Santo do Dia – 15/5/1967 – p. 8 de 8

Santo do Dia — 15/5/1967 — 2ª-feira [SD 301]

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* Como adquirir o senso da paixão. Objeção: fato velho * Fundo de falta de Fé * Pouca gratidão * Remova má disposições da alma e terá senso da Paixão * Primeiro ponto: pecado, ofensa a Deus e a Nossa Senhora * Pecados de impureza numa cidade moderna * Pecados de roubo * Pecados das nações * Situação interna da Igreja * Nós nos indignamos com essa situação de pecado? * Rejeição de Nossa Senhora ao pecado * O pecado contra Deus, no que ofende a Nossa Senhora * Que é o homem? * Sofrer qualquer coisa para Deus não ser ofendido * Indiferente à dor do amigo, não é amigo * O amor verdadeiro é coerente em todos os outros sentimentos * A cruz fundamental de cada um * Ilusões a respeito do sacrifício na pessoa imaginativa… * Imolar posturas erradas é mais difícil * Exame de consciência pliniano * Renúncia capital de Santa Teresinha * Modelo absoluto: Nosso Senhor Jesus Cristo * Santa Teresinha imitou-O também no holocausto * Per crucem ad lucem

Hoje eu teria uma sabatina com um Grupo de Curitiba, mas não foi possível tratar todas essas perguntas; eu disse, então, que apresentassem as perguntas no Santo do Dia; em vez da ficha do santo, eu daria a explanação da pergunta que fosse feita.

(…)

A pergunta é essa:

Como adquirir o senso da Paixão de Nossa Senhora? Adquirir esse senso é manifestar nosso desejo de sofrer com ela?

* Como adquirir o senso da paixão. Objeção: fato velho

O que se chama aqui “senso da Paixão de Nossa Senhora”, eu entendo que é o seguinte. Que não é apenas uma noção puramente especulativa e teórica, mas uma coisa viva, não é isso? É bem esse, o sentido da expressão? Como seria, então, de um modo vivo, essa noção, tornar vivo e presente para nós a Paixão de Nossa Senhora etc., etc.

Eu tenho a impressão que era preciso, para a uma coisa dessas, a pessoa montar na alma e viver na alma… [Há] uma porção de coisas irregulares e mal postas que a Revolução deixa nas almas. E a primeira delas é a seguinte. A idéia de que a Paixão de Nossa Senhora é um fato velho, de dois mil anos e que já acabou. E que consolar uma pessoa que chorou há dois mil anos atrás, e ainda mais, que está no Céu, está no ápice, está no abismo completo da felicidade mais superlativa que se possa imaginar, isso é uma coisa que não faz muito sentido.

Pelo contrário, como no momento presente, quem está na luta somos nós e Ela é que está no Céu, a gente acha que faz mais sentido Ela nos consolar a nós do que nós consolarmos a Ela. Então, vem exatamente aí a invocação, aliás, muito boa, de Nossa Senhora da Consolação, Nossa Senhora da Consolação é que consola a nós, não somos nós que devemos consolar a Ela.

* Fundo de falta de Fé

Depois, há um certo fundo de falta de fé difuso no subconsciente de incontáveis pessoas, por onde essa história de dizer que Nossa Senhora sofreu etc., essa tragédia, bom! terá sido, é claro, eu sei, eu sei, mas se eu tivesse visto isso pessoalmente impressionava mais. Eu não vi; longe dos olhos, longe do coração, eu não sei bem como é isso, umas coisas assim.

* Pouca gratidão

E, por fim, é preciso dizer bem isso, o senso de gratidão do homem contemporâneo… (¾ de linha em branco) …O homem contemporâneo dificilmente se persuade que ele tem que agradecer os benefícios que ele recebe. Dificilmente ele se persuade que há um defeito e um defeito grave, em receber um benefício e não manifestar gratidão por esse benefício. Ora, a compaixão de Nossa Senhora foi, evidentemente, um enorme benefício; mas não há sempre gratidão para com esse benefício. E o resultado [é] que ninguém se julga obrigado a consolá-La.

