Santo do Dia – 20/4/67– 5ª feira . 5 de 5

Santo do Dia — 20/4/67— 5ª feira

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Leitura de uma ficha sobre a sagração de Santo Anselmo * O episódio da sagração de Santo Anselmo é um magnífico exemplo da beleza das vias de Deus * Se na História da Igreja não houvesse mistério, Ela não seria a verdadeira Igreja de Deus

Amanhã, dia 21, nós temos a festa de Santo Anselmo de Cantuária, Bispo, Confessor e Doutor da Igreja. Intrépido nos combates da Fé, defendeu a Igreja contra o Rei Guilherme, o ruivo, século XII.

Cristo, dizia ele, não quer uma escrava para esposa. Nada Ele ama tanto neste mundo quanto a liberdade de sua Igreja.

* Leitura de uma ficha sobre a sagração de Santo Anselmo

Aqui vem uma nota sobre a sagração de Santo Anselmo. É tirada do Rorhbacher, “Vida dos Santos”.

Decidiram os bispos ingleses sagrar Santo Anselmo, Arcebispo de Cantuária, mas este recusou terminantemente pois sabia da intromissão real neste cargo.

Mostraram-lhe os prelados as conseqüências de sua negativa para a Inglaterra. Replicou o santo que conhecia tais problemas, mas que era velho, e mal conseguindo carregar a si próprio, como poderia levar o fardo de toda uma Igreja. Por outro lado não era de sua índole cuidar de negócios temporais.

Conduzi-vos somente nos caminhos de Deus, nós nos encarregamos dos negócios temporais”, replicaram os prelados.

Alegou Anselmo suas múltiplas obrigações e a impossibilidade de abandoná-las. Resistindo ainda levaram-no ao soberano que se encontrava gravemente enfermo.

O rei aflito disse-lhe: “Anselmo, que fazes? Por que me envias ao Inferno? Lembra-te da amizade que meus pais tinham por ti e não me deixes perecer, porque sei que estou condenado a morrer conservando este Arcebispado”. Todos os assistentes, comovidos, insistiam com Santo Anselmo acusando-o de matar o rei.

O Santo voltou-se para os dois monges que o acompanhavam e disse: “Meus irmãos, por que não me socorreis?”

Um deles respondeu: “Se esta é a vontade de Deus, quem somos nós para resistir-lhe?”.

Ai! — disse Anselmo — Vós vos rendestes mui prontamente”.

Vendo-o assim obstinado, acusaram-no de covardia. Buscaram uma Cruz tomaram-lhe o braço direito e o aproximaram do leito. O rei lhe apresentou a Cruz mas ele fechou a mão. Os bispos empenharam-se em abri-la até fazê-lo gritar. Por fim seguram-lhe a mão com a Cruz dizendo: “Viva o bispo!”; e entoaram o “Te Deum”. Levaram-no à igreja vizinha e sob seus protestos sagraram-lhe”.

* O episódio da sagração de Santo Anselmo é um magnífico exemplo da beleza das vias de Deus

Estranho e magnífico ao mesmo tempo.

Para compreender um pouquinho o conjunto dos acontecimentos é preciso tomar em consideração o seguinte: Cantuária é a mais antiga Diocese da Inglaterra e é portanto a sede primacial da Inglaterra. E naquele tempo, mais do que hoje, os arcebispos e os primazes tinham certa jurisdição, certa influência sobre os bispos de seu país.

Estava-se num período de comunicações com Roma muito longas, muito distantes, muito difíceis e não havia um corpo de núncios apostólicos inteiramente organizado. De maneira que se fazia sentir mais do que hoje em dia a necessidade dos bispos de um determinado país se apoiarem sobre um que fosse a pedra de ângulo de todos, e este era o Arcebispo de Cantuária.

Esse arcebispo tinha muita importância porque estava, por outro lado, num período em que a Revolução, em uma forma absolutamente ancestral e original… enfim, nem se pode ainda falar de Revolução, mas os germes dos quais futuramente a Revolução nasceria, se exprimiam sob a forma de um desejo do Poder Temporal. Quer dizer, dos chefes de Estado e em concreto, portanto dos reis, de se apoderarem da liberdade da Igreja, dos atributos da Igreja, transformando a Igreja num instrumento de dominação material.

Eles não queriam, por exemplo, que lhes censurassem os bispos, porque havia naquele tempo muitos bispos que censuravam os reis e os poderosos. Eles queriam se assenhorear dos bens com que a Igreja socorria inúmeros pobres e mantinha o esplendor do culto divino.

Por outro lado, os bispos eram muitas vezes senhores feudais e era um elemento de imparcialidade dentro do jogo da vida feudal.

Certos reis, movidos por mau espírito, queriam se assenhorear dos feudos régios para, por esta forma, combater os outros senhores feudais dos feudos eclesiásticos, para combater os outros senhores feudais.

