Santo do Dia – 28/2/1967 – p. 4 de 4

Santo do Dia — 28/2/1967 — 3ª-feira

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São Romão e São Licínio

Hoje, 28 de fevereiro, é festa de São Romão abade. A ficha biográfica é tirada de Daras, “Les Vies des Saints”.

São Romão, nascido em 399, na Borgonha, foi fundador de um famoso convento na região do Franco condado. Desde jovem retirou-se para a solidão, sendo mais tarde seguido por seu irmão, São Licínio. Conta-se que levavam uma vida que consideravam de paz e felicidade, quando o demônio resolveu interrompê-la. Cada vez que se punham de joelhos para rezar, o demônio fazer cair sobre eles uma chuva de pedras cortantes, que os feria e impediam de continuar. Ambos resistiram por algum tempo, mas vendo que nada conseguiam, decidiram abandonar o retiro. Ao chegarem a uma aldeia, foram hospedados por uma pobre mulher, que lhes perguntou de onde vinham. Não sem alguma vergonha, narraram toda a verdade.

Vós deveríeis, disse a mulher, lutar corajosamente contra o demônio e não temer os embustes e ódio daquele que tão freqüentemente foi vencido pelos amigos de Deus. Se ele ataca os homens, é por medo que eles, por suas virtudes, subam ao lugar de onde a perfídia diabólica os fez cair.

Ao saírem dessa casa, consideraram a sua fraqueza e quão pouco haviam combatido. Voltaram sobre seus passos e com orações e paciência venceram o inimigo.

Mais tarde, tendo já fundando numerosos mosteiros, os dois irmãos visitavam essas fundações com freqüência. São Licínio era severíssimo, não perdoando o menor deslize. São Romão, ao contrário, era bem mais misericordioso.

Aconteceu que São Licínio, visitando um convento na Alemanha, encontrou na cozinha excessiva quantidade de legumes e peixe. Escandalizado com aquilo, fez cozinhar tudo junto, para castigo dos monges. A comida saiu tão repugnante que doze religiosos deixaram a casa, não suportando a penitência. São Romão teve uma visão sobre esse acontecimento, e quando Licínio voltou, disse-lhe:

Meu irmão, é melhor não visitar as ovelhas do que ir vê-las para dispersá-las.

Resposta de São Licínio:

Não tenhais pena, meu caro irmão. Não é preciso purificar o campo do Senhor e separar a palha do bom grão? Os que foram eram doze orgulhosos em quem o Senhor não mais habitava.

São Romão concordou. Mas daí em diante chorava tão profundamente, magoado com a partida dos monges, que Deus, atendendo suas preces, reconduziu mais tarde os doze recalcitrantes ao Convento. A ele se apresentaram voluntariamente para fazer penitência.

Aqui há uma série de fatos interessantes para considerar, e cada um deles, portanto, vai ter um comentário à parte. Em primeiro lugar, mais uma vez nós nos encontramos em face desses santos, dessa admirável floração de santos depois da queda do Império Romano do Ocidente, e os senhores vêem aí mais uma vez — ontem nós vimos três, não me lembro se quatro, irmãos santos — agora nós vemos dois irmãos santos, e que levam uma vida da maior santidade. E aparece esse episódio, que é um episódio digno de fioretti, dos dois irmãos santos, vivendo no ermo, sem amolação nenhuma, sem ter que ouvir de ruído de [DKW?], sem ouvir falar de Fontanelle, sem ver nada das coisas da Revolução, nem da cidade, nem do mundo, numa natureza amena, bucólica, vivendo felizes.

Então nós podemos imaginar, nas horas de oração, os irmãos ajoelhados bem direitinho, um ao lado do outro — assim é que os representaria uma iluminura — e rezando a Nossa Senhora aparecendo no alto e sorrindo para eles. Então isso é o primeiro ato. É o ato da felicidade eremítica e bucólica desses dois irmãos que vivem num céu, numa atmosfera terrena, encimada por um céu parecido com aquele ar diáfano daqueles céus azuis de Fra Angélico. Fra Angélico poderia perfeitamente ter pintado essa cena. Agora, vem depois a provação. E é o demônio então, que tem ódio deles e o modo de castigá-los também é um modo fioretti, também muito interessante: é a chuva de pedras, de pedras cortantes. Eles, tão bonzinhos, tão direitinhos, vem uma chuva medonha de pedras cortantes e molesta a eles. Eles então procuram rezar direito, mas afinal de contas as pedras são muito sérias, eles resolvem sair.

Então vem, afinal de contas, uma mulher que é, naturalmente, uma boa mulher, que habita no campo, numa choupana, que perdeu os filhos, que perdeu o marido, que tem um filho que é monge, longe, num outro lugar, e de quem apenas, de vez em quando, recebe uma carta, e que vive só para Deus. Com uma perna inchada, doente, reumática, mas que reza o tempo inteiro. Assim que a gente pode imaginar a mulher; esse é que era o ambiente “fioretesco” da época, que é o modo pelo qual a graça operava na época, o estilo da ação de Deus na época. Não é lenda. É o estilo da ação de Deus na época. Bem, então a mulher — mulher provada em dores e cheia de sabedoria — recebe os dois. Naturalmente, primeiro oferece a eles alguma coisa para comer. Ajuda a curar alguma ferida das pedras. Depois pergunta o que é que há. Fora está chovendo torrencialmente, eles estão abrigados na casinha da mulher, então contam para a mulher o que há. A mulher depois suspira, põe os olhos num Crucifixo e diz: “Irmãos, mui errados andais.” Está compreendendo? E diz a verdade. A gente vê a eles compungidos. Passam a noite em prece, na manhã seguinte voltam para o ermo e vão lutar contra o demônio. São dois cavaleiros contra o demônio, dois guerreiros contra o demônio, que emergem dessa atmosfera azul clara, rosa claro, ouro rutilante, e que a partir desse momento se transformam em lutadores varonis. É a formação deles que assim se enuncia.

