Santo
do Dia – 16/3/1967 – p.
Santo do Dia — 16/3/1967 — 5ª-feira
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São Patrício, destinado a evangelizar a Irlanda, fracassa em sua primeira tentativa; assim é a vida dos santos; vai a Roma, recebe bênção apostólica, volta à Irlanda; vence os demônios que lhe cercam a entrada; com destemor invectiva os bárbaros e os convida a conversão; cristianizados, tornam-se maravilhosos bardos; para deter as incursões de piratas, S. Patrício escreve ao chefe do bando; suas predições ameaçadoras se realizam; destroça ídolos, ressuscita mortos, afugenta serpentes; recolhe-se ao prestígio de uma ilha.
* S. Patrício sobre a grama da Irlanda * Provação dos santos * Com a bênção apostólica volta à Irlanda * Fecundidade da pregação destemida * Irlanda, terra de bardos * Poesia da composição e comentário ainda mais poético * O tipo de pirata que assolava a Irlanda * S. Patrício escreve ao chefe da quadrilha * Ameaça e prediz a ruína deles * Entrada dele na Irlanda. Cena de iluminura * Outra iluminura, o ídolo do Sol * A santidade dá essa força * O prestígio da ilha e da caverna * Bastão que afugenta cobras
São Patrício
…dia dezesseis , amanhã é dia dezessete, nós temos a festa de São Patrício. No livro de Hello, “A Fisionomia dos Santos”, há alguns dados biográficos magníficos a respeito da figura dele.
São Patrício é, sem dúvida alguma, um dos santos mais extraordinários, de vida mais extraordinária que se conhece. Aos doze anos foi raptado por piratas e levado para a Irlanda.
Quem era raptado por piratas era feito escravo.
Aí foi feito pastor, recebendo o dom da oração. Ajoelhava-se no meio do campo e rezava, cercado por seus animais.
* S. Patrício sobre a grama da Irlanda
Os senhores sabem que a grama da Irlanda é extraordinariamente verde, é de um verde famoso e cobre grande parte da Irlanda. De maneira que os poetas antigos comparavam a Irlanda como uma esmeralda encastoada no mar ao norte da Europa. Os senhores imaginem que cena bonita: São Patrício, pequeno, mas já com cara de santo, pastorzinho pobre e humilde, rezando sobre a relva esplendidamente verde da Irlanda e os animais fazendo círculo em torno dele, ou a protegê-lo ou a contemplá-lo. Isso são das tais cenas da hagiografia da Idade Média que dão para fioretti, dão para iluminuras, dão para vitral de catedral, dão para uma porção de coisas. Porque a história e a fantasia se reúnem aí para a realização de um aspecto magnífico do poder da candura, do poder da oração, do poder da inocência quando fortalecida por carismas vindos de Deus. Agora continua:
Depois de seis anos…
Portanto, seis anos dessa forma pastoral tão encantadora.
Sai dessa região, fazendo várias viagens cheias de peripécias e se tornou novamente escravo.
Quer dizer, ele tinha conseguido fugir e se tornou escavo de novo.
Enfim, chegou ao mosteiro de São Martinho de Tours. E como sempre sentira que sua voc1ação…
São Martinho de Tours é na França.
…estava na Irlanda, partiu para evangelizá-la. Mas tal era a via estranha por que Patrício era conduzido, que apesar de seus desejos, de sua santidade e de seu zelo e do chamamento sobrenatural de que era objeto, fracassou completamente. Foi tratado como inimigo.
* Provação dos santos
Os senhores estão vendo, portanto, a coisa tremenda, não é? Como Deus prova os seus santos, fazendo com que eles caminhem por uma porção de lados, sem conseguir o objetivo que o próprio Deus tem em vista. Num belo momento esse objetivo lhes vem às mãos. Aí a gente compreende como a TFP sofra dificuldades, como é natural que nós, no nosso apostolado, tenhamos revezes. Os santos progridem assim. São os que não são santos que progridem rapidamente nas suas obras de pseudo apostolado, porque não faz apostolado quem não é santo, ou melhor, não faz apostolado a não ser quem é santo ou, pelo menos, quem tende para a santidade e admira a santidade com todas as veras de sua alma.
A hora não era chegada, a Irlanda não estava pronta. Patrício volta à Gália…
Que é a antiga França.