* Remova má disposições da alma e terá senso da Paixão

Se nós, portanto, procurarmos remover de nossas almas essas disposições, nasce em nós aquilo que se poderia chamar o senso da Paixão de Nossa Senhora.

Então, [nós] deveríamos apresentar, ordenar as coisas no seguinte ponto: para eu ter a idéia, o senso da Paixão de Nossa Senhora, eu preciso, em primeiro lugar, saber bem o que é que eu devo a Nossa Senhora…. [¾ de linha em branco] …mas também outra ordem de idéias. Eu devo estar persuadido de que os pecados contemporâneos, de fato ofendem a Nossa Senhora. Coisa que também não é tão clara para todas as mentes, de todos os modos e em todos os lugares. De maneira que nós poderíamos falar uma palavra agora, a respeito dos pecados contemporâneos.

* Primeiro ponto: pecado, ofensa a Deus e a Nossa Senhora

Há uma noção comum, que qualquer um conhece, que um pecado é uma ofensa a Deus. Se o pecado é uma ofensa a Deus, evidentemente é uma ofensa a Nossa Senhora. Porque Nossa Senhora é o espelho de Deus, o reflexo de Deus. Aquilo que ofende a Deus, ofende a Ela; aquilo que não ofende a Deus, não ofende a Ela. Ela é indiferente àquilo que não toca à glória de Deus. Ora, acontece que nós sabemos que o número de pecados que se cometem no mundo contemporâneo é simplesmente fabuloso.

* Pecados de impureza numa cidade moderna

Os senhores imaginem agora: são meia-noite e cinco. Os senhores imaginem nessa hora, na cidade de São Paulo, só de maus olhares e de maus pensamentos, que número de pecados estão sendo cometidos? Por causa de televisão, de rádio, de cinema, de modas imorais, de pessoas que estão deitadas e cuja imaginação passeia nas coisas imorais vistas durante o dia? Quer dizer, só de pensamentos, consentimentos etc., o número colossal de pecados que está sendo cometido? Quer dizer, vista debaixo desse ponto de vista, São Paulo é uma espécie de braseiro na qual passa uma chama de ofensa[¾ de linha em branco] e Nossa Senhora, que é uma coisa tremenda. Depois, se fosse só a impureza.

* Pecados de roubo

Nosso Senhor fala da geração do tempo d’Ele, lá do Evangelho, Ele diz que: “é uma geração de adúlteros e de ladrões”. Realmente, quanto se rouba… Eu não sei se os senhores, em algum prédio da cidade, olhando o movimento em baixo, lhes passou pela idéia disso: “Quanto ladrão está passando lá por baixo…”, porque de quantos modos nos negócios se rouba hoje. De todos os modos possíveis. E o número de roubos é colossal. Agora, à essa hora, no relativo silêncio da noite, quanta gente está arquitetando, ou melhor, está pensando em arquitetar os roubos que vai fazer amanhã, no negócio desonesto que vai fazer amanhã. E só isso, que soma imensa de pecado sobe ao Céu.

* Pecados das nações

Mas, esses são os pecados privados, os pecados cometidos por indivíduos. Seria muito pouco a gente pensar apenas nos pecados dos indivíduos. É preciso a gente pensar nos pecados das nações. As nações contemporâneas, todas elas vivem em estado de pecado mortal, porque todas elas são nações leigas, e o leigo, a nação leiga está no estado de pecado mortal comparável a um homem que vive indiferente em matéria religiosa. Esse homem está em estado de pecado mortal. Ora, as nações em estado de pecado mortal, estão assim. Depois os senhores tomem as leis dessas nações. Quantas dessas leis favorecem o pecado de vários modos, ou porque têm o divórcio, ou porque favorecem a limitação da natalidade, ou porque estabelecem medidas… [¾ de linha em branco] … reforma agrária, injustas… [¾ de linha em branco] …reforma agrária, da lei do inquilinato, outras coisas assim. Essas nações, oficialmente, estão continuamente pecando. E a gente pode dizer que todos os Estados do mundo hoje estão constituídos numa ordem, que é uma ordem de pecado mortal.

