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Santo do Dia — 1/3/1967 — 4ª feira [SD 235]

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Traços biográficos do Beato Carlos, o Bom * Bom era o homem que queria o bem e que o fazia com força * Um homem dominado pela Fé, em que a Fé domina a razão, a razão domina a vontade, e todas as coisas correm como a Fé manda * Era um homem que possuía o conhecimento do que seja uma coisa admirável: a utilização da noite, a ciência do saber anoitecer * Zelo pelo santo nome de Deus * A recusa de cargos foi provavelmente inspiração da graça * O ódio dos maus contra os bons é cem vezes maior do que a justa cólera que os bons deveriam ter em relação aos maus

* Traços biográficos do Beato Carlos, o Bom

Festa, amanhã, do Bem-Aventurado Carlos, o Bom, mártir. Trecho extraído da “Vida dos Santos”, do Pe. Rohrbacher:

Carlos, cognominado o Bom, era filho de São Canuto, rei da Dinamarca. Órfão de pai com apenas cinco anos de idade, pela mãe, Adélia de Flandres, foi conduzido para a corte do avô, o conde de Flandres, que se fixava em Bruges.

Moço, foi armado cavaleiro, e, com um tio, Roberto, tomou parte numa das cruzadas contra os infiéis na Terra Santa.

Tomou parte na primeira Cruzada, que foi a que tomou Jerusalém.

De volta, coberto de glória, esperava-o o poder: um primo germânico, Balduíno, que sucedera ao conde de Flandres, legava-lhe o condado.

Homem que amava profundamente a justiça, (…) Carlos conquistou, num átimo, o apelido de o Bom.

Assistia o conde, todos os dias, à santa missa, e quando podia, às vésperas, na igreja de São Pedro de Gand. Tinha sempre, ao lado, três religiosos, doutores em teologia, que todas as noites, depois do jantar, lhe explicavam um ou dois capítulos da Bíblia, lições que ouvia com grande interesse e singular prazer. E tanto amava a Deus, que proibiu os súditos jurar pelo seu santo nome: quem o fizesse, estava sujeito a perder, conforme a maior ou menor gravidade do caso, uma das mãos ou o pé.

Justiceiro por excelência, era o terror dos maus, dos que oprimiam os pobres, extorquiam viúvas e perseguiam órfãos.

Quando o imperador romano desapareceu sem deixar herdeiros, cuidou-se de sua eleição, mas o conde que já se negara a aceitar o reinado de Jerusalém, declinou do cetro. (…)

Carlos, o Bom, foi morto por Burchard, um incitador de revoltas (…). Todas as manhãs, o conde ia ouvir missa numa capela da igreja de São Donaciano, pegada ao castelo. Burchard, sabedor daquele hábito, ali apareceu com cúmplices. Carlos, de joelhos, cantava em alta voz um salmo. O matador, cautamente, avançou para ele. Uma mulher, vendo-o puxar da espada, gritou: “Senhor conde, levanta-te e guarda-te!”.

Era tarde, porém, porque Burchard já lhe dirigira uma certeira e funda estocada ao pescoço, e os outros assassinos acabaram de matá-lo, furiosamente.

O corpo de Carlos, enterrado no mesmo lugar em que o trucidaram, foi, mais tarde, transferido — estava perfeitamente conservado — para a igreja de São Cristóvão.

O culto do bem-aventurado filho de São Canuto foi aprovado por Leão XIII, em 1882.

* Bom era o homem que queria o bem e que o fazia com força

É pena que estas vidas de santos, como os senhores já estão fartos de saber, raras vezes nos satisfazem inteiramente.

Aqui, um aspecto fundamental da vida do santo nos escapa: qual foi a razão que levou este Burchard a querer matar o santo? Evidentemente o Burchard sendo um homem ruim e o santo sendo um homem bom, foi um ódio a alguma virtude do santo que fez Burchard matá-lo.

De que maneira o santo manifestou esta virtude? No que é que tocou os interesses desse Burchard ou dos mandantes do assassino de Burchard, do assassino Burchard? Nós não sabemos nada

Este santo é qualificado aqui de mártir e a causa do martírio não aparece claramente. Mas, sem embargo desta lacuna, seria interessante fazermos alguns comentários de aspectos gerais da vida deste homem.

Os senhores precisam considerar antes de tudo que esta expressão Carlos, o Bom, a palavra “bom” não tem aqui o sentido que tem no português corrente, ou nas línguas ocidentais correntes de hoje em dia. Com o advento do sentimentalismo no século passado, e já antes, a palavra “bom” passou a designar quase exclusivamente a pessoa que dá esmola e que tem pena dos indivíduos que estão no infortúnio.

Isto, sem dúvida nenhuma, é uma forma de bondade. Mas não é a única forma de bondade e nem sequer a principal forma de bondade.

O que era o conceito de “bom” para aquela gente?

Bom era o homem que queria o bem e que o fazia com força. Para usar a expressão de hoje em dia, era um bom “para valer”. Uma vez que era para fazer a coisa, ele fazia e fazia de fato, era um homem forte no bem. Isto é o que chamavam o homem bom.

