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Santo do Dia (Sede da R. Pará-) — 24/4/67 — 2ª feira

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Ficha biográfica de São Fidelis que narra o apostolado dele até ser enviado a converter protestantes num cantão da Suíça e depois ser martirizado * Martírio de São Fidelis. Ele já sabia que seria morto, mas não recuou diante da ameaça * São Fidelis deu um belo exemplo de fortaleza, tenacidade e capacidade de irritar pela oratória os inimigos da Igreja * O sentimentalismo do século passado é capaz de desvirtuar fórmulas católicas que em si são admiráveis * A graça atrai os chamados para uma vocação a admirar a sabedoria com o prisma da vocação * O verdadeiro desejo de lutar, sofrer e até morrer mártir é incompreensível com a “heresia branca” * A “heresia branca” está no estado sentimental estúpido com que se deseja ver a vida do santo. Santa Teresinha, tão suave na sua pequena via, tinha uma alma de Cruzado

* Ficha biográfica de São Fidelis que narra o apostolado dele até ser enviado a converter protestantes num cantão da Suíça e depois ser martirizado

Hoje, 24 de abril, é festa de São Fidelis de Sigmaringa.

A ficha de hoje dá alguns dados bibliográficos, tirados da Vida dos Santos de Reindenberg e de Rorbacher, História da Igreja Católica.

Marcos Roi, o rei que viveu de 1577 a 1622, tomou o nome de Fidelis quando entrou para os capuchinhos aos 35 anos de idade.

Nascido em Sigmaringa, distinguiu-se como estudante de Filosofia e Direito em Friburgo de Brisgovia. A seguir foi nomeado tutor de três jovens príncipes, com quem viajou por toda a Europa durante três anos. Depois de ter exercido a profissão de advogado em Kolmar resolveu abandonar o mundo.

No testamento que fez nesta altura, diz o seguinte: “Quero viver daqui para o futuro na maior pobreza, castidade e obediência, nos sofrimentos e nas perseguições, numa penitência austera e humildade profunda. Saí nu do seio de minha mãe e despojo-me de tudo para me entregar aos braços do Salvador.”

O Padre Fidelis possuía grandes dotes oratórios. Nomeado guardião (superior) do convento de Feldifique, pregou em numerosas cidades alemãs e suíças, e numerosas igrejas do campo.

A cidade de Feldifique especialmente, foi de todo transformada por ele. Como o protestantismo estava a se espalhar pela Suíça, especialmente entre os grisões, a Congregação da Propaganda encarregou os capuchinhos de o irem combater. O Padre Fidelis foi nomeado chefe dessa missão.

Dentro em breve não me tornareis a ver, disse ele a seus amigos em Feldifique, pois fui chamado a dar o sangue pela Fé”. E desde então passou a assinar suas cartas da seguinte maneira: “Padre Fidelis, dien esca vermis” — que em breve será pasto dos vermes.

Em janeiro de 1622 entrou na região ocupada pela Áustria e começou a pregar a Fé lá, com grande êxito.

Furiosos, os protestantes prepararam uma revolta e o missionário avisou os austríacos. Os grisões levantaram-se então em massa.

No dia 24 de abril, estando o Padre Fidelis a pregar em Sedis, ouviu-se o grito: “Às armas!”

Os grisões saíram ao encontro das tropas imperiais que tinham forçado seus postos avançados, convencidos de que o Padre Fidelis é quem chamara os austríacos.

Ainda o deixaram sair da cidade. Mas como daí a pouco regressasse a Griche, vinte soldados caíram-lhe sobre, trataram-no de sedutor e queriam forçá-lo a abraçar a sua seita.

Que me propondes?”, respondeu Fidelis. “Vim até vós para refutar vossos erros e não para abraçá-los. A Doutrina Católica é a Fé de todos os séculos, não a renunciarei. Ademais, sabei que não temo a morte.”

Eles então mataram-no a sabre.

* Martírio de São Fidelis. Ele já sabia que seria morto, mas não recuou diante da ameaça

É interessante nós notarmos bem qual foi a atuação deste grande pregador para que depois o comentário hagiográfico possa se fazer adequadamente.

Quer dizer, os senhores estão vendo que ele era um missionário famoso que pregava em vários lugares e era um grande orador. E que a Santa Sé, desejando impedir a expansão do protestantismo na região da Suíça, denominada dos grisões, incumbiu a ordem religiosa da qual ele fazia parte — que era a Ordem dos Capuchinhos — de mandar pregadores naquela zona, bons oradores para converterem os que se tinham [pervertido] para o protestantismo, e para impedir que novos católicos fossem objeto do proselitismo protestante, ao menos fossem objeto com êxito do proselitismo protestante.

Então ele que já tinha transformado inteiramente uma cidade importante da Alemanha — a cidade de Feldifique — pelos seus sermões, ele se dirigiu à Suíça sabendo que ia morrer. Ele teve uma revelação de que ele morreria mártir lá. Mas, homem sobrenatural, indômito, enérgico, batalhador, não recuou diante dessa ameaça. Pelo contrário, enfrentou a morte.

