Santo
do Dia (Auditório da Santa Sabedoria – Rua Pará)
– 18/3/1967 – sábado – p.
Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria – Rua Pará) — 18/3/1967 — sábado
Nome
anterior do arquivo:
Leitura de uma ficha de Hello sobre a Sagrada Família * Os homens têm uma imensa facilidade em aceitar o que é medíocre, mas rejeitam o que é sublime * A altíssima virtude, a distinção e a pobreza da Sagrada Família fizeram com que lhe fosse recusada hospedagem * Na negação de pousada à Sagrada Família estava a primeira recusa do povo eleito a seu Salvador * São José, o Bem-Aventurado por excelência * São José foi o único homem criado que tinha proporção com Nossa Senhora e seu Divino Filho * Algumas imagens que representam a São José são uma espécie de “calúnia iconográfica”
Neste ano foi antecipada, pela Santa Igreja, a festa de São José, esposo de Nossa Senhora, Confessor e Patrono da Santa Igreja Católica. Protetor também da Ordem do Carmo, à qual nós pertencemos. É também festa de São Cirilo de Jerusalém, bispo, Confessor e Doutor da Igreja que lutou contra os arianos no século IV. O nosso comentário, naturalmente, vai versar sobre São José.
* Leitura de uma ficha de Hello sobre a Sagrada Família
No livro de Hello, A fisionomia dos Santos, nós encontramos as seguintes notas sobre aquela frase do Evangelho:
Não havia lugar para eles na hospedaria.
Então, diz:
São José, que tem tanto a dizer, São José não fala. Guarda no fundo de si as grandezas que contempla; e as montanhas se elevam no fundo... [inaudível].sobre as montanhas e as montanhas fazem silêncio.
Os homens são arrastados pelo... [inaudível] ...São José fica em paz, senhor de sua alma e de posse de seu silêncio, por entre os abalos da viagem ao Egito, daquela fuga... [inaudível].
...torna àquele lugar terrível de onde saíram seus ancestrais, sob a proteção do Eterno. Faz o caminho que fez Moisés e fê-lo em sentido inverso. Enquanto vai ao Egito e enquanto está no Egito, recorda-se de ter procurado um lugar na hospedaria e não ter achado. “Não havia lugar na hospedaria”... A história do mundo está nessas três palavras. E essa história tão sucinta, tão substancial, essa história não é lida, porque ler é compreender e a eternidade não será demasiado longa para tomar e dar a medida do que está escrito nessas palavras: “Não havia lugar na hospedaria”.
Havia-o para os outros viajantes, não havia para esses. A coisa que é dada a todos é recusada a Maria e José. E dentro de alguns minutos Jesus ia nascer. O Esperado das nações bate à porta do mundo e não havia lugar para Ele na hospedaria. O… [inaudível] …romano, aquela hospedaria… [inaudível] …dava lugar a trinta mil demônios, tomando nomes que julgavam divinos. Realmente, de acordo… [inaudível] …cada um dos vícios dos antigos, ou melhor, dos ídolos dos antigos consistia num demônio. Mas Roma não idealizara Jesus Cristo no seu Panteon. Dir-se-ia que ela adivinhava que Jesus Cristo não queria saber desse lugar e dessa participação… [inaudível].
… aquele que é portador de um valor humano custa mais a se colocar; o que traz uma coisa assombrosa e digna de Deus mais ainda custa; o que traz a Deus não acha lugar. Essa palavra tem [força?]: “Porque não havia lugar para eles na hospedaria”. Ela é tanto mais terrível quanto mais simples. Não há… [inaudível] …da censura, da resignação. É o som da narrativa.
As reflexões são suprimidas, o Evangelho não no-las deixa fazer. Esse termo que indica multiplicidade, os viajantes comuns, os homens que fazem número tinham achado lugar na hospedaria, mas aquele que Maria trazia em si, ia nascer num estábulo porque era Ele que devia dizer um dia: “Uma só coisa é necessária… [inaudível]
… pergunta o que pensaram as mães dos inocentes que foram degolados pouco tempo depois. Se não fizeram reflexões sobre o homem, a mulher e o menino que não tiveram mais que um presépio para nascer. Não lhe devia a terra também dar um lugar sobre ela para morrer. Deviam, ao cabo de alguns anos, dar com Ele em cima de uma Cruz. O planeta, como hospedaria, foi… [inaudível] …e São José também sabia.