* Situação interna da Igreja

Agora, os senhores acrescentem a isso, o estado da Igreja. Eu pretendo dar amanhã um comentário a respeito do assunto Fátima, mas a situação interna da Igreja, qual é? A Igreja é a bem amada de Deus; a Igreja é a luz do mundo, e o sal da terra. Agora, arranja-se um jeito pelo qual a Igreja é, sem perder a sua infalibilidade, como que… [¼ de linha em branco] …e obrigada a dizer aquilo que Ela não quer, obrigada a recomendar o mal, a recomendar o erro, a Ela tomar iniciativas do desvio das almas que estão entregues a Ela.

Os senhores estão compreendendo os pecados mortais que isso representa? A gente — considerando a humanidade contemporânea —, a gente poderia dizer que, do alto da cabeça, à planta dos pés, nada existe n’Ela de sadio. E ela se jacta de que está doente, a humanidade contemporânea. Ela se sente feliz, ela se sente alegre de que, as coisas sejam assim. Quem não tem dificuldade em compreender que isso é um erro, um pecado, uma voragem de pecados… [de linha em branco] …tremendo.

* Nós nos indignamos com essa situação de pecado?

Agora, no que consiste aí a ofensa a Nossa Senhora? Quando nós meditamos nisso, como nossa alma, pelo contrário disso, nós nos indignamos com isso. E nós nos sentimos como que… [¼ de linha em branco] …nós mesmos com isso. Nós odiamos as pessoas que são responsáveis por essa situação, e nós pedimos a Nossa Senhora que Ela não podendo castigar, Ela … [de linha em branco] …essas pessoas desde logo, que caia o fogo do céu sobre elas, porque nós, não queremos que essa ordem de coisas perdure. Mas somos nós, que temos uma noção tão vacilante do bem e do mal, da verdade e do erro. Somos tão cambaleantes a esse respeito.

* Rejeição de Nossa Senhora ao pecado

Os senhores imaginem a alma Imaculada de Nossa Senhora, que tem um conhecimento do bem e do mal, da verdade e do erro, adamantino, conhecimento de uma lucidez maior do que a de qualquer homem; os senhores imaginem o amor com que Nossa Senhora ama todas as coisas que são boas, que são conformes [a] Deus…

(…)

o ódio com que Ela odeia todas as coisas más, que são contra Deus. Os senhores imaginem então, a imensidade de ódio de Nossa Senhora contra todos esses pecados, os senhores poderão então compreender em que sentido… [¼ de linha em branco] …ofendida.

* O pecado contra Deus, no que ofende a Nossa Senhora

E ofendida por quê? Porque Ela é Mãe de Deus, e o que diz respeito a Deus, diz respeito a Ela. E ofendida por uma razão mais profunda: é porque para toda pessoa piedosa, a ofensa dirigida a Deus, é uma ofensa dirigida ao homem piedoso. Deus é mais eu mesmo, do que eu. Eu prefiro mil vezes que se faça uma ofensa a mim, do que se faça uma ofensa a Deus. Eu, afinal de contas, o que sou? Job diz que o homem é como uma flor do campo. De manhã floresce, a gente passa à tarde pelo mesmo lugar, a flor não existe mais. O que é que sou eu? Pó, cinza e nada. É o que diz o padre na cerimônia de Quarta-Feira Santa, não é verdade? Eu não existia ontem, não existirei amanhã, posso deixar de existir a qualquer momento. Sou uma criatura.

Eu nunca posso me esquecer de um episódio… [de linha em branco] …em São Miguel… [¾ de linha em branco] …porque ele me pareceu muito significativo.

* Que é o homem?

Lá naquela fábrica nitroquímica, um dia procuraram um operário que tinha desaparecido. Procuraram o operário por todo lado e, afinal de contas, desconfiaram que ele tinha caído no reservatório onde guardavam um líquido qualquer… [¼ de linha em branco] …ácido sulfúrico. Eles tiraram a amostra da coisa e perceberam, pelo ingrediente, que um homem tinha caído ali dentro, por causa da diferença de ingrediente. O líquido estava com a mesma cor que estaria se o homem não estivesse caído lá.

