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Santo do Dia — 27/3/67 — 2ª feira

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São João Capistrano, um santo que durante os seus sermões detinha a chuva e impunha silêncio aos pássaros que perturbavam sua pregação * A austeridade franciscana do santo contundia uma época em que o clero tendia cada vez mais a viver na opulência sensual da nobreza decadente * Seus sermões acompanhados por milagres portentosos indicavam como Deus ainda não tinha Se distanciado da humanidade * O repouso e a oração do santo depois de um fatigado labor cotidiano * A santidade dá ao homem a capacidade de multiplicar-se por si mesmo e exceder os limites das possiblidades de um homem comum

Hoje é festa de São João Damasceno, confessor e Doutor da Igreja. Para lutar contra os idólatras foi dotado de uma doutrina celeste e admirável força de alma, diz a oração da Missa dele. É do século VIII.

Estamos na novena da Anunciação de Nossa Senhora.

Amanhã vai ser festa de São João de Capistrano, Confessor. Pregou a Cruzada contra os maometanos que haviam conquistado Constantinopla. Com 70 mil cristãos mal armados, derrotou 120 mil infiéis. Século XVI. Continua a novena da Anunciação de Nossa Senhora.

Nós vamos comentar dados biográficos de São João de Capistrano, tirados de Daras, “La vie des Saints”.

São João de Capistrano, enquanto considerado pregador, missionário e taumaturgo.

São João de Capistrano, século XV, inquisidor…

Notem bem, um santo inquisidor.

missionário, pregador de uma cruzada contra os turcos, vencedor da batalha de Belgrado contra Maomé II.

Diz o Daras:

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* São João Capistrano, um santo que durante os seus sermões detinha a chuva e impunha silêncio aos pássaros que perturbavam sua pregação

Uma crônica do tempo assim retrata a vida de missionário de São João. Podia ser comparado, pelo fervor de suas prédicas, a um leão que rugisse, ou a uma trombeta celeste; e seus exemplos confirmavam suas palavras. Viajava sempre a pé, carregando aos ombros os livros que utilizava. Após longos e veementes discursos, exausto de fadiga, acreditava nada ter feito. Tomava logo seu alforje e ia mendigar seu pão de porta em porta. Suas mortificações eram extremas: só se alimentava uma vez ao dia. Em compensação, Deus fazia acompanhar a palavra de seu servo por milagres extraordinários. Ele não se bastava para satisfazer todas as populações que reclamavam seu ministério.

Onde chegava, auditórios imensos de até 150 mil pessoas, se reuniam para ouvi-lo.

Os frutos de seu apostolado foram incalculáveis: restabelecia a paz em cidades divididas e convertia pecadores julgados inconquistáveis.

Um dia, em uma cidade da Apulia, o povo obstinava-se contra os convites do santo. Repentinamente o território da cidade foi invadido por uma multidão incrível de ratos, que devoravam os arbustos e as ervas.

Em outra ocasião, pregava na praça pública de [Afila?]: 60 mil pessoas estavam suspensas às suas palavras e nessa multidão havia numerosos endemoniados. Em sua fervorosa improvisação, o homem de Deus, dirigindo-se a eles gritou: “Em nome de Jesus, respondei-me e repeti comigo três vezes: O Nome todo poderoso, ó Nome terrível, ó Nome todo divino!” Os pobres possessos repetiam isso. Mas o mais admirável é que todos os demônios espalhados na região, ao redor de 8 milhas, o repetiram juntamente, como se tivessem ouvido a abjuração do santo.

Quando pregava contra a vaidade das mulheres, fazia-o com tanta energia que, após o sermão, elas lhe levavam suas jóias e adornos, lançando-os publicamente na fogueira.

Detinha João a chuva nos céus durante os seus sermões e impunha silêncio aos pássaros que perturbavam sua pregação. Assim um historiador descreve um dia desse santo, quando pregava em Nuremberg: Ele dormia vestido, levantava-se antes da aurora para recitar seu Ofício e fazer sua preparação para a Santa Missa. Após a Missa, dirigia ao povo um sermão em latim, que um intérprete traduzia no idioma do lugar. Voltava ao convento, dizia Sexta e Nona e consagrava boa parte da tarde em visitar os doentes. Depois concedia audiência àqueles que tinham necessidade de lhe falar. Recitava Vésperas e voltava para os doentes até à noite. Após Completas e a oração da noite, concedia algum repouso a seu corpo, embora roubasse ao sono vários momentos para rever a Sagrada Escritura. Tal era a eficácia de sua palavra, que ele fazia chorar e converter mesmo aqueles que não compreendiam sua língua.