* Os homens têm uma imensa facilidade em aceitar o que é medíocre, mas rejeitam o que é sublime
Os comentários de Hello são múltiplos e muito bonitos. Dele nós destacamos uma coisa que é, a meu ver, a mais característica, [e] que é exatamente o pensamento que ele deu da dificuldade de encaixar, de encontrar lugar para aquilo que é grande. E o pensamento dele, muito verdadeiro, de que o que é medíocre em qualquer lugar se coloca, mas que os homens têm uma particular dificuldade em receber aquilo que é grande, e têm uma dificuldade que toca às raias da impossibilidade por causa da mesquinharia deles e por culpa deles, de receber aquilo que é imenso, e a fortiori, aquilo que é divino.
A gente pensa que o gosto dos homens é tratar com aquilo que é importante, de tratar com aquilo que é alto, com aquilo que é sublime. É um gosto que os homens têm, mas é um gosto superficial e apenas por interesse. Na medida em que eles podem conseguir alguma vantagem é que eles gostam de tratar com os grandes. E assim mesmo não é a maior parte dos homens, são alguns homens. O grande apego dos homens não é a grandeza, o grande apego dos homens — vou dizer mais — nem sequer é a grande riqueza. Os homens têm apego à mediocridade. A maior parte dos homens tem apego… [inaudível] …continuarem na mediocridade do que são, e não saírem daquilo que são. E gostarem de sua mediocridade, desde que seja a mediocridade um misto heterogêneo de bem e de mal, e ter mais o gosto pelo mal do que o gosto pelo bem; e ter maior gosto pelo pequeno do que o gosto pelo grande.
Os senhores imaginem uma cidadezinha qualquer no interior do Brasil ou do interior da Argentina, ou do interior da Espanha. Num domingo, estão todos ali reunidos, é dia de alegria popular, de diversões, etc., etc. Os senhores imaginem que de repente chega no meio dessa diversão popular um personagem… [inaudível] …muito elevado, com expressão de fisionomia muito nobre, que em torno de si infunde respeito e até veneração. Imaginem que esse homem passa pela cidade. A… [inaudível] …não é de simpatia, é de antipatia. Ele está perturbando a brincadeira, ele está estragando a alegria de todos. Ninguém tem vontade de se dirigir a ele, ninguém tem vontade de conversar com ele, porque ele vai quebrar a mediocridade daquele lugar; ele vai quebrar a insignificância que todos adoram, ele vai exigir de todo mundo uma atitude de respeito, de esforço, de concentração, de recolhimento sobre si mesmo. E o homem detesta isso. O homem gosta, sobretudo, de estar esmolambado, à vontade e não se preocupando com nada. Essa é a posição do homem.
* A altíssima virtude, a distinção e a pobreza da Sagrada Família fizeram com que lhe fosse recusada hospedagem
Então nós compreendemos melhor por que não havia vontade de dar lugar a Nossa Senhora e a Nosso Senhor.
Não havia lugar porque Nossa Senhora — a [Sor] Maria de Ágreda insiste muito nisso — conservava, ao lado de um aspecto de bondade excelsa, um ar de grande majestade. E se bem que as imagens comuns não narrem isso, naturalmente também Nossa Senhora e São José, que era o esposo de Nossa Senhora, deveria conservar um ar do mesmo gênero. De maneira tal que eles deviam ser um casal sumamente distinto, mas um casal pobre. E aqui é o auge da recusa. Porque aceitar a distinção com riqueza, ainda vai, a riqueza faz perdoar a distinção, e o interesse de conseguir dinheiro incute uma vontade de bajular que faz às vezes de respeito. Mas quando é uma grande distinção, uma virtude saliente que deixa todas as outras virtudes longe num recolhimento preponderante; uma atitude muito elevada; bate [à] porta: “Há lugar para nós aqui?” [Quem atende] olha e diz: “Esse aqui vai tirar completamente nossa… [inaudível]. Nós não vamos ficar à vontade com esses pobres aqui. Depois, pobres… Não, não há lugar.”
Daí a cinco minutos há lugar para um primo baixa-de-nível, para um amigo ultra baixa-de-nível, há lugar para um ricaço vulgar que não tem senão dinheiro e que pede para entrar lá e entra porque paga. Mas para uma coisa não há lugar dentro desse mundo medíocre, dessa atmosfera de nível baixo, é para a aliança dessas três coisas quintessenciadas: a virtude altíssima, sapiencial, de grande… [inaudível] …e a distinção enorme e a pobreza. Essas tês grandes coisas unidas tornam recusável o casal. E então batem de porta em porta e não havia lugar para eles.
Não havia lugar… [inaudível] …mas se eles soubessem que Nossa Senhora estava para receber o Menino Jesus, então certamente havia lugar para eles? E a resposta é: também não é verdade.