* São Fidelis deu um belo exemplo de fortaleza, tenacidade e capacidade de irritar pela oratória os inimigos da Igreja

E até tinha uma espécie de prazer em considerar a hipótese de sua morte próxima, ele até assinava “Frei Fidelis que em breve será pasto dos vermes”. Quer dizer, sabendo que ele iria para o Céu e que seria mártir, isto lhe dava então uma grande alegria.

A esta prova de tenacidade, ele juntou outra prova de força, de valor que foi o fato [de] que ele irritou sobremaneira os protestantes. Ninguém se torna irritante para o adversário sem ter conquistado êxitos contra o adversário. Quer dizer, ele alcançou aí êxitos importantes, como aliás se diz na nossa ficha. A tal ponto que os protestantes resolveram então matá-lo e prepararam um encontro em que ele afinal de contas acabou morto.

Os senhores estão vendo, portanto, um orador audacioso, um orador valoroso, um orador forte, um missionário vigoroso que não recuou diante do holocausto do martírio. Um homem que nos dá um admirável exemplo de fortaleza; porque a fortaleza é um exemplo em cada mártir, que leva exatamente à abnegação de sua própria vida e ao desejo de lutar a ponto de imolar efetivamente a sua existência.

* O sentimentalismo do século passado é capaz de desvirtuar fórmulas católicas que em si são admiráveis

Agora, os senhores tomem uma pessoa que hoje empregasse as fórmulas que o Frei Fidelis empregou. A gente seria levado a achar que é heresia branca. Os senhores vejam esta fórmula aqui:

Quero viver para o futuro na maior pobreza, castidade e obediência, no sofrimento e nas perseguições, numa penitência austera e humildade profunda. Saí nu do seio de minha mãe e despojo-me de tudo para entregar-me nos braços do Salvador.

Uma pessoa que hoje empregasse esta fórmula diria isto suspirando. [Diria:] “Quero viver daqui para o futuro na maior pobreza, castidade e obediência, nos sofrimentos e perseguições”, com tanta moleza que a gente diria: “Qual! Você é um pulha e eu não tomo a sério a sua vida espiritual. Que negócio é este?!”

Ele acrescentaria: “Quero viver numa penitência austera e humildade profunda. Nu saí do seio de minha mãe e despojo-me de tudo para me entregar aos braços do Salvador.” Seria assim.

Outra coisa, a assinatura. Alguém diz: “Como é que o senhor se chama?” “— Frei Fidelis, que em breve será pasto dos vermes.”

Bem, os senhores compreendem aí o equívoco tremendo que o sentimentalismo piedoso do século XIX criou em torno dessas formas e como nós temos de não nos deixar vencer pelo equívoco.

E o estado de espírito que eu apontei é um estado de espírito muito ruim, mas a fórmula é muito boa. Ela é muito boa em si mesma considerada. É uma fórmula empregada por um santo e portanto, não pode deixar de ser boa, porque tudo quanto o santo faz é bom. Nisto está empenhada a infalibilidade da Igreja Católica. Portanto, se essa fórmula não fosse boa, a Igreja não seria verdadeira, não seria santa.

E o que tem é que nós temos de compreender que essa fórmula é susceptível de ser pronunciada de outro modo, é susceptível de ser vista de outro modo, e que nós não devemos permitir que o besuntado sentimentalismo religioso do século passado nos tolde a visão do que fórmulas dessas têm de bom e da coerência que essa fórmula tem com as virtudes que nós somos mais chamados a praticar: a fortaleza de ânimo, a resolução, a combatividade, etc.

* A graça atrai os chamados para uma vocação a admirar a sabedoria com o prisma da vocação

É um engano pensar que quem pronuncia estas fórmulas é incompatível com as virtudes que nós apreciamos. Não pode ser porque entre virtudes não há incompatibilidade. Ora, isto tem de ser virtude porque foi pronunciado por um santo. Logo, não pode ter incompatibilidade com as virtudes que nós somos mais chamados a praticar.

Qual é o valor desta fórmula? O valor desta fórmula é muito grande. É evidente que um homem que tem a verdadeira virtude da sabedoria, um homem que compreende portanto, que todas a coisas desta terra são um nada desde que elas obstem à aquisição da virtude e ao pleno conhecimento da sabedoria e ao amor de Deus, que esse homem deve retirar-se desta terra.

Ora, acontece que quando Nossa Senhora quer que alguém tenha uma vocação, torna-lhe difícil a vida fora da vocação que deve abraçar. E, portanto, um santo nestas condições é levado pelas circunstâncias, em geral, a uma alternativa: ou se perde ou adota o estado de vida para o qual foi chamado.

Depois, independente do perigo de perder-se, ele tem o atrativo da graça para estar meditando as coisas da sabedoria. Ele tem o atrativo da graça para unir-se a Deus por esta forma, naquele estado de vida e por amor de Deus ele adota aquela forma.

Então fez-se capuchinho. O que quer dizer fazer-se capuchinho? É adotar a pobreza completa, renunciar a toda forma de sinarquia. É despreocupar-se com os bens deste mundo, não só não querendo tê-los para si, mas não se entusiasmando com as pessoas que os têm porque os têm. Não admirando ninguém porque tem um bonito automóvel, nem porque tem um bonito apartamento. Ou, suprema ventura, porque tem uma fábrica importante. Absolutamente não.

