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Reunião (Belo Horizonte) — 29/3/1967 — 4ª feira
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Europeização — Comentário sobre Versailles
Em vez de santo do dia, podemos dizer que vamos tratar de uma coisa santa. Se não é um santo, é uma coisa santa. E são os aspectos sacrossantos da Europa cristã, e que é um legado da Idade Média e da civilização cristã.
O objetivo dessa exposição é o comentário de um aspecto do castelo de Versailles, a respeito do qual todos senhores já ouviram falar. Mas qual é o objetivo desse comentário do castelo de Versailles? Eu várias vezes eu tenho feito observar aos nossos amigos que o povo brasileiro tem, entre outros defeitos, esse de ter pouca apetência por aquilo que é maravilhoso, por aquilo que é [admirável?]. O povo brasileiro não sabe apreciar, por exemplo, devidamente, as maravilhas naturais que ele tem. Os senhores tomem, por exemplo, o litoral de São Paulo, se bem que o litoral de São Paulo não tenha uma beleza… [ilegível] …da baía de Guanabara, … [ilegível] …oferece entretanto, aspectos de uma beleza que tornariam célebre se fosse em qualquer outro lugar do mundo. Dr. Luizinho, por exemplo, conhece vários pontos do litoral europeu. Guarujá vai adiante de qualquer ponto bonito do litoral europeu, sem dúvida nenhuma. Praia Grande, Beruibe, São Vicente, são pontos que na Europa seriam célebres. Fala-se, por exemplo, tanto de San Sebastian, na Europa. Eu fui a San Sebastian, praia de Afonso XIII, pensando em encontrar uma verdadeira maravilha. É o aspecto mais feito, mais inferior de Santos, corresponde à praia de San Sebastian. Se não houvesse nudismo, aquelas praias viviam vazias. Quando havia jogo, os hotéis de Santos se enchiam, Tirou o jogo, os hotéis de Santos se esvaziaram. Em Guarujá, como tiraram o jogo, fechou o hotel. Não existe mais hotel. Porque o pessoal não ia lá para ver as maravilhas da natureza: ia por causa do jogo e continua indo, debaixo de uma certa medida, por causa da sensualidade.
Por exemplo, os senhores vêem aqui em Minas Gerais, há coisas mito bonitas. Por exemplo, o ipê: ipê roxo, ipê dourado, ipê branco. Eu sei que Minas Gerais é terra dos ipês. Os senhores podem imaginar uma choça de cabloco junto a um pé de ipê florido. Ele em baixo acende um foguinho, dentro é uma fumaça cheia de fuligem, que conspurca todas as folhas; derruba a árvore porque faz sombra para ele. A última coisa que ele se preocupará em ver é a beleza do ipê. Como o [caiçara?] de São Paulo, o cabloco de beira mar de São Paulo, construiu casas de costas para o mar. O mar, para ele é apenas uma massa líquida onde há peixes que ele pode pescar, sem muito trabalho para ir vivendo e vegetando. A beleza do mar para ele não existe. E tudo quanto é maravilhoso em nossa natureza, o povo brasileiro não sente. Depois, acontece que nessa natureza… [ilegível] … aspectos que não… [ilegível] …. E por causa deu um patriotismo mal compreendido, entendeu-se de afirmar que tudo no Brasil é uma verdadeira beleza. Então, o sol do Brasil!… Ora, o sol do Brasil é o sol no mundo inteiro. Porque o sol do Brasil? Ou então, a nossa relva! Não é verdade. A relva do Brasil, ao menos em certas zonas do Brasil, como São Paulo e Minas, é feia em comparação com a relva européia. É um capinzal agressivo, cheio de coisinhas que cortam, carrapatos, bichinhos, buracos. A gente vai meter naquele tremedal, é um susto. Na relva européia, a gente pode dormir sossegado. Aqui, a gente se estende meio minuto, tem a miniatura de um monstro antediluviano que vem enroscar a gente, cutucar. A gente arranca, aquilo sai esperneando, danado. Não oferece as condições que a lenda patrioteira imaginaria dizer que oferece. Não é verdade, e está acabado.
