Santo
do Dia (Rua Pará) – 30/1/1967 – 2ª feira [SD
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Santo do Dia (Rua Pará) — 30/1/1967 — 2ª feira [SD 269]
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A austeridade ocupou um papel saliente na educação que D. Bosco recebeu de sua mãe * Para D. Bosco a ação intelectual valia mais do que a ação assistencial * Exemplos de continuidade das Ordens Religiosas: dificuldades encontradas por D. Bosco em seu tempo e pelos salesianos no tempo do Getúlio * A confissão e comunhão freqüentas era o segredo da disciplina dos alunos salesianos * Preconceito dos ingleses contra o mundo latino: “a África começa no Canal da Mancha” * Hoje tudo mudou: os salesianos, os ministros e a própria Rainha da Inglaterra
Nós temos amanhã, dia 31 de janeiro, festa de São João Bosco, confessor. Nós temos uma ficha dele, tirada de Breck “As idéias pedagógicas de D. Bosco”.
* A austeridade ocupou um papel saliente na educação que D. Bosco recebeu de sua mãe
É indiscutível que a personalidade da mãe de D. Bosco influiu em sua formação. Essa mulher, viúva aos 29 anos, marcou profundamente a alma de seus três filhos. Era pouco instruída, mas dotada de raro bom senso. A retidão de seu julgamento, uma grande piedade e não menos devotamento, aliados a uma firmeza viril, dela fizeram a educadora exemplar.
O trabalho era obrigação constante em sua casa. Margarida sujeitava seus filhos a todas as atividades da casa e dos campos. Desde a aurora, no verão, e ainda antes, no inverno, as crianças iniciavam o dia pela oração. “A vida é muito curta, dizia a mãe, para dela perdermos a melhor parte”. A fadiga não era considerada, as refeições permaneceram sempre de uma extrema frugalidade. À noite dormia-se no chão. Quando mais tarde João for para o seminário, levará o cobertor prescrito. Mas nas férias a mãe o fará guardar cuidadosamente, considerando essa doçura inútil e prejudicial.
Eu preciso fazer notar aos senhores o seguinte: que a família de D. Bosco era lá mais ou menos pela zona de Turim, do norte da Itália, e é uma zona muito fria. Em Florença, que não chega a ser precisamente o norte, eu sentia um frio de incomodar. E era assim que nessa zona fria morava essa família.
Essa mulher, essa senhora exemplar assim é que educava seus filhos. Nós daqui a pouco vamos tirar daí uma conseqüência.
Preparava, assim, seus filhos, para a vida, de acordo com o que sempre afirmava: “Somos soldados de Cristo sempre em armas, sempre em presença do inimigo, e é preciso vencer”.
Os senhores vêem aqui a descrição da mulher forte do Evangelho, que levanta cedo, que começa os seus trabalhos, que cumpre todos os seus deveres, e cujo preço é de tão alta valia, que é preciso ir até os confins do universo para encontrar algo que se compare a ela.
Os senhores vêem aqui uma coisa profundamente diferente da sociologia democrata-cristã. Segundo a sociologia democrata-cristã, quem padece fome, quem padece frio, não é capaz de levar vida espiritual. E o começo da vida espiritual consiste em dar comida, consiste em dar cama, consiste em dar boa coberta para o frio, e só depois desse estado é que se pode começar a falar então em vida espiritual. Por causa disso, o começo do apostolado é necessariamente uma ação de caráter material. Por causa disso, para converter o mundo moderno é preciso começar por acabar com o subdesenvolvimento. E por causa disso, em última análise, a luta contra o subdesenvolvimento acaba sendo uma finalidade específica da Igreja.
Os senhores vêem aqui exatamente o contrário. É uma casa tão pobre que as pessoas dormem no chão, não têm cama; é uma casa tão pobre que não têm cobertor as pessoas, num período, num clima onde às vezes o inverno é tremendo.
D. Bosco comprou um cobertor para ir para o seminário, porque no seminário o regulamento exigia. Mas quando ele estava em casa, a mãe não permitia que ele fizesse uso do seu cobertor, que ele levasse o cobertor para usar em casa.
Os senhores estão vendo a comida muito frugal, os senhores estão vendo muito trabalho. É propriamente uma vida pobre, mas uma vida pobre santificada pelo espírito de renúncia e de sacrifício, que inclusive deu origem a que se formasse um homem de um físico realmente forte e realmente resistente para toda espécie de trabalho, como foi D. Bosco.