Esse sou eu, esse é cada um dos senhores. Agora, o que é que tem… [⅓ de linha em branco] …que grande influência tem? Não tem. Nós não somos nada. Uma bofetada num palhaço não é nada. Nós não somos palhaços, mas, nós somos menos do que palhaços, porque somos vermes e miseráveis pecadores. Nós pecamos. São Luiz Grignion nos chama de vermezinhos e miseráveis pecadores.

* Sofrer qualquer coisa para Deus não ser ofendido

Mas, se a ofensa… [⅛ de linha em branco] …em Deus, se a bofetada atinge a Face sacrossanta de Nosso Senhor Jesus Cristo, se ela arranca uma lágrima dos olhos de Nossa Senhora, isso é sério. Isso tem uma importância enorme, não é? E por causa disso, Nossa Senhora que conhece melhor do que ninguém sua condição de criatura humana, também nada atinge mais a Ela do que, ou melhor, nada mais ofende a Ela do que ver um pecado que ofende a Deus. E por causa disso, a ofensa feita a Ela é suprema, é gravíssima. Ela está disposta a sofrer todas as humilhações desde o começo do mundo até o fim do mundo, desde que não ofendessem a Deus, para que um pecado venial não fosse cometido. Quanto mais essa torrente de pecados mortais que se cometem…

Santo Ignácio de Loyola foi — se não me engano —, o santo que teve esse pensamento: que se ele devesse passar uma vida inteira com trabalhos, dificuldades e dores, para evitar um pecado mortal de uma pessoa, que depois fosse parar no inferno, só para evitar a Deus aquela ofensa, ele estaria disposto a sofrer tudo isso. O que Nossa Senhora estaria disposta a sofrer para evitar essa voragem de pecado, esse cume de pecado que hoje em dia se verifica… Ela estaria disposta a sofrer inimaginavelmente. E aí os senhores compreendem como cada pecado, de fato, ofende a Ela.

* Indiferente à dor do amigo, não é amigo

Agora, suponham… [¼ de linha em branco] …eu não posso acreditar na amizade, ou melhor, na seriedade da amizade de alguém, que me vendo conspurcado, injuriado, calcado aos pés, olhe para mim com um riso idiota:

Dr. Plinio, o senhor é tão bom.

E eu: E a ofensa que eu estou sofrendo?

Ah, o senhor está sendo ferido? É verdade, deixa eu contar uma novidade. Sabe que hoje…

Saia daqui. Ou você me estima e é consórcio meu de todas as injúrias que eu sofro, ou você se indigna como se fosse eu, ou não sei que fazer de você.

Isso aqui é uma piedade farisaica, como Nosso Senhor dizia dos judeus: que com os lábios falavam: “Meu Deus, meu Deus”, mas que de fato não tinham piedade sincera. Quer dizer, de que adianta eu dizer: “Regína Caeli, laetáre, allelúia…”

Tudo isso muito bonito, depois, torrentes de pecados! E eu pedir para Ela ficar alegre com a ressurreição, não digo [a] Ela que se entristeça com a Paixão. E não me incomodo com a Paixão d’Ela. Tudo… [¼ de linha em branco] …tudo é balofo, tudo é vazio, tudo é inconseqüente, numa piedade que é indiferente às dores de Nossa Senhora.

Essas considerações nos levam então a ter como pensamento familiar, diante de cada pecado, não apenas a lei ofendida, a lei sacrossanta que não deveria ser quebrantada e foi quebrantada. Não isso, que é enorme, mas também isso, aquela que é a lei viva de Deus, Nossa Senhora é a prática perfeita e viva dos Mandamentos — o que significa a transgressão dessa lei —… [⅓ de linha em branco] …a ofensa e aí se encontra Nossa Senhora. E, portanto, sentir todo o pundonor, todo o brio, toda a altaneria do católico, todo o afeto profundamente ofendido por causa disso.

