Santo
do Dia (––- Segunda datilografia, sem conferição
final ––-) – 17/03/67 – 6ª feira –
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Santo do Dia — 17/03/67 — 6ª feira
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Refutação a um conceito errôneo sobre a vida de Nossa Senhora: Ela só teria sofrido durante a Paixão e Morte de Seu Filho, transcorrendo o resto de sua vida no gáudio e na alegria * Ao longo de sua vida inteira, Nossa Senhora reuniu em si, concomitantemente, as maiores dores e as maiores alegrias que jamais pessoa alguma teve ou terá * Primeira dor de Nossa Senhora: o conhecimento, já no ventre materno, de todos os pecados cometidos antes, durante e depois da vinda do Messias * Com a vida pública de Nosso Senhor, inicia-se uma nova seqüela de dores que irá culminar nas tempestades da Paixão e Morte d’Ele * Na Crucifixão, Nossa Senhora opta pelo prolongamento da vida de Seu Filho * A grandeza de Nossa Senhora não está principalmente na enormidade das dores, mas, sobretudo, em ter sido o sacerdote que imolou a vítima divina no Calvário * Sofrimento auge de Nosso Senhor: “De que adianta o Meu Sangue?” * Aos pés da Cruz, o que terá Nossa Senhora pensado dos pecados de um Papa? O Sr. Dr. Plinio se emociona e não consegue concluir a frase * Nossa Senhora quis conquistar para nós a graça de sermos, nesta Paixão da Santa Igreja, outros São João Evangelista
Hoje é para nós uma festa de muita significação pois é dezessete de março, festa das Sete Dores de Nossa Senhora. Festa que se celebra na sexta-feira, depois do domingo da Paixão.
É também festa de São Patrício, bispo e confessor, do qual nós falamos ontem à noite. Amanhã vai ser a festa de São Cirilo de Alexandria. Se não me engano é de Alexandria, preciso ver aqui. Não: São Cirilo de Jerusalém, herói na luta contra os arianos… [inaudível] catequese, que lhe valeram o titulo de Doutor da Igreja.
Por mais vontade que eu tenha de comentar a festa de São Cirilo amanhã, me parece que nós não podemos deixar passar a ocasião sem dizer uma palavra a respeito das dores de Nossa Senhora.
* Refutação a um conceito errôneo sobre a vida de Nossa Senhora: Ela só teria sofrido durante a Paixão e Morte de Seu Filho, transcorrendo o resto de sua vida no gáudio e na alegria
O que nós podemos dizer de Nossa Senhora, a respeito de suas dores, fundamentalmente, é o seguinte:
Enganam-se aqueles que pensam que Nossa Senhora teve em sua vida alguns momentos de dor, ou melhor, um momento de dor e que esse momento de dor foi, realmente, a dor suprema. Foi a maior dor que jamais se tenha sentido no universo abaixo da dor insondável de Nosso Senhor Jesus Cristo, em sua humanidade santíssima.
Foi uma dor tão grande que recapitulou todas as dores do universo. Tudo quanto os homens sofreram desde a queda de Adão e sofrerão até o último momento em que houver homens vivos na terra, vai ser incomparavelmente menor do que a dor que Nossa Senhora sofreu.
Mas essas dores Ela teria sofrido durante a Paixão e, fora do momento de sua paixão, Ela não sofreu essas dores. De maneira tal que Ela teve uma vida alegre, uma vida calma, uma vida satisfeita, inundada pelo contentamento e alegria de ser Mãe do Salvador.
De repente veio aquela dor lancinante, mas também durou umas vinte e quatro horas. Depois vamos dizer, até a Ressurreição de Nosso Senhor, portanto, mais do que isso, Ela sofreu. Mas depois passou o sofrimento e Ela teve novamente uma vida gaudiosa.
Na realidade isso não se deu e é um modo completamente errado de considerar as dores de Nossa Senhora.
Nosso Senhor Jesus Cristo foi chamado por um dos profetas — se não me engano, o profeta Isaías — de Vir Dolorum: o varão das dores; o homem ao qual era próprio sofrer, que está cheio de dores e que trazia essas dores na sua alma santíssima durante toda a sua existência.
