torrencial. Portanto, deste lado, uma coisa boa. Mas de outro lado, também, tomando nós em consideração que em todo tema Fátima, sempre Nossa Senhora usou manifestações meteorológicas com expressão dos seus desígnios. O fato de chover o tempo inteiro, deve ser tido como uma manifestação sumamente provável de desagrado e portanto uma manifestação de rejeição da visita.
Este é portanto um dado que nós devemos considerar. Outro dado de outra natureza e que é também interessante é o seguinte: o santo Padre viajou com um médico, o que indica um estado de saúde não florescente. Para uma viagem rápida como essa, o santo padre ir de avião com um médico, é uma coisa que perplexo. Não faz parte da corte habitual dos papas, levar um médico. De maneira que deixa perplexo, dá uma impressão de um estado de saúde precário, e até muito precário. Eu me lembro por exemplo que quando o último núncio apostólico, Mons. Lombardi, foi à Europa, ele viajou com o médico a bordo também; pouco tempo depois morreu. De maneira, que há aqui um ponto de interrogação que se levanta.
Outra coisa que é preciso notar, é a atitude do governo português. O santo padre declarou que ele queria fazer essa viagem como particular, quer dizer, um esforço de “descontantinização” da Igreja. O governo português o tratou “constantinianamente”. Quer dizer, ele foi recebido pelo presidente da república, pelo Oliveira Salazar, por todas as autoridades, precisamente como se fosse um visita oficial. Ele declarou que ele queria um quarto muito simples para repousar. E aí fizeram uma verdadeira maravilha: prepararam para ele uma cela de convento; o que não é o que ele queria. Ele gostaria de um quarto de hotel, com rádio, televisão. Aí ele ficaria… [parece ter havido um corte] …cortinas com “Mickey Mouse” estampado, etc, esplendido. Então, uma cela de convento caiada, com móveis do tempo de Dom João V, muito finos, muito bonitos, brocados, não sei mais o quê, e com todas as coisas de um convento. Eu confesso que achei a coisa deliciosa. Eu me regalei lendo esta atitude. Foi simplesmente uma atitude inteligente.
Também num outro local onde o papa esteve, ou talvez nesta cela mesmo, havia brocados maravilhosos, estampados de Portugal, representando as preciosas chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo, ornamentando todo o quarto. Ora os senhores sabem que o progressismo e chagas nada! Progressismo, mandolim e chagas nunca. De maneira que essa atitude do governo português me pareceria interessante.
Também me pareceu que o discurso dele, para com o governo português, de uma frialdade glacial. Ele não teve uma referência, a não ser no momento em que ele disse que rezava pelos governos e povos do mundo inteiro. Ora, como acontece que Portugal é no mundo, por ricochete estava incluído o governo português dentro da coisa. Mas, é só por esta forma. Quer dizer, havia uma tribuna, no ato em que ele deu o discurso dele, estava ele com alguns dignitários eclesiásticos. Na outra tribuna em frente, o governo português. Pois bem, ele não teve uma palavra de gentileza para com o governo português. Porque o governo no momento é visado pela esquerda, e sendo visado pela esquerda, não se pode tocar. Ele tem ecumenismo, a gente trata bem qualquer protestante, está certo. Se estivesse ali por exemplo o Atenágoras, quanto abraço, quanto beijo seria, nem sei, presente, etc. Como está aí um governo que no momento representa uma forma antiquada de Revolução, que a Revolução nova quer derrubar, uma frieza, mas escandalosa. Eu não sei se se podem apresentar nos anais da Igreja, um episódio em que um papa tenha sido tão frio com um governante presente. De maneira que isso também eu acharia interessante mostrar. Mostra como ele se sente profundamente ligado à ofensiva esquerdista na península Ibérica.