* O amor verdadeiro é coerente em todos os outros sentimentos

Nós temos falado que a sacralidade, o amor ao sacral se decompõe em… [⅜ de linha em branco] …e que… [½ linha em branco] …se decompõe, por sua vez … [⅔ de linha em branco] …abnegação; a qual abnegação, mais uma vez dá no desejo de obedecer, no desejo de servir e no desejo de se imolar. Se eu amo Nossa Senhora com enlevo, eu devo ter a Ela veneração e ternura. Agora, como é que eu posso ter veneração a Ela, não ficando mais do que afrontado com… [¼ de linha em branco] …que fazem a Ela? Como é que eu posso ter ternura com Ela, não ficando mais do que demolido com os desaforos, os ultrajes que se lançam contra Ela? Como é que eu posso ter uma vontade séria de servir, se o primeiro de meus serviços não é consolar a Ela? Como é que eu posso ter uma vontade séria e de obediência se eu que… [⅛ de linha em branco] …a vontade d’Ela, não me indigno com os que não fazem a vontade d’Ela? Como é que eu posso ter senso de holocausto, se eu não compreendo que meu holocausto é para reparar as injúrias que fazem a Ela? Se o meu holocausto, é o holocausto da luta e da agressividade? E que, por causa disso, eu devo estar continuamente pronto para combater os inimigos d’Ela.

* A cruz fundamental de cada um

É com essas considerações tornadas familiares ao nosso espírito, que nós podemos então adquirir o senso da Paixão de Nossa Senhora. Manifestar nosso desejo de sofrer com Nossa Senhora. É uma coisa curiosa, cada um de nós — nós temos falado de luz primordial, de pecado capital —, cada um de nós tem uma cruz fundamental que está no ponto de encruzilhada ou no ponto de inserção entre a luz primordial e o pecado capital. Há na vida, uma coisa, um ponto, qual cálice [que] nós devemos beber como Nosso Senhor Jesus Cristo bebeu o d’Ele. Quer dizer, é uma dor de uma renúncia que nos é pedida e que é maior do que todas as dores; há um ponto que nós devemos abnegar e que é uma abnegação maior do que todas as abnegações.

* Ilusões a respeito do sacrifício na pessoa imaginativa…

Às vezes, a gente vê pessoas que estão dispostas a sacrifícios enormes; diz: “Meu Deus, se eu pudesse agora… [⅛ de linha em branco] …essa bagarre, ia correndo para aquele muro para matar um homem e depois morreria mártir.”

Eu tenho vontade de dizer: “Meu caro, você tem certeza de que isso é o mais bonito que você pode fazer? Primeiro, você tem certeza se morreria mártir?” Porque uma coisa é ver o muro ali, arranjadinho com plantas e dizer: “Que lindo morrer mártir lá”. Outra coisa é enfrentar um batalhão de façanhudos com armas na mão: “Encoste lá, que eu vou te matar”. Não são a mesma coisa. Uma coisa é estar na arquibancada do Coliseu ou do Circo Máximo, ver entrar uma pantera e dizer: “Que lindo morrer entre os dentes dessa pantera”. Outra coisa é estar na arena e ver a pantera caminhar em direção a mim, em que todos os guizos e todas as campainhas do instinto de conservação soam. Assim também é com o martírio de nossa vida de todos os dias.

* Imolar posturas erradas é mais difícil

Há alguma coisa que nós temos que arrancar dentro de nós; há algo que é, em geral, uma posição de pensamento, uma posição da vontade que está no mais profundo de nós e que é uma coisa que nós não queremos renunciar. E a essa coisa nós devemos fazer a renúncia para nos santificarmos verdadeiramente.

* Exame de consciência pliniano

Então, nós temos aqui a resposta à pergunta: como é que eu devo sofrer? Não é imaginando os sofrimentos dos outros, mas é perguntando-me a mim mesmo o seguinte: No silêncio do meu exame de consciência: “Você, Plinio Corrêa de Oliveira, você tem dentro de si um ponto, que é o ponto de sua renúncia capital. Você conhece esse ponto? Você o olhou de frente? Como está olhando nesse momento essa parede verde? Você se humilhou pelo menos diante do fato de você não ter sido homem até agora, para fazer essa renúncia? Ou você fez essa renúncia? Ou, se você fez essa renúncia, preste bem atenção, você a fez inteira? Ela foi até onde ela deveria ir? Ela representou o holocausto que deveria representar?

