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Reunião (Sede da Grão Mogol1)— 30/3/1967 — 5ª feira

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Europeização

[inaudível] …e que, portanto, quem nega a Nosso Senhor Jesus Cristo, nega implicitamente, tudo quanto existe de bom, de grande, de digno, de nobre no universo. Não é possível uma pessoa queira [a rigor?] negar a existência de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou negar a infinita superioridade de Nosso Senhor Jesus Cristo e sinceramente dizer… [inaudível] …que o Dr. Eduardo… [ilegível] …. Não é possível a gente fazer isto, porque não é coerente, não é lógico querer achar aquilo bonito e por uma razão de conexão, não ache sublime a figura de Nosso Senhor Jesus Cristo. E não é possível compreender a sublimidade da figura d’Ele, … [ilegível] …é o foco, é o modelo de tudo quanto [na terra, ou na vida?] existe de bom, de grande, de belo, … [ilegível] …uma razão para ser vivida.

[inscrições no verso da folha 36] … [faltam palavras] …nenhuma pode negar uma sem negar, ao mesmo tempo, todas… [ilegível] …de lógica, por exemplo.

Se Nosso Senhor Jesus Cristo não existiu, ou se Nosso Senhor Jesus Cristo não é Deus, a verdade, o verdadeiro será a gente abrir uma cova na terra, deitar-se dentro dela e ficar esperando que a morte viesse. Porque a vida seria uma coisa tão fútil, uma coisa tão irracional, uma pura sucessão de gozos, mas gozos alternados com sofrimentos e gozos bestas, gozos sem sentido último que, em última análise, nada terá razão de ser se não fosse Nosso Senhor Jesus Cristo.

Bem, se isto é verdade, nós devemos reconhecer o seguinte: que a Igreja Católica é o espelho perfeito de Nosso Senhor Jesus Cristo. Se alguém quer ter a idéia de qual é [a] impressão que teria vendo a face sagrada de Nosso Senhor Jesus Cristo, pode imaginar uma catedral gótica, numa grande pompa litúrgica, com um grande órgão tocando música gregoriana, pode imaginar um coro cantando música gregoriana, pode imaginar ali um clero piedoso e um povo fiel. A gente se reportar, por exemplo, a um Natal em Reims, durante a Idade Média, ou em Colônia, ou em Burgos. … [ilegível] …Quando a gente imagina isso, a gente tem uma sensação de alma que é a mesma sensação que teria se visse a face de Nosso Senhor Jesus Cristo. Porque todas as belezas que há na Igreja – da hierarquia da Igreja, das leis da Igreja, da liturgia da Igreja, da doutrina da Igreja, todas essas belezas que há na Igreja irradiam-se da figura de Nosso Senhor Jesus Cristo e encontram na figura de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não perceber a unidade de todos esses aspectos da Igreja, não perceber os sentidos últimos dessa unidade. Isso é expressão de uma grande alma que foi a autora de tudo isto e que continua sendo a autora de tudo isto através dos séculos e que se reflete nisto e que é a divindade e a humanidade santíssima de Nosso Senhor Jesus Cristo. Quem não compreende isso, não compreendeu nada da Igreja Católica, não compreendeu nada de religião católica.

Agora, a gente pensa, a gente vê que desfigurar a Igreja, é a mesma coisa do que eliminar a face de Jesus Cristo da terra; é a mesma coisa de que eliminar desse mundo tudo quanto torna a vida nobre e digna de ser vivida. É eliminar desse mundo tudo quanto faz com que a terra seja uma coisa respirável. Sem isto, a terra não é respirável em nenhum sentido e ela não vale absolutamente nada. A gente compreende que isso tudo é mal… [ilegível] …, e depois a gente compreende a injustiça do que está sendo praticado. Em todas as almas, nas nossas almas nesse momento a graça está soprando. Sopra em todas as almas do mundo continuamente, a todos os instantes e sopra no sentido de conseguir que nós abramos os nossos olhos para isto, que é a verdadeira magnificência. Não há nada no mundo que seja magnificente em comparação com isso. Que nós abramos nossos olhos para isso e que nós tenhamos alma para amar isto mais do que a luz de nossos olhos, mais do que a vida que circula em nós, porque isto é uma coisa divina e que vale mais do que isso. A graça convida a todos e todos os homens fecham os olhos para isso. Não querem ver, não querem olhar. E o que é pior é que os clérigos fecham os olhos para isso. E se faz uma conjuração universal para acabar com esta última coisa. Eu sei que eles não poderão acabar com essa coisa, porque ela é divina e ela resistirá a eles. Mas eles levam esta extinção tão longe quanto se possa levar nos meios de ação circunscritos que eles têm. E o intuito deles é um intuito deicida. Se eles pudessem, eles acabariam fazendo com que a Igreja Católica se desmentisse a si mesma. Se eles pudessem, eles acabariam fazendo que os verdadeiro filhos da Igreja a abandonassem, e como que entre os homens não restasse mais memória do que foi a Igreja Católica Apostólica Romana. Isto é o que eles fariam se eles pudessem. O Gal. Mac Arthur, quando esteve dirigindo o Japão como uma espécie de ditador, depois de os Estados Unidos terem ganho a guerra, encontrou a crença de que o Imperador do Japão tinha origem divina. E ele então impôs ao imperador que dirigisse ao povo, dizendo o seguinte: vocês acreditam em mim como um semi-deus, como um descendente de Deus. Pois eu venho dizer a vocês que não é verdade. Eu não acredito em mim como um descendente de Deus. Eu não sou um semi-deus; eu me tenho na conta de um homem qualquer. Quer dizer, eles quiseram pegar a religião japonesa e destruí-la por dentro, do pior modo possível, que era exatamente fazendo com que ela se desmentisse a si mesma. Se eles pudessem, eles quereriam que um papa se sentasse na Cátedra de São Pedro e que esse papa dissesse: Fiéis todos, ouvi: eu sou papa e venho dizer que eu não creio na religião católica que não creio na doutrina católica. Aqui estão ao meu lado dois mil bispos, que vão proclamar que são ateus. Então, agora, todos à mesma hora e no mesmo dia, como se fossem um, vão proclamar que são ateus também. E todos os fiéis vão passar pelos batistérios e vão profanar os batistérios, os tabernáculos, e os confessionários, e as imagens e os púlpitos e os altares, para dizerem que não crêem mais em nada. Isto é o que eles quereriam. É por isso que eles preparam o “progressismo” que é… [ilegível] …se conseguir isto que a Providência não permitirá, consigam tão parecido quanto isto.