Outra coisa que me parece importante é o seguinte: Fátima era uma peregrinação, ou era uma devoção sem dúvida nenhuma aprovada pela Igreja, sem dúvida nenhuma difundida largamente na Igreja. Mas não tão largamente como por exemplo Nossa Senhora de Lourdes. Nossa Senhora de Lourdes é muito mais difundida do que Fátima. Entretanto, por ocasião dessas manifestações acabou se vendo que Fátima era mais difundida do que parece. Uma das provas maiores disso, foi o afluxo maior de peregrinos: dois milhões de peregrinos em Fátima! É o tamanho de por exemplo duas vezes Belo Horizonte. Os senhores imaginem o que isso representa. E com todo mundo na rua e não eram só portugueses, havia gente do mundo inteiro. Mas eu creio que o mais significativo foi o envio de flores para Fátima. Foram aviões levando toneladas de flores procedentes do mundo inteiro, inclusive rosas brasileiras. Só o Brasil mandou se não me engano duas toneladas de pétalas de rosas para serem jogadas sobre Nossa Senhora. Ora, eu não acho que os senhores concordem que tudo isso tenha sido comprado pelas cúrias diocesanas, acho que nenhum dos senhores tem essa impressão. Quer dizer, foi o povo de um modo ou d’outro, sem ver até, que recolheu e mandou. Agora o que foi de flores equivaleu a um verdadeiro plebiscito a favor de Nossa Senhora, indicando que a mensagem Fátima teve, apesar de tudo, uma difusão maior do que a gente esperava. E que de algum modo, o papel histório de Fátima está cumprido e está realizado. O que também me parece importante deixar observado.
Entretanto me parece que as coisas mais importantes não são essas. As coisas bem importantes são: encontro com a irmã Lúcia e depois a atitude dele diante do fenômeno Fátima.
O encontro com a irmã Lúcia, ao menos pelo que dizem os jornais, e salvo novo noticiário que não parece que venha, eu achei muito esquisito por exemplo o “Estado de São Paulo” de hoje, que pouco silenciou a respeito de tudo, pôs um ponto final; eu pensei que ainda viessem últimos ecos, etc., mas silêncio de repente, a respeito de Fátima. No noticiário que apareceu, tem-se toda a impressão de que a irmã Lúcia só esteve com o papa em público e que ele evitou uma conversa particular com ela. Agora, se é verdade que ela é a mensageira de palavras de Nossa Senhora para ele, se é verdade que ela recebeu depois daquelas aparições, várias outras, um papa piedoso poderia, deveria querer conversar com ela. E inclusive deveria dizer a ela: a senhora tem mais alguma coisa recente para me dizer? A senhora que me fazer o favor de dizer isto? A senhora quer perguntar a Nossa Senhora tal coisa? A senhora quer pedir a Nossa Senhora que se digne de me esclarecer sobre tal ou tal outra coisa? Para eu saber como devo cumprir meu dever. Ainda que não fosse por isso, apenas para mostrar à opinião pública que ele não tinha medo do encontro com ela, ele poderia ter tido esse encontro. Agora, segundo tudo indica, ele não teve esse encontro com ela. Quer dizer, ele só teve um encontro em público, aonde não era possível dizer nada. Quer dizer, é uma forma de rejeição da mensagem de Fátima.
Agora, eu creio que onde essa rejeição se torna mais flagrante, é no próprio discurso dele. No discurso deles, Ele não tem uma palavra que seja a afirmação taxativa de que ele crê que Nossa Senhora apareceu em Fátima aos três pequenos pastores. Os senhores dirão: mas Dr. Plinio, é evidente que ele aceita essa aparição. O fato de ele estar lá, já indica isto. Não é verdade. Há muitos sacerdotes na Europa que são céticos a respeito das aparições e revelações; que vão a Fátima, prestigiam a devoção a Nossa Senhora de Fátima, um deles é o padre Luc Lefebvre, diretor da Pensé Catholique, prestigiam a devoção a Nossa Senhora de Fátima, na base do seguinte raciocínio: é uma cuja autenticidade não se pode conhecer. Mas, uma vez que serviu de pretexto ou de ocasião para uma explosão de piedade marial, como a piedade marial é boa, nós vamos favorecer. O padre Luc Lefebvre me disse que se ele fosse a Portugal, certamente iria a Fátima celebrar missa, mas ele não acreditava nas aparições de Fátima, disse-me que só acreditava em Lourdes, e eu não tenho certeza, mas creio que ele acrescentou: olha ainda Lourdes nem! O papa fez exatamente isso, podia: o povo marial vai lá uma coisa muito piedosa muito boa, eu como papa devo ir lá prestigiar também. Mas eu afirmar que a Igreja está certa de que houve essa aparição, não! Quer dizer, ele