Santo do Dia (Rua Pará) – 25/1/1967 – 4ª feira [SD 231] – p. 6 de 6

Santo do Dia (Rua Pará) — 25/1/1967 — 4ª feira [SD 231]

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A Epístola tem algo da gravidade de um testamento, das últimas palavras de um mestre a um discípulo bem-amado * Primeira recomendação de São Paulo: apostolado, atitude de fidelidade e docilidade ao ensinamento tradicional da Igreja * Ensinar de novo e ensinar com varonilidade sobrenatural é uma coisa que é nosso dever e com o que damos glória a Deus * Atitude do verdadeiro católico em relação ao pecador: repreender, suplicar, admoestar * Do fundo dos séculos nós ouvimos a voz de São Paulo a Timóteo, e essa voz nos diz: “Filhos, vocês têm razão, contem com as minhas orações e com as bênção do Céu”

Isto dito, nós vamos passar a coisas muito mais altas, muito mais antigas e muito mais transcendentais.

Do fundo dos séculos nos vem hoje a voz de São Paulo. Hoje é festa do Apóstolo São Paulo e é o quadrigentésimo décimo terceiro aniversário desta cidade que se chamou exatamente São Paulo por ter sido fundada no dia 25 de Janeiro. É razoável, portanto, é justo, que no comentário do Santo do Dia nós ouçamos uma epístola de São Paulo.

* A Epístola tem algo da gravidade de um testamento, das últimas palavras de um mestre a um discípulo bem-amado

E o trecho que eu reservo, que eu separo, é o seguinte, é uma epístola a Timóteo:

Dou graças Àquele que me confortou, a Jesus Cristo, Nosso Senhor, porque me julgou fiel, pondo-me no ministério, a mim, que fui antes blasfemo e perseguidor e injuriador.

Ele dá graças a Deus por ele ter sido posto no ministério eclesiástico e elevado à excelsa categoria de Apóstolo, embora ele tenha sido antes um inimigo de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Mas alcancei a misericórdia de Deus, porque eu fiz por ignorância, sendo ainda incrédulo.

Quer dizer, muitas coisas ele não sabia, e o que ele não sabia, lhe servia de atenuante.

Mas a graça de Nosso Senhor superabundou com a fé e a caridade que há em Jesus Cristo. Palavra fiel e digna de toda aceitação, Jesus Cristo veio a este mundo salvar os pecadores, dos quais sou o primeiro.

Quer dizer, ele reconhecia que ele era pecador, que Jesus Cristo veio ao mundo salvar pecadores como ele, então ele recebeu aquela superabundância de graça que fez dele o Apóstolo das Gentes.

Mas por isto alcancei misericórdia, para que em mim, sendo o primeiro, mostrasse a Jesus Cristo toda a sua paciência, para exemplo dos que hão de crer nEle para alcançar a vida eterna.

Diz ele que sendo ele o Apóstolo das Gentes, sendo ele um caso tão insigne na Igreja de Jesus Cristo, era bom que se provasse nele a misericórdia de Deus. Ele tinha ofendido a Deus e por misericórdia tinha sido perdoado, e era bom, portanto, que esta misericórdia brilhasse nele.

Agora, então, ele se dirige — e é a parte mais sensível da epístola, para nós — a Timóteo e ele diz o seguinte:

Tu persevera no que aprendeste e que te foi confiado, sabendo de quem aprendeste. Conjuro-te, diante de Deus e de Jesus Cristo, que há de julgar os vivos e os mortos, pela sua vinda e pelo seu reino, prega a palavra, insiste a tempo e fora de tempo, repreende, suplica, admoesta com toda paciência e doutrina, porque tempo virá em que muitos já não suportarão a sã doutrina, mas, desejosos de ouvir coisas agradáveis, cercar-se-ão de mestres segundo seus desejos e apartarão os ouvidos da verdade e os aplicarão às fábulas. Tu, porém, vigia sobre todas as coisas, suporta os trabalhos, faze obra de um evangelista, cumpre o teu ministério, sê sóbrio, porque, quanto a mim, estou para ser oferecido em libação e o tempo de minha dissolução se avizinha.