* A austeridade franciscana do santo contundia uma época em que o clero tendia cada vez mais a viver na opulência sensual da nobreza decadente

A figura que nos aparece nessa ficha biográfica é simplesmente admirável. É a figura por excelência do asceta franciscano, visto em um dos aspectos do franciscanismo. De fato, na espiritualidade implantada por São Francisco na Igreja, nós temos dois aspectos muito distintos: de um lado o aspecto doçura, que nos é apresentado em grande parte pelo próprio São Francisco de Assis; de outro lado, o aspecto severidade. E se tornou famosa na história da Igreja sobretudo a severidade dos capuchinhos da grande época. Homens austeros que praticavam a pobreza levada até seus extremos limites e que combatiam a infidelidade, a imoralidade, as heresias dos grandes e poderosos de um modo verdadeiramente admirável. Era isso uma reação contra os erros específicos do tempo.

Nós estamos no século XVI, estamos perto do século XV: era a época em que os efeitos do Concílio de Trento não se tinham feito sentir e que um amor exagerado ao luxo tinha invadido os ambientes eclesiásticos, coisa que foi exatamente aproveitada como pretexto pelos pseudo-reformadores do protestantismo. Os sacerdotes daquele tempo estavam longe de se parecer, na exterioridade, com os sacerdotes progressistas de hoje. Em vez de eles quererem se misturar com o povo, eles queriam se misturar com o que era antigamente a classe dominante, que era a nobreza. E todos eles, tanto quanto podiam, aspiravam levar uma vida de luxo, uma vida de pompa imitando os grandes senhores feudais.

Por outro lado, entravam muitos para as Ordens religiosas, sem vocação e com isso degradavam o estado sacerdotal, o estado religioso. Porque eles levavam uma vida que era a caricatura da vida que eles deviam levar. Também os nobres daquele tempo levavam uma vida de delícia, levavam uma vida de opulência, uma vida de gozo sensual, oposto à austeridade evangélica. E então, na sociedade daquele tempo, aparece uma reação contra a forma que a Revolução tomava naquele tempo e que era essa [inaudível] clerical, palaciana, da sensualidade, da imoralidade e da moleza. Contra essa forma da revolução, o capuchinho, o franciscano aparecem como o contra-revolucionário por excelência. Então, em contraste com essas figuras, os senhores devem ver a figura desse santo.

Nessa cidade, como nas cidades ricas da Itália — grandes e pequenas em que ele pregava, como Nuremberg e outras cidades da Alemanha onde ele esteve —, ele aparece como a personificação da austeridade. [inaudível] andar pelas estradas que eram percorridas por carruagens magníficas, douradas, com lanceiros, cavaleiros, etc., ou então, por homens a cavalo, ricamente ajaezados; por burgueses que andavam em cômodas liteiras. Vê-se passar por essa estrada num passo veloz e decidido, no seu burel, a figura austera de um franciscano todo ele sobrenatural, todo ele recolhido em oração, varonil, forte, saudável, carregando às costas um saco cheio de livros que eram os livros de sua oração, e vivendo de pedir esmolas. Era um contraste com toda aquela moleza, com toda aquela efervescência de sensualidade e de orgulho que já estava produzindo seus frutos e que os ia produzir mais adiante.

* Seus sermões acompanhado por milagres portentosos indicavam como Deus ainda não tinha Se distanciado da humanidade

Por outro lado, esses franciscanos faziam sermões tremendos. Quando eles ocupavam o púlpito, eles diziam as verdades a todo mundo. E o povo daquele tempo — aliás, esse [povo], não em toda a medida de outrora, mas em boa medida seria o povo de nosso tempo também —, o povo daquele tempo, quando se lhes dizia as verdades assumia em quantidade [inaudível]… E eles increpavam também a massa do povo, a moleza de vida, a sensualidade, o orgulho, a luxúria em que estavam se afundando.