Os senhores estão vendo até que ponto é um embuste da democracia-cristã a afirmação de que condições meio moles de vida são indispensáveis para o apostolado pegar. A austeridade é necessária.
Eu vou mais longe: isso deveria ser assim também nas famílias de alta graduação, de alta categoria. Na Europa isso se conservou até há algum tempo atrás. Os jovens sobretudo, não tanto as moças, mas os jovens da alta categoria eram educados numa vida rude.
Eu estou me lembrando de ter lido na história do Duque de Alençon, se não me engano, do Duque de Nemours, não me lembro bem, enfim, de um desses dois fidalgos, desses dois príncipes, que eles estavam exilados da França e moravam num castelo à beira do Tamisa. Os senhores sabem como era o acordar de manhã? Era um quarto com vários príncipes. Todo mundo levantava saltando pela janela dentro do Tamisa gelado.
Isso é vida, isso é austeridade, isso é que forma a pessoa e evita toda espécie de moleza. Se a nossa civilização tivesse conhecido a austeridade também para os ricos, muita e muita decadência não teria acontecido.
É, portanto, aqui, uma recomendação importante, e eu não poderia deixar de passar a ocasião, sem a lembrar.
* Para D. Bosco a ação intelectual valia mais do que a ação assistencial
Apesar de muito trabalho, o estabelecimento das duas congregações religiosas, a ereção de igrejas, a fundação de numerosos patronatos e a preparação de missões longínquas, D. Bosco consagrava boa parte de seus dias e de suas noites a escrever. Com a pena, tanto quanto com a palavra, ele sabia servir a Igreja, combater o erro e reconfortar as almas. Homem de seu tempo, observou a importância desse novo gigante moderno, a imprensa. Sua pena agiu durante quarenta e cinco anos, produzindo obras de acordo com as necessidades de sua época.
O Protestantismo lançava rudes assaltos à Igreja no norte da Itália. À propaganda protestante pela brochura, D. Bosco opôs as leituras católicas. Em 1883 respondeu ao “Amigo do Lar”, que os protestantes distribuíam a granel, com o primeiro almanaque da Europa.
Aí os senhores vêem o senso da atualidade. Não era um santo que vivia nas nuvens. Os santos não vivem nas nuvens. É essa hagiografia barata que nos mostra os santos assim.
Na realidade, D. Bosco era um homem que conhecia os problemas de seu tempo e combatia os inimigos de seu tempo. E combatia, os senhores estão vendo por aí: por exemplo, intensa propaganda protestante no norte da Itália, intensa ação dele também em sentido oposto.
Depois, os senhores vejam o seguinte: falam muito de obras católicas, é preciso fazer obras católicas, e fala-se pouco a respeito de escrever livros católicos. Por quê? Porque se dá mais importância ao econômico do que ao espiritual, e o livro vai para o espiritual, enquanto a obra vai para o econômico.
Não há homem que tenha compreendido melhor a necessidade de obras católicas do que D. Bosco. Entretanto, quando a gente vai examinar, ele foi mais escritor ainda do que homem de obras. Por quê? É a prova de que no pensamento desse imenso paladino da Igreja, a ação intelectual valia mais do que a ação assistencial.
* Exemplos de continuidade das Ordens Religiosas: dificuldades encontradas por D. Bosco em seu tempo e pelos salesianos no tempo do Getúlio
São João Bosco enfrentou incríveis dificuldades para levar a cabo seus intentos. O ano de 1876 foi um dos mais dolorosos para ele. Os ministros piemonteses, já em guerra contra o Papa, procuravam pegar em falta o santo fundador, a quem acusavam de manter uma correspondência secreta com Pio IX e os bispos. Multiplicavam as buscas em sua casa e queriam a qualquer preço encontrar sinais de uma conspiração.
Um dia D. Bosco, tendo perdido a paciência, procurou o Conde de Cavour, que era primeiro-ministro, que várias vezes lhe testemunhara simpatia, e declarou-lhe sua intenção de descarregar em suas mãos o cuidado de todos os órfãos de sua instituição. Essa solução inesperada fez o ministro, se não terminar as perseguições, pelo menos fazê-las mais encobertas.