Isto produz na alma do brasileiro, um reflexo, que é um reflexo ruim. É um desinteresse por tudo quanto é maravilhoso, uma espécie de “poquice” fundamental, que até tira a noção do verdadeiro maravilhoso. Com a influência norte-americana, isto ainda piorou, e então precisamos chamar a atenção de nossa gente, para as coisas maravilhosas da Europa, para elevar a alma, aumentar os padrões e nos dar um feitio de espírito por onde sejamos mais próprios a cantar a glória de Deus na natureza, ou nas obras de arte do homem. A natureza foi feita por Deus. As obras de arte foram feitas pelo homem. Diz Dante que “as obras de arte são netas de Deus”, porque são filhas desse filho de Deus que é o homem. E os senhores estão vendo aqui uma conjugação de uma admirável neta de Deus com filhas de Deus. Essas fotografias de turismo têm, em geral, esse mérito: focalizam em ângulos muito inteligentes e muito bons, os monumentos,… [ilegível] …interesse comercial faz com que eles procurem fotógrafos com certo senso artístico. De maneira que, muitas vezes, essas fotografias são muito boas. E é o caso dessas aqui que sem ser das melhores no gênero, entretanto, servem bem para o que a gente quer.
Os senhores têm aqui o palácio de Versailles, que como sabem foi mandado construir por Luís XIV, segundo os preceitos e princípios de arte francesa e do espírito francês, para simbolizar a glória da monarquia. A monarquia era a instituição dominante da França naquele tempo; ele era o rei Sol, o rei sem igual, como outro não houve na terra depois da eclosão da revolução, para representar com brilho a majestade real – e ele mandou construir, então, um castelo que, de tal maneira ficou um símbolo da realeza, que todos os reis da Europa mandaram construir depois castelos inspirados em Versailles… [faltam palavras] …na Áustria, por exemplo, é um castelo inspirado em Versailles.
Nós vamos nos ocupar dos dois planos diferentes: primeiro aqui da vegetação e do parque de Versailles, e depois vamos nos ocupar, isoladamente, do castelo: depois, considerar a conjunção do parque e do castelo. Então, teremos feito uma análise do panorama que temos diante de nós.
Notem, em primeiro lugar, a vegetação. O europeu cuida extremamente da vegetação e tem por jardins e árvores e parques um cuidado que nem de longe o brasileiro tem. Nas florestas européias, cada árvore é catalogada e eles têm, por exemplo, na Alemanha, uns especialistas chamados… [faltam palavras] …que são responsáveis individualmente por árvores que são fichadas. Então, se aparece o menor bichinho numa árvore, se aparece uma coisa errada que não devia ser, aquilo… [ilegível] …, vai para um instituto, faz amostragem que cura o bicho que deu na árvore, etc., de maneira que cada árvore é protegida como se fosse um indivíduo. Porque é um bem do espírito. A árvore tem um valor intelectual e cultural, que faz dela um bem do espírito. Outra coisa que o europeu cuida enormemente é relva e gramado. Os senhores estão vendo esta relva e estão pensando que sorte que deu aí uma relva – este é o espírito do pensamento do brasileiro. Eu só tenho sangue brasileiro, de modo que posso falar sem ferir suscetibilidade de ninguém. Sou um luso-brasileiro cem por cento. Não tenho uma gota de sangue que não seja brasileiro e, remotamente, um pouco de sangue espanhol, como todo paulista tem. Pois a coisa é assim: que sorte! Coitados de nós, que em nossas casas não dá essa grama bonita assim, o resultado é que não podemos ter jardins bonitos assim. E Dr. Plinio ainda tripudia em cima de nossa infelicidade, pegando, mostrando, esfregando nossa cara na grama. Eu estou sentido. Dr. Plinio não é patriota. Na realidade, todo assunto relva, grama, é objeto, na Europa, de um estudo enorme, tem revistas, tem institutos, tem escolas que defendem a superioridade de tal relva sobre tal outra relva, por causa disso, por causa daquilo, duração, preço, matiz; há uma relva para pólo, há relva para jardim, etc., etc., o que significa muito trabalho. Trabalho, palavra boa para brasileiro ouvir. Não é o tal negócio “que plantando dá, mas não planto não. É estudar, querer produzir uma coisa maravilhosa, ter bastante amor à idéia de ter uma relva bonita, a ponto de haver um universo de cultura em… [ilegível] …das relvas.
Os senhores também não pensem –… [ilegível] …uma reação brasileira – que esta relva é pintada. No meu jardim não é assim. Então, pensam que não conheço capim? Isto assim não é. Os senhores sabem bem porque estão rindo…Mas não é nada disso. A cor é essa. E é essa… [ilegível] …trabalhos de séculos, de gente que ambicionava o… [ilegível] …em matéria de relva, e que… [ilegível] …relvas maravilhosas. O resultado: os senhores olham para isto, é uma sensação de verdor, de vida, de saúde, de frescor. Isto descansa os olhos, mas descansa a alma ver uma criatura de Deus tão cheia de viço primaveril. É alta cultura em matéria de relva, como aqui, os senhores vão encontrar alta cultura em matéria de estátua. Porque tudo isto é alta cultura, e custou esforço, custou vontade de produzir maravilhas da parte de gerações inteiras.
