Santo
do Dia (Rua Pará) – 18/2/1967 – Sábado [SD
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Santo do Dia (Rua Pará) — 18/2/1967 — Sábado [SD 233]
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Traços biográficos de Fra Angélico * Toda forma de ordem, toda forma de beleza, toda forma de virtude que existe num plano, é suscetível de ser revertida num outro plano * Se a Idade Média não tivesse sido trucidada prematuramente, teríamos tido angélicos em todos os terrenos * O que há de melhor na obra de Fra Angélico é a virtude da sabedoria, por onde o homem apetece a profunda harmonia interior das coisas * Harmonia monárquica, que se encaixa num ponto supremo da criação: em Nossa Senhora, na ordem meramente criada e, sobretudo, na Humanidade Santíssima de Nosso Senhor * No Reino de Maria o que veremos será algo que faça pensar na Face de Nosso Senhor e de Nossa Senhora
Bem-Aventurado João de Fiesole, chamado Beato Angélico, confessor, a mais alta expressão da piedade e do bom espírito na pintura. Pintor exímio de Nossa Senhora, século XIII, ou melhor, século XV.
Neste dia, em 1649, deu-se no monte dos Guararapes a segunda grande vitória dos insurretos pernambucanos sobre os hereges flamengos, graças à proteção da Virgem que lhes deu … [inaudível]… ardor e fê-los derrotar o exército herético duas vezes maior.
* Traços biográficos de Fra Angélico
Aqui, traços biográficos do Bem-Aventurado Angélico:
Guidorino Pietro nasceu por volta de 1387, em Florença. Aos 20 anos, tendo ouvido numa noite de Natal um sermão do grande dominicano Fra Giovanni, decidiu ingressar entre os pregadores, tendo sido admitido como noviço no convento de São Domenico, de Fiesole. O jovem já demonstrava grande aptidão artística, mas julgou dever sacrificá-la a Deus. Seus irmão de hábito dissuadiram-no da idéia, encorajando-o a desenvolver seus dons. Para isso, o prior ordenou logo que ornasse os livros de horas da biblioteca conventual.
Sua vida, inicialmente tranqüila, foi alterada cerca de três vezes por mudanças de convento. Na primeira ocasião por motivo do Cisma do Ocidente, pois o superior de Fiesole, o beato Jean Dominici não aceitava o papa que a república de Florença admitira. Essas mudanças, contudo, contribuíram para o enriquecimento espiritual e artístico de Fra Giovanni, principalmente o período passado em Foligno, perto de Assis, que o santo frade visitava com freqüência.
Como bom dominicano, tinha um grande entusiasmo pela obra de São Tomás de Aquino. Conhecia perfeitamente esta obra, com ela nutria sua piedade e sobre ela, inconscientemente, lançava os fundamentos de sua obra futura. Era a “Suma Teologia” que descobrira sua nova razão de viver e seu ideal estético.
“É preciso três dons para a beleza, dizia Santo Tomás. Em primeiro lugar, a integridade e a perfeição, pois as coisas inacabadas como tais são deformadas. Depois, é preciso uma proporção de harmonias entre as partes. Enfim, a clareza e o esplendor. Consideramos como belas as coisas de cores claras e brilhantes”.
E Fra Giovanni fez desta lei seu regra de ouro. Em 1418, os dominicanos de Fiesole voltaram ao seu convento e o santo frade entregava-se agora, cheio de satisfação, à sua arte. Sua primeira grande obra foi um quadro destinado à cartuxa de Florença. Seguem-se outras, cada vez mais numerosas. Os monges estão cheios de admiração. Fra Giovanni não pinta, ele reza, diz um deles. Sua arte com efeito era cântico, prece. Jamais tomava seus pincéis sem invocar o Todo Poderoso e é em estado de graça que ele colocava seus anjos nos jardins floridos do céu. Seu anjos eram tão belos e tão puros, que sua música se difundia em notas cristalinas sobre as arcadas do convento, enquanto ele lhes dava vida.