Bem, depois eles tornam então, eles nos aparecem na ficha — saltam-se vários anéis intermediários — eles não nos aparecem numa posição pomposa, majestosa. Eles são dois santos veneráveis, cuja fama de santidade reuniu em torno deles vários conventos que obedecem a eles. Eles são patriarcas, provavelmente já de barba branca, mais sábios do que aquela mulher, mais provados na vida do que aquela mulher, que derrotaram os demônios, que enfrentaram os adversários, que fizeram viagens perigosas passando por lugares onde haviam feras, pontes mal construídas, bandidos, tempestades: tudo enfrentaram por causa de Deus Nosso Senhor. Eles estão no zênite da vida deles, Mas mais uma vez um episódio entre eles se dará. E nós hoje, conversando com o Gonzalo Larrain, falávamos a respeito disso. Há uma certa medida de severidade e uma certa medida de brandura que depende — e é o que nós sustentamos no livro “Em defesa da Ação Católica” —, deve ser utilizada de acordo com o sopro da graça e com o modo pelo qual Deus Nosso Senhor quer conduzir os espíritos. Há certos espíritos aos quais a severidade suma faz muito bem. Há certos espíritos que só sabem fazer bem por meio da severidade suma, e fazem um bem admirável. Há outros espíritos que, dentro da medida do razoável, quase que se diria que estão no extremo oposto: são muito brandos, muito suaves, e fazem bem pela sua brandura e suavidade. Uns imitam mais Nosso Senhor enquanto expulsava os fariseus do Templo; outros imitam mais Nosso Senhor enquanto Nosso Senhor perdoava Santa Maria Madalena.

Bem, de qualquer forma, ei-los que começam a governar esses mosteiros. E um deles, o não Romão — o não Romão chamava-se, como é? Licínio, São Licínio, muito severo, muito duro, vai ao mosteiro e faz o que todos os instintos de minha alma me pediriam para fazer se estivesse em situação análoga:“Isso aqui não está direito? Está bem, eu vou ensinar.” E não fosse em atenção a mil debilidades da geração nova, a coisa andava assim. “Eu vou ensinar. Vocês vão comer o que vocês compraram e não deveria ter. Esses peixes e esses legumes, e quem não comer é porque não presta, e a porta da casa, porta da rua é serventia da casa.” Quer dizer, eu agiria de mim por mim a la São Licínio cor carregada. Toda a minha alma vai para aí, a tal ponto vai para aí que quando eu falo, começo a me entusiasmar até. É reto, é rápido, não faz a gente perder tempo, resolve as coisas diretamente e resolve mesmo. Erradica e põe fora. Está acabado.

Bem, ele vai e faz isso. Mas exatamente a Igreja é multíplice, e São Romão tinha o espírito diverso. Bom, São Romão começa a lamentar o que fez São Licínio. Agora, vejam a sutileza do fato, o conteúdo teológico interessantíssimo do fato: São Romão começa a lamentar o que fez São Licínio e faz uma censura a São Licínio. São Licínio dá uma resposta a la São Licínio, esplêndida, ele explicou tudo. São Romão deu um suspiro e concordou, teve boa fé. Isso é verdade. Ele não negou. Isso é verdade.

Mas a Providência aqui quis que a misericórdia não saísse derrotada. E onde São Licínio tinha feito bem em expulsar, São Romão fez bem pedir que voltasse. Ele se pôs a chorar. E a gente vê então o velho, com as barbas brancas, atitude enternecida, pensando naquelas almas, as lágrimas cristalinas de olhos cristalinos, que correm ao longo de uma face alva e emaciada, e chegam a cair no chão, e que enternecem o Anjo da Guarda, e que encontram eco diante de Nossa Senhora, a qual, por sua vez, tem sempre eco diante de Deus. E Nossa Senhora pede. E o resultado: o pessoal que São Licínio com tão boa vassoura varrera, volta. Mas não volta como ele tinha varrido. Volta emendado por uma ação excepcional da graça, uma ação que está para além das vias normais da graça: que não é o corretivo de São Licínio, mas é uma bela superação de São Licínio. A graça conseguiu a conversão daqueles que a Justiça, a tão bom título e tão oportunamente, tinha castigado. “Iustitia et pax osculatae sunt”, diz o Salmo. A justiça e a paz se oscularam. Aqui se poderia dizer que a justiça e a misericórdia se oscularam. E termina assim, num encantador happy end, essa ficha do dia de hoje.

São Romão nos consiga um pouco dessa candura de alma: no interior de nossa alma, um pouco desse rosa claro, desse verde, desse fioretti que é tão extraordinariamente agradável para a gente carregar a virtude. E que nós [tenhamos] compreensão dos métodos de São Licínio, e não apenas a ternura para com os métodos de São Romão. Que ambos nos façam parecidos com eles. Que São Licínio nos dê toda sua braveza, e São Romão nos dê sua doçura com sua força de oração. Porque sem sua força de oração, não tinha nada que fazer com sua doçura.