De maneira que a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo não foi um fato isolado na sua vida, mas foi o ápice de sua seqüência enorme de dores, que começaram desde o primeiro instante de seu ser e foram até o momento em que Ele exalou, num dilúvio de dores, o terrível Consumatum est. Durante todo esse tempo Ele continuamente sofreu.
Ora, como Nossa Senhora é o espelho da sabedoria, é espelho da justiça e Ela reflete em si tudo que é de Nosso Senhor Jesus Cristo, se deve dizer de Nossa Senhora que Ela foi a Mulier Dolorum, a mulher, a dama das dores e que também Ela teve a sua vida inteira invadida pela dor, pelo sofrimento durante toda a sua existência.
É certo que essa dor foi uma dor que teve proporção com as forças incalculáveis que a graça lhe dava; é certo que foi uma dor imposta pela Providência e que, portanto, por mais lancinante que tenha sido, não era dessas dores que produzem turbulência, produzem provações que devastam e sujam a alma.
Eram dores imensas, mas eram dores muito arquitetônicas, eram dores muito sábias; eram dores recebidas com uma serenidade de alma admirável, de maneira que, assim como Isaías atribui a Nosso Senhor essas palavras: Ecce in pace amaritude mea amarissima (“Eis que está na paz a minha amargura muito amarga”), assim também de Nossa Senhora se pode dizer: “Eis que está na paz a minha amargura muito amarga”. No meio de um oceano de dor, aquilo tudo equilibrado, aquilo tudo raciocinado, refletido e carregado com amor e com equilíbrio de alma incomparável, sem super-emoções.
* Ao longo de sua vida inteira, Nossa Senhora reuniu em si, concomitantemente, as maiores dores e as maiores alegrias que jamais pessoa alguma teve ou terá
Embora com uma quase infinidade de sofrimentos, sem torcida, sem pânicos; embora com muito medo, com muita angustia e, nos momentos devidos, com um peso de dor que chegava quase a estraçalhar, é Nossa Senhora: durante a vida inteira foi uma grande sofredora. Uma sofredora que teve momentos de alegria. Momentos de alegria, não. Ela teve uma alegria ao longo de sua vida inteira.
Ela também teve alegrias como nunca pessoa alguma teve; e todas as alegrias do mundo, desde o primeiro instante que o homem nasceu no Paraíso, até o último momento em que haja homens na Terra, todas elas somadas não darão as grande alegrias de Nossa Senhora.
Mas essas dores e alegrias se entrelaçaram continuamente e Nossa Senhora vivia suportando o fardo das mais tremendas dores e, ao mesmo tempo, aliviada pelo peso das tremendas alegrias.
Assim vista a fisionomia moral insondavelmente santa de Nossa Senhora, é bom nos atermos especialmente às suas dores. Quais foram as dores de Nossa Senhora?
* Primeira dor de Nossa Senhora: o conhecimento, já no ventre materno, de todos os pecados cometidos antes, durante e depois da vinda do Messias
Fundamentalmente, Nossa Senhora começou a sofrer já antes d’Ela saber que ia ser Mãe de Deus. E Ela começou a sofrer de uma dor que para uma alma zelosa é uma dor imensa, é uma dor que atormentou incontáveis santos, creio eu que tem atormentado todos os santos e que Ela, naturalmente, teve em grau superlativo.
Nossa Senhora, os senhores sabem, concebida sem o pecado original desde o primeiro instante de seu ser, ainda no claustro de Santa Ana, no tabernáculo de Santa Ana, Ela pensava e Ela tinha conhecimento do que se passava. Ela já começou sua vida mística ali, com visões e êxtases altíssimos e revelações magnificas.
