Santo do dia (––- Segunda datilografia, sem conferição final ––-) – 2/5/67 – p. 5 de 5

Santo do dia — 2/5/67

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Leitura da história de Nossa Senhora das Prisões * No milagre de Nossa Senhora das Prisões aparece especialmente a meiguisse de Nossa Senhora * É próprio às épocas de decadência construir templos horrendos para agradecer os favores do Céu * Leitura de um trecho da “Imitação de Cristo” * A alma que não sofre é tíbia e não está em condições de se dizer um membro correto do Corpo Místico de Cristo

Neste dia, em 1808, teve início a insurreição espanhola contra Napoleão I. Levantaram-se os espanhóis em defesa do Papa e do rei, que foram ultrajados por Napoleão.

Este acontecimento merece verdadeiramente figurar nos nossos anais, porque a reação espanhola contra Napoleão teve todas as características de uma grande Chouannerie.

Napoleão não era apenas um soberano estrangeiro, que de um modo infame estava tentando se apoderar do trono espanhol, mas era o homem que trazia para a Espanha Católica, e que vivera até então no Ancien Régime, trazia todo o espírito e todos os programas da Revolução. Ele mesmo se definia como sendo la Révolution en bottes — a Revolução posta de botas e montada a cavalo para se espalhar por toda a Europa. E a reação contra Napoleão foi em larga medida uma reação católica contra o chefe revolucionário. Se não fosse isso, Napoleão não teria sido expulso da Espanha. De maneira que a reação anti-bonapartista na Espanha, é uma verdadeira guerra de chouannerie em que a cooperação dos elementos católicos foi extraordinária. E a data merece, de fato, ser comentada entre nós.

Também merece comentário entre nós, no programa de comentar todas as noites, uma das invocações de Nossa Senhora. A invocação de Nossa Senhora das Prisões, invocação existente em Prato, na Toscana e prendendo-se a um fato milagroso ocorrido em 1484. A narração do fato é a seguinte:

* Leitura da história de Nossa Senhora das Prisões

Passando perto do local das prisões, em Prato, um menino que corria atrás de uma cigarra, detém-se diante da muralha para observar um quadro da Virgem preso a ela.

É uma das coisas bonitas da Itália, são os quadros da Madona presos um pouco por toda a parte. Em Roma, em outras cidades, é uma verdadeira maravilha. Depois muitos têm flores, têm lâmpadas acesas etc. É estupendo.

A Virgem tinha seus braços com o Mmenino Jesus que segurava uma flor e um passarinho.

Subitamente a imagem começa a animar-se. A Virgem desce da muralha e coloca no chão o Menino Jesus, que começa a brincar com o passarinho, sob o olhar atônito do pequeno italiano, que fora introduzido no interior das prisões por um raio de luz. A Santíssima Virgem percorre várias celas obscuras e as ilumina à sua passagem. Depois dessa visita, Ela retorna a seu quadro.

O milagre se renova por várias vezes diante de uma multidão de devotos, que vêem sua devoção confirmada por numerosos milagres.

A relação desses milagres foi apresentada pelo bispo local a Lourenço de Médici, que fez construir em Prato, um magnífico Templo, um dos mais belos monumentos italianos do século XV.

* No milagre de Nossa Senhora das Prisões aparece especialmente a meiguisse de Nossa Senhora

O fato não podia ser mais gracioso, e não poderia falar mais da benignidade e da bondade de Nossa Senhora. Os senhores estão vendo a primeira parte da cena: um bambino, daqueles gorduchos e vivazes, ao mesmo tempo gordo, mas de tanta vivacidade, que não estão sujeitos à ação da gravidade e que esvoaçam rotundos por todos os espaços que encontram diante de si, correndo diante de uma prisão.

Segunda coisa: correndo atrás de uma cigarra. Já é um quadro interessante.

Outra coisa: é o muro de uma penitenciária, que tem do lado de fora uma imagem de Nossa Senhora. O contraste que se tem da austera e dura penitenciária e a Madona sorridente, com certeza colocada junto a um desses muros, cujo encanto é peculiar da Itália. Muros por assim dizer leprosos, pedras tão velhas, tão escangalhadas por toda sorte de tempestades, lavradas de um modo tão bruto que a gente diria que estão morrendo; mas são lindíssimas. Em cima delas, por exemplo, ou ao longo delas, cresce uma vinha que dá cachos com uvas bonitas e bate um sol que faz um sombreado lindo. E aí se tem o panorama.

Depois, a prisão. O menino olha para a imagem, a imagem que começa a movimentar-se. Depois o Menino Jesus sai e começa a brincar com um passarinho.