Porque o Menino Jesus era parecido com Nossa Senhora. Ela era a prefigura dEle. São José, parente dEle, deveria ter alguma semelhança com Ele. Eles não queriam Nossa Senhora, nem São José, nem o Menino, eles não queriam aquele gênero de coisa. Eles queriam o baixo, o apalhaçado, o tolo.
* Na negação de pousada à Sagrada Família estava a primeira recusa do povo eleito a seu Salvador
Resultado: isso é a primeira recusa do povo hebraico, é o primeiro momento em que Nosso Senhor já está na terra e que pela voz de São José bate às portas e é recusado. São José, príncipe da casa de David — príncipe da família real deposta, decadente, mas que estava no seu apogeu porque dela estava nascendo o esperado das nações — São José bate à porta e é recusado. E ele é recusado por causa daquilo que ele era. Ele é recusado — e esta é também a primeira glória dele — porque ele representava algo que a vulgaridade detestava, que o espírito prosaico dos judeus detestava. E foi o primeiro ponto do martírio… [inaudível].
Depois, conduzir Nossa Senhora à gruta, gruta própria dos animais… [inaudível]. Não existe pior lugar do que a gruta. E foi numa gruta que o Menino Jesus nasceu. Nesse sentido, a renúncia… [inaudível] …foi um prenúncio da recusa de Nosso Senhor. E ele teve desde o começo essa bem-aventurança especial de ser recusado por amor à justiça, de ser perseguido por amor à justiça. Ele é quem batia nas portas, ele é quem recebia a recusa, e ao receber a recusa, ele teve a primeira glória… [inaudível]
* São José, o Bem-Aventurado por excelência
Depois ele teve a glória de se refugiar num lugar ermo, e nesse lugar ermo, por amor à virtude, ele estava sozinho e abandonado de todos. Aí ele teve a glória de ver nascer o Menino Jesus.
Depois continuaram as glórias. Ele teve a glória de ver… [inaudível] …que não havia na terra de Israel lugar para ele.
E daí por diante as glórias se acumulam sobre São José, mas quase todas glórias negativas: glória de ser homem apagado, do qual não se fala. Quanta reverência pública se deveria a ele se ele confessasse que Nosso Senhor Jesus Cristo era Deus (?).
“Esse aqui? Esse aqui não é filho daquele carpinteiro? É um filho de um mero carpinteiro e não pode ser Deus.” Quer dizer, ele quase que perdia o labéu para Nosso Senhor.
Os evangelistas não falam sobre ele. Sobre ele muito pouco se sabe. É exatamente a glória daquele que tomou as humilhações, a ignomínia, tomou todo o peso do opróbrio que devia cair sobre Nosso Senhor. Ele recebeu sobre si… [inaudível] …a bem-aventurança: “Bem-aventurados aqueles que sofrem por amor à justiça.”
[inaudível] …então que Nosso Senhor examinar pelas bem-aventuranças. São José é o Bem-Aventurado por excelência; ele está em todas as bem-aventuranças.
“Bem-aventurados aqueles que são limpos de coração, porque eles verão a Deus.” Quem foi mais limpo de coração do que o esposo virginal da Virgem Maria? E assim por diante.
* São José foi o único homem criado que tinha proporção com Nossa Senhora e seu Divino Filho
Resultado é que a Igreja — do pouquíssimo que se sabe de São José — cronologicamente (?) falando, criou toda uma espécie de construção baseada nos poucos dados biográficos, mas nessa imensidade de fatos: ele foi o pai adotivo do Menino Jesus e o esposo de Nossa Senhora. E daí… [inaudível] …conseguiu… [inaudível] …e conseguiu uma imagem moral de São José… [inaudível] …o esposo deve ser… [inaudível] …ser maximamente proporcionado à esposa.
Nossa Senhora é a criatura que de longe é mais perfeita que todas as outras criaturas. Se nós tomarmos tudo o que têm os Anjos, os Santos, os homens de todos os cantos da terra até o fim do mundo, isso não dá nem sequer uma idéia pálida do que é Nossa Senhora. Um homem tinha que ser considerado proporcionado a essa esposa; proporcionado naturalmente pelo seu amor de Deus, proporcionado pela sua justiça, pela sua pureza, por todas as qualidades, por sua sabedoria.
Esse homem, escolhido entre todos por estar proporcionado com Nossa Senhora, esse homem foi São José.
O pai deve ser proporcionado ao filho. E isso então se diz que é insondável. Um homem era preciso que carregasse com toda dignidade a honra de ser pai adotivo de Deus. E o pai adotivo tem que ter a posição do pai verdadeiro… [inaudível].
