Santo do Dia – 25/2/1967 – Sábado [SD 131] . 4 de 4

Santo do Dia — 25/2/1967 — Sábado [SD 131]

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Descrição de Ário, o heresiarca * Naquele tempo, os hereges tomavam ares de ultramontanos * Ário, um hipócrita com bom aspecto, afável, amável, atencioso, que se contrapunha a Santo Alexandre, o qual provavelmente não possuía esses atrativos * Uma luta entre o santo autêntico que não tem aparências de santidade contra o falso santo que as tem * Não temos as aparências de santos como certas pessoas do mundo os imagina, pois andamos com o passo duro, porte ereto e temos coerência e princípios

Neste dia, em 1552, foi criada pela Bula Super Speculum a primeira Diocese do Brasil, a de São Salvador, na Bahia, sendo seu primeiro bispo D. Pero Fernandes Sardinha.

Santo Alexandre, bispo e confessor. Em Godescard, na “Vie de Saints” e em Rohrbacher, a “Vida dos Santos”, há alguns dados sobre este santo, que a ficha reproduz aqui.

* Descrição de Ário, o heresiarca

Santo Alexandre, que assumiu o patriarcado de Alexandria em 313, foi discípulo do grande São Pedro Mártir, tendo ouvido na prisão os conselhos desse santo bispo aos seus sucessores, contra o diácono Ário. A luta que então Santo Alexandre vai empreender contra esse heresiarca será sem tréguas, preparando o caminho para Santo Atanásio.

Ário era um varão de corpo avantajado, aspecto imponente e grave, que inspirava respeito. O seu trato afável e gracioso, a sua conversação doce e agradável atraíam a confiança. Costumes austeros, ar penitente, zelo evidente pelo religião, raro pendor para a dialética, conhecimentos bastante extensos nas ciências profanas eclesiásticas, mas sem muita consistência nem profundidade, tudo isto encobria um fundo de melancolia, inquietação, ambição e um gosto secreto de novidades. Ao ser ordenado sacerdote e encarregado do ensino público das sagradas letras, não coube em si de vaidade, chamando-se a si mesmo de ilustre.

Pretendendo o episcopado após a morte de Santo Aquilas, bispo de Alexandria, Ário não pôde suportar a escolha de Santo Alexandre e tornou-se seu inimigo mortal. Começou por esta época a difundir sua doutrina e a angariar adeptos. Santo Alexandre, preocupado com a difusão do erro e não conseguindo persuadir Ário, conseguiu que fosse excomungado solenemente pelo clero de Alexandria. O herege retirou-se para a Palestina, obteve o apoio de alguns bispos, especial de Eusébio de Nicomédia, e iniciou uma campanha de intrigas contra seus adversários. Reuniu-se, então, o Concílio de Nicéia para pôr fim à questão, elaborando o Símbolo de Nicéia, e condenando-se as doutrinas arianas. Nessa famosa reunião destaca-se sobremodo o secretário de Santo Alexandre, Santo Atanásio, então diácono.

O santo patriarca, ao morrer, previu o futuro de seu auxiliar. Chamou-o várias vezes, mas o santo fugira, entrevendo talvez o que lhe ia suceder. Mas o enérgico bispo acrescentou profeticamente: “Atanásio, cuidas haver escapado mediante a fuga, mas não escaparás”. E entregou a alma ao Senhor, cuja Igreja servira com dedicação e heroísmo durante toda a sua vida.

* Naquele tempo, os hereges tomavam ares de ultramontanos

Chama-me a atenção nesta ficha o seguinte: a descrição muito bem feita do heresiarca Ário, e um silêncio a respeito de Santo Alexandre. Tratando-se, embora, de uma vida de Santo Alexandre, não se fala dele, mas se dá a descrição do heresiarca.

A descrição do heresiarca é muito bem feita, porque todos os traços biográficos que nela se encontram são coerentes entre si e formam um tipo perfeito e acabado do hipócrita. Do hipócrita que procura representar como na época as pessoas gostavam que fosse um bispo piedoso. Hoje se gosta de um bispo “motociclizado” e o princípio que vale é aquele que estava algum tempo atrás no pára-vento da Igreja do Coração de Jesus: “Um padre motorizado vale por dois.” Então, naturalmente, um padre que tenha dois automóveis, vale por quatro, e um padre que tenha avião vale por um bispo. E é a época que o tipo do bispo moderno, que as pessoas modernas gostam, é o tipo D. Jorge Marcos, que tem uma Kharman Ghia, etc.

Naquele tempo o mundo estava menos degradado e em vez dos hereges tomarem ares de comunista, os hereges tomavam ares de ultramontano. Então, os senhores vêem o aspecto contra-revolucionário do homem. A descrição bem feita:

Ário era um varão de porte avantajado, aspecto imponente e grave que inspirava respeito.

