Santo
do Dia – 31/3/67 – 6ª feira .
Santo do Dia — 31/3/67 — 6ª feira
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Leitura de uma ficha sobre Santa Maria Egipcíaca * A história de Santa Maria Egipcíaca: uma página de ouro dentro da “Légende Dorée” * Ao contrário do que se pensa e ensina em nossa época, o temor de Deus nos conduz ao amor de Deus * A verdadeira contrição é fruto do amor e nos une intimamente a Deus * A Igreja é como um dia luminoso que apresenta diferentes coloridos ao longo de suas várias etapasSanta Maria Egipcíaca
Hoje, dia 31 de março, é festa do Bem-aventurado Boaventura de Tornielli, Confessor, da Ordem dos Servitas de Maria, cuja relíquia se venera em nossa capela. É também novena da Anunciação de Nossa Senhora.
Agora, eu recebi o seguinte bilhete: a ficha referente a Santa Maria Egipcíaca, cuja festa se celebra no dia 2 de abril, essa ficha deveria ser comentada amanhã, por referir-se à festa de domingo. Entretanto, por cair segunda-feira a festa da Anunciação, e não havendo comentário domingo, e também por ser amanhã primeiro sábado, valeria a pena eu fazer amanhã o comentário da Anunciação. Razão pela qual o Paulinho julgou que seria interessante fazer o comentário sobre Santa Maria Egipcíaca hoje, se bem que seja a festa no dia 2 de abril.
A ficha que eu tenho de Santa Maria Egipcíaca é da Légende Dorée, de Jaques de Voragine. O texto é o seguinte:
* Leitura de uma ficha sobre Santa Maria Egipcíaca
Santa Maria Egipcíaca, também chamada a Pecadora, levou durante 47 anos no deserto uma vida de arrependimento e privações. Sua história foi por ela mesma contada ao abade Zózimo, que a encontrou um dia.
Ao pedir o religioso que lhe dissesse quem era e de onde vinha, aquela estranha figura de mulher, negra e curtida pelo sol, respondeu:
“Pai, perdoai-me, mas se vos revelar quem sou, fugireis como à vista de uma serpente e teus ouvidos serão manchados por minhas palavras e o senhor será empestado por minha impureza. Eu me chamo Maria e nasci no Egito. Vim de Alexandria com 12 anos e durante 17 anos aí vivi como mulher pública, vendendo-me a quem o quisesse. Mas um dia, como alguns habitantes dessa cidade fizessem uma peregrinação para adorar a Santa Cruz, em Jerusalém, pedi aos marinheiros que me deixassem embarcar também. Eles me perguntaram se eu tinha dinheiro para pagar a passagem. Respondi que não tinha dinheiro, mas me ofereci a mim mesma. E assim se fez a viagem. Mas eis que em Jerusalém, como eu me apresentasse com os outros peregrinos na porta da igreja, senti-me repelida por uma força invisível que não me permitiu entrar na igreja. Vinte vezes aproximei-me das portas…
Portas pouco ecumênicas, hein!
“… vinte vezes essa força invisível me reteve e impediu de entrar. E todos os outros entravam livremente, sem que nada os impedisse. De tal sorte que, voltando ao albergue, compreendi que aquilo era uma conseqüência da minha vida criminosa. E eu pus-me a ferir-me, a verter lágrimas amargas, a suspirar do mais profundo do meu coração. Depois, vendo na parede uma imagem da Bem-aventurada Virgem Maria, supliquei-lhe que me obtivesse o perdão dos pecados e a permissão de entrar na igreja para adorar a Santa Cruz. Em troca, prometi renunciar ao mundo e viver na castidade.
“Essa oração me deu confiança e eu de novo me apresentei às portas da igreja. E eis que agora pude entrar sem nenhum impedimento. E enquanto adorava piedosamente a Santa Cruz, um desconhecido deu-me três moedas, com as quais eu comprei três pães. E ouvi uma voz que dizia: AEAtravessa o Jordão e vem para este deserto AF, onde há 46 anos vivo, sem jamais ter visto figura humana, alimentando-me dos tês pães que trouxe comigo, e que se tendo tornado duros como pedra, ainda são suficientes para minha alimentação. Quanto aos meus vestidos, há muito que se fizeram em pedaços, e durante os primeiros dezessete anos de minha permanência no deserto fui atormentada de tentações. Mas no momento, pela graça de Deus, eu as venci inteiramente. Eis minha história. Eu a contei para que peçais a Deus por mim.”