Fulano, o Bom, significava o indivíduo bem intencionado. Para usar uma expressão que se usa em São Paulo, e não sei se se usa aqui, “tem tutano”. O que ele quer, ele tem força de vontade, tem substância, ele faz mesmo. Se os senhores quiserem, poder-se-ia compor esta palavra com duas outras: é Carlos, o Justo, e ao mesmo tempo Carlos, o Forte. E realmente a justiça e a fortaleza são duas virtudes que nós vemos ao longo desta vida.

* Um homem dominado pela Fé, em que a Fé domina a razão, a razão domina a vontade, e todas as coisas correm como a Fé manda

Ele era filho do rei da Dinamarca. A Dinamarca era, naquela tempo, um reinado de segunda categoria. O rei da Dinamarca nem sequer tinha o direito do título de Majestade. Eles usavam o título de Alteza. O título de Majestade aos reis da Dinamarca foi só dado no século XVIII, por Luís XIV e por outros reis, por igualitarismo, começando a fazer os igualitarismos entre os reis. Era um rei semibárbaro, um rei caipira, porque a Dinamarca era uma espécie de um confim, de Patagônia do norte, um confim cheio de gelo onde a civilização tinha entrado, onde os costumes eram ainda muito bárbaros e onde havia muito mérito para este príncipe em ele se manifestar um homem de tanta virtude, porque eles recebiam quase que atavicamente, quase que nativamente um temperamento transbordante, um temperamento levado ao exagero, levado a violências.

O que esta biografia nos mostra é o contrário: é um homem dominado pela fé, em que a fé domina a razão, a razão domina a vontade e todas as coisas correm como a fé manda.

Os senhores vêem a vida dele.

Provavelmente não era o primogênito do rei, portanto não ia herdar o trono do rei. E ele foi se recolher ao castelo do avô materno, que era o conde de Flandres. O conde de Flandres era um homem muito mais importante do que o rei da Dinamarca. As Flandres eram uma parte riquíssima da Europa, uma parte muito desenvolvida, muito civilizada. O conde de Flandres tinha uma importância política enorme. E ele foi então para o condado de Flandres, onde ele se civilizou, onde ele se tornou um homem sem as rudezas de sua terra natal e onde ele começa sua atuação.

Primeiro lado bonito da atuação: ele se fez armar cavaleiro. Aquela noite de vigília de armas, dedicando toda sua vida à defesa da Santa Igreja Católica. E na coerência com o voto emitido, os senhores vêem que ele fez parte da Cruzada, e da primeira Cruzada, que foi a vitoriosa, a mais bonita de todas as Cruzadas, a Cruzada que tomou Jerusalém. Ele teve, portanto, a glória de fazer parte dos que sitiaram e conquistaram a cidade de Jerusalém, um dos mais belos feitos de armas de toda a História da Humanidade.

* Era um homem que possuía o conhecimento do que seja uma coisa admirável: a utilização da noite, a ciência do saber anoitecer

De volta, ele herda o trono de Flandres, o trono condal de Flandres, e se torna, portanto, um homem importantíssimo, um dos homens mais importantes da Europa. Aí começa a desenvolver sua atuação não mais como guerreiro, mas como governador. Como governador, assinala-se, antes de tudo, a piedade dele e o interesse dele pelas letras sagradas.

Os senhores estão vendo que ele era um homem superior. Ele não era destes homens sinárquicos, que viviam só para governar e para tocar para diante o Estado, mas era um homem que possuía o conhecimento do que seja uma coisa admirável: a utilização da noite, a ciência do saber anoitecer. Quando anoitecia, ele não queria mais saber das coisas do dia, ele não queria mais saber das coisas prosaicas do governo; ele pertencia a si mesmo, ele pertencia à sua própria alma, ele pertencia a Deus.

Ele tinha três religiosos — que pesadelo hoje a gente terminar a noite com três religiosos — da época em que os religiosos eram religiosos e os três liam para ele um trecho da Sagrada Escritura e faziam um comentário para ele.

Os senhores podem imaginar que coisa bonita. No castelo condal de Flandres, os fogos todos apagados, o conde colocado em seu quarto de dormir, que era em geral o quarto onde passava as últimas horas da noite, uma lareira acesa com um resto de fogo crepitando, a cama enorme do conde preparada, com um enorme dossel, com aquele cortinado sobre alguns degraus, o silêncio reinando no castelo, o silêncio reinando em todas as circunvizinhanças do castelo, de vez em quando apenas a voz da ronda assegurando que nenhum perigo noturno estava irrompendo e que se podia vigiar com cuidado, numa poltrona o conde, em alguns tamboretes os três teólogos, algum familiar, e os três teólogos lendo a Bíblia, em pesados livros grossos, e dizendo para ele o sentido de uma passagem. E os três teólogos discutindo entre si, ele discutindo, e as coisas do dia que ficam para o lado, e a gente cuida das coisas do Céu, cuida das coisas de Deus, de Nossa Senhora.

A noite é o momento em que a existência terrena oscula o Céu e quase que se confunde com o Céu, preparando o homem para o repouso e depois para o trabalho e a luta do dia seguinte.