…onde passa três anos sob a direção de São Germano de Auxerre. Depois retira-se para a solidão da ilha de Lerine.
Os senhores vêem quanto esse homem viaja e quantas curvas têm a vida dele antes dele voltar para a Irlanda. Ele vai para a Gália, ele aprende ali com um santo as vias da vida espiritual, depois ele se torna eremita, depois sele se distancia ainda mais da Irlanda porque ele vai para Roma. Então diz:
Onde o Papa São Celestino lhe dá a benção apostólica. E ele retoma então o caminho da Irlanda, aí aportando em 432. Logo dirigiu-se à assembléia geral dos guerreiros da Hibérnia.
* Com a bênção apostólica volta à Irlanda
A Hibérnia era o antigo nome da Irlanda. Os senhores imaginem que bonita, no meio da natureza suave da Irlanda, uma assembléia geral de guerreiros para deliberar a respeito das coisas da nação. Eram os nobres, os guerreiros eram os nobres da nação e eles compareciam a essas assembléias revestidos de todas as suas armas. E votavam com as armas; e quando a votação não dava certo, brigavam com as armas também. Quer dizer, estavam prontos para isso. Era regime de barbárie. Está bem: reunida ali essa assembléia, reunido também o colégio dos druidas, que eram os sacerdotes pagãos da Gália e da Irlanda, que era a mesma raça então, reunidos ali sacerdotes do colégio dos druidas, se apresenta afinal São Patrício. Diz então que ele atacou de frente o centro religioso e político da nação. Perante todos os seus inimigos agrupados, pregou ele a Fé.
Os senhores vejam que destemor. Nada de meias medidas, de panos quentes, de recuos; ele era um santo e tinha o poder dos santos.
A datar desse momento, as maravilhas se sucederam com rapidez. Conversão de famílias reais inteiras.
* Fecundidade da pregação destemida
Naturalmente, famílias reais a gente precisa entender: eram os Chefes de tribo, não é isso? Federações de tribos. Nós não podemos pensar, nem um pouco, numa princesa como, não sei, como as filhas de Luís XV pintadas por Natier, quando nós pensamos nessas princesas reais. Nós devemos pensar na nossa Paraguaçu, umas coisas dessas: umas Paraguaçús louras, mas umas autênticas paraguaçus. Mas enfim os senhores imaginem a selvageria dessas hordas, São Patrício que chega e que prega, e que prega de frente dizendo todas as verdades. E os guerreiros começam a ficar pensativos, depois contritos, as mulheres que começam a mudar de atitude, a admiração pelo santo que desperta e depois o batismo de famílias reais inteiras seguidas das respectivas tribos. Os senhores vejam que cena linda, que aurora da Graça verdadeiramente maravilhosa.
Aquela Irlanda se transforma rapidamente na ilha dos santos.
Foi com ao Irlanda foi conhecida durante séculos.
Naquela terra onde outrora fora escravo, Patrício anda agora como conquistador triunfante. Reis e povos e também poetas vêm a ele porque a Irlanda é uma das mais antigas pátrias da poesia.
* Irlanda, terra de bardos
Os senhores sabem que a cítara em que cantavam os bardos irlandeses e do País de Gales faz parte até da bandeira irlandesa. É uma harpa pequena que se coloca… [faltam palavras] …os senhores vejam, portanto, que beleza, é o maior cantor que a Irlanda teve que se cristianiza.
O Homero da Hibérina inclinou os velhos heróis ante o estandarte do Deus desconhecido. Então, diz um velho autor (e, vejam os senhores, a beleza do pensamento), os cantos dos bardos ficaram tão belos, com a conversão lucraram tanto em sua beleza…
Agora vem a coisa linda:
…que os Anjos de Deus se inclinavam na beira do Céu para os escutar.
* Poesia da composição e comentário ainda mais poético
Essa idéia dos bardos cantando na terra e do Céu aberto assim como se fosse uma clarabóia, e revoadas de Anjos ouvindo aquela voz de bardos irlandeses cantando, tem uma indiscutível poesia que dá uma aroma e uma força de atração a isso, que é uma coisa verdadeiramente extraordinária. Como disse bem o péssimo Montalembert uma vez, chamando a Idade Média de “Doce primavera da Fé”. Como tudo isso parece com a primavera, é uma energia que nasce, que tem todo o dinamismo para crescer, que vence todos os obstáculos, que ilumina tudo como um sol que vai nascendo, ou como uma boa estação do ano que vai entrando.