Mas dando valor aos homens e às coisas na medida em que se aproximam da sabedoria e praticam a sabedoria.

* O verdadeiro desejo de lutar, sofrer e até morrer mártir é incompreensível com a “heresia branca”

Uma pessoa assim, num estado de espírito varonil, num estado de espírito combativo, pode dizer um ato de imolação inteiramente inaciano: “Eu quero viver daqui para o futuro na maior pobreza, castidade e obediência, nos sofrimentos e nas perseguições. Porque eu quero imitar a Nosso Senhor Jesus Cristo que sofre e por isso eu vou ser um lutador; eu vou agredir o adversário; eu vou batalhar; eu vou sofrer porque na guerra se sofre.”

Quer dizer, não tem nada de heresia branca, é o sentimentalismo religioso do século passado que dá a isto um aspecto de heresia branca. Porque isto nada tem de heresia branca. É piedade de boa lei que o homem mais valoroso e mais combativo deve ufanar-se em ter.

Assim também, dizer que daqui a pouco vai ser o pasto dos vermes. Isto é ter coragem! É uma prova de que ele não tem medo de morrer. Rir a respeito disto. !Eu agora estou vivo, esta carne que nós estamos vendo aqui vai ser comida pelos vermes. Através destas órbitas vão entrar vermes e vão comer estes olhos. Vão sair através destes ouvidos, através destas bocas, vermes como que engendrados pelo meu próprio corpo. Mas eu não me incomodo porque a minha alma vai para o Céu, mas eu terei o martírio que vale muito [mais] do que essa decomposição do meu corpo. E no último dia meu corpo ressuscitará e se juntará à minha alma no Céu.”

É uma atitude de força de alma que exatamente não dá o faniquito que o liberal, o sentimental tem diante da morte.

Os senhores compreendem então como é falso imaginar que uma fórmula dessas é heresia branca. Bem interpretada, bem entendida, a fórmula nada tem de heresia branca, é uma fórmula esplêndida.

* A “heresia branca” está no estado sentimental estúpido com que se deseja ver a vida do santo. Santa Teresinha, tão suave na sua pequena via, tinha uma alma de Cruzado

A heresia branca está no estado temperamental do estúpido com que os sentimentais repetiam isto. Uma escola mais ou menos viva até nossos dias. Isto, sim. Mas não está na coisa em si.

Os senhores têm a prova concreta: um homem que empregava fórmulas dessas é um mártir de uma admirável coragem que viu chegar a morte até ele com a serenidade com que os maiores heróis não saberiam chegar. Que lutou arduamente contra a Revolução no seu tempo, que é um verdadeiro contra-revolucionário — porque o protestantismo era a Revolução no seu tempo —, homem completo, portanto, e digno de toda a nossa veneração.

A relíquia dele se encontra em nossa capela, de maneira que nós faremos uma boa coisa pedindo a ele que nos dê a graça de compreender como fórmulas dessas se compaginam bem com a nossa piedade, desde que expurgadas dos péssimos eflúvios do sentimentalismo religioso do século passado, vivo até nossos dias, infelizmente.

Como é um pouco sui generis a matéria tratada, eu pergunto se algum dos senhores quereria fazer uma pergunta a esse respeito ou a matéria está clara.

Há alguém que quereria me fazer uma pergunta a respeito disto? Como o assunto já tem sido tratado na Pará e Martim, eu me interessaria mais por perguntas deste auditório da sala de reuniões.

(Sr. –: […])

Quer dizer, eu falei contra o sentimentalismo religioso do século passado, evidentemente eu apontei um erro, uma coisa má. E essa coisa má não existe na obra de nenhum santo do século passado. São deformações que existiram à margem do santo e contrariamente ao exemplo dado pelo santo. O século passado foi um século até de grandes santos, santos admiráveis mas que estavam isentos disto e até eram o contrário disto. Isto se poderia dizer de Santa Teresinha do Menino Jesus.

A pequena via dela, tão cheia de candura, tão cheia de suavidade é uma via de grande força e de grande combatividade para quem sabe ler um livro de Santa Teresinha.

E a gente percebe — para abordar o assunto um pouco por alto aqui — isto aí nos desejos de Santa Teresinha. Ela dizia que ela tinha desejos infinitos, queria ser missionária, queria ser isto, queria brandir o ferro no combate contra os inimigos da Igreja. Vejam que esta manifestação é de uma combatividade que chega até o Cruzado, e até mesmo desejo de derramar o sangue. E isto da parte desta santa tão suave na sua pequena via. A gente vê portanto, como as duas coisas são inteiramente compatíveis.

Entre o que é bom e o que é bom, nunca há incompatibilidade. Há incompatibilidade entre o que é bom e o que é ruim, mas o que é ruim e o que é ruim, e o que é bom o que é bom, são sempre compatíveis entre si.

Não sei se queriam me fazer mais uma pergunta. Então podemos encerrar.

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