Os senhores estão vendo que beleza de vida de castelo e que coisa diferente do que é uma noite atormentada e amaldiçoada de um pagão qualquer do século XX. Então, era este o lazer que ele dava às suas noites.

* Zelo pelo santo nome de Deus

O zelo dele pelo Santo Nome de Deus, não é? Quem blasfemasse contra o Santo Nome de Deus perdia, conforme o caso, uma mão ou um pé. Os senhores podem imaginar o susto. Tanto mais que naquele tempo não havia anestesia e a questão não é só ficar sem mão ou sem pé.

Os senhores sabem como é que se fazia para cortar uma mão, por exemplo, não é? Levantava a mão, amarrava numa coluna para evitar uma hemorragia e depois era a hora do serrote. Serrava e não havia nenhuma espécie de atadura nem nada. Aquilo fechava como era possível. Para evitar as infecções, havia a segunda parte da operação: aproximava-se um ferro em brasa e queimavam a parte cortada com ferro em brasa. Isso para evitar as infecções, e não sei se evita mesmo. Em todo caso, eu tenho a impressão de que uma infecção era melhor do que um tratamento destes.

Os senhores podem imaginar o susto que isto metia e depois a lição para a vida inteira, a lição para aquele homem. Quando ele quisesse usar a mão e não a tivesse: “Ah, é verdade! Eu mereci, pois falei contra o Santo Nome de Deus”. Começa a querer andar na rua, estava meio manco: “Eu mereci”. Os amigos olhando para ele: “Olha, ele mereceu isto da justiça do nosso santo conde, porque ele falou contra o Nome de Deus”.

Os senhores vêem o bem que uma coisa destas faz para a alma. Isto faz mais bem para a alma do que o ferro em brasa faz para a ligadura. Chia um pouco, dói. Para o liberalismo e para o sentimentalismo pode fazer algum mal. Mas no fundo, para a própria pessoa, é uma verdadeira bênção ter podido expiar na terra o mal que fez.

* A recusa de cargos foi provavelmente inspiração da graça

Também ele se manifestou muito favorável aos pobres, viúvas e órfãos, porque por um princípio de subsidiariedade, o poder supremo deve velar por aqueles que não têm nada. Então, por causa disto, ele velava por estes.

Por causa disto, ele foi convidado para ser imperador. Era a mais alta dignidade e ele recusou. Recusou como tinha recusado ser rei de Jerusalém.

Alguém poderia me perguntar: “Mas um santo não deveria, de preferência, aceitar? Não era mais normal que um santo galgasse os mais altos postos, para evitar que um ímpio tomasse o lugar e governasse?”.

Em princípio é verdade. Mas Deus tem seus caminhos para as almas e talvez destinasse outra pessoa para o cargo, ou quisesse que ele prosseguisse alguma obra no condado de Flandres. Não sei como é que a graça inspirou este santo no momento, mas sem dúvida era pretender uma vontade de Deus.

Na Idade Média, em que não havia heresia branca, eles entendiam bem que a pessoa devia galgar os altos postos. Houve o caso de um imperador — Santo Henrique, se não me engano — que foi procurar um abade e disse ao abade:

Meu pai, eu quero renunciar ao trono do Sacro Império Romano Alemão e fazer-me frade.

O abade disse para ele:

Meu filho, muito bem. Renuncie, fique frade e faça os votos. Mas você tem que fazer já.

Está bom.

Ele na mesma hora renunciou, fez os votos e fez-se frade. Quando ele ficou frade, o abade disse para ele:

Agora que o senhor é frade, em nome da santa obediência, vá tomar conta do império, que é o que convém fazer.

Era o que era entender bem as coisas.

* O ódio dos maus contra os bons é cem vezes maior do que a justa cólera que os bons deveriam ter em relação aos maus

Enfim, houve outros desígnios sobre ele, e ele continuou como conde de Flandres, em vez de ir para a direção do Sacro Império. Pouco depois, como os senhores viram ele foi morto de um modo brutal, com uma sanha de ódio tremenda.

Donde é que vem este ódio?

Não é aos senhores que vou ter que dizer. Os senhores experimentam todos os dias na própria pele o ódio dos maus contra os bons. É um ódio cem vezes maior do que a justa cólera que os bons deveriam ter em relação aos maus. A calúnia, a perseguição, a detração, as ciladas, o silêncio, tudo se emprega para deter o nosso apostolado. É claro que contra um santo o ódio teria que se levantar também.

Ele morreu e seu sangue se espargiu pelo chão. Mas, como se sabe, o sangue de mártires é semente dos cristãos. Com certeza este sangue subiu a Deus em odor de santidade, como o sangue de Abel, e muitos outros católicos fervorosos apareceram em conseqüência deste martírio. Depois de uma vida cheia de guerra, de governo, de oração e de meditação, veio uma morte cheia de méritos, a palma do martírio coroou a sua vida.

Quem sabe se é esta a vida que Nossa Senhora quer para muitos de nós. Luta, ação, direção, obediência e, ao fim, a palma do martírio durante a Bagarre ou, talvez, antes dela. Vamos pedir a Nossa Senhora que realize sobre nós os seus santos desígnios.

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