E [houve] só um criado para isso, com a alma adornada para isso, e todo preparado para isso e que esteve inteiramente à altura disso: esse homem foi São José. Estava na proporção de Jesus Cristo, estava na proporção de Nossa Senhora. É uma tal desproporção com todo o resto dos homens, é de tal maneira penetrar na alma santíssima de Nossa Senhora, é de tal maneira ter intimidade com Nosso Senhor, que nós não podemos fazer idéia.
Costuma-se representar, por exemplo, Santo Antônio de Pádua com um livro e o Menino Jesus sentado sobre o livro. E Santo Antônio embevecido porque o Menino Jesus esteve um instante nos braços dele. E nós olhando embevecidos para Santo Antônio: “Feliz Santo Antônio que teve essa honra sem nome”.
Quantas vezes São José teve nos braços o Menino Jesus? O dia inteiro com o Menino Jesus entre os braços. O Menino rezar, o Menino fazer todos os atos de sua vida comum, o Menino falar… [inaudível] …e ele ter os lábios suficientemente puros e a humildade suficientemente grande para fazer essa coisa formidável: responder a Deus. Ou então o Menino Jesus parar diante dele e dizer: “Eu lhe peço um conselho: como é que devo fazer tal coisa?” Ele pensar que Aquele é Deus que está pedindo conselho. E ele então dá o conselho. A criatura, formada, plasmada pelas mãos do Criador, dá a Deus um conselho.
Ou então, como conta Maria de Agreda e que freqüentemente acontecia, Nossa Senhora se ajoelhar diante dele para o servir, porque era o senhor e o esposo dEla. Ele ver aquela criatura, que é o Céu dos Céus, ajoelhada diante dele e ele aceitar que Ela o servisse. E Ela pedir conselhos a ele, Ela pedir ordens a ele. Ele governando, como ele governou Nossa Senhora. Ele foi reputado à altura desse cargo. Teve um homem que esteve à altura desse cargo, esse homem é São José.
* Algumas imagens que representam a São José são uma espécie de “calúnia iconográfica”
Eu [dou] aos senhores agora — para terminar o Santo do Dia que está se estendendo um pouco demais — como que um conselho: depois de ouvirem isso, façam uma “lavagem cerebral”. Não admitam, no subconsciente, como perfil moral de São José, as imagens comuns de São José, que não exprimem isso, que não dão para ver isso. Procurem no Fra Angélico [uma] imagem de São José e aí os senhores verão alguma coisa.
Porque seria preciso saber transmitir a Divina Face do Santo Sudário de Turim, deduzir à maneira de suposição algo que seria a fisionomia moral daquele que foi o pai daquele rosto que está lá; que foi o educador daquele rosto que está lá; que foi o parente, que foi do mesmo sangue, que foi o esposo da Mãe dEle. Porque o que não for isso, não é ter uma idéia de São José.
Há uma espécie de calúnias iconográficas comuns contra São José: primeiro cabelo… [inaudível] …não se sabe porque calvo em toda cabeça, mas com um chumaço aqui na frente. E depois… [inaudível] …os senhores compreendem porque isso. Depois, ar de bobo, assim enternecido, com um sentimento um pouco idiota, como quem não está percebendo o que está se passando. Ele era casado com Aquela que era a Sede da Sabedoria, o Espelho da Sabedoria, o Espelho da Justiça. Absolutamente. Ele deveria ser um modelo de fisionomia sapiencial, um modelo de castidade, um modelo de força; ele era o pai do Leão de Judá, que foi Nosso Senhor Jesus Cristo.
Então, haveria todo um São José a reconstituir. E eu volto a dizer: procurem em Fra Angélico. Imaginem o homem que teve bastante sabedoria e bastante pureza para governar a Deus e governar a Virgem Maria. Então os senhores compreendem que é inimaginável. São José não se pode imaginar. E aí está o verdadeiro São José, ao qual hoje nós devemos rezar.
Nossas orações de hoje à noite são pelo nosso amigo que volta a Madrid, Henrique Lacerda.
E eu queria fazer uma recomendação aos senhores sobre a utilização deste papel aqui. Eu gostaria que todos os atos que [se] passam em nossa capela, fossem atos inteiramente corretos e esplêndidos. Não têm nada de litúrgico, porque nenhum de nós é sacerdote, mas eu gostaria que tivessem todo o brilho de uma coisa intrinsecamente magnífica…
*_*_*_*_*
Auditório da Santa Sabedoria – Rua Pará