Era então que, de tempos em tempos, um velho frade abria a porta da cela do pintor, olhava maravilhado e voltava sem ruído, escondido em seu capuz. Foi esse admirador secreto e esquecido que lhe deu o nome de glória: o de Angélico. Um único religioso, antes dele, fora digno de usá-lo: São Tomás, seu guia e mestre.
A partir desse dia, Fra Angélico só teve um cuidado na terra: merecer o epíteto divino e tornar-se o Santo Tomás da pintura.
Em 1435, Fra Angélico foi encarregado de pintar os afrescos do velho convento de São Marcos, em Firenze. Entregou-se de corpo e alma ao trabalho e, todos os dias, antes da aurora, um espetáculo tornou-se familiar aos monges de São Marcos. De pé, sobre o andaime que o fazia tocar no teto da estreita cela, um curioso penitente recitava seu rosário: Fra Angélico rezava antes de começar a pintura. Ajoelhados no solo, dois jovens monges imploravam também. Três pobres lâmpadas a óleo iluminava a casa, fazendo tremer as sombras e brilhar as tonsuras. Depois, o pincel do Angélico, que se dizia feito com cabelos de anjos, começava a correr e a colorir. Seu azul era inigualável. “Pinto como o céu do Paraíso”, costumava dizer sorrindo.
Fra Giovanni obteve em Roma a estima e a amizade do Santo Padre. Um dia, este o julgou digno do arcebispado de Florença, que estava vago. Mas o Angélico suplicou ao papa que designasse em seu lugar um dos irmão de sua Ordem, seu amigo, religioso cheio de ciência e humildade. E foi assim que Fra Angélico nomeou um arcebispo que seria canonizado cem anos mais tarde, Santo Antônio, que combateu tenazmente a Renascença.
O humilde religioso, que se tornara um dos artistas mais célebres de seu tempo, ainda estava em Roma quando a última doença veio surpreendê-lo no convento das frades pregadores de Santa Maria Sopraminerva. À tarde do dia 18 de fevereiro de 1485, o mosteiro estava envolto por um silêncio cortante. Cada religioso esperava, seja em sua cela, seja no coro, o instante em que o sino seria para anunciar o último suspiro de Fra Angélico. Às 8 horas, o breve e doloroso sinal tocou. Em alguns minutos, a cela e o corredor encheram-se de monges ajoelhados. A melodia da Salve Regina elevou-se no silêncio, enquanto o rosto de Fra Giovanni se iluminava com um calmo sorriso.
A lenda conta que neste momento uma lágrima deslizou sobre a face de todos os anjos de seus quadros, esses anjos que ele pintou, sem saber que trariam a auréola de seu inimitável gênio de sua santidade.
* Toda forma de ordem, toda forma de beleza, toda forma de virtude que existe num plano, é suscetível de ser revertida num outro plano
É uma lindíssima ficha biográfica, porque é uma lindíssima biografia, tornando-se difícil até selecionar algum aspecto para fazer um comentário desta vida.
Antes de tudo, é bonito notar um dos princípios da civilização católica que aqui se afirma, e é o princípio da reversibilidade dos planos.
Toda forma de ordem, toda forma de beleza, toda forma de virtude que existe num plano, é suscetível de ser revertida num outro plano. Por causa disso, houve um Tomás de Aquino na ordem da filosofia e da metafísica, deve haver um Tomás de Aquino na ordem da pintura, como deve haver um outro na ordem de música e em todas as outras ordens. Isto por causa de um princípio, que é o princípio monárquico do universo de que todos os talentos devem se reduzir ou sublimar em um talento supremo, que todas as obras devem encontrar seu ponto de encaixe em uma obra suprema, e que, portanto, deve haver supremos em todas as ordens e direções. E supremos cuja supremacia obedece aos mesmos princípios porque são princípios que estão na ordem do ser.
O ser enquanto ser tem propriedades. Este ser enquanto ser obedece a certas regras que não são senão um desdobramento dos princípios que lhe são inerentes. Por causa disso, a regra da pintura, a regra da música, a regra da arte, a regra de dirigir os povos, enfim, tudo o mais, é a aplicação dos mesmos princípios gerais a vários campos diferentes. De maneira tal que tendo nós supra-sumo de homens em cada campo, manobrando as mesmas regras conhecidas até o fundo e assimiladas à sua personalidade, manobrando isto em seu respectivo campo, temos então que toda a vida humana forma uma harmonia maravilhosa, em que os mesmos princípios fundamentais se revertem e se explicam uns pelos outros, e forma aquela totalidade que, com certeza, formará o Reino de Maria.