deixou uma dúvida pairar a respeito da aparição. Pairando uma dúvida a respeito da aparição, paira uma dúvida a respeito da mensagem e se ele deixou essa dúvida pairar, é exatamente porque não tem a mínima atenção de dar valor à mensagem. Por que se ele desse valor à mensagem, ele teria uma manifestação qualquer, ao menos de que ele como indivíduo privado acreditava naquelas aparições. Ao menos isso ele poderia fazer e ele não fez. Mas interessante é que o discurso dele reconhece de algum modo e a gente vê que é muito voluntariamente que as condições de Fátima estão para se dar. Porque ele apresenta o mundo, como o mundo estaria no caso das mensagens serem verdadeiras. As mensagens pediam a consagração não foi feita como Nossa Senhora pediu, a emenda dos costumes não se deu de nenhum modo. E então nós estaríamos na iminência, de acordo com as mensagens, de um processo que continuaria, que seria como que a continuação da segunda guerra mundial. Realmente a segunda guerra mundial teoricamente não acabou; nós estamos em armistício. Um tratado de paz ainda não foi assinado. Então haveria uma guerra que seria a continuação, como um grande ato da segunda guerra mundial. Na guerra de cem anos, que é um todo só, houve atos mais ou menos do tamanho desse que nós tivemos agora. De maneira que esse modo de contar as coisas, está até conforme o costume dos historiadores, o razoável costume dos historiadores. E a descrição que o papa dá, é de uma situação péssima no mundo, o perigo de uma guerra no mundo, e o perigo de uma heresia dentro da Igreja Católica. Quer dizer, ele que não aceita as revelações, que vai lá e não fala com a irmã Lúcia, cuja presença lá é de certa maneira uma afronta portanto à devoção a Nossa Senhora de Fátima; ele quando descreve a situação do mundo, ele passa o recibo: a situação do mundo é como se Nossa Senhora estivesse irritada pelo fato da mensagem de Fátima não se ter cumprido.
Os senhores vejam o que diz aqui:
“Homens, pensai na gravidade e na grandeza desta hora, que pode ser decisiva para a História das presentes e futuras gerações; e começai de novo a aproximar-vos uns dos outros… [parece ter havido um corte] …”
Engraçado, não é aproximar de Nossa Senhora como Ela pediu, mas é se aproximar uns dos outros; campanha da fraternidade, mão na mão.
“Com a idéia de construir um mundo novo… [parece ter havido um corte] …”
Não é o Reino de Maria, mas é um mundo novo, quer dizer, um mundo diverso, mas não especificamente baseado na Fé.
“Sim, o mundo dos homens de verdade, que nunca poderá ser tal, sem que o sol de Deus se levantasse sobre seus horizontes.”
Quer dizer, no fundo um mundo laico, que admite Deus, mas que não admite necessariamente Nosso Senhor Jesus Cristo.
“Vede filhos e irmãos como o quadro do mundo e de seus destinos, se nos apresenta aqui imenso e dramático. É o quadro que a virgem desvela ante nossos olhos, o quadro que contemplamos com os olhos aterrorizados, porém sempre confiantes.”
“A Virgem desvela a nossos olhos… [faltam palavras] …”
Isso é uma referência à aparição? Confuso, ambíguo, ele não disse nada. Ele descreve uma realidade, que pode ser entendida assim: Nossa Senhora no momento nos faz ver, porque Ela permitiu que isto fosse assim.
“Seguindo o conselho que a própria Virgem nos deu, da oração e da penitência”
Mas ele fala aqui da situação de… [parece ter havido um corte] …
“Porém sabeis e notai que o mundo não é feliz, o mundo não está tranqüilo e a primeira causa dessa inquietação…”
Qual é a primeira causa? Falta de Fé. Diz ele:
“…é dificuldade na concórdia e dificuldade na paz.”
Quer dizer, não é uma coisa religiosa.
“Tudo parece que impulsiona o mundo para a fraternidade e para a união. Porém, pelo contrário no seio da humanidade eclodem ainda tremendos e contínuos conflitos. Por isso dois motivos principais tornam grava a situação histórica da humanidade: de um lado está cheia de armas terrivelmente mortíferas. E de outro, não tem o mesmo progresso moral que alcançou nos campos científico e técnico. E mais, grande parte da humanidade permanece ainda num estado de indigência e de fome, enquanto desperta nela a inquieta consciência da necessidade própria e do bem estar dos demais. Por isso dizemos que o mundo está em perigo.”
Esta declaração é da própria boca do papa: o mundo está em perigo. Quer dizer, os castigos de Fatiam estão para se realizar. Ele vai lá, ele não aceita o castigo, mas o castigo está para se realizar.