Os senhores entenderam a coisa: começaram a amolar muito a ele, ele procurou o ministro e disse: “Olha, eu solto a meninada na rua. É o que você quer?”. O ministro recuou.
Os senhores vêem a admirável continuidade que existe nas ordens religiosas.
No tempo de Getúlio Vargas, há uns vinte anos atrás, ou mais até, em que se faziam leis a granel e que não passavam sequer pelo parlamento, a toda hora saía uma nova lei, e entrou de repente no Coração de Jesus, no colégio anexo a essa igreja onde tantos dos senhores funcionam, entrou um desses inspetores pedantes para ver as irregularidades. Entra e encontra numa enorme cozinha, a um canto, uma calça que o cozinheiro tinha lavado e que estava secando no canto da cozinha. Ele voltou-se para o cozinheiro e disse:
— Bem, eu agora vou autuar aqui uma infração. Eu vou autuar uma infração e, de acordo, com o regulamento, um colégio que não observa o artigo tanto, número tanto, parágrafo tanto, item tanto, do regulamento cento e mil e tanto da data de tanto, quem não observa isso, o colégio que não observa isso deve ser fechado. Eu vou, portanto, decretar o fechamento do Liceu Sagrado Coração de Jesus.
Por quê? Porque exatamente um dos artigos aí contidos impedia que se lavasse roupa em cozinha.
O padre disse a ele:
— Ah, o senhor quer fechar? Pois não. O senhor dê um documento por escrito, eu imediatamente solto todas as crianças na rua. O senhor depois vai explicar para a cidade de São Paulo por que essas crianças estão na imoralidade, morrendo debaixo de ônibus e automóvel, passando fome e passando vergonha, porque havia um par de calças que estava secando uma lavanderia. Fica a seu cargo. O senhor quer?
O homem que estava esperando uma boa propina para não fechar o colégio, ficou sem graça:
— Ah, padre … [inaudível].
É a continuidade das obras religiosas.
* A confissão e comunhão freqüentas era o segredo da disciplina dos alunos salesianos
O fato seguinte é relatado como um dos mais característicos dos resultados dos métodos do grande santo.
Um ministro da rainha da Inglaterra, visitando o Oratório de São Francisco de Sales, em Turim, foi introduzido numa grande sala onde estudavam quinhentos jovens. Ele não pôde deixar de se admirar dessa multidão de escolares observando um rigoroso silêncio, embora não houvesse ninguém vigiando-os. Sua admiração foi ainda maior quando soube que durante o ano inteiro não se havia a lamentar uma única palavra de dissipação, nem mesmo uma única ocasião de punir ou de ameaçar punição.
É tal qual um colégio católico de hoje em dia. Os senhores conhecem. Vários dos senhores foram alunos de colégios católicos. É tal qual.
— Como é possível obter um tal silêncio, uma disciplina assim perfeita? — indagou ele. E voltando-se para seu secretário, ordenou que anotasse a resposta dada.
Quer dizer, anotar a resposta de D. Bosco para adotar nos colégios ingleses.
— Senhor — respondeu o superior do estabelecimento —, os meios que usamos não podem ser empregados em vosso país.
— Por quê? — pergunta o ministro.
— Porque são segredos revelados somente aos católicos.
É ou não é esplêndido? É estritamente esplêndido.
— E quais são esses segredos?
— A confissão e a comunhão freqüentes.
Realmente, os protestantes não têm.
A missa todos os dias e bem assistida.
— Tendes razão — disse o ministro. Faltam-nos tais meios de educação. Mas não há outros?
— Se não nos servimos desses elementos que a religião nos fornece, é preciso recorrer à ameaça e ao castigo.
Calou-se o ministro inglês, embora garantindo que iria repetir o que aprendera.
* Preconceito dos ingleses contra o mundo latino: “a África começa no Canal da Mancha”
Os senhores precisam imaginar a cena, hein! É o auge da Inglaterra, da Grã-Bretanha, em que o ministro inglês não era um vira-lata como é tão freqüente hoje, mas era sempre um gentleman, pertencente à gentry inglesa, vestido com o apuro da época, em que a elegância ainda existia, não existiam essas roupas horrendas como há hoje, feitas de tergais e outras matérias abjetas desse gênero. Vestido com a elegância que ainda havia no tempo e a opinião pública exigia dos ministros da rainha que fossem verdadeiros modelos de imponência, de distinção e de elegância.