E Ela ali já teve conhecimento do pecado dos homens. Ela já teve conhecimento de toda a infelicidade dos homens. E Ela, que tinha pela glória de Deus um zelo tal que Ela daria mil vidas para evitar um pecado mortal, Ela passava por essa dor tremenda de ver a humanidade inteira imersa em pecados; de ver aquelas almas todas que morriam e [que] em número enorme iam para o inferno; [de ver que] aquelas que não iam para o inferno iam para a triste morada do Cheol, à espera de Nosso Senhor Jesus Cristo, durante séculos e dezenas de séculos.
Mais do que isso, Nossa Senhora viu os pecados que se dariam por ocasião da vinda do Messias; Ela viu os pecados que viriam depois do Messias, até o fim do mundo. E esses pecados causavam para Ela um tormento do qual simplesmente nós não podemos ter idéia.
Houve um santo — eu não sei se foi Santo Inácio de Loyola — que disse o seguinte: que se ele tivesse que viver a vida inteira simplesmente para evitar que cometessem um pecado mortal [de] uma pessoa que depois fosse para o inferno, simplesmente (portanto, não para salvar aquela alma, mas para evitar a Deus um pecado mortal), que ele daria por bem empregados todos os sofrimentos de sua existência, de tal maneira o pecado mortal é um mal insondável.
Mas se esse santo pensava assim, o que pensava Nossa Senhora, perto da qual o maior santo é menos do que uma gota d’água comparada a todos os mares do mundo, do que uma poeira comparada a todos os universos? A santidade de Nossa Senhora não tem proporção com nada.
Nós não podemos fazer o computo da desproporção entre a santidade de Nossa Senhora e de todos os anjos e santos reunidos. Então, que tormento isso seria para Ela!
* A dor da Mãe ao ver seu Filho Deus sofrendo e suando sangue na previsão da Paixão e Morte. Terá Ela suado sangue também?
Ela recebeu, depois, a notícia magnífica de que Ela ia ser a Mãe do Verbo Encarnado. Os senhores podem imaginar a alegria que Ela teve em adorar a Iesu encarnado, no primeiro momento em que Ela concebeu por obra do Espírito Santo.
Os senhores podem imaginar, entretanto, também, a dor d’Ela logo pensando que esse Messias seria de tal maneira o homem sofredor [de] que fala o profeta Isaías. Acham alguns que Ela não sabia da Cruz, que Ela veio a saber da morte de Nosso Senhor no momento. Eu não discuto a questão. Se Ela, pelo profeta Isaías, sabia que Ele deveria sofrer dores inenarráveis, é fora de dúvida.
E Maria de Agreda conta que havia na casa de Nazaré uma sala que servia de oratório. Nessa sala, Nossa Senhora, várias vezes entrando, encontrou Nosso Senhor ajoelhado prostrado em terra diante de Deus e suando sangue de temor, na previsão da Paixão que Ele ia sofrer e na previsão da ingratidão com que os homens iam receber a Paixão d’Ele.
Os senhores podem imaginar diante disso que é tão crível, que é tão verossímil, a dor de Nossa Senhora? Vendo uma criança de cinco anos, depois de dez, depois de quinze, depois um moço de vinte e, depois, um homem já feito de vinte e cinco anos, de trinta anos, ajoelhado freqüentemente diante de Deus a sofrer, a suar sangue diante da perspectiva das dores que viriam?
Os senhores podem imaginar Ela, que amava o Filho d’Ela não como uma mãe ama seu filho apenas, mas como uma Mãe ama seu Filho Deus? Ela o que que sofria com isso?
Com certeza Ela se ajoelhava perto d’Ele, Ela se prostrava perto d’Ele e Ela sofria das dores d’Ele. E não é de admirar que Ela tenha suado sangue como Ele suou.
* Com a vida pública de Nosso Senhor, inicia-se uma nova seqüela de dores que irá culminar nas tempestades da Paixão e Morte d’Ele
Bem, depois começa a vida pública e Nossa Senhora passa pela dor da separação d’Ele; e depois começam os milagres d’Ele, começam as vitórias d’Ele, é o momento da alegria. Mas pouco depois começa a ingratidão, começa a se preparar a tempestade de injustiças que levou Nosso Senhor até a Paixão. Depois chega o momento da Paixão.