E isto tudo junto fazia com que os reis tivessem uma preocupação constante de nomear bispos que fossem seus instrumentos para os cargos importantes.

É uma infantilidade pensar que isto nos dias de hoje não continua.

Os senhores imaginam se o Presidente da República tem ou não tem interesse na nomeação de um Arcebispo de São Paulo, de um Arcebispo do Rio de Janeiro, de um Arcebispo de Brasília, ou do Arcebispo de Buenos Aires ou de Santiago ou de outro lugar qualquer. Evidentemente tem todo interesse e manobra por detrás da cortina para conseguir a indicação de seus candidatos.

Eu não saberia dizer até que ponto esta manobra é bem sucedida, mas um fato me chama a atenção: é que eu não vejo arcebispos que façam resistência ao Presidente da República. De maneira que algo há.

Agora, o que é que há? Fica por conta dos senhores analisar e de desvendar, mas este é um fato concreto.

Então, Santo Anselmo que era monge, homem já idoso, com inúmeros serviços prestados à Igreja, Santo Anselmo era desejado ardentemente pelos reis e pelos bispos para ser Arcebispo de Cantuária.

Ele era desejado pelos bispos porque era um líder natural para defendê-los contra o rei. Era desejado pelo rei, porque este rei já tinha tido dificuldades com a Igreja, mas estava doente e temia morrer. E como ele disse aqui, ele achava que ia para o Inferno se ele antes de morrer, ele não evitasse para a Igreja a catástrofe de uma má nomeação, nomeando um bom Arcebispo para Cantuária. Quer dizer, ele doente, estava com a espada da ameaça do Inferno colocada no peito e nós sabemos que o medo do Inferno tem levado muita gente para o Céu, que poucas coisas fecham tanto a porta do Inferno quanto o medo do Inferno para a grande maioria dos homens.

De maneira tal que por causa disto ele estava com medo. Então todos queriam que ele ficasse Arcebispo de Cantuária.

Aí se dá a cena muito curiosa. Os bispos pedem, ele recusa. Ele dá um argumento que é um argumento que está à altura de um Santo. Não é um argumento de “humildosa”, mas é uma coisa verdadeira. Ele é um homem velho, cansado, que mal se carrega a si próprio, exausto por anteriores serviços à Igreja, é natural que ele tenha receio de não conseguir desempenhar um cargo tão pesado satisfatoriamente. E que ele, portanto, procure tirar o corpo desta posição que lhe quer ser dada.

Tanto mais que ele devia conhecer bem o rei, e devia conhecer bem a entourage do rei, e ele poderia ver que se o rei sarasse — cesteiro que faz um cesto, faz um cento — já tinha criado encrenca com a Igreja, criaria outra.

Os sucessores dele que faziam parte daquela entourage do palácio tinham a mesma mentalidade. Ele teria que travar uma luta, portanto, contra o poder temporal, coisa muito mais difícil do que qualquer outra luta. E ele naturalmente temia por sua própria fraqueza. Ele achava que um homem moço estaria mais em condições de conduzir esta luta.

Mas tal era a força da virtude dele, tal era a confiança que todos tinham no auxílio que a graça prestaria a ele, que todos queriam que ele ficasse Arcebispo.

Então esta cena. Os bispos não conseguiram nada. Levam Santo Anselmo à câmara, ao quarto onde o rei estava doente.

Então vem esta insistência que os senhores viram, e acaba havendo, afinal de contas, uma espécie de violência bem medieval. Pega uma Cruz e diz ao rei: “Põe na mão dele!”

Ele: “Não, não quero!”

Vão, apertam a mão a ponto de doer e abrem a mão, ele segura a Cruz.

Bem, então levam agora para ser sagrado.

Os senhores estão vendo bem que o que houve foi isto. Que por meio desta violência material, que talvez tivesse tido um caráter afetuoso e talvez tenha sido feita no meio de sorrisos — a crônica é muda a respeito deste particular — mas o fato é tão estranho que não é de se repelir como absurda a hipótese deste ter sido feito no meio de sorrisos.

No meio de sorrisos, houve um momento em que ele pelo extremo desejo dos outros, que chegou até à violência, ele resolveu ceder. Mas, ceder não mais coagido fisicamente, mas moralmente persuadido de que ele não deveria resistir a um desejo tão geral e tão unânime.

E, então, ele mesmo aceitou a sagração, que ele não aceitaria se ele estivesse convencido que outra era a vontade de Deus. Ele teria certamente — sendo um Santo — morrido mártir mas não teria se deixado sagrar se tal fosse a vontade de Deus. Seria o primeiro caso de um martírio de um padre que se faz matar para não ser bispo, mas este caso de martírio teria existido na Igreja.

Nós devemos, uma vez que ele está no Céu, estar persuadidos de que ele de fato quis em determinado momento, e por esta forma ele foi Arcebispo de Cantuária.