Os senhores querem coisa mais engraçadinha, mais fioretti do que o Menino Jesus correndo atrás de um passarinho? E o passarinho correndo de maneira a distrair o Menino Jesus? E a delicadeza do Menino Jesus brincando com o passarinho, ao mesmo tempo de vivacidade e o passarinho que pousa nEle, esvoaça e como que não consegue — Ele Deus, hein! — não consegue pegar o passarinho, que Ele mesmo criou.

Quantas coisas para recrear e extasiar a piedade dos homens.

De repente, é um raio de luz que transpõe as muralhas austeras da prisão e entra o passarinho, entra o Menino Jesus, entra Nossa Senhora, entra tudo; entra o bambino, entra tudo dentro da prisão. E nesse raio de luz, vão então sendo percorridas as várias celas da prisão.

Prisão, naquele tempo, era uma coisa profundamente diferente da prisão de hoje em dia. Todo o conceito era diferente. Começa por aí, que as prisões em geral, eram lugares de pouca luz; pedra e aquele tipo de pedra ao longo do qual escorre humidade; no alto uma escotilhazinha com luz, banco de pedra também, argolão de ferro para prender o sujeito quando estava muito inconformado; horas e horas e horas de silêncio. E ainda era bom quando era silêncio, quando não era a companhia forçada de um outro facínora, que tornava o séjour na prisão muito mais desagradável.

É preciso, por exemplo, visitar os fundos dos famosos piombos de Veneza para a gente se dar bem a idéia do que podia ser o soturno dessas prisões daquele tempo.



É que a idéia reinante era de que o castigo era para castigar. Eles eram tão extravagantes, que achavam que o castigo é para castigar. Não acham como hoje em dia que o castigo é feito para não castigar.

Eu me lembro que há um certo tempo atrás o Dr. José Fernando me contou que leu não sei onde, que estavam pensando colocar na penitenciária vidro raiban, inquebrável, para tirar ao prisioneiro a idéia claustrófoba das grades que pudessem fazer com que os “nenês” ficassem aborrecidos.

Então, o erário público ia pagar rios de dinheiro para esses raibans para os bons assassinos e falsários e outros congêneres, vendedores de tóxicos etc., se sentirem bem à vontade.

Agora os senhores imaginem, Nossa Senhora então que penetra numa prisão daquelas. Que penetra numa cela assim com o Menino Jesus, com esse outro “bambininho” e a impressão dos prisioneiros. É mais ou menos como quando Nossa Senhora vai ao purgatório e extasia tantos que estão lá, e leva um número incontável de almas para o Céu.

Naturalmente não está contado aí, mas está nas entrelinhas; e se muitas pessoas foram assistir a essa maravilha, naturalmente muitos presos foram também libertos. Libertos, tocados pela graça e convertidos, porque Nossa Senhora nunca pleitearia libertação de um criminoso que iria depois repetir o seu crime.

E aí os senhores estão vendo uma expressão daquele aspecto que toma a piedade a Nossa Senhora e que a meu ver não se salienta suficientemente, que é Nossa Senhora enquanto extremamente meiga, extremamente doce, que socorre os indivíduos mais distantes d’Ela, menos afortunados, mais pobres, mais abandonados, Ela tem uma fórmula, Ela tem um jeito, Ela tem uma situação, Ela encontra artes maravilhosas para proteger, [para nem ir dores?], tudo isto é magnificamente expresso nessa história.

* É próprio às épocas de decadência construir templos horrendos para agradecer os favores do Céu

Agora, lado triste: vai-se construir para comemorar o fato, uma igreja. E sai uma das melhores igrejas da Renascença, quer dizer, provavelmente um troféu pagão. Esse é o próprio das eras de decadência. Quando vão agradecer os favores do Céu, agradecem com… [inaudível] …errados.

Os senhores tomem em nossa época, para não ir mais longe, a basílica de Lisieux; é uma miséria. É uma tal miséria que quando olhei por fora, eu disse: “Aqui eu não entro. Eu vou ao convento, onde tem lindas recordações de Santa Terezinha, eu vou aos “buissonnets”, mas eu não vou à basílica.

A basílica de Fátima é o êmulo da basílica de Lisieux, horrenda também e de um espírito que poderia ser muito melhor. Mas mais lamentável de tudo, é a basílica de Siracusa: Nossa Senhora chorou em Siracusa, para comemorar o fato constroem um templo ultra-moderno, em linhas mais arrojadas, que fica ali insultando a Nossa Senhora. Isto é o próprio das épocas de decadência.