Estou para ser oferecido em libação”, quer dizer, era a vítima que estava para ser oferecida como holocausto. “O tempo de minha dissolução se avizinha” quer dizer o tempo em que se há de dissolver o ente dele, separando-se a alma do corpo.

Então diz ele:

Combati o bom combate, acabei a minha carreira; guardei a fé. De resto, está-me reservada a coroa de justiça que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia, e não só a mim, mas também a todos aqueles que desejam a sua vinda.

Estas palavras, portanto, que nós vamos analisar daqui a pouco, estas palavras foram pronunciadas por São Paulo no momento precisamente em que aparecia, em que se divisava para ele a hora da morte. E esta epístola tem algo da gravidade de um testamento, das últimas palavras de um mestre a um discípulo bem amado, no momento em que este mestre percebe que vai deixar a terra.

* Primeira recomendação de São Paulo: apostolado, atitude de fidelidade e docilidade ao ensinamento tradicional da Igreja

Então, quais são os conselhos que dá a este discípulo?

Em primeiro lugar, ele alude a uma época. Diz ele:

porque tempo virá em que muitos já não suportarão a sã doutrina, mas, desejosos de ouvir coisas agradáveis, cercar-se-ão de mestres segundo seus desejos…

Isto exatamente acontece em nossa época, mais do que todas as épocas anteriores. As pessoas não querem ouvir os mestres ortodoxos que dizem o que Jesus Cristo ensinou, mas querem ouvir mestres segundo os seus desejos. Quer dizer: “Eu quereria que a moral católica fosse relaxada para ouvir, para levar uma vida relaxada. Então eu não vou dar ouvidos aos católicos que ensinam a moral católica como ela é, mas eu vou dar ouvidos ao mau católico, ao sacerdote traficante, que ensina a doutrina católica como ela não é, mas como eu gostaria que ela fosse. E eu vou aceitar esta nova heresia porque ela é agradável a mim”.

Estes são os mestres falsos, de acordo com os desejos dos homens. E exatamente em nossa época se dá isto. Muitíssimos não querem mais os mestres verdadeiros, muitíssimos querem mestres falsos segundo os seus desejos.

e apartarão os ouvidos da verdade…

Quando a gente procura ensinar a verdade, mostrar qual é a doutrina católica verdadeira, eles desviam os ouvidos.

e os aplicarão às fábulas.

Quer dizer, a fábula é mentira, é imaginação, é o embuste. Eles não ouvirão a verdade, mas vão ouvir as fábulas, vão ouvir, então, todo este mundo de erro, que infelizmente circula dentro da Igreja e que as almas aceitam porque são erros que estão de acordo com seus instintos depravados, erros que facilitam a circulação de seus vícios, e nos quais, portanto, eles acreditam.

Timóteo estava posto, portanto, por São Paulo em face de proximidade de heresias que iam se dar dentro da Igreja daquele tempo.

De fato, no tempo das catacumbas houve heresias. Mas sobretudo São Paulo previa os nossos tempos e os tempos do Anticristo, e os conselhos dele não são apenas para Timóteo, mas para todos que ao longo dos séculos se encontrassem em condições análogas às de Timóteo, que ia lutar contra os fautores do erro, quer dizer, até o fim do mundo aqueles que vão lutar contra o Anticristo. São, portanto, conselhos diretamente para nós, que lutamos contra o precursor do Anticristo.

E quais são estes conselhos?

Tu persevera no que aprendeste e que te foi confiado, sabendo de quem aprendeste.

Quer dizer, antes de tudo, a primeira recomendação: persevera na fé, persevera na fé antiga, persevera na fé tradicional que tu aprendeste, porque sabem quem é que ensinou. Era uma pessoa digna de crédito, era uma pessoa digna de confiança, que transmitia verdadeiramente a verdadeira fé.

Então, primeira recomendação: apostolado, atitude de fidelidade, atitude de docilidade ao ensinamento tradicional da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Os sacerdotes das gerações antigas, verdadeiros depositários da verdadeira fé, deram um ensinamento que chegou até nós.