Ela vai sofrendo com tudo isso, com a ingratidão de que Ele era vítima por toda parte. Chega depois a Paixão e vem o inenarrável. Ela, afinal de contas, vê, no momento da Paixão, tudo aquilo que Nosso Senhor sofreu e cada transe que Ele sofreu.
Isso tudo não tem sentido: se há santos e santas que desmaiaram tendo revelação do que Nosso Senhor sofreu na Paixão, os senhores podem imaginar o que seria para Nossa Senhora o mínimo episódio da Paixão.
* Na Crucifixão, Nossa Senhora opta pelo prolongamento da vida de Seu Filho, por amor a nós, pondo apenas um limite ao demônio, segundo conta Maria de Agreda
Bem, chega, afinal de contas, o alto da cruz e as dores de Nosso Senhor atingem o inenarrável, o insondável. E Ela, então, fica nessa alternativa: de um lado, desejar que Ele morra logo para diminuir as dores; de outro lado, desejar que a vida d’Ele ainda se prolongue, em primeiro lugar, porque toda mãe quer prolongar a vida de seu filho e, em segundo lugar, por causa da idéia que Ele assim sofreria mais e seria melhor para os pobres pecadores.
Ela adere à Paixão. Ela adere ao prolongamento desse sofrimento e Ela firma o propósito de concordar em que Nosso Senhor seja imolado apenas naquela hora extrema, com todas as dores que Ele tem que sofrer.
Maria de Agreda conta que Ela pôs um ou outro limite apenas no poder do demônio contra Nosso Senhor. Ela via que o demônio açulava aquele populacho imundo contra Nosso Senhor.
Ela, Rainha do Céu e da Terra, com uma palavra, Ela podia encerrar todos os sofrimentos tocando os demônios e despejando aquela gente que estava lá. Mas Ela não quis; Ela quis deixar aquela gente ali para a salvação das nossas almas.
Uma ou outra situação extrema apenas Ela evitou. Conta Maria de Agreda que o demônio tinha feito o projeto seguinte: quando Nosso Senhor fosse erguido no alto da cruz e que começasse a sua última… a sua agonia nas várias etapas, até a sua última agonia, em determinado momento, derrubar a cruz no chão, de maneira que Ele batesse com a Sagrada Face na terra e toda a Sagrada Face se quebrasse em pedaços.
Então Ela, diante do excesso de ignominia de uma intenção como essa, Ela proibiu o demônio que o fizesse. Umas duas ou três coisas assim extremas, Ela proibiu o demônio que fizesse. O resto Ela deixou o demônio fazer.
Agora, por que Ela deixou o demônio fazer? Porque Ela amava tanto a salvação de nossas almas, mas da alma de cada um de nós, que Ela queria que o Filho d’Ela passasse por tudo aquilo para, por exemplo, eu não ir para o inferno.
Ela queria isso por mim. E Ela ama tanto a minha alma, Ela ama tanto a alma de cada um dos senhores que ainda que houvesse um só dos senhores para ser salvo naquele dilúvio de dores, Ela quereria que o Filho d’Ela passasse por aquilo para salvar essa alma.
Os senhores compreendem o que isso quer dizer. Os senhores imaginem Ela vento tudo; Ela vendo, por exemplo, a coroa de espinhos penetrar na fronte de Nosso Senhor e produzir lesões nervosas que faziam tudo o seu corpo estremecer no meio de todas aquelas dores que Ele tinha.
Ver a coroa de espinhos que chegava a fender os olhos sagrados d’Ele, ver o corpo distendido de tal maneira que os braços serem arrancados aos ombros para caberem nos esteios em que estava a cruz.
A sede tremenda; o sangue escorria de todos os lados; a febre altíssima; os estertores de todo o corpo contidos, pelo fato de que cada movimento era imensamente doloroso. Está bem.
