Santo
do Dia – 22/3/67 .
Santo do Dia — 22/3/67 — 4ª feira
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No desfiguramento praticado em Nosso Senhor pela flagelação, a contradição levada ao paroxismo * Não foi em vão que Nosso Senhor sofreu toda a Paixão: em cada chaga de seu Corpo estava um remédio para minha alma * Um excelente modo de obter graças de Deus é pedi-las pelos méritos das Santas Chagas de Nosso Senhor * Nossa Senhora é dona das chagas de Nosso Senhor, e é por meio d’Ela que devemos pedir que os méritos dessas chagas se apliquem a nós * Como Nosso Senhor na Paixão, também a Santa Igreja está desfigurada * Talvez chegue um dia na “Bagarre” em que as palavras desse cântico se apliquem a nós. “Mas, aí, que alegria!”
* No desfiguramento praticado em Nosso Senhor pela flagelação, a contradição levada ao paroxismo
Nós vamos então, agora, passar ao texto que vai ser cantado hoje à noite.
“Eis que O vimos”.
Está com “O” maiúsculo, e é o grande Ele, o infinito Ele que é Nosso Senhor Jesus Cristo.
“Eis que O vimos disforme e sem formosura, ele está irreconhecível. Carregou nossos pecados e sofreu por nós. Está ferido por causa de nossas iniqüidades. Somos curados em virtude de suas [pecaduras?]. Na verdade, Ele carregou nossas fraquezas e suportou nossas dores”.
Esse trecho é… [inaudível] …a mais não poder, exatamente porque ele avulta a contradição até o paroxismo, tudo é contradição, tudo é uma increpação, uma apóstrofe ao ilogismo de determinada situação.
“Eis que O vimos disforme e sem formosura”. Os senhores podem imaginar a formosura infinita de Nosso Senhor Jesus Cristo, os senhores podem imaginar toda a beleza do Corpo que ele teve e depois a beleza da face sagrada. Com toda certeza, os princípios todos da estética do universo estavam condensados na face sagrada d’Ele.
Mas quem fala da face, fala pouco, deve pensar no olhar. O olhar divino d’Ele, espelho da Alma, certamente mais formosa ainda do que o Corpo. Só os olhos dariam para encantar os Anjos por toda a eternidade.
Mas quem pensa em Nosso Senhor assim, pensa nEle parado. Deveria pensar nEle andando, a graça dos movimentos d’Ele, a nobreza do andar, a distinção do porte, a sobriedade das maneiras, a bondade, irradiando ao mesmo tempo uma [forma?] extraordinária. Nosso Senhor falando… ou andando, ou movendo-se ainda era pouco em comparação com Nosso Senhor falando.
O timbre da voz d’Ele: quem pode imaginar os vários timbres da voz d’Ele? Quem pode imaginar as inflexões? Quem pode imaginar a capacidade de expressão, de sedução única dessa voz? É com certeza a coisa mais bonita que se tem ouvido em matéria de som, desde o começo do mundo até o fim.
Pois bem, a Este que era a formosura e que reunia em Si toda a beleza do universo, Este nós então O vimos passar. E O vimos passar carregando a Cruz, O vimos passar na Via Sacra, na via dos tormentos, nós O vimos passar disforme e sem formosura.
Toda aquela beleza tinha passado, não tinha mais forma, e essa formosura tinha desaparecido. E tinha desaparecido por causa dos maus tratos, por causa do fato de que, à força de ser flagelado de todos os modos, à força de ter deitado sangue por todos os lados, tudo nEle tinha deixado de ser belo, e Ele não era senão uma imensa chaga sanguinolenta que ia passando, carregando a Cruz.
Agora, quem vê o que se passa, [inaudível] …o mais formoso dos homens, formoso de uma formosura divina que é ainda mais uma formosura da Alma do que uma formosura do Corpo, esse mais formoso dos homens transformado num ser hediondo por essa forma. Um dos profetas disse d’Ele: “Eu não sou um homem, eu sou um verme, eu sou o escândalo dos homens e objeto de escárnio de todos os povos” — de tal maneira Ele estava desfigurado.