Então, o ancião, prostrando-se em terra, bendisse ao Senhor na pessoa de sua serva. E esta lhe disse: “Ouvi o que vos vou pedir: no dia da Páscoa, atravessai novamente o Jordão, trazendo convosco uma hóstia consagrada. Eu esperarei na margem e receberei de vossas mãos o Corpo do Senhor, porque não mais comunguei, desde que aqui cheguei.”
O ancião voltou ao seu mosteiro e no ano seguinte, estando próxima a festa da Páscoa, voltou ao Jordão levando consigo uma hóstia consagrada. E eis que percebeu a mulher, de pé, na outra margem. E tendo feito o sinal da Cruz sobre as águas, ela andou sobre elas e assim chegou até o ancião. Este maravilhado quis se prostrar humildemente a seus pés, mas ela lhe disse: “Meu pai, guardai-vos de vos prosternar diante de mim, sobretudo agora que trazeis o Corpo de Cristo. Mas dignai-vos voltar ainda o ano que vem.”
No ano seguinte, Zózimo não mais a encontrou na margem. Ele atravessou o rio e se dirigiu ao local onde a vira pela primeira vez. E lá a viu morta, estendida sobre a areia. Então, ele chorou amargamente e não ousava tocar seus restos, temendo ofendê-la, pois nada os cobria. Mas enquanto pensava no meio de enterrá-la, leu uma inscrição sobre a areia: “Zózimo, enterra meu corpo, entrega minhas cinzas à terra e pede por mim ao Senhor; pois fui liberta do mundo no segundo dia de abril”. Assim, o ancião abriu-lhe uma cova sendo para isso milagrosamente auxiliado por um leão, que aí apareceu. E o ancião voltou ao mosteiro glorificando a Deus.
* A história de Santa Maria Egipcíaca: uma página de ouro dentro da “Légende Dorée”
A Légende Dorée está inteira dentro disso. É dessas coisas em que há uma incomparável baixa-de-nível em perguntar se são históricas, porque são, e porque o mundo precisaria que tivesse havido coisas dessas. E porque realmente isso alimenta a alma, sem indagações históricas, sem outras preocupações dessa natureza, pela beleza intrínseca que elas contêm.
Os senhores podem analisar isso ponto por ponto. Os senhores vejam antes a beleza do contraste estabelecido aqui entre o pecado e a penitência. A pecadora era uma pecadora péssima. Era uma mulher que durante 17 anos tinha vivido no pior dos males. Mas essa mulher vai de repente, tocada por vias imprevisíveis da Providência, chega até o momento da conversão. Havia uma festa em Jerusalém, ela pede para ir no meio dos marinheiros. Ela pede fazendo o pior dos oferecimentos para ir no meio dos marinheiros. Ela vai, ela chega até à igreja e então à noção do pecado, do pecado escancarado e com sua hediondez, opõe-se anti-ecumenicamente, a noção, a visão de um Deus três vezes Santo e que tem horror ao pecado. Ela procura entrar mais de vinte vezes na igreja e uma força invisível lhe impede que entre na igreja. É Deus, infinitamente puro, infinitamente santo, que tendo horror ao pecado, não quer que a presença do pecador maculado venha a prejudicar o seu santuário.
Entretanto, há ao mesmo tempo a graça e a misericórdia de Deus. Ela volta para a hospedaria — quer dizer, é tudo profundamente teológico — ela volta para sua hospedaria e ela começa então a cair em si na solidão de seu quarto. Ela pensa:
“O que fiz eu? Ah, o meu crime é o meu pecado: pecato meo, contra me est semper, eu pequei contra ti só e o meu pecado está continuamente de pé increpando-me e censurando-me. Então eu caio em mim e percebo o mal que eu fiz. Eu percebo que eu caí tão baixo que a cólera do Céu me aparta do resto das criaturas. E enquanto as portas do sacrário estão abertas misericordiosamente para todo mundo, a mim Deus rejeita. Como eu caí baixo!”