* A grandeza de Nossa Senhora não está principalmente na enormidade das dores, mas, sobretudo, em ter sido o sacerdote que imolou a vítima divina no Calvário
Ela sabia de tudo isso, media tudo isso, Ela, entretanto, queira tudo isso, Ela desejava que isso fosse assim, Ela era como que um sacrificador, um sacerdote que imola a vítima divina no alto do Calvário.
Ela queria que aquilo fosse assim, porque se era esse o preço para salvar uma alma, Ela queria que o Filho d’Ela sofresse aquilo para salvar uma alma, Ela queria que o Filho d’Ela sofresse aquilo que estava sofrendo.
Quer dizer, aqui está a grandeza de Nossa Senhora. Não está tanto na enormidade das dores que Ela sofreu, mas está em que Ela quis sofrer o que sofreu; Ela quis que o Filho d’Ela fizesse esse sacrifício tremendo e admirável, e Ela fez isso por amor de nós. Porque Deus nos amou tanto que quis sacrificar o seu Filho Unigênito, Ela nos amou tanto que Ela aderiu a essa função sacrifical; Ela quis sacrificar por cada um de nós o seu Filho Unigênito.
* A Semana Santa é por excelência a ocasião para cairmos em nós mesmos, trilhando pelas vias da penitência. “O flanco de Nosso Senhor está aberto, jorrando misericórdia…”
A Semana Santa, meus caros, está se aproximando. A Semana Santa está se aproximando, e é o momento de nós fazermos, cada um de nós, a reflexão a esse respeito, para nós mesmos.
Já foi feita essa reflexão aqui, mas essa é uma reflexão que nunca deve bastar para a alma católica. Por mais que o homem pense, ele não pode cessar de se nutrir dessa reflexão.
Colocar-se sozinho diante do crucifixo, colocar-se sozinho diante da imagem de Nossa Senhora das Dores, e esquecer o mundo inteiro.
Porque diante de Deus, o mundo inteiro para mim não existe. Existe Deus e existo eu e o resto não é absolutamente nada. E então, diante de Deus fazer essa pergunta a mim mesmo.
Eu, Plinio, eu tenho consciência do que custou minha salvação? As graças todas que eu tenho recebido, eu tenho idéia dos gemidos todos que custaram? Das dores que custaram? Do que que isso causou no Coração Imaculado de Nossa Senhora?
Eu tenho idéia de que aquilo foi de tal maneira para mim que ainda que fosse só para mim, teria havido tudo aquilo? Eu tenho idéia de que no alto da cruz Nosso Senhor Jesus Cristo pensou nominalmente em cada homem, desde o começo do mundo até aqui?
E que Ele, portanto, passou pela mente divina d’Ele, com pensamento de misericórdia, com pensamento de bondade, de salvação, passou meu nome de Plinio Corrêa de Oliveira?
Que Ele teve em vista não só meu nome, mas Ele viu minha alma, Ele viu minha pessoa, Ele viu o meu ser, Ele amou o meu ser criado por Ele e, num ato de amor a meu ser, Ele fez aquele sacrifício para eu ir para o Céu? Eu tenho idéia de que isso custou à minha salvação? E eu tenho idéia do modo pelo qual eu tenho correspondido a isso?
Eu tenho idéia do que tem sido minha ingratidão? Quantas faltas cometidas muitas vezes por imprudência, simplesmente porque não quis evitar uma ocasião, porque não quis fazer uma pequena mortificação; eu peguei o Sangue de Cristo e o joguei na sarjeta por essa forma.
Foi Sangue derramado para mim e eu me pus em condição de perdição. E Deus ainda me tolerou nessa vida; me suportou e me esperou com outras graças novas, ainda maiores do que aquelas graças que eu tinha recebido. Eu agora estou, mais uma vez, diante do [inaudível] porque a Semana Santa é uma ocasião de graças para cada um de nós.
O flanco de Nosso Senhor Jesus Cristo está aberto, jorrando misericórdia para todos nós e nos chamando, a todos nós, à contrição, à penitencia, à reconciliação magnifica com Ele.