* Ário, um hipócrita com bom aspecto, afável, amável, atencioso, que se contrapunha a Santo Alexandre, o qual provavelmente não possuía esses atrativos

Precisamos nos lembrar que ele era um oriental, quer dizer, tipos grandes, com cara desses padres cismáticos, vigorosos, barbado, com aquele chapéu duro. Um jeito, entretanto, afável, amável, atencioso, conhecendo as ciências sagradas, mas no fundo fervendo de ambições e de desmandos, a ponto de que, quando ele conseguiu uma cátedra, ele começou a si próprio a se chamar de “ilustre”.

Aqui está o hipócrita, na era em que o bem ainda tem alguma força. O hipócrita, na era em que o bem tem força, procura fazer-se bem. Na era em que o mal tem força, o hipócrita deixa manifestar sua cara de mau e até, às vezes, chega a fingir-se de pior do que é, para obter popularidade e simpatia. É uma outra forma de hipocrisia. Uma hipocrisia pior, porque indivíduo que se finge de mau é sempre mais censurável que o indivíduo que se finge de bom.

O lado difícil é a tarefa de Santo Alexandre. Os senhores estão vendo que Santo Alexandre provavelmente não tinha esse físico, não tinha essas aparências atraentes e agradáveis. Deveria ser um homem completamente sem as aparências de um verdadeiro santo, e o Ário deveria ter as aparências de um santo. E os senhores encontram aí tantas vezes esse entrechoque, que vai se dar também por ocasião do Anticristo.

* Uma luta entre o santo autêntico que não tem aparências de santidade contra o falso santo que as tem

O entrechoque é este: o que é bom não parece santo, o que parece santo não presta. Uma luta do santo autêntico, sem as aparências da santidade, contra o falso santo com todas as aparências da santidade. Então, uma luta dura, uma luta renhida.

Vê-se que Santo Alexandre teve que lutar duramente contra Ário para acabar expulsando-o de Constantinopla. Assim mesmo, Ário tentou voltar para esta cidade, acabou sendo eleito arcebispo de Constantinopla e morreu no cortejo da posse, como sabemos, de um modo ignominioso, estourando seu abdômen, deitando vermes de todo lado, com um cheiro horroroso.

Enquanto Ário era assim e Santo Alexandre era outro, vemos também aí toda uma linhagem de santos.

Santo Alexandre fora antecedido por Santo Aquilas, e tem como secretário Santo Atanásio. O grande Santo Atanásio era de tal maneira anti-ariano e de tal maneira isolado na luta contra o arianismo, que se diria que em determinado momento, no mundo inteiro, o anti-arianismo era só ele. Ele chegou a ficar tão isolado e perseguido, que durante algum tempo ele morava na sepultura dos pais dele, no meio dos mortos, oculto para ver se os perseguidores não o pegavam.

Percebemos, então, uma espécie de ligação ascendente: Santo Alexandre, que forma um santo melhor ainda do que ele, mais terrível contra o arianismo, e este santo quebra o arianismo, porque Santo Atanásio quebrou o arianismo.

Os senhores vêem a Providência preparando, portanto, uma espécie de genealogia de santos no sólio de Alexandria, que haveria de acabar brilhando com o brilho incomparável de Santo Atanásio, preparando a vitória da Igreja.

São esses movimentos da Providência que têm uma beleza arquitetônica extraordinária e que constituem, no fundo, a verdadeira beleza da História: como Deus faz nascer um santo do outro, como Deu faz nascer uma reação boa da outra, como Ele permite que às vezes seus fiéis pareçam esmagados, mas no fundo, pelos rogos de Nossa Senhora, os bons acabam triunfando.

* Não temos as aparências de santos como certas pessoas do mundo os imagina, pois andamos com o passo duro, porte ereto e temos coerência e princípios

Temos, então, diante de nós um quadro que não deixa de lembrar a Igreja de hoje em dia. No sentido de que se nós hoje fizéssemos coisas que nos fizessem ter por santos, talvez tivéssemos uma situação mais cômoda.

Imaginem os senhores que fôssemos capaz de fazer algum milagre. Imaginem que amanhã se pudesse dizer que na sede da TFP de tal lugar assim caiu uma trave na cabeça de um rapaz e a decepou, que o chefe do grupo chegou, colou a cabeça de novo e o rapaz saiu andando.

Isso era um prestígio, uma influência, todo mundo ia pedir para o rapaz curar gente. Se o rapaz curasse gente, todo mundo que é cliente do Arigó começava a ficar ultramontano, porque tinha qualquer erisipela, qualquer coisa para curar.

Na aparência, seria bom para nós; na realidade não nos adiantaria de nada.

Nossa Senhora nos dá meios modestos. Nós não fazemos milagres, nós não impressionamos as beatas da Igreja pela nossa piedade. Pelo contrário, elas julgam que somos orgulhosos, porque somos afirmativos, que andamos com passo duro, com porte ereto, porque temos coerência, porque temos princípios. Do outro lado, que imensa série de prestígios existe … [inaudível].

Mas não devemos nos preocupar. Devemos tocar para frente, confiantes em Nossa Senhora. Ela fará germinar nesse apostolado fatores necessários para implantar o Reino d’Ela.

É a lição que a ficha biográfica da noite de hoje nos dá.

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