Nós podemos saber qual é a tradição. E com a tradição, podemos saber qual é a verdade. Porque o que a Igreja ensinou ontem não pode ter ficado erro hoje, tem que ser verdade sempre. E se há uma contradição, está no novo, não pode estar no antigo o erro.

Então, nós devemos ser homens que perseveram, quer dizer, que continuam, tradicionalistas, que estão na mesma fé de antigamente e que nela ficam fiéis. Esta é a primeira recomendação.

* Ensinar de novo e ensinar com varonilidade sobrenatural é uma coisa que é nosso dever e com o que damos glória a Deus

Depois ele continua:

Conjuro-te, diante de Deus e de Jesus Cristo, que há de julgar os vivos e os mortos, pela sua vinda e pelo seu reino,…

Quer dizer, eu te peço diante de Cristo e lembra-te que este Cristo, em presença do Qual eu te faço este pedido, virá à terra julgar os vivos e os mortos, e vai te julgar, portanto, a ti, a quem eu faço este pedido, e vai te julgar em função do atendimento que deres a este pedido. Eu te peço em presença de Jesus Cristo, eu te peço pelo amor à vinda d’Ele, pelo amor ao reino d’Ele eu te peço.

Peço o quê? Agora vem o nosso dever:

prega a palavra,…

Nós não somos sacerdotes, não temos propriamente o direito de pregar a palavra, mas nós temos o direito, como leigos, de transmitir a palavra pregada pelos sacerdotes genuínos, que dão a doutrina verdadeira e que são sacerdotes fiéis ao passado.

Então, logo depois da fidelidade à doutrina católica vem o enunciado da doutrina católica, vem o enunciado da doutrina católica para outros, da doutrina tradicional, a afirmação de qual é a verdadeira doutrina católica.

prega a palavra, insiste a tempo e fora de tempo,…

Que quer dizer este “a tempo e fora de tempo”?

Insiste caso os outros gostem, mas caso os outros achem que você é importuno, insista também. A expressão latina é mais rigorosa do que está aqui: é oportune et importune — insista oportuna e importunamente.

Quer dizer, fale com os outros, ainda que eles não gostem. Seja homem, seja católico, seja guerreiro da palavra. Se não gostam, afirme de novo. Combata, faça-lhes entrar a palavra pelos ouvidos adentro. Seja soldado de Jesus Cristo.

Isto é o que São Paulo pede a Timóteo, e isto é que nós devemos fazer. Não ter medo de ensinar a verdade, não recuar, não nos aborrecermos com o fato dos outros não nos darem atenção, ou até de nos responderem mal. Ensinar de novo e ensinar com varonilidade sobrenatural. É uma coisa que é nosso dever e com o que nós damos glória a Deus.

* Atitude do verdadeiro católico em relação ao pecador: repreender, suplicar, admoestar

Depois ele continua:

repreende,…

Repreender é censurar, é chegar para as pessoas e dizer: “Tu fizeste mal”.

Há uma certa escola de apostolado que acha que o apóstolo nunca deve censurar os outros, que deve ser sempre gentil, sempre amável: “Fulano, ah, você abandonou sua mulher? Sei. Tomou uma outra. Ora, pobre coitado, quanto drama sentimental!”.

Isto é uma traição, isto é uma indecência. Eu compreendo que o outro goste de ouvir isto, mas nós não podemos dizer isto. Nós temos que dizer o que disse São João Batista a Herodes, o que disse o Profeta Natan a David: “Tu pecaste, tu andaste mal, cometeste uma ação censurável e eu te digo que é censurável, porque Deus censura, porque é contra a lei de Deus. E ouça e ouça porque eu estou falando”. Esta é a atitude do verdadeiro católico.

Depois, continua:

repreende, suplica, admoesta com toda paciência e doutrina,…

Não basta repreender; às vezes é suplicar.