Os senhores vêem como é diferente a situação, o dinamismo desse apostolado e o dinamismo do apostolado tantas vezes de nossos dias. Quando a gente vai, em geral, às igrejas, a gente encontra…
Entretanto, as invasões dos piratas desolavam a Irlanda. Patrício escreveu a Corotido, chefe da quadrilha.
* O tipo de pirata que assolava a Irlanda
Eram uns piratas que vinham naqueles navios, era um susto para aquelas populações; eram piratas vindos da Dinamarca e da Noruega e da Suécia — quão mudadas daquele tempo para cá! — hoje elas só fabricam queijo; naquele tempo eram os tais reis do mar, porque eram nações inteiras que entravam no mar, em pequenas esquadrilhas, com aquelas esquadras, com aquelas naus, com aquelas proas monumentais, lindas, com aquelas velas bonitas, rápidas, que singravam pelos mares e que desciam as hordas pelas praias e que iam devastando os povos, as terras. Então, um tal Corotído, ou Corótido — não sei como se pronuncia isso — estava por lá e Patrício escreveu o seguinte:
Patrício pecador ignorante, mas coroado bispo de Hibérnia…
* S. Patrício escreve ao chefe da quadrilha
Vejam que linda a idéia de que o bispo é coroado como um rei.
Refugiado entre as nações bárbaras por causa de seu amor a Deus, escrevo de próprio punho essas letras para serem transmitidas aos soldados do tirano.
Logo de uma vez tirano.
A misericórdia divina que eu amo não me obriga a agir assim para defender aqueles mesmo que não há muito me fizeram cativo e trucidaram os servos e as servas de meu pai?
Quer dizer, ele, portanto, enfrentou e mostra os desígnios de misericórdia da Providência ali.
Ele prediz que a realeza de seus inimigos será menos estável que a nuvem e a fumaça. Em presença de Deus e dos seus santos acrescenta: Atesto que o futuro será tal qual eu o hei previsto.
* Ameaça e prediz a ruína deles
Quer dizer, ele, portanto, ameaça que não adiante atacar porque eles vão perder o que estão querendo conquistar.
Alguns meses depois, Corotido acometido de alucinação mental morria no desespero.
Os senhores podem imaginar o desespero de Corotido, matando gente, golpeando-se a si mesmo, gaga solto, não é verdade? Era o resultado da maldição de São Patrício.
Os inimigos de Patrício caíam mortos, os amigos ressuscitavam
Assim a gente converte um povo. Se nós, pobres de nós, pudéssemos fazer cair mortos os nossos inimigos e ressuscitar nossos amigos, como tudo era mais simples; quanta coisa se arranjava. Não precisávamos nem de burocracia, nem de máquinas, nem de todas essas muletas com as quais nós caminhamos. Bastava olhar para um santo e chamar a empresa funerária. Bastava… ia para a sepultura de Dom Vital e de uns poucos e ressuscitá-los. E muita coisa mudava. Mas a nós isso não foi dado.
Os inimigos de Patrício caíam mortos, os amigos ressuscitavam. Os túmulos pareciam um domínio sobre o qual ele tinha direito.
Quando se tem esse direito sobre o túmulo, quando se abre e se fecha a porta da morte dessa forma, o que mais?
À sua chegada à Irlanda, os demônios, diz um historiador do século XII, fizeram um círculo com que cingiam toda a ilha para lhe barrarem a passagem. Patrício levantou a mão direita, fez o sinal da cruz e passou adiante.
* Entrada dele na Irlanda. Cena de iluminura
Lindo tema para uma iluminura, não é? Um barquinho com São Patrício na frente, com um pé colocado assim mais para frente e outro para trás, um halo de santidade enorme, “fragilzinho” e uma sarabanda de demônios correndo. Para pintar os demônios pediríamos a auxílio da arte moderna… que isso, realmente, pinta a coisa como ela é. São Patrício com uma benção, segundo quadrinho ao lado, os demônios entrando pelo mar adentro e saindo fogo das pernas deles enquanto de ponta cabeça caiam dentro do mar; com monstros marinhos fugindo espavoridos de todos os lados, porque os demônios até aos monstros causam horror. E o barquinho de São Patrício ancorando sereno na Irlanda, ele descendo, amarrando o barquinho e subindo o caminho… [faltam palavras] … Eu lamento não saber pintar iluminuras para pintar coisas dessas.