Então, à vista desse fato imenso, desse fato monstruoso, vem o comentário, e esse comentário vem cantado com uma ternura sem nome, pela música do coro.
O comentário é o seguinte:
“Ele está irreconhecível…
Nada mais lembra a Jesus, Filho de Maria. Ele todo é sangue, Ele é chaga, não se reconhece mais. “Ele está irreconhecível”.
Agora, porque:
“Carregou nossos pecados e sofreu por nós.”
Quer dizer, Ele não carregou os pecados d’Ele, Ele não sofreu por Ele, porque Ele é a própria virtude, Ele não tinha pecado a expiar. E essa grande vítima, carregada de todos os castigos, essa grande vítima era a inocência por excelência. É Aquele que nunca pecou, Aquele que é a personificação da virtude, Aquele que nunca teria que ter expiado, esse expiou, e expiou nessa proporção desmesurada, com essa grandeza enorme Ele expiou. Por quê? Por causa da grandeza de nossos pecados. Nós pecamos tanto e pecamos de tal maneira, que o Filho de Deus quis apresentar essa imensa, mas essa imensa reparação: transformar-se nessa chaga trágica e hedionda, que acumulou ainda mais outros sofrimentos até o momento de chegar no Calvário e pronunciar o Consumatum est.
Agora então aqui está a primeira coisa aparentemente ilógica, um paradoxo, mas um paradoxo…
“Ele, puro, carregou o castigo o castigo dos nossos pecados”.
Esse paradoxo, que é contra todas as leis aparentes da justiça é claro que há um sentido profundo em que tudo isso se explica, esse paradoxo… [inaudível] …eu O vejo passar na Semana Santa, eu O vejo passar hediondo daquela forma, eu devo me lembrar que foi meu pecado o causador daquilo, que foram minhas fraquezas, que foi a minha maldade que Ele carregou vinte séculos antes de eu nascer. Ele sabia o que era meu, Ele pensou em mim, Ele conheceu a minha iniqüidade, Ele conheceu os lados fracos e os podres do meu caráter, e Ele quis carregar isso para abrir o Céu para mim.
Quer dizer, é uma coisa de me tangir de gratidão, é uma coisa de me varar de lado a lado de compunção e de tristeza pensar Quem carregou os pecados de quem: o mais puro, o mais Santo, o Sacrossanto carregou esses pecados.
Quer dizer, é uma coisa que não haveria compunção suficiente, não haveria adoração nem ação de graças nem reparação suficiente para agradecer isso.
E então vem o comentário:
* Não foi em vão que Nosso Senhor sofreu toda a Paixão: em cada chaga de seu Corpo estava um remédio para minha alma
Ele não carregou em vão. Esse sacrifício não foi em vão. Qual foi o resultado? [inaudível] … Nós fomos curados em virtude da sua… [inaudível]
Em cada ponto do Corpo d’Ele que Ele está chagado, aquela chaga curou minha alma, aquela chaga sarou minha alma, e se minha alma tem qualquer coisa de bom, é por causa daquelas chagas sacrossantas que eu estou vendo passar diante de mim. Em mim não havia nada de bom, porque eu fui concebido no pecado original. A minha natureza era propensa ao mal, e o que estava aberto para mim era o Inferno.
Além do mais acontece que eu cometi o outros pecados. E apesar desses pecados que eu cometi, Ele resolveu curar a minha alma. Daí o Batismo, daí qualquer coisa de bom que em mim possa haver, por aquelas chagas sacrossantas foi conseguido.
Então, continua:
Na verdade, Ele carregou nossas fraquezas e suportou as nossas dores.
* Um excelente modo de obter graças de Deus é pedi-las pelos méritos das Santas Chagas de Nosso Senhor
O peso daquela Cruz é o peso das minhas fraquezas. Ele as carregou. As dores que Ele está sofrendo e que eu deveria sofrer, Ele sofreu por mim.