Há uma efusão de bondades e de carinho para nós, como nós jamais podíamos imaginar. E então, na Semana Santa, a minha primeira preocupação deve ser de pesar na minha alma. Pensar sem temor, pensar sem pânico, porque Deus é Pai da misericórdia e Nossa Senhora é a Mãe e o canal de todas as misericórdias.
Mas pensar com seriedade; pensar a fundo; colocar-me diante desse Sangue de Cristo que corre e pensar: o que é que eu fiz desse Sangue?
* Sofrimento auge de Nosso Senhor: “De que adianta o Meu Sangue?” — Nossa Senhora pensou também na crise da Igreja em nossos dias
Nosso Senhor perguntou durante a Paixão e, diz Maria de Agreda que foi um dos maiores sofrimentos d’Ele: Ele fez essa pergunta: em última análise, de que que adianta meu sangue?
Quer dizer, ele pensou em tantas almas que haviam de usar o sangue d’Ele levianamente, estupidamente, por uma ninharia, por uma bagatela, por uma risada de criada, como São Pedro.
Meu Deus, por trinta dinheiros, como Judas; por preguiça e vontade de dormir, como os outros apóstolos; por medo, por oportunismo, por sensualidade, por quantas coisas almas haveriam de rejeitar a Ele.
Mas isso ainda é pouco. Nosso Senhor teve em vista, e Nossa Senhora também, a nossa época, teve em vista todas as traições de nossa época, todos os abandonos de nossa época; teve em vista tudo quanto almas sacerdotais — e falemos mais alto do que sacerdotais — o fizeram sofrer.
Os senhores podem imaginar que se pecados de Plinio Corrêa de Oliveira tanto fizeram sofrer a Nosso Senhor, o que faria sofrer a Nosso Senhor o pecado de um bispo? O pecado de um cardeal? Meu Deus, o pecado de um papa? Um outro São Pedro?
David tem essa queixa em relação [inaudível] que fez mal a ele. Disse: Tu?! Se outrém me fizesse o que fez, eu não me queixaria. Mas tu, que és um outro eu mesmo, que comigo comias doces alimentos?”
* Aos pés da Cruz, o que terá Nossa Senhora pensado dos pecados de um Papa? O Sr. Dr. Plinio se emociona e não consegue concluir a frase
Como Nossa Senhora poderia dizer isso ao papa? O papa, que Santa Catarina de Sena chamava o “doce Cristo na terra”? “Tu que és outro eu mesmo; tu, que junto comigo comias os doces alimentos, até tu… etc., etc.”… Não consigo concluir a frase.
* Nossa Senhora quis conquistar para nós a graça de sermos, nesta Paixão da Santa Igreja, outros São João Evangelista
Pois bem, tudo de nossa época foi visto. Agora, no momento em que foi visto, também foi visto com amor que, pelo produto desse Sangue infinitamente precioso, haveria de haver uma graça especial para alguém.
Para alguém que foi tão ruim quanto os outros; às vezes pior do que os outros. Mas que por uma graça especial foram chamados para serem fiéis na hora dessa infidelidade; para serem aqueles que junto à cruz, com São João Evangelista, junto à ortodoxia, junto a verdade doutrina, na hora em que todo o mundo O abandona.
E são aqueles que compreendem o martírio da Igreja, compreendem a tragédia da Igreja corroída internamente pelo progressismo e entregue aos seus piores adversários.
Esses foram chamados para lutar por Ela. Foram chamados para compreender a dor d’Ela, foram chamados para meditar sobre essa dor e para viver essa dor de tal maneira que eles sejam também varões das dores.
A dor da Santa Igreja Católica em nossos dias deve ser uma dor com a qual nós acordamos de manhã e com a qual nós dormimos à noite. É uma dor que pesa sobre nós no mais profundo do nosso sono.
A Igreja Católica, Santa, Apostólica, Romana, fundada por Jesus Cristo, descida do Céu sobre uma nuvem como uma cidade perfeita, que que fizeram d’Ela? Enfim,… (o Sr. Dr. Plinio chora).
Essa dor é tanta que me impede de falar.
Peçamos a Nossa Senhora que nos faça sentir até o fundo da alma.
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