Nós podíamos nos perguntar se esta violência que foi feita na pessoa dele, se é uma violência censurável. Às vezes a graça se serve de meios muito estranhos, na sua sabedoria e na sua imensa liberdade de movimentos. Meios imorais ou ilegítimos jamais. Meios surpreendentes e desconcertantes, bem possivelmente.

Quem sabe se a graça quis que a insistência chegasse até esse ponto para mostrar o desapego deste homem, e depois, lhe dar mais liberdade de lutar contra o rei, mostrando que ele tinha sido forçado a aceitar o cargo.

De qualquer forma a gente lembra das palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo no Evangelho: “o Reino dos Céus pdece violência”. É preciso fazer violência para se entrar no reino dos Céus.

Às vezes é preciso fazer até uma santa violência com Deus. O próprio Nosso Senhor tem aquela parábola admirável de um homem que está deitado na cama junto com seus filhos e um cacete bate do lado de fora pedindo pão.

Ele diz que não tem, explica que ele está deitado na cama. Não quer atender. Afinal o homem é tão cacete que o dono da casa, dos filhos e dos pães, se levanta, sobre a porta e dá os pães.

E Nosso Senhor explica o que o homem disse: “É por causa da sua importunidade: vá embora”.

E Nosso Senhor diz: “Isto é o modelo daquele que reza”.

Quer dizer, quando nós não temos méritos, devemos ser muito insistentes. Porque à força de insistência, como que caceteamos a Deus Nosso Senhor e obtemos aquilo que nós queremos.

Aqui é qualquer coisa de parecido com isso, e a gente vê aí as vias superiores de Deus, insondáveis, nem sempre inteiramente explicáveis e que formam uma das belezas da História da Igreja.

* Se na História da Igreja não houvesse mistério, Ela não seria a verdadeira Igreja de Deus

Se na História da Igreja tudo fosse explicavelzinho, clarinho, limpinho, ambiente de leiteria, a História da Igreja não seria a História da Igreja de Deus. Faltaria a ela uma das notas daquilo que é verdadeiramente divino.

Naquilo que é verdadeiramente divino precisaria haver mistério. E eu vou dizer mais, quanto mais é claro que a coisa é divina, tanto mais convém que nela haja mistérios. Porque a presença do mistério é a presença de uma marca de superioridade divina que impõe respeito aos homens.

Eu saio um minutinho do meu tema, mas eu me lembro aqui do que São Tomás de Aquino diz a respeito das palavras obscuras que há na Escritura. São Tomás diz: Pode-se fazer a seguinte objeção contra trechos obscuros da Escritura: “Isto foi para ser entendido. Se foi dito para ser entendido, Deus sabe… deve saber falar direito. Se ele falou errado, ou não foi dito por Deus, ou Deus disse uma coisa incompreensível.”

Então como se sai dessa dificuldade? Essa dificuldade parece sem saída.

São Tomás voa por cima da dificuldade: O que é divino para a formação da mente humana precisa ter certos mistérios. E por isto às vezes Deus fala ao homem mostrando-Se misterioso para falar de sua grandeza, para falar de sua divindade, e, portanto, não diz claro para mostrar quanto é grande. E é uma coisa cheia de Sabedoria”.



Aqui também, são os mistérios da vida da Igreja. Os fatos misteriosos por onde Deus mostra a sua divina grandeza. Depois as coisas se explicam.

Com certeza para alguns contemporâneos de Nosso Senhor, a Paixão há de ter parecido um mistério inexplicável e foi preciso a Ressurreição para que se compreendesse esse mistério

Nós estamos em presença de um mistério. Nós estamos em presença do maior mistério dentro de vinte séculos de vida da Igreja. Creiamos na divindade da Igreja e amemos a Santa Igreja Católica mais do que nunca… eu jamais diria, apesar do mistério, eu diria, por causa deste mistério.

Só uma Igreja Santa e divina pode ter uma fortaleza, uma grandeza tal que nela caiba um mistério tão profundo, um mistério tão tenebroso, um mistério tão cheio de trevas. É preciso ser uma Igreja divina para não morrer deste mistério, para atravessar a era de mistério e do outro lado se mostrar gloriosa e resplandecente como se tivesse ressuscitado.

Nós, deste pequeno fato misterioso da vida de Santo Anselmo, devemos voar para regiões muito mais altas dos grandes mistérios da Igreja Católica. E então façamos hoje à noite, a Nossa Senhora, um ato de amor pelo mistério enorme diante do qual nós estamos, pelo mistério tremendo diante do qual nós vivemos, certos de que os grandes mistérios têm depois as suas grandes explicações.

Nunca um homem se defrontou com um mistério tão terrível quanto o de São José, mas depois, que explicação! Depois, que esclarecimento! É a explicação das explicações.

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