Então, vem aí para mim uma sensação de gratidão enorme, de reconhecimento enorme, de reconhecimento a Nossa Senhora porque Ela consentiu em que fosse assim, e de uma confiança colossal, uma confiança enorme porque quem foi comprado por um preço tão imenso, por pouco que confie no valor desse preço, por pouco que peça que aquele Sangue se derrame sobre nós para nos regenerar, pode esperar a sua salvação, pode esperar o movimento interno que o reconduza ao caminho da virtude e que o leve novamente ao Céu.
Há, por causa disso, uma oração, duas jaculatórias muito bonitas e que exprimem as verdades que estão aqui:
“Perdão e misericórdia meu Jesus, pelos méritos de vossas santas chagas”.
Quer dizer, eu não mereço perdão, eu não mereço misericórdia, mas vossas chagas têm um mérito infinito e elas me foram dadas de presente. São meu tesouro infinitamente grande. Eu vos peço, pelos méritos de vossas santas chagas, perdão e misericórdia para mim.
É uma coisa que não pode deixar de falar a Nosso Senhor pela invocação das chagas com que Ele curou as nossas almas, a invocação dessas chagas para corrigir os nossos defeitos e dar amor a Ele, aumentar o amor que temos a Ele.
E outra jaculatória muito substanciosa e muito bonita despertada pela consideração das chagas d’Ele é:
“Padre Eterno, eu vos ofereço as santas chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo para curar as nossas almas.”
Quer dizer, eu, diante do Padre Eterno, posso ter defeitos, posso ter pecados, mas eu ofereço a Ele as santas chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo para obter a cura de nossas almas.
São duas esplêndidas jaculatórias ricas de sentido teológico.
* Nossa Senhora é dona das chagas de Nosso Senhor, e é por meio d’Ela que devemos pedir que os méritos dessas chagas se apliquem a nós
Mas não é próprio a nós, por mais comovedora que seja a consideração de algum fato da Paixão de Nosso Senhor, não é próprio a nós fazer essa consideração deixando de lado Nossa Senhora.
Nós devemos nos lembrar que toda a graça dessas chagas passa por Nossa Senhora. A Nossa Senhora é que essas chagas foram dadas, Ela é que é a dona dessas chagas.
Aquela escultura — aliás não muito piedosa de Michelangelo — a Pietá, representando Nosso Senhor morto no colo de Nossa Senhora, nos dá bem a idéia disso. Ela é dona daquele cadáver, e é dona de todos os méritos infinitos que aquele cadáver… [inaudível] …Ela é a dispensadora de todas as graças da Redenção. Tudo passa por meio d’Ela, e por mais extraordinário que seja o mérito dessas chagas, se não for por meio d’Ela nós não obtemos nada. Mas nós devemos, portanto, pedir por meio d’Ela.
Agora, que invocação? Nessa Semana Santa a invocação boa é de Nossa Senhora das Dores. Exatamente a Nossa Senhora que tem uma chaga no Coração, a Nossa Senhora que tem uma chaga na Alma. E essa chaga é santa, mas é uma chaga imensa.
Nunca a alma de uma mãe, uma criatura carregou chaga tal. É uma chaga feita de todas as chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo. É a tristeza d’Ela pelas chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Então, o Coração Imaculado de Maria transpassado por uma espada, na invocação a Nossa Senhora das Dores o Coração é transpassado por sete espadas — então, as várias dores d’Ela. Coração dolorido de Maria é a porta por onde nós chegamos às chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Então, rezar a Nossa Senhora das Dores e rezar do fundo de nossa alma para conseguir a aplicação do mérito dessas chagas a nós que é uma coisa, evidentemente… [inaudível].
* Como Nosso Senhor na Paixão, também a Santa Igreja está desfigurada
Eu não quereria não dizer nessa noite uma só palavra que não fizesse referência também ao martírio da Santa Igreja Católica.