Os senhores vêem como isso é teológico e como explica a grande penitência e o grande arrependimento que vêm depois.
Entretanto, as coisas não ficam nisso. Ela começa a se arrepender e há, muito providencialmente, uma efígie de Nossa Senhora no quarto dela. Ela encontra então a Mãe de Misericórdia e a Porta do Céu, e ela reza para quem ela tinha de rezar para obter misericórdia.
Ela é convidada para uma penitência extraordinária, ela se afasta completamente dos homens e vai fazer uma dessas penitências de assustar. O pecado de assustar, recebeu uma prevenção ou uma advertência de assustar. Mas essa advertência de assustar é um convite admirável e de deslumbrar para uma penitência de assustar: ela atravessa o rio Jordão e se põe num deserto onde passa quarenta anos sem ver ninguém. Então sua beleza de pecadora se esfuma no sol. Ela está torrada, fica preta, causticada, endurecida. Os seus trajes caem como andrajos. Ela está continuamente a rezar diante de Deus, numa solidão cheia de amor de Deus.
Numa primeira fase, ela teve tentações, mas depois as tentações se retiram e ela fica fazendo uma penitência que é mais a penitência da inocência, do que a penitência do pecado. Porque ela se elevou tanto, ela se colocou num nível tão alto de virtude que o perdão é inteiro. Quer dizer, ela faz uma penitência que já não é só por ela, mas naturalmente por todos os pecadores. Mas Deus queria que antes de ela morrer, recebesse essa suprema prova da reconciliação: é a Comunhão.
Então, acontece que um santo varão — e daqueles santos varões daquele tempo, de barba branca com aquele tipo de capuz comprido e pontudo, todo vestido de preto, com um bordão, e que vai andando pelo deserto, pára, abençoa uma coisa; vê um crime, exproba; pára diante de um tirano, condena; pára diante de um doente, faz um milagre; pára diante de um ícone, reza, e depois continua a andar o caminho sozinho, pelas estradas. Uma coisa que eu só encontrei em nossa época algo de semelhante na vida — que eu recomendo que alguns dos senhores leiam — de Charbel Mackluff, do Bem-aventurado Charbel Mackluff. É admirável, é toda feita desse encanto primitivo, magnífico!
Então, o santo varão chega até o outro lado do deserto e vê a ela. Ele pergunta quem ela era e a resposta dela é bem no tom sentencioso e grave daquele tempo: “Pai, perdoai-me, mas se vos revelar quem sou, fugireis como à vista de uma serpente e teus ouvidos serão manchados por minhas palavras e o senhor será empestado por minha impureza. Eu me chamo Maria e nasci no Egito.” E assim começa então. Essa é a introdução da biografia: “Eu me chamo Maria e nasci no Egito”. Essa introdução da biografia dela tem uma grandeza e um senso literário do valor de alma que há dentro disso, que é uma coisa admirável, ou melhor, verdadeiramente extraordinária.
Bem, vem a morte. Vem a morte, o santo varão chega lá e ela não está. Ela está de tal maneira elevada no amor de Deus, antes de morrer, que ela para receber a comunhão vai pisando sobre as águas. Deus perdoou tudo, Deus esqueceu tudo, Deus se fez completamente amor para ela. Ela vive num conúbio com a graça divina, o mais íntimo que se possa imaginar. No ano seguinte ele volta e ela não está à margem. Ele atravessa o Jordão e encontra o corpo dela jogado no chão. E ela que sobre a areia escreveu alguma coisa sobre a recomendação de enterrá-la. Então, vem o homem puro que tem escrúpulo de enterrar uma mulher coberta de andrajos insuficientes. Mas com recato, ele executa a ordem. Para os funerais dessa espécie de anjo do deserto, vem o rei do deserto. Quer dizer, é altamente poético e arquitetônico também que um leão venha. O leão que domina o deserto e que é a glória e o brilho do deserto, um leão venha para ajudar os funerais. Ele e um santo varão velho cavam a sepultura. Ela é colocada lá dentro e mais nada. Resta apenas essa história de Santa Maria Egipcíaca, um “apenas” que é uma página de ouro dentro da Légende Dorée. Os senhores estão vendo que maravilha que se pode fazer de uma narração de um grande acontecimento, de uma grande alma.