* Leitura de um trecho da “Imitação de Cristo”

Nós temos amanhã a festa da exaltação da Santa Cruz. A esse propósito me sugeriram um trecho da Imitação de Cristo, que é o seguinte:

A muitos parece dura esta palavra: Renuncia a ti mesmo, toma a tua cruz e segui a Jesus Cristo. Muito mais duro porém será ouvir aquela sentença final: “Apartai-vos de Mim malditos, ide para o fogo eterno”. Pois os que agora ouvem e seguem docemente a palavra da Cruz, não recearão então a sentença eterna de condenação. Este sinal da Cruz estará no Céu quando o Senhor vier para julgar. Então todos os servos da Cruz que em vida se conformaram com ela, com Cristo crucificado, com grande confiança chegar-se-ão a Cristo Juiz.

Por que temes pois tomar a Cruz com a qual se caminha ao Reino do Céu? Na Cruz está a salvação, na Cruz a vida, na Cruz o amparo contra inimigos, na Cruz abundância da suavidade divina, na Cruz a fortaleza de coração, na Cruz o compêndio de virtudes, na Cruz a perfeição de santidade.

Não há salvação da alma, nem esperança da vida senão na Cruz. Toma pois a tua cruz, segui a Jesus Cristo e entrarás na vida eterna. O Senhor foi adiante com a Cruz às costas, nela morreu por teu amor, para que tu também leves a tua cruz e nela desejes morrer. Porquanto se com Ele morreres, também com Ele viverás, e se fores seu companheiro na pena, também o serás na glória…

* A alma que não sofre é tíbia e não está em condições de se dizer um membro correto do Corpo Místico de Cristo

São conselhos de uma grande elevação, muito oportunos em todo o tempo, porque o homem tem um verdadeiro horror ao sofrimento, mas é preciso lembrar continuamente que o amor à Cruz tem entre nós um motivo especial. É que nós estamos vivendo numa época em que muito particularmente Nosso Senhor passa de novo por sua Paixão, em que mais do que em todas os outras épocas anteriores, Ele vai pela via crucis. Sofre o que sofreu, especialmente por essa crise dramática pela qual está passando a Igreja. Se nessa época, nós não temos esse senso da reparação, o senso de uma conformidade com Nosso Senhor Jesus Cristo, Nossa Senhora, por onde nós resolvemos sofrer também, quer dizer, aceitar as cruzes que a Providência permite que sejam dadas a nós e procurar para nós algum sofrimento quando não temos cruzes, se isto não se dá, positivamente nós estamos fora da verdadeira linha e nós não compreendemos a época histórica na qual nós nos encontramos.

Sempre que se fizeram procissões da Paixão, em que o corpo, a imagem representando o Senhor morto era conduzida pelas ruas das várias cidades da Península Ibérica e de outros lugares da Europa, a confraria de penitentes, acompanhavam essa procissão, e acompanhavam fazendo penitência, acompanhavam flagelando-se, porque a gente não acompanha a Paixão de Nosso Senhor, a não ser fazendo penitência e flagelando-se. Senão no sentido material da palavra, pelo menos no sentido, aliás, muito mais elevado e importante, que é o sentido espiritual, a aceitação das dores, dos sofrimentos espirituais que a Providência permita que caiam sobre nós.

Então nessa nova Paixão de Jesus Cristo, nesta nova compaixão de Nossa Senhora, não acompanha bem os fatos, quem não sofra. E uma alma que não sofra profundamente com o que acontece a propósito da Igreja, esta alma pode estar certa de que ela não tem amor à Cruz, de que ela não tem zelo, de que ela não está em relação a Nosso Senhor e a Nossa Senhora como devia estar.

Quer dizer, esta alma é uma alma tíbia, que não vibra, que não sente com a Igreja Católica e que, portanto, não está em condições de se dizer um membro correto do Corpo Místico de Cristo.

Este o sentido, portanto, da compaixão, da “paixão com”, do sofrimento com a Igreja [que] nesta hora dramática é fundamental na vida espiritual de todos nós. E é ainda aqui uma ocasião de relembrar o fato, com um apelo para todos nós à seriedade, à objetividade e a tomarmos as coisas como realmente elas são.

Quem — é preciso repeti-lo sempre — presencia a atual tragédia da Igreja, uma tragédia de proporções apocalípticas, quem presencia essa tragédia e não sofre com isso, é a mesma coisa que quem visse a Nosso Senhor passar pela via dolorosa, olhasse e dissesse: “Homem, coitado. Ele está carregando uma cruz bem pesada, agora deixe-me cuidar de outras coisas”.

É a mesmíssima coisa. De maneira que nós devemos na noite de hoje, pedir especialmente isto: este consentir com a Igreja, em que todo o tormento da Igreja seja experimentado em nós em espírito e de um modo verdadeiro.

Realizando o propósito de variar ao longo do mês de Maria, as imagens que são colocadas ali para a cerimônia do alardo, eu comunico que a imagem posta lá hoje, é do Imaculado Coração de Maria, imagem espanhola que se venera na sala de expediente da Rua Martim Francisco.

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