Quando nós vemos a Igreja no estado em que Ela está hoje, quando nós a vemos com as alterações, com as falsificações, com as imposturas de toda ordem que levam a desfigurar a sua santa face aos olhos dos homens, eu tenho a sensação de que a Igreja é como Nosso Senhor Jesus Cristo, que Ela é exatamente o que está aqui.
Quer dizer, nós A vimos, a Igreja tão formosa, a mais formosa de todas as instituições, nós A vimos a Ela disforme e sem formosura.
A Santa Igreja está disforme e sem formosura. Ela perdeu aquela beleza que Ela tinha, por exemplo, no tempo de São Pio X, Ela perdeu em tudo quanto Ela podia perder, não em toda linha, mas em tudo quanto Ela podia perder.
E nós podemos acrescentar que Ela está irreconhecível. Quem entra em certas igrejas e vê, por exemplo, um pastor protestante oficiando junto com um padre católico, e vê a imoralidade dos trajes, a impureza da doutrina, a extravagância das inovações litúrgicas arbitrárias, pode dizer: A nossa Igreja está irreconhecível. E pode acrescentar: Ela carregou os nossos pecados e sofreu por nós.
* Talvez chegue um dia na “Bagarre” em que as palavras desse cântico se apliquem a nós. “Mas, aí, que alegria!”
Sim, há um martírio da Santa Igreja, que é sobretudo o martírio das almas boas que sofrem com a Igreja e que carregam a cruz da Igreja. E essas sofrem pelos homens todos. E essa é a nossa missão. Se nós carregarmos a cruz da Igreja, se nós sofrermos com a Igreja nessa ocasião, fizermos inteiramente nosso esse sofrimento, então, nesse caso, estamos com Nosso Senhor Jesus Cristo, sofrendo pela Igreja inteira.
Meus caros, talvez venha dia na Bagarre em que nós sejamos tão perseguidos, e nós sejamos tão minoritários, e nós sejamos tão ignorados, que do Grupo também se possa dizer a mesma coisa.
Esse Grupo tão cheio de pujança, tão cheio de alegria, tão cheio da graça e da louçania, esse Grupo, em determinado momento, pode estar em condições trágicas de martírio, pode estar perseguido, pode estar esmagado, se bem que nunca derrotado, e ele pode, assim, passar irreconhecível e sangrento aos olhos dos homens. O futuro, quem conhece?
Mas se a humanidade toda tem que sofrer tanto, o que não devemos sofrer nós?
Os senhores dirão: “Mas nós somos os bons”.
Admitamos que somos os bons, admitamos. Os bons não têm que sofrer mais do que os maus, e pelos maus?
Então, haverá dias em que nós vamos ter que considerar isso assim: Eu conheci o Grupo, em São Paulo, quando era como uma lâmpada colocada no alto de um monte e para o qual confluíam jovens de todo o continente americano. Eu conheci isso. Eu estou vendo o Grupo provado, eu estou vendo o Grupo sanguinolento, sangrento, eu estou vendo o Grupo pisado.
Mas aí, que alegria! Porque aí será pelos pecados dos homens e será para nos parecermos com Nosso Senhor Jesus Cristo.
E nesse momento, se nós tivermos alguma dúvida a respeito do fato de que a Providência nos ajude, nós lembraremos disso: Com que ternura Nossa Senhora olhava para o seu Filho perseguido? Com que ternura Ela olhará para o seus filhos perseguidos, que seremos nós, se algum dia sobre nós vier o momento da provação, da tragédia, da perseguição?
Que Nossa Senhora nos dê força de alma para isso. Que Ela nos dê força das pequenas almas, que conseguem coisas enormes com as graças vindas de momento, que não fazem disso uma ocasião de angústia, mas que prepara seu espírito por meio da oração e da confiança para estarem fiéis ao que Nossa Senhora pode querer delas. É aí que devemos pedir, ou melhor, é isso que devemos pedir nessa noite de hoje.
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