Essas flores vermelhas não pensem que são pintadas, porque não são. Isso é assim. Eu vi flores e muitas na Europa, e com freqüência, de um vermelho assim, mas que é de chamar atenção. A primeira vez que fui à Europa este contraste entre Europa e Brasil se apresentava com mais vitalidade ante meus olhos, e numa das primeiras viagens que fiz, desembarquei no aeroporto de Sevilha. E tinha um jardinzinho no aeroporto de Sevilha. Uns gerânios de um vermelho que a gente tinha a impressão que era líquido e que aquilo ia estalar e escorrer no chão de um momento para outro. Comparando com esses nossos gerânios poeirentos, que o jardineiro não lava, ninguém passa o esguicho em cima, são gerânios quaisquer. O sujeito pega o gerânio e planta e não cuida e a qualidade do gerânio é uma diferença enorme. Vejam como tudo está aqui bem aparado, formando desenhos isto dá trabalho também. Foi pensado. Esses desenhos foram do maior jardineiro de todos os tempos. [Lenotre?], que criou os jardins mais bonitos que houve em todos os tempos. Isso forma conjuntos que a gente não nota. Bem, aqui, mas são desenhos geométricos, em que entrou um mundo de pensamentos, em harmonia com a fachada do castelo. Isso não se percebe bem aqui na… [ilegível] …fotografia. vejam bem essa… [ilegível] …de cores [vivas?], relva muito… [ilegível] …, novas cores vivas, relva… [ilegível] …princípio estético da unidade na variedade. Muita simplicidade-empetecado; depois, novamente simplicidade-empetecado; simplicidade-empetecado. E os olhos descansam do simples no exuberante e descansam do exuberante no simples. E, amenamente, são levados à consideração do castelo. Os senhores querem uma moldura melhor para um castelo do que um chão desses? Pergunto agora, onde os senhores viram no Brasil um chão que se parecesse com esse? Por quê? Por que não dá aqui? É a terra da preguiça, onde ninguém tem vontade de fazer um jardim maravilhoso. E se fizer também ninguém aprecia. Porque se soltar brasileiro aqui a 1ª coisa que se vê são 500 molequinhos formigando que querem passar por cima disso, se esconder dentro disso. Outra coisa, fumante jogar toco de cigarro aqui, é uma tentação irresistível. Cotucar a relva é também outra tentação irresistível e comendo bala, amarrotar e jogar pedaço de papel aqui… Os senhores façam uma população brasileira passar um dia de domingo aqui eu quero ver, à noite, como isso está. Sem falar em pipoca, amendoim, mal cheiros de toda ordem. E por que? Porque é um povo que não tem os olhos abertos para o maravilhoso, não tem vontade de contemplar uma coisa maravilhosa e posto em presença da maravilha, não zela pela coisa. Mas a alma de um ultramontano não pode ser assim. A alma de um ultramontano tem que desejar o maravilhoso para amar a Deus, porque Deus criou essas coisas assim. E somos feitos para ver face a face a Deus, cuja maravilha em relação a isso não tem nenhuma forma nem meio de comparação. Isso é uma preparação para o céu. E preparam-se para o céu os povos que têm esse amor “europeístico” ao maravilhoso, que a revolução de tal maneira quer [cortar?].
Chegamos, agora, ao castelo. Os senhores viram que o artista, muito jeitosamente, tirou a fotografia de ângulo e de ângulo muito bem trabalhado, porque… [ilegível] …e ressalta agradavelmente a parte que está no sol. Ele soube ver um aspecto do castelo. O sol que brilha no castelo brilha mais por causa de uma sombra que o artista soube por dentro disso. Os senhores estão vendo como é um artista amigo do maravilhoso também, que soube fazer uma indagação inteligente ao castelo, para fotografar o castelo como quem fotografa uma fisionomia; como quem pega uma cara de gente e põe numa posição boa para ser fotografada. Aqui também este homem tirou uma fisionomia interessante do castelo.