Quando se entra numa catedral, ver-se-à a catedral que é a expressão da ordem política, econômica e social vigentes. Quando se entra nessa catedral, ouvir-se-à uma música que é a melodização da catedral e a melodização da ordem política, econômica e social, que vigia então. Quando se desenrolar a liturgia, esta terá a pompa que torna extrínseca a ordem inteira da Igreja Católica. Mas como a ordem temporal verdadeira não é senão uma projeção, na ordem inferior própria, dos princípios da ordem superior espiritual da Igreja Católica, então isso por sua vez vai produzir outra harmonia.
Então o homem viverá inundado de harmonias e não inundado de contradições berrantes. De harmonia que foram uma espécie de imensa sinfonia de harmonia, cujo ponto de unidade nos fala continuamente de Deus.
* Se a Idade Média não tivesse sido trucidada prematuramente, teríamos tido angélicos em todos os terrenos
Temos aqui São Tomás de Aquino e o Beato Angélico. A ficha observa muito bem, um e outro chamado Angélicos: o Doutor Angélico, o pintor Angélico. Se pelo mais negro crime da História, depois da traição de Judas, a Idade Média não tivesse sido trucidada prematuramente, teríamos tido esse angélico em vários terrenos.
Tivemos o guerreiro angélico com São Luís e São Fernando de Castela. Tivemos o estadista angélico. Teríamos uma ordem angélica, coerente, luminosa, sobrenatural, profundamente lógica, que seria então a ordem do mundo, a ordem da Civilização Cristã e da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Daí uma ordem mais própria para anjos do que para homens e que encaminharia os homens para o Paraíso.
* O que há de melhor na obra de Fra Angélico é a virtude da sabedoria, por onde o homem apetece a profunda harmonia interior das coisas
Que há por detrás disso?
Há algo que é preciso mencionar, que não diz respeito diretamente à obra de Fra Angélico, mas diz respeito a algo do qual a obra de Fra Angélico é uma fulguração. E o que há de melhor na obra de Fra Angélico é isso que vou dizer agora, como também na obra de São Tomás de Aquino: é a virtude da sabedoria por onde o homem apetece, como supremo bem, já nesta existência, essa coerência, muito mais do que Coca-Cola, do que geladeira, do que máquinas para fazer asneiras.
Muito mais do que tudo isso, o homem apetece essa profunda harmonia interior das coisas. Primeiro, porque sua natureza encontra sua plena expansão nessa harmonia. Mas, segundo, razão mais alta, porque essa harmonia, no fundo, diz algo, diz uma palavra inefável, uma palavra total, que é o melhor símbolo de Deus.
Deus se simboliza nesta harmonia de todas as coisas. E quem ama essa harmonia de todas as coisas, ama o símbolo de Deus, ou seja, ama o próprio Deus.
É um pouco como quem olhando para nosso leão, ama o Grupo. Não este, pois este é um leão um pouco primitivo, correspondendo aos albores de nossa pré-história, este é um estandarte de velhas lutas, mas o leão de baixo, o leão do Lisio. Aquele leão nos exprime. E quem ama aquele leão, ama algo da alma que é uma das facetas características nossas, sem as quais nós não seríamos nós.
Assim como um leão pode exprimir um movimento, a fortiori o universo inteiro pode exprimir Deus Nosso Senhor. E nesta suprema harmonia há exatamente uma expressão de Deus, que não é a visão beatífica, mas é um antegozo da visão beatífica. E quem ama isto, fica com a alma preparada para amar a visão beatífica.
* Harmonia monárquica, que se encaixa num ponto supremo da criação: em Nossa Senhora, na ordem meramente criada e, sobretudo, na Humanidade Santíssima de Nosso Senhor
Não pensem que essa harmonia é uma harmonia assim esférica, igualitária. É uma harmonia monárquica, uma harmonia que tem seu ponto central no sublime, no mais alto, que se encaixa num ponto supremo da ordem criada, do qual depois todas as harmonias derivam.