Agora, acontece que os ingleses mantêm um certo preconceito contra o mundo latino, e eles acham que o mundo latino vive na desordem, enquanto a Inglaterra vive na ordem e na limpeza perfeita.
Eu me lembro de ter visto na Inglaterra uma fotografia do Arco de Triunfo de Paris indicando uma certa irregularidade de trânsito e com o título seguinte: “A África começa no Canal da Mancha”. E embaixo dizia: “Está vendo aqui a Europa como é. Eles não têm os bons métodos verdadeiros, é uma desordem africana que impera no Arco de Triunfo de Paris”.
Os senhores estão vendo, portanto, o desdém com que ele iria à Itália.
Um padre jesuíta antigo amigo meu, um veneziano subtil e pitoresco, parecido com Santo Inácio de Loyola e que, por exemplo, reteve muito a atenção do professor, o Pe. Danieli, o Pe. Danieli contou-me que ele foi mocinho à Inglaterra, para fazer os estudos dele. Quando chegou na alfândega inglesa, pegaram os documentos: “O senhor é latino? Italiano? Do continente europeu? Não entra na Inglaterra sem tomar um banho antes”.
Havia instalações de banho especiais para essa espécie de segunda África, que era a Europa e que não se aproximava em nada da perfeita limpeza, puritana e protestante, do reino da Inglaterra.
Agora, os senhores imaginem esse ministro visitando a Itália daquele tempo. Era uma Itália que Mussolini ainda não tinha lavado, e que era uma Itália muito carente de limpeza. E a molecada de D. Bosco, que podia ser excelente gente, mas que ninguém garante que se lavassem demais.
Os senhores sabem, por exemplo, que o europeu que toma um banho por semana é bastante. De qualquer país. Para nós é um banho todo dia. Não se concebe de outro modo. Na Europa as coisas são assim e vão daí para fora.
Eu me lembro que estive numa ocasião num hotel da Europa — com Dr. Paulo aconteceu a mesma coisa — num banheiro em que havia um sofá, no banheiro, para a pessoa repousar depois que houvesse tomado banho. De tal maneira o banho é reputado uma espécie de violência, antinatural, que a pessoa tomasse fôlego, respirasse depois de ter passado por essa espécie de violência.
Os senhores imaginem esse ministro que entra com um ar enfatuado, com uma amabilidade apenas de superfície, com todos os preconceitos contra o clero católico, recebido, naturalmente, por um padre salesiano da era de D. Bosco. Os senhores entendem bem essas quatro palavras o que querem dizer: da era de D. Bosco. Um salesiano da era de D. Bosco, naturalmente digno, composto, nem um pouco intimidado, porque um homem de verdadeira vida interior não se intimida com valores materiais. Libra esterlina, limpeza, bonita gravata, isso não intimida um homem de verdadeira vida interior. Nem um pouco intimidado, e subtil como costuma ser um italiano. Chega o ministro com pouco caso, de repente o homem arma cilada e o ministro cai inteiro. Porque a alternativa está perfeita … [inaudível].
* Hoje tudo mudou: os salesianos, os ministros e a própria Rainha da Inglaterra
Como tudo isso mudou.
Não há mais os salesianos da era do D. Bosco, nas salas de aula dos salesianos os meninos já não agem assim. Pior, é que não há nem castigo. Porque quando o menino não presta, pelo menos o castigo ainda é uma saída. O verdadeiro é que o menino preste, mas se não presta, tem que castigar. Não há nem mais o castigo, com certeza há máxima desordem. Os ministros de Sua Majestade Britânica são, quase todos, uns vira-latas, e Sua Majestade é cada vez menos majestade e cada vez menos britânica. É o ocaso de toda uma ordem de coisas da qual ontem à noite falávamos. D. Bosco que reze por nós.
Os senhores sabem que ele teve uma visão a respeito da Bagarre. Os senhores sabem que, infelizmente, não sabe qual é essa data, mas ele tem uma linda profecia a respeito da Revolução, que é a profecia do cavalo vermelho, que talvez, se não desse muito trabalho, seria interessante a comissão trazer para amanhã. Sem precisar bater à maquina; trazer no próprio livro.
D. Bosco, que está tão ligado ao culto de Nossa Senhora Auxiliadora, que por sua vez é Nossa Senhora de Lepanto, que reze por nós, para o esmagamento da Revolução e para a pronta vitória da Contra-Revolução.
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