Agora, pergunto: pode haver… [ilegível] …uma conspiração mais atroz do que essa que seja levada a fazer com que a Igreja se desminta a si própria, com que a Igreja declare, ela mesma a sua própria vacuidade, a sua própria nulidade, para que não reste na terra um pingo de fé. Agora eu pergunto: se a gente não vai se entristecer com isso, com o que na terra vai [se] entristecer? Com o automóvel da gente que deu uma trombada? Com uma nevralgia que deu na base do queixo? Com uma dívida que se tem que pagar? Com o pai ou a mãe que estão doentes? Que significação têm essas coisas, quando eu sei que eu vou morrer[?] E na hora que eu morrer, [do?] que [é] vai adiantar o automóvel que deu trombada? Tudo acaba. O problema não é esse, o problema é o que significa minha vida. Eu olho em torno de mim e noto que todos os homens sofrem e que talvez aqueles que pretendem não sofrer, sofram mais do que todos. Para que é que eu nasci? Qual é o sentido dessa potência que eu tenho de conhecer as coisas e refletir sobre mim mesmo? Qual é o significado de minha presença nesse vale de amolações, de lágrimas, de equívocos, de dificuldades, que são para todo mundo sem exceção? Se isto não tem uma explicação de que as coisas boas e nobres do mundo são indicativas de um mundo eterno onde vou entrar, o que é o resto? O resto não é nada, a se eu não…[faltam palavras] … . Realmente, não pode haver nada mais triste, coisa mais dolorosa, mais pecaminosa do que a imensa conjuração que de dentro para fora se levanta contra a Igreja.

(Sr. –:… [inaudível] …).

A fonte de toda ““sacralidade”” é Nosso Senhor Jesus Cristo. Por que é que dizemos dele que Ele é sagrado? Por que Ele tem uma forma tal de superioridade – ele não é apenas superior, mas ele tem uma forma tal de superioridade – que se bem que nós vejamos nele a natureza humana, percebemos que há por detrás dele, isto é, por detrás, há n’Ele, por detrás das aparências físicas d’Ele… [faltam palavras] …. Percebemos uma natureza não só muito maior do que a nossa, mas infinitamente maior do que nós, inteiramente perfeita, plena, total, a qual nada se pode comparar, tão sublime e tão elevada que, para exprimir de algum modo, nós dizemos que é sagrada, quer dizer, Ele é superior de modo que nos transcende; que há um abismo entre Ele e nós. E que isto é a “sacralidade”.

(Sr. –:… [inaudível] …).

Auscultar o coração de Nossa Senhora. É preciso ver bem aqui primeiro o que que é o coração. O coração, evidentemente, não diz respeito apenas ao coração material, que este não podemos auscultar, pois está no céu. Mas é compreender o que é que é a vontade d’Ela. Através … (faltam palavras) …, através dos fatos, discernir o que Ela está querendo. Então através … (ilegível) …fazer a vontade d’Ela, auscultar é ver o que Ela quer.

(Sr. –: [sobre o Tratado da Verdadeira Devoção]).