É a pergunta que a gente deve fazer. Deve fazer, e com a realização dessa renúncia, nós, de fato, sofrermos o sofrimento que Nossa Senhora quer de nós, e que vale o necessário para resgatar… [1,½ linha em branco] …

* Renúncia capital de Santa Teresinha

Os senhores vejam, por exemplo: — é uma coisa que tanto, tanto eu me lembro, na “História de uma Alma”, fica apenas velado —, mas numa carta de Santa Terezinha aparece mais claro: a renúncia dela ao pai dela. A gente vê que ela amava o Monsieur Martin, o pai dela, com um afeto filial extraordinário. Mas, em certo momento, ela teve a visão de Monsieur Martin passeando ao longo de um muro, decrépito, com o olhar desvairado… [½ linha em branco] …errando por algum lugar. E era a previsão de que ela tinha que consentir na renúncia, consentir no tormento daquele ente querido, além de mil outras renúncias dela. E a gente vê que essa, por exemplo, ela olhou de frente; e dentro da pequena via, com a singeleza da alma dela, ela consentiu.

Nossa Senhora… [½ linha em branco] …graças… [⅔ de linha em branco] .. venceu a prova tremenda que estava dentro dela. Quer dizer, não é o que nós devemos fazer também?

* Modelo absoluto: Nosso Senhor Jesus Cristo

Eu não pediria à minha caríssima geração nova que seguisse direta e imediatamente o modelo empolgante dos mais empolgantes modelos, que é Nosso Senhor Jesus Cristo, que tendo chegado a hora d’Ele, teve um longo isolamento para olhar inteiramente de frente a Cruz d’Ele e sofrer todo o sofrimento da previsão da Cruz. E preparar-se, por essa forma, para a luta que se aproximava… [¼ de linha em branco] …a agonia de Nosso Senhor Jesus Cristo no Horto — agonia é uma expressão latina que quer dizer: “luta”. Agoniata quer dizer: “lutador” —, aquilo não foi apenas o tormento de Nosso Senhor Jesus Cristo no Horto, foi a luta d’Ele; contra a parte humana, a parte física de sua natureza, sem nenhum defeito de pecado original, mas que tremia diante do perigo que vinha, e que Ele olhou de frente, passou uma noite olhando de frente, passou por todas as agonias morais que… [¼ de linha em branco] …a visão da cruz. Aceitou aquilo e depois caminhou serenamente para o desfecho.

* Santa Teresinha imitou-O também no holocausto

Isso é de uma grandeza tal, isso é de uma tal sabedoria, isso é de uma tal ordem, isso é de uma tal santidade — para dizer de uma tal santidade — que é uma coisa verdadeiramente maravilhosa. Bom, não digo que todos façam isso. Santa Terezinha do Menino Jesus fez. Ela sabia que ela ia morrer em holocausto, e ela caminhava com tanto ímpeto para aquele holocausto, que uma noite que ela pôs uma golfada de sangue, ela esperou… [⅓ de linha em branco] …precursora da morte, ela não quis ver logo o ferimento. Não olhou por mortificação — as tais pequenas mortificações dela — não olhou por mortificação, para ver no dia seguinte. E aí teve a alegria de ver que a morte estava se aproximando dela. Morte olhada de frente há muito tempo.

* Per crucem ad lucem

Eu não digo tanto assim, mas, que pelo menos nós peçamos a Nossa Senhora a graça de ir preparando as nossas almas, para irem vendo aos poucos e gradualmente… [¼ de linha em branco] …para em determinado momento amarmos a nossa cruz, que é o modo de nós carregarmos… [¼ de linha em branco] …ajudarmos a Ela a consolar Nosso Senhor ao pé da Cruz. E assim, à medida que as dificuldades vêm vindo, vêm vindo as graças e nós podemos fazer aquilo que Ela deseja de nós.

Então, a aceitação dessa nossa cruz primordial, que é o meio de chegarmos à luz primordial, e evitar o pecado capital, é a aceitação honesta… [⅛ de linha em branco] …tranqüila, mas… [¼ de linha em branco] …dessa cruz, o melhor modo de nós desagravarmos a Nossa Senhora.

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