* Ao contrário do que se pensa e ensina em nossa época, o temor de Deus nos conduz ao amor de Deus
Os senhores vêem aí também a beleza da contrição. É uma coisa a respeito da qual nossa época não tem bem noção. A nossa época faz uma idéia completamente falseada a esse respeito. Nossa época meteu-se na cabeça [de] que a contrição nos vem exclusivamente do temor de Deus e que o temor de Deus nos afasta do amor de Deus. De onde então, a contrição é debaixo de um certo ponto de vista o contrário do amor de Deus.
Agora, nada mais mal pensado do que isso. Em primeiro lugar, porque o temor de Deus, quando há um temor verdadeiro, por virtude, é um dom do Espírito Santo. E não pode nos afastar do amor de Deus, porque nada daquilo que procede do Espírito Santo nos afasta de Deus. Pelo contrário, só pode nos unir a Deus. Quem tem, portanto, verdadeiramente a graça — que não é de todas as escolas espirituais e nem a todos é dado — mas quem tem a graça de um saliente temor de Deus, encontra nisso um meio para subir ao amor de Deus. E nós vemos aqui, como pelo arrependimento [por] seu pecado, Santa Maria Egipcíaca chegou até o auge do amor.
* A verdadeira contrição é fruto do amor e nos une intimamente a Deus
Mas depois existe uma outra idéia de que a contrição do pecado é uma coisa que afasta de Deus porque é só feita pelo temor. Não é verdade. A contrição do pecado é feita pelo amor. A atrição é provocada pelo temor, que é, aliás, um sentimento salutar. Mas a contrição é provocada pelo amor. É o amor de Deus que provoca a contrição. E a gente pode passar a vida inteira contrito pelo pecado que cometeu, até crescendo em contrição, crescendo ao mesmo tempo em amor e em sagrada intimidade com Deus, Nosso Senhor.
Nós podemos imaginar… por exemplo, São Pedro. Todos dizem que até quando ficou velho, São Pedro ainda chorava o pecado que tinha cometido e que lágrimas grossas percorreram de tal maneira a sua face que tinham aberto em sua face dois sulcos. Agora, por quê? Com certeza, aquele olhar que ele recebeu, aquele olhar divino que ele recebeu no momento em que Nosso Senhor o fitou, com certeza aquilo ficou nos olhos dele a vida inteira. E ele foi crescendo no amor de Nosso Senhor, na consideração daquele olhar, até extremos que ninguém pode imaginar. Era a contrição que aumentava o amor e o amor que aumentava a contrição e a intimidade com Nosso Senhor. Ele, o Vigário de Cristo, conhecendo tão de perto Nossa Senhora, na intimidade com Nossa Senhora, com certeza teve intimidade com Nosso Senhor.
* A Igreja é como um dia luminoso que apresenta diferentes coloridos ao longo de suas várias etapas
Quer dizer, essas coisas se entrelaçam. E essa vida de Santa Maria Egipcíaca não nos deve causar terror mas nos deve causar enlevo pela figura patriarcal e primitiva dessa grande penitente. A Igreja é mais ou menos como um dia luminoso: o sol tem suas cores de manhã, tem seu colorido da aurora, tem seu colorido de toda a hora do dia. E todos esses coloridos são bonitos. A Igreja tem um colorido para cada era de sua vida, e aqui é o colorido da Igreja primitiva. É o colorido da Igreja das grandes mortificações, das grandes penitências, dos grandes pecados, das grandes contrições, das inocências virginais, da austeridade requintada. É o velho som de um sino que nos vem do velho passado nos lembrando exatamente aquela velha gravidade, aquela seriedade da Igreja primitiva, tão capaz de empolgar as almas que verdadeiramente procuram amar a Nossa Senhora.
Assim, é refrigerante para nós pensar em Santa Maria Egipcíaca. E nós devemos pedir a ela que nos dê uma contrição verdadeira de nossos pecados, mas uma contrição na paz, uma contrição sem escrúpulos nem dilacerações, nem solavancos; uma contrição verdadeiramente santa, que aproxime nossas almas de Nossa Senhora.
Vai ser lida agora, aqui, a relação dos visitantes.
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