Qual é essa harmonia? No que é que melhor se manifestou isso?
Na ordem meramente criada, em Nossa Senhora. Entre as meras criaturas, Ela não é somente a mais perfeita. Dentro dessa concepção que estamos vendo aqui no momento, o mais perfeito não é apenas o primus inter pares, mas é aquele que contém em si a perfeição de todos os outros perfeitos que estão em baixo, são por ele capituladas, compendiadas e contidas. Nossa Senhora tinha em si todas as formas e todos os graus de perfeição de toda as meras criaturas, compendiadas nEla e nEla elevadas a um grau de sublimidade que não tinha paralelo com nenhuma outra criatura.
Ela não era, portanto, a síntese de tudo aquilo, mas era a síntese posta num estado de sublimidade que deixava fora de qualquer paralelo todas as coisas que vinham em baixo. Quer dizer, entre Ela e nós não há um abismo, mas uma série insondável de abismos insondáveis, de tal maneira Ela é mais perfeita do que tudo isto junto.
Nosso Senhor Jesus Cristo, em sua Humanidade Santíssima, era mais do que Ela. Aliás, ainda hoje estive lendo as revelações de Maria de Agreda a respeito desse assunto e são tocantes. Ela diz que Nossa Senhora era sumamente parecida com Nosso Senhor, ou por outra, Nosso Senhor era sumamente parecido com Nossa Senhora, e era a perfeita transposição para um semblante feminino daquilo que era o semblante masculino de Nosso Senhor Jesus Cristo. Então a perfeição de todas as perfeições tinha que ser por força — como comentávamos durante o carnaval— a Sagrada Face de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Por quê? Pelo olhar e pela fisionomia mais espelhava todas as formas e graus de perfeição de alma possíveis no homem, mais algo de Divino, portanto, algo de inefável. Por outro lado, Nosso Senhor Jesus Cristo, sendo perfeito, o que Ele deveria ter de mais perfeito era a face, que era a condensação de todas as perfeições do corpo.
E eu estou certo de que se alguém conseguisse conhecer essa face como era, não depois de um tal ou qual desfiguramento da tortura da paixão, mas com ela era mesmo, compreenderia que as proporções dos traços dessa face tinha que conter as regras de harmonias do universo. Estudando-se a Sagrada Face, tinha-se que conseguir conhecer toda beleza do universo; decifrava-se a beleza do universo e a ordem do universo pelas proporções da Sagrada Face.
Da beleza e também de outra coisa que os homens tão raramente encontram unida à beleza: a graça. Muitas vezes encontram-se formas de beleza, mas em geral dissociadas da graça. Graça aqui é charme, encanto. Muitas vezes se encontram formas de encanto, mas dissociadas da verdadeira beleza.
O que Ele tinha como encanto, como atração… o encanto que ia desde a majestade mais empolgante e mais incapaz de ser fitada por nós, até a graça graciosa e atraente, mais meiga, mais afável, mais capaz de se fazer pequena e nos acariciar, tudo isto junto era uma atração e um charme por detrás da beleza perfeita, com a expressão de uma inteligência infinita e de uma santidade transcendente que nos faria ter a idéia do que seria a fisionomia d’Ele.
* No Reino de Maria o que veremos será algo que faça pensar na Face de Nosso Senhor e de Nossa Senhora
No fundo, o que Santo Tomás viu, a respeito do que ele meditou; no fundo, o que o Beato Angélico viu e que ele cantou para a sua vida inteira; no fundo é que no Reino de Maria se verá. Ver-se-à através de todas essa harmonias algo que nos faça pensar na face imaculada, sacratíssima, régia, maternal e meiguíssima de Nossa Senhora, e na face para a qual não há palavras, em que cessam os adjetivos, em que tudo é silêncio e adoração reverente a Face de Nosso Senhor Jesus Cristo.
É compreendendo essas harmonias que a gente se prepara para compreender a Sagrada Face, se prepara para a visão beatífica por toda a eternidade.
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