A frase quer dizer, propriamente, em meio ao clero. Dentro do clero, cercados, circundados pelo clero. Agora, não se pode conceber, no Reino de Maria, um clero que não seja bom, que não seja santo. Porque, por definição, o sal da terra e a luz do mundo são eles. Agora, eu acredito que em todo o Reino de Maria, vai ficar uma nota de fraqueza, ao lado de uma nota de força… [faltam palavras] …e com todas as suas definições, por onde, por pouco que ela seja [infiel?], pega o povo inteiro. E eu acredito que isso se dará com o clero também.

(Sr. –: [sobre a Pequena Via]).

A Pequena Via, se a gente quiser tomar aqui teologicamente na sua essência, a Pequena Via acaba sendo o seguinte: ela se distingue da grande via clássica que podemos notar em Santo Inácio de Loyola. Em Santo Inácio de Loyola, a virtude que vai crescendo nas pessoas, a virtude… [faltam palavras] …é o amor de Deus. E, à medida que o amor de Deus vai crescendo, as outras virtudes vão crescendo também. Na Pequena Via, o amor de Deus já é dado com grande intensidade às almas, no marco inicial. Mas elas são fracas para fazer o exercício de vontade necessário para a aquisição da virtude verdadeira. Então, o amor de Deus como que as faz voar e consegue que elas se desprendam dos seus vícios, de um modo, às vezes, inesperado, repentino, de um momento para outro, e com que elas então voem assim rapidamente, não é verdade? E eu tenho a impressão de que pela união de almas que a Providência dá a muitas pessoas, como meio para terem também uma união de almas com Nossa Senhora, que é o que importa, que nessa foram entra às vezes um grau tão grande de compreensão e de aceitação e de adesão, que isto acelera enormemente aquisição de outras virtudes; preserva a alma de muitas [ruínas?], e acelera a aquisição de muitas virtudes. Isso seria portanto um fenômeno de Pequena Via.

(Sr. –: Temos, aqui em Belo Horizonte, um relicário que tem um pedaço da Cruz de Nosso Senhor, isto é, da Coroa de espinhos, manto de Nossa Senhora e relíquias de vários santos. Eu queria pedir ao senhor o melhor meio de fazer uma veneração ao relicário pelo que ele contém.)

Eu tenho a impressão de que o melhor meio é fazer como diz São Luís Grignion de Monfort, através da devoção a Nossa Senhora. A gente sabe que Nossa Senhora conservou as relíquias da Paixão; e quando Ela sepultou Nosso Senhor Jesus Cristo, que Ela levou consigo as relíquias todas, que Ela levou o sudário, que Ela levou os cravos, que Ela levou a coroa de espinhos, etc. E nós temos que imaginar Nossa Senhora sentada, no edifício do Cenáculo, ou ajoelhada no edifício do Cenáculo, aonde Ela foi residir logo depois de Nosso Senhor estar sepultado, então imaginá-la [ali?] como esses objetos diante de si. Imaginar que meditações Ela faria e procurar que nós façamos as meditações análogas. E se nós nos sentimos muito geração nova, e muito capengas para fazermos uma meditação assim, pedir a ela, ao menos, o seguinte: Minha Mãe, eu não sou capaz de meditar diante dessas relíquias. Mas eu Vos peço que digais a Nosso Senhor Jesus Cristo por mim, a propósito dessas relíquias, o que vós diríeis. Eu torno minhas essas palavras. E nós teremos feito uma meditação excelente.

(Sr. –: Qual a relação que existe entre o confisco que Nossa Senhora faz e o livre arbítrio?)

O confisco é um confisco de direito. E Nossa Senhora declara que nós nos devemos dar a ela. O livre arbítrio é o ato pelo qual nós obedecemos ao decreto de confisco. Quer dizer, é uma coisa diferente. Por exemplo, um governador passa e diz: eu confisco essa mesinha. Vamos dizer que ele tivesse o direito para isso e a mesinha passou a ser dele. Agora, outra coisa é eu pegar e entregar a mesinha na mão dele porque ele confiscou. Este é o ato do meu livre arbítrio.

(Sr. –: Santa Teresinha se imolou como vítima ao amor misericordioso [parece que pede uma explicação].)

O amor de Deus aos homens envolve manifestações, entre elas a da justiça, porque é por amor que Deus é justo. Mas envolve de um modo muito mais notável a misericórdia. A misericórdia se opõe… [faltam palavras] …à justiça, enquanto a justiça…[faltam palavras] …. Então, o amor misericordioso é o amor enquanto misericórdia. É a misericórdia vista como uma justiça, ou melhor, vista como manifestação de amor. Santa Teresinha considerou que esse amor misericordioso de Nosso Senhor Jesus Cristo era rejeitado pela imensa maioria das pessoas. Então, ela quis oferecer-se a esse amor para reparar essa rejeição. Então, … (ilegível) … um holocausto ofereceu… [ilegível] …mas em reparação a essa rejeição. Isso, então, é a vida dela.

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1 Grão Mogol era o nome da rua na qual ficava uma das sedes em Belo Horizonte.