“Por isso viemos aos pés da Rainha da Paz, pedir-Lhe aquele dom que somente Deus pode dar: o dom da paz.”
Pouco antes ele fala a respeito da Igreja e então fala de uma imensa crise que existe dentro da Igreja.
Contra o comunismo, que é o grande inimigo a respeito do qual Fátima alerta a opinião pública mundial, ele tem uma palavra só. E essa palavra é a seguinte, é uma palavra no fundo de oferta de conciliação com o comunismo:
“Este pensamento que anima e estimula o nosso coração, leva nesse momento nossa recordação para aqueles países onde a liberdade religiosa está praticamente oprimida.”
Quer dizer, a única coisa que importa para ele é a liberdade religiosa. A abolição completa do direito natural não preocupa. Basta que a Igreja possa funcionar, que está bem. É o erro contra o qual no “Bucko” nós lutamos.
“E onde a negação de Deus se vê promovida como se representasse a verdade dos tempos novos e a libertação dos povos; nós oramos por esses países, nós oramos pelos irmãos crentes daquelas nações” – quer dizer católicos e não católicos – “para que a interior força de Deus os mantenha e a verdadeira liberdade dos cidadãos lhes seja reconhecida.”
Quer dizer, é em nome da liberdade religiosa. E a pede para seitas falsas, como para a Igreja Católica. Quer dizer, os srs. estão vendo uma função tipicamente liberal. Em última análise, ele foi a Fátima, e em vez de prestar uma homenagem expressiva a Fátima, ele enfrentou Fátima. E ele enfrentando Fátima, da viagem dele só se pode esperar o apressamento dos castigos que em Fátima foram previstos.
Este é a meu ver o comentário que se deve fazer a respeito da visita do santo padre a Fátima.
(Sr. –: O que o senhor achou da irmã Lúcia com o Papa?)
A irmã Lúcia que eu vi na fotografia parecia uma pessoa sumamente aborrecida e até assim numa atitude de protesto. Dr. Henrique Chaves me disse lá do Rio que apareceu a fotografia dela num jornal do Rio muito risonha, muito sorridente. Levantaram-me a pergunta, uma vez que eu via apenas a parte do rosto dela quando a visitei, se aquela seria a própria irmão Lúcia. De acordo com fotografias antigas dela que me mostram, autênticas indiscutivelmente e a do “Estado”, eu não encontrei razões especiais para duvidar. Eu não sou um técnico par afirmar, mas também não encontrei razões especiais para duvidar.
(Sr. –: Eu vi o filme na televisão, e há uma coisa interessante, que o Américo Thomas ia lhe beijar a mão, e ele segurou-o fortemente no ombro e puxou a mão. Na frente de todo mundo, inclusive com as pessoas ao lado que acharam estranho a coisa.)
Nossa Senhora!
(Sr. –: e também havia uma grande delegação vietnamita.)
Do norte ou do Sul? Com que frieza ele os terá recebido se forem do Sul, hem?
(Sr. –: Por que o Papa teria reconhecido que o mundo está em perigo?)
É indispensável para a teoria pacifista. Ele aproveita todas as oportunidades para a campanha pacifista.
(Sr. –: O Sr. falou nos acontecimentos da Fátima. Quanto tempo mais ou menos o Sr. acha que demorariam para vir?)
Em matéria de tempo, propriamente não se pode falar. É mais ou menos como uma pessoa à cabeceira de um doente, que vê que o paciente dele está perdendo o pulso. Quanto mais perde, mais perto da morte está. Agora, a gente perguntar quanto tempo levará? Bem, em minutos não. Há um outro tempo, um tempo fenomenológico e não de relógio que se pode calcular. Assim a esmo, para dar a você uma resposta, mas eu não tenho a menor certeza da coisa, mas a menor, e sem que eu queira fazer nenhuma insinuação de que eu tenha certeza, uma cripto-certeza, porque não tenho, eu tenho impressão de que, pelo que está por aí, entendendo-se como Bagarre o começo de uma guerra mundial ou de uma Revolução universal armada, eu tenho impressão de que falar em cinco anos, é muito. Mas é uma impressão. Não tenho certeza nenhuma.
(Sr. –:Aquela questão de que a irmão Lúcia teria fugido, como ficaria?)
É parece significar que ela não teria fugido ou pelo menos que voltou para o lugar de onde fugiu
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1 Estava como Reunião de Recortes. Porém, esta reunião se realizava às sextas-feiras até a diabetes do Sr. Dr. Plinio.