Então, a gente vê São João de Capistrano falando a auditórios de até 150 mil pessoas. Como é que a voz dele chegava a essa gente? Não havia alto-falante, não havia os meios modernos de transmissão da voz. Colocavam-no numa praça pública bem grande — e às vezes no campo —, junto ao púlpito uma bandeira, e a bandeira indicava naturalmente a direção do vento. E as massas se deslocavam de acordo com a direção do vento para apanhar a palavra do missionário. Os senhores podem imaginar o que era a vontade de ouvir e a vontade de ouvir descompostura — porque era descompostura grossa que vinha — que aquele povo manifestava. Bem, então, era dito tudo.

Os senhores estão vendo como ele falava contra o luxo das mulheres, como ele falava contra os vícios do povo, etc. Era dito tudo e o povo ia em grande quantidade para ouvir. Naturalmente isso causava impressão. Mas entre causar impressão e causar conversão a distância é grande. E São João de Capistrano muitas vezes não conseguia o resultado visado.

Mas nós estávamos ainda numa época em que Deus não tinha tomado em relação à humanidade a tremenda distância que depois tomou e por causa disso os milagres se multiplicavam quando ele falava. E os senhores vêem então ratos que devoram as plantas, a terra que treme, endemoniados que — em lugares onde não se podia saber que ele estava mandando nos demônios — falavam aquilo que ele exigia. Os senhores vêem esse homem, portanto, alcançar enormes resultados no púlpito. Resultados que fariam estremecer de júbilo os megas e vaidosos.

* O repouso e a oração do santo depois de um fatigado labor cotidiano

Terminado isso, o que é que esse homem fazia?

Retirava-se calmamente para sua cela. Dormia vestido, em algum cantinho de sacristia ou de convento franciscano. Ele que acabava não só de abalar cidades, mas de arrancar milagres da própria misericórdia de Deus, dormia no seu cantinho e depois começava o que os senhores acabam de ver: longas orações ainda pela madrugada, enquanto a cidade está imersa no sono.

Os senhores podem imaginar a edificação de algum dos senhores, voltando para casa [às] três, quatro horas da manhã e passando perto de um convento, vendo uma luzinha acesa. E os senhores comentassem entre si: “É Frei João de Capistrano, um santo, que já está acordado. Um dos primeiros na cidade a acordar, quando a cidade dorme. A esta hora o santo varão reza, ele lê o seu livro de Horas, ele se prepara para a Missa.” É um calor que enchia a alma da gente, isso de imaginar a oração de São João de Capistrano.

Creio que não há nada de parecido hoje. Se houver alguém que já viu isso, pode levantar o braço. Mas eu passo imediatamente para a frente, porque não creio que tenha acontecido.

Depois disso os senhores estão vendo o que é: ele vai visitar os doentes — mas de preferência os doentes pobres, é claro, de preferência aos doentes ricos visitadíssimos naquele tempo em que a Igreja miserabilista não tinha nascido —, ele vai depois atender às pessoas; depois ele vai novamente aos doentes. Come uma vez só. No final de contas vai se deitar exausto. Mas no momento em que ele se deita, ele revê um pouco a Sagrada Escritura.

Esse mesmo homem era um homem que falava a reis e imperadores, dizendo-lhes verdades. E é o homem que chefiou a Cruzada contra os maometanos e obteve vitórias magníficas em favor da causa católica.

* A santidade dá ao homem a capacidade de multiplicar-se por si mesmo e exceder os limites das possiblidades de um homem comum

Os senhores estão vendo, portanto, que figura completa de homem, que figura de santo admirável e como é verdade que Deus é admirável nos seus santos.

Aqui nós vemos bem o que é a santidade. A santidade é, em princípio, uma graça excelente que toca a alma no que ela tem de mais profundo, e que quando correspondida arranca do homem as coisas mais magníficas que pode haver; e aquilo que a sua natureza não tem para dar, a graça vem e lhe dá com um super-acréscimo, de maneira tal que o homem se multiplica por si mesmo e fica muito mais do que um homem comum: ele fica um Anjo. Ele fica muito mais do que um Anjo: ele fica uma própria figura de Deus.

Isso lembra a Nosso Senhor Jesus Cristo. É a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo vivida noutras circunstâncias dizendo as verdades, sacrificando-se, fazendo penitência, orando continuamente, visitando os pobres e produzindo milagres. É christianus alter Christus, vivido aqui de modo verdadeiramente admirável.

Os senhores têm aí, portanto, a figura de um grande contra-revolucionário em função dos aspectos daquele tempo da Revolução. E um santo cuja biografia nos enche a alma, numa época em que nossas almas andam tão [inaudível].

Que São João de Capistrano reze por nós.

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