A gente repreende o pecador que procura dizer que seu pecado está bem, que procura cinicamente pavonear-se com o pecado que cometeu. Mas quando é um pecador que reconhece que anda mal, quando é um pecador que sabe que o seu vício é mau e o esconde, nós então podemos agir com benignidade. E aí é o momento de nós suplicarmos, de nós sermos humildes, de sermos afáveis, de sermos generosos, de pedir para eles que pratiquem a virtude como o último dos mendigos pede a mais preciosa das esmolas. Quer dizer, aí é o momento do carinho, que faz tanto bem para as almas fracas.

Suplica, admoesta com toda paciência e doutrina”, quer dizer: advirta, mostra que está errado com toda paciência, para estes que estão fracos, estes que se envergonham, estes que reconhecem que andam mal. Então, para estes, com toda paciência, admoesta.

Quer dizer, nunca começar com uma coisa assim: “Fulano, até quando você deixará de ouvir o que eu te disse? Afinal de contas, eu perco a paciência com você”. Isto é megalice última, não é verdade?

É o contrário. Nunca perder a paciência, nunca ter uma palavra dura, nunca manifestar-se cansado de tanto repetir as coisas. Tomar um ar, na hora de dar conselho, de que a gente está achando uma delícia dar aquele conselho, nunca deixar transparecer que a gente pode estar cansado, que a gente pode estar caceteado nem nada. Mas isto não basta: além de admoestar com toda paciência, é preciso admoestar com toda doutrina, quer dizer, é preciso dizer coisas razoáveis, é preciso dar conselhos bons, é preciso saber empregar os argumentos bons em favor da verdade, de maneira a tocar o entendimento e mover a vontade da pessoa a quem a gente se dirige.

* Do fundo dos séculos nós ouvimos a voz de São Paulo a Timóteo, e essa voz nos diz: “Filhos, vocês têm razão, contem com as minhas orações e com as bênção do Céu”

E isto, então, é exatamente o modo do apostolado nosso que, mais do que Timóteo, fomos colocados em situação tão triste. E com isto os senhores têm um verdadeiro programa de apostolado. Os senhores têm a justificação dos métodos de apostolado empregados em “Catolicismo”, em “Cruzada”, em “Fiducia”, com o estilo do jornal, o modo de falar do jornal, que é tão diferente do de tantas folículas católicas e não católicas que circulam por aí. Nossos jornais são jornais combativos, nossos jornais são jornais que insistem oportuna e importunamente.

Eu me lembro que uma vez, há muitos anos, eu fui comungar na Igreja Coração de Maria e encontrei um padre que me disse:

Dr. Plinio, como é que vai seu jornal?

Eu disse:

Padre, o senhor é que sabe.

Eu não gosto do seu jornal.

Notem que ele disse isto quadradamente, sem medo de me ofender. Mas o liberal é assim: “Eu não gosto do seu jornal”. Se eu não tivesse procurado ter paciência e doutrina, eu diria: “Ele não perde nada com isto”. Mas não era o caso de dizer.

Eu disse:

Mas por que, padre?

O verdadeiro jornal católico é qual pombinha, que com o ramo de oliveira no bico, percorre os lares criando luz e paz.

É do que muita gente nos censura, é de não sermos assim.

Aí eu perguntei se ele não queria dar a comunhão, porque eu vi que não adiantava conversa nenhuma com este homem. Um homem que não tem ramo de oliveira para mim, tem uma paulada: “Eu não gosto do seu jornal”. Mas o ramo de oliveira é para todo o mundo que não presta, não há conversa possível com ele. O melhor é pedir para ele me dar a comunhão, conversar com Deus em vez de conversar com os homens, e sobretudo com tais homens. É sempre um alto negócio, não é verdade?

Bem, nós não somos assim, mas temos fundamento em São Paulo para não sermos assim. Do fundo dos séculos nós ouvimos a voz de São Paulo a Timóteo e esta voz nos diz, em outros termos: “Filhos, vocês têm razão, contem com as minhas orações e com a proteção do Céu”.

Assim, São Paulo que nos abençoe e que nos ouça no pedido de nós termos a plenitude do magnífico espírito dele.

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