Depois derrubou o ídolo do sol ao qual as crianças, como o antigo Moloch, eram oferecidas em sacrifício.
* Outra iluminura, o ídolo do Sol
Isso eu gostaria muito mais de pintar. Um ídolo horrendo, em pé, assim com uma atitude… [faltam palavras] …sanguinária, uma mãe que entrega espavorida sua criança, adoradores infames diante do ídolo, ao lado restos de cadáveres de crianças mortas; e São Patrício que entra; segundo quadro, e que faz uso da palavra violentamente; terceiro quadro, derruba o ídolo; quarto quadro: a população que faz festejar. Não há melhor. Assim é que se tocam as coisas para frente. Mas para isso, meus senhores, é preciso ser santo.
* A santidade dá essa força
Uma vez perguntaram para Napoleão — e podem imaginar o cretino que fez a pergunta — perguntaram para Napoleão porque ele não se fazia aclamar como Deus. Napoleão deu essa resposta: “Olhe, meu caro, depois de Jesus Cristo só há um jeito para a gente ser deus: é pegar a cruz, subir ao Calvário e fazer-se crucificar. E eu não tenho vontade disso. Porque depois dele ninguém toma a sério outro deus.” É bem verdade. Assim também, para fazer essas coisas é preciso ser santo. Se nós quiséssemos ser santos nós poderíamos, talvez, fazer coisas dessas.
Bem.
O purgatório de São Patrício é sagrada tradição entre os irlandeses… [faltam palavras] …que tu contas, disseram um dia os irlandeses a São Patrício, anunciais para o outro mundo grandes alegrias ou grandes dores, mas nós nunca vimos nem umas nem outras. Falais mas nós não vemos. Que são palavras? Não serão senão palavras? Não abandonemos nossos hábitos e nossa religião a não ser que vejamos com nossos olhos o que prometeis. Patrício pôs-se em oração e guiado pelos seus anjos chegou a uma caverna, que se tornou depois terrível e celebre numa pequena ilha do lado de Dern, na província de Ulster ocidental.
* O prestígio da ilha e da caverna
É uma grande classe uma caverna numa ilha. A ilha já é uma coisa que se distingue do mais, se separa do mais, que tem um prestígio próprio. A caverna dentro da ilha é uma caverna cercada de um duplo mistério: mistério das trevas e a barreiras das águas, posta num isolamento. Lá vai ele, então.
Nessa caverna viu… [faltam palavras] …as cenas do outro mundo: de um lado apareciam os Anjos com um cortejo inaudito de esplendores, de outro os espectros dos ídolos e todos os monstros que adorara a Irlanda idólatra, seguidos dos terrores e dos horrores que não se podem imaginar. Encerravam-se ali por dois dias os penitentes voluntários que reclamavam seu purgatório na terra e ninguém sabe a história exata das quarenta e oito horas que aí passaram.
Atribui-se ao bastão de São Patrício…
É, mas está confuso esse trecho, não se entende o resto. Infelizmente, vamos ver se amanha dão o texto integral para a gente poder dar uma explicação.
Atribui-se ao bastão de São Patrício o poder de enxotar as serpentes. Esses animais são, ao que parece, desconhecidos na Irlanda e sua ausência é atribuída a uma benção particular: a benção do pau que São Patrício segurou nas mãos.
* Bastão que afugenta cobras
Por que não pedimos um pouco dessa relíquia para o Brasil? Positivamente é falta de imaginação. Pelo menos para a fazendo de Morro Alto, a gente andar com a cruz de São Patrício na ponta de um pau.
A figura desse santo assemelha-se um pouco a esses navios que a gente vê se distanciarem da pátria: durante algum tempo segue-os de vista distintamente; mas o céu e o mar se confundem no horizonte e logo o navio parece desaparecer ao mesmo tempo no céu e no mar confundidos. Assim também São Patrício no céu e nos mares da Irlanda.
É uma linda vida a qual nada há que acrescentar. As nossas orações dessa noite continuam a ser por Dona Dulce Xavier da Silveira.
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