Agora vem a análise do castelo. O que o castelo deveria querer exprimir? Este é um castelo de uma alta cultura e que visava exprimir a dignidade da realeza, o poder da realeza e a estabilidade da realeza. São os três valores que, aliás, caracterizam todo o poder na terra. Ele precisa ser digno, precisa ser forte e precisa ser estável. Quando ele é digno, forte e estável, ele se impõe ao respeito. Existe, portanto, como pressuposto dessa obra, uma teoria do poder. Com base nessa teoria do poder, existe também uma outra coisa: aquilo que se manifesta de um modo muito protuberante, de modo muito [gritante?] no fundo é um tanto cafajeste.
Não sei se os senhores prestaram atenção nas pessoas do povo que vão passear no domingo, quando elas são faceiras, como é que elas se vestem. Homens, por exemplo, põem sapatos de uma cor quase vermelha, roupas brancas que dão a impressão de um [negro?] que saiu do leite, ou então, um lenção… [ilegível] …saltada aqui, ou uma flor, num esforço medonho para chamar a atenção sobre ela. O querer chamar a atenção sobre si, é uma expressão de insegurança. A insegurança é uma expressão de falta de força, falta de estabilidade e falta de verdadeira dignidade. De maneira que estas coisas devem ser feitas de modo discreto. E o modo discreto é o modo que não chama a atenção logo à primeira vista. É um modo que a gente sente algo de confuso, ou de difuso à primeira vista, e depois, ao prestar atenção, consegue explicitar. Mas à primeira vista apresenta suas qualidades com um certo velame, de maneira que diante de um castelo concebido com essa idéia, a beleza, na primeira vista agrada, mas não é a sensação de beleza que ela produz depois de devidamente analisada. Depois de devidamente analisada, ele lucra então. Ao contrário do que o norte-americano quer. Como o norte-americano é cafajeste, ele gosta do sensacional. E ele quer, logo que a gente vê uma coisa dele, que a gente fique assim. Corresponde a isto a estátua da liberdade, em Nova York, a meu ver é uma das expressões mais tristes da cafajestice e da falta de gosto da humanidade. Na entrada do porto, voltada indiscretamente para as pessoas, fazendo aquele gesto cafajeste para todo o mundo. É o contrário da postura, da nobreza, da serenidade. A estátua da liberdade não tem distância psíquica. Enquanto isto aqui é o castelo da distância psíquica. Os senhores agora vão analisar o castelo e ver o seguinte: os senhores primeiro vão ter a sensação de um castelo bonito. A gente olha e diz: que bonito este castelo! Mas só prestando atenção é que a gente nota como esta beleza é obtida. Prestando atenção, os senhores vêem três zonas de leveza diferentes, no castelo. Primeiro, aqui bem embaixo, o que chamaríamos os [pés?] do chão do castelo, e que quase se teria a tentação de chamar o porão do castelo. É um andar menos alto do que o andar de cima. Os senhores comparam aqui os… [ilegível] …, as janelas, … [ilegível] …que as de cima. Os senhores têm a impressão de uma coisa forte, que toca no chão e que é uma base vigorosa, e o vigoroso da base é acentuado pela abundância de pedras e as pedras todas rajadas, que dão a impressão de várias pedras, umas postas sobre as outras, quase um muro e que dão uma impressão quase um pouco atarracada. É a idéia da solidez. Vem agora a idéia da dignidade. Os senhores tomam o andar de cima: são janelas altas, constituindo uma fachada muito longa. Mas enquanto aqui os senhores notam arcos sem colunas, aqui os senhores notam todas as janelas entre duas colunas. E a coluna dá um ar de leveza, a coluna é uma coisa esbelta, que acompanha o longo dos arcos e que faz com que esta parte daqui dê uma impressão de parte nobre. A gente tem a impressão de que esta é uma parte serva que carrega a parte aristocrática, que suporta a parte aristocrática. Esta é leve e fidalga, enquanto esta aqui é forte e serviçal. Depois, para a fachada não ficar muito lambida, os senhores notam que de vez em quando aparecem terraços; corpos do edifício que se destacam formando terraços, para quebrar a monotonia da fachada. Mas esses corpos de edifício tomam certo destaque em relação ao que fica atrás, tomam uma certa preeminência em relação ao que fica atrás. E todos têm terraços dando para fora,… [ilegível] …a idéia de gente que está [olhando?] pelo terraço e que estão [vendo?]… [ilegível] …. E é muito o cenário para aparecer, por exemplo, aqui, na sacada [central?], o rei, a família real; mais atrás, pessoas da nobreza, que fazem moldura para o rei; aqui mais outros nobres mais distintos e outros nobres mais elementares e mais simples. Que dizer, uma apresentação para todos, de uma hierarquia política e social, ornamental, decorativa, nobre, que olha para trás, pomposa, mostrando a sua beleza mas, ao mesmo tempo, afável, risonha, numa proporção humana com os que estão em baixo; sem esmagar os que estão embaixo pela sua altura, mas isolando-se pela coisa que fica por detrás, pela moldura que fica por detrás. Aqui os senhores têm a leveza. [Percebem?] aqui como é… [ilegível] …intenção de dar a idéia de que o castelo como que se pendia nas nuvens. Realmente, este último andar em cima existe, mas é tão pequenininho que a vida quase abstrai dele. À vista toda se concentra nisso e a vista quase abstrai desse pequeno andar, que só serve para suportar esses troféus guerreiros e essas estátuas e, por cima, tem o céu. De maneira que isso forma uma espécie de transição entre a ordem política e social e Deus, representando no mais alto dos céus. Quer dizer, isto esfumaça, o castelo não tem fim, ele se perde em figuras alegóricas, em formas, em coisas etéreas, e se funde e se perde com o horizonte celeste. Esta foi a intenção que houve ao fazer esse castelo.
Então, o que corresponde bem também aos erros da época, a atenção está toda chamada para o rei, está toda chamada para a parte política e social, o elemento forte e o elemento leve quase que são molduras para ver a realeza. E temos aqui a glorificação da realeza feita pelo castelo. Isto nos explicita o que o castelo tem de maravilhoso. Mas explicita de que maneira? Não é a gente olhando e não procurando explicitar, nem ficando numa primeira explicitação. Mas é a gente ver, umas duas vezes ou três, em espaço de tempo bem diversos, colocar-se diante disso, numa sala sossegada e procurar relembrar essas considerações. Aí é que elas vão se destacando e que a gente vai percebendo e aí e que a gente toma toda a realidade. Então, para terminar, este castelo é como um trago de… [ilegível] …fino, ou melhor, de licor fino. Uma pinga, uma caninha ordinária, o sujeito põe na boca e sente logo um gosto forte; o gosto assalta a boca. [Um?] licor fino, não. E quase depois de ter todo engolido que a gente sente o gosto do licor. Há uma espécie de reflexão do paladar que [daí?] … [ilegível] ….
Aqui também. É a segunda ou terceira análise que nos torna mais palpável o que eu acabo de dizer e que nos faz degustar completamente o que o castelo de Versailles diz para aqueles que o visitam.
Os senhores me dirão: Dr. Plinio, isso está muito bem; eu quero bem crer que eu analisando isso duas ou três vezes sinta o que o senhor está dizendo, mas isto não será uma coisa meio subjetiva? Não será uma coisa meio imaginativa? A beleza disso é mesmo uma beleza tão grande? Eu respondo da seguinte maneira: esse castelo aí está, como uma concha vazia. Tudo quanto nele era vida foi morto, foi exterminado, foi levado embora. Até hoje os turistas do mundo inteiro vem vê-lo. Quando há dias de visita, desde o Afeganistão até o Canadá, e desde a Suécia até a África do Sul – e sempre um bom número de brasileiros não prestando atenção no que diz o guia e conversando entre si – os senhores encontram visitando o castelo – o que é isto? É uma fama de beleza que se mantém pelo consenso de todo mundo que o visita. Agora, é preciso saber explicitar de onde é. Os Estados Unidos convidam as pessoas para verem todas as pseudo maravilhas deles: prédios enormes, estradas enormes, [bestas/] enormes, têm tudo. Ninguém vai ver. Todo mundo vem ver isso. Por quê? Porque isso desafia até a mediocridade do homem contemporâneo. Vejam, agora, que bonito ter havido todas essas idéias na cabeça de todos os que compuseram esse castelo, um século depois. Uma pessoa, olhando para o castelo, recompôs as idéias que eles tiveram, e por assim dizer, dar vida a essas idéias, tal é a densidade de pensamento que uma obra de arte pode conter. Eu pergunto: isso não é bem diferente da mentalidade do brasileiro olhando para o ipê ou para o litoral? Eu penso bem que sim. Aí está o nosso esforço de europeização. E a… [ilegível] …reaquisição do gosto do maravilhoso. E isto é o que me parece que devemos fazer intensamente no grupo; como reação à americanização e, coisa mil vezes pior do que isso, à “russificação”. Esse seria o santo do dia, ou melhor, o santo do dia para a noite de hoje. Que Nossa